Cassiano Ricardo – As Andorinhas de Antonio Nobre

—Nos
—fios
—ten
sos

—da
—pauta
—de me-
tal

—as
— an/
do/
ri/
nhas
—gri-
tam

—por
—fal/
ta/
—de u-
ma
—cl’a-
ve
—de
—sol

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 26/03/2016

Ellen Bryant Voigt – Prática

Chorar sem querer, acordar
à noite só para chorar, esperar
que o ponteiro do relógio
trema outra vez, empurrando
o dia dormente adiante —

será isso apenas prática?
Alguns creem no céu,
outros no descanso. Nós flutuaremos,
você disse. Depois
flutuaremos entre dois mundos —

cinco besouros de bronze
encaixados como colheres em uma
peônia, inebriados de desejo:
se eu voltasse como pássaro,
lembraria disso —

até que todos que amamos
estejam a salvo — foi o que você disse.

Trad.: Nelson Santander

Practice

To weep unbidden, to wake
at night in order to weep, to wait
for the whisker on the face of the clock
to twitch again, moving
the dumb day forward—

is this merely practice?
Some believe in heaven,
some in rest. We’ll float,
you said. Afterward
we’ll float between two worlds—

five bronze beetles
stacked like spoons in one
peony blossom, drugged by lust:
if I came back as a bird
I’d remember that—

until everyone we love
is safe is what you said.

Cassiano Ricardo – Dedicatória

I

Ao claro tempo, ao tempo
das metamorfoses,
não havia horizonte
na alegria do ser
e do acontecer.

Havia a graça aérea
com que as coisas brincavam
de ser e de não ser,
no jardim da matéria.

Hoje uma coisa passa
a ser outra coisa;
nascem anjos sem asa
dentro do dicionário;
um monstro, um dragão
em lugar de um canário.
Não pela alegria
da metamorfose.
Mas por deformação
de cada ser, ou flor,
em sua geometria.

II

Não te levarei,
ó azul, ó gentil aeromoça,
ao laranjal florido,
ao palácio do rei.

Não irás ver comigo
as Metamorfoses
de Ovídio e de outrora,
mas a vida que é o rosto
das mil e uma feições;
mas as deformações,
divindades de agora.

Não irás ver Júpiter
mudado em cisne, em t’ouro.
Nem Aretusa em fonte;
nem a deusa que um dia
passou a ser a ave
de uma constelação.

Irás ver comigo,
num espelho torto,
entre o número e a rosa
da vida numerosa,
o mundo onde ora estão
as tristes outras coisas
que hoje as coisas são.

(Que é a esperança? uma espera
no outro lado da esfera?
Ou um dado de fogo
numa mesa de jogo?)

III
E até que chegue o dia
das novas hamadríadas
cantarei os lunáticos
ao invés dos lusídadas.

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 26/03/2016

Gösta Ågren – Alguns Poemas

O Segredo da Morte1

É um equívoco que se estabeleça
que só depois da vida a morte começa.
Quando a vida cessa
também a morte cessa.

Não há jornada

A vida não é uma linha reta
entre esses poços cegos –
nascimento e morte; é
um momento à beira deles
antes que a eternidade se
reúna novamente.

Mas

Envelhecer não é
deixar algo para trás, mas
girar sob o pilar de nuvem
do presente e contemplar
a própria vida, um livro
ainda não lido. Tudo
o que ele contém
ainda está por vir!


De uma Conversa Definitiva

Meu amigo, é tão inútil
ter medo. Quando a morte chega,
ela é suave como a solitude2.
Uma tempestade de pássaros do norte
se move entre passado e futuro
rumo ao vento do sul, um anjo
caloroso e invisível que os acolhe
sem exigência ou vanglória.

Ainda Estou Aqui

Ela vinha, através do domingo
imóvel da velhice.
Lenço na cabeça, vestido longo,
ela vinha, uma grande ave
vestida. Ela se perguntava,
sob a luz do sol em frente ao galpão,
como deveria arranjar as coisas
para poder morrer. Eu devo
escrever sobre isso. Pois acontece
em toda parte, e não há
perguntas a responder. Mas perguntar
já é compreender. Apenas
as questões jamais formuladas
exigem respostas. Lembro-me
que suas mãos já não eram
parte dela. Ociosas,
jaziam em seu colo. Ela via
com os olhos apenas escuridão
e luz. Silêncio. Pensei:
o silêncio se arrasta
por seu corpo. Logo
alcançará o coração. Logo
estarei sozinho
aqui.

