Jorge Valdés Díaz-Vélez – Naquele agora

As chances de encontrar-te novamente
eram remotas. Uma em um bilhão. E havendo
infinitos lugares dispersos pelos números
de um cálculo improvável, quem imaginaria
que eu te veria naquela cantina, transformando-te
na luz daqueles tempos felizes, ou isso quiseram
crer, anos atrás, aqueles dois que fomos.

Estavas ali, de repente e sem aviso
prévio, com um tímido sorriso, apoiando-se
no ombro de um cara de aspecto desprezível
que poderia ter sido eu. Não reconheceste
meu rosto entre as pessoas do bar. Embora talvez,
suponho, pretendias saber onde e quando
viste minhas feições, em que lugar mais recente
fizeste uma parada, sob que estranhas circunstâncias
encontraste com alguém que se me parecia
de longe. Mas não recordaste, se é que
tentaste, a quem prometeste um sonho
que não irias realizar, quando nos despedimos
atrás de uma janela. De volta a este agora,
teu rosto era o mesmo onde vi o resplendor
do anjo e o toque de um crepúsculo cinza
e hermético. Tinhas o rosto corado
e os cabelos mais negros que minhas mãos
já tocaram no vale lunar de tua cintura.

A bem-aventurança foi nossa companheira
de viagem às estrelas tão próximas à fome
de nossos corações e suas dores difusas.
Era a idade do bronze polido de teus seios.
As noites eram lentas palavras inaudíveis
do mundo que brotavam sem encaixes. Bebíamos
a vida entre os versos de uma poetisa árabe
e bailava nua a luz no terraço.

Tu então te acendias e o vento ia contigo
por algum beco a sórdidas tabernas,
levantando tua saia minúscula, mostrando-me
as rotas que de repente me alçavam ao mistério.
Sem dúvida, eras feliz de uma maneira ingovernável.
Também o fui. Fomos. Eu te disse, lembro-me
como se fosse ontem, que um deus faria seus
os traços de teu nome e do vinho teu sabor
de amêndoa e paraíso. Ainda és a mesma, inclusive
até te achei mais bonita, talvez menos
alegre que a imagem que de ti conservei
todo este tempo em vão. Por detrás do teu olhar
não encontrei o resplendor daquela garota insone,
mas uma palidez cinza de brasas
que ainda parecem guardar a vertigem do fogo.

Não posso assegura-lo. E tampouco importa.

Trad.: Nelson Santander

Aquel Ahora

Las posibilidades de volverte a encontrar
eran remotas. Una entre un billón. Y habiendo
infinitos lugares dispersos por los números
de un cálculo improbable, quién imaginaría
que te iba a ver en esa cantina, transformándote
en luz de aquel entonces feliz, o eso quisieron
creer años atrás aquellos dos que fuimos.

Estabas allí, tú de pronto y sin aviso
previo, con una tímida sonrisa, recargada
en el hombro de un tipo de aspecto deleznable
que podría haber sido yo. No reconociste
mi rostro entre la gente del bar. Aunque tal vez,
supongo, pretendías saber adónde y cuándo
miraste mis facciones, en qué sitio más joven
hiciste un alto, bajo qué extrañas circunstancias
coincidiste con alguien que se me parecía
de lejos. Pero no recordaste, si acaso
lo intentabas, a quien le prometiste un sueño
que no ibas a cumplir, cuando nos despedimos
tras una ventanilla. De vuelta en este ahora,
tu cara era la misma donde vi el resplandor
del ángelus y el tacto de un crepúsculo gris
y hermético. Llevabas rubor en las mejillas
y el cabello más negro que alguna vez tocaron
mis manos por el valle lunar de tu cintura.

La bienaventuranza fue nuestra compañera
de viaje a las estrellas tan próximas al hambre
de nuestros corazones y su dolor difuso.
Era la edad del bronce pulido de tus pechos.
Las noches fueron lentas palabras inaudibles
del mundo que brotaba sin encajes. Bebíamos
la vida entre los versos de una poeta árabe
y bailaba desnuda la luz en la terraza.

Tú entonces te encendías y el viento iba contigo
por algún callejón a sórdidas tabernas,
levantando tu falda minúscula, mostrándome
las rutas que de súbito me alzaban al misterio.
Sin duda eras feliz de forma ingobernable.
También lo fui. Lo fuimos. Te dije, lo recuerdo
como si fuera ayer, que un dios haría suyos
los rasgos de tu nombre y el vino tu sabor
de almendra y paraíso. Sigues igual, incluso
me has parecido más hermosa, quizá menos
alegre que la imagen que de ti conservé
todo este tiempo en vano. Detrás de tu mirada
no encontré el resplandor de aquella chica insomne,
sino una palidez ceniza de rescoldos
que aún parecen guardar el vértigo del fuego.

No puedo asegurarlo. Y ya tan poco importa.

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