Lembrar

Lembrar é
deixar o futuro
intervir nos eventos.
Tudo está definido. Até
o caos ganha um nome. Ninguém
oferece resistência. O destino
devasta em vão.

Mãe, em um Dia de Outono

Uma tempestade ruge, confinada
em suas estreitas horas. Vermelho-sangue,
a palma da mão repousa sobre a floresta
de lanças. Sua morte foi
grande demais. O que aconteceu
apenas aconteceu. Era manhã
ou entardecer. Os pássaros tateavam
na superfície do céu. O verdadeiramente
grande não acontece; ele é.
Perto de minha mão que escreve,
estou sentado agora, paralisado
de saudade, mas sem tristeza.
Ela morreu, apenas morreu.
E a tempestade amaina;
está livre novamente.

Cinco Quilômetros

Tenho nove anos, e corro eternamente
para casa através da floresta. Suas
altas e escuras criaturas me
esperam. Faz trinta graus
abaixo de zero. Lá no alto,
as estrelas começam
a arder. Meu corpo se torna rígido
lentamente. Ele me envolve
como algo alheio. Um sapato
se rompe. Caminho no fogo
do frio; rezo pelo que
há de vir, mas todo tremor
congela em ferro quando aquele
imenso peito se abre
para o nada. Chego em casa
por fim, mas já é
tarde demais.

Ao Entardecer

Serei esquecido,
ele pensa. O esquecimento é
uma mãe abissal. Ninguém
o alcançará ali; ninguém
o esquecerá mais.

Trad.: Nelson Santander, a partir de versão em inglês vertida do sueco finlandês por David McDuff

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  1. Gösta Ågren (1936-2020) foi um dos mais importantes poetas da Finlândia, escrevendo em sueco, idioma da minoria finlandesa-sueca. Nascido em Österbotten, na costa oeste finlandesa, atuou como escritor, crítico literário e editor. Sua poesia se caracteriza por uma profunda reflexão filosófica expressa em linguagem clara e concisa. Temas como tempo, morte, memória e existência são abordados através de imagens da natureza e da vida rural, criando textos de aparente simplicidade que revelam grande profundidade. Premiado com o prestigioso Prêmio Finlandia (1988) e o Prêmio Nórdico da Academia Sueca (2013), considerado um “pequeno Nobel”, Ågren produziu uma obra que dialoga com tradições existencialistas e a filosofia oriental, particularmente o budismo zen, embora sempre enraizada na experiência nórdica. Sua poesia econômica nas palavras, mas generosa nas ideias, explora paradoxos da condição humana: presença e ausência, permanência e impermanência, memória e esquecimento. Os poemas frequentemente partem de observações concretas do cotidiano para expandir-se em reflexões universais sobre o sentido da existência. ↩︎
  2. Optei por manter o termo “solitude” em vez de “solidão” para preservar a nuance do poema. No original sueco, Ågren usa a palavra “ensamhet” – um termo que pode designar tanto estados positivos quanto negativos de estar só. O tradutor para o inglês escolheu “solitude” (e não “loneliness”), interpretando que o poeta se referia a um estado sereno de isolamento. Esta distinção é crucial no contexto do poema, onde a morte é comparada a um estado de recolhimento tranquilo. Em português, “solitude” – embora menos comum – carrega essa mesma conotação de isolamento voluntário e contemplativo, diferentemente de “solidão”, que geralmente sugere desolação ou abandono. ↩︎
Death’s Secret

It is not true
that death begins after life.
When life stops
death also stops.

There is no Journey

Life is not a straight line
between those blind wells
birth and death; it is
a moment by their verge
before eternity grows
together again.


But to

To grow old is not
to leave anything, but to
turn round under the present's
pillar of cloud and look out
across one's life, a book
still unread. All
that it contains
is yet to come!


From a Final Conversation

My friend, it is so pointless
to be afraid. When death comes,
it is mild as solitude.
A storm of birds from the north
moves between past and future
into the south wind, a warm,
invisible angel who receives them
without demand or victory.

Standing Here

Here she came, through the motion­
less Sunday of old age.
In headscarf and long dress
she came, a tall bird
of clothes. She wondered in
the sunshine outside the woodshed
how she should arrange things
so she could die. I must
write about this. For it happens
everywhere, and there are no
questions to answer. But to
ask is already insight. Only
those questions that are never asked
require answers. I remember
that her hands were no longer
part of her. Idle
they lay in her lap. She saw
with her eyes only darkness
and light. It was silent. I
thought: the silence is creeping
through her body. Soon
it will reach the heart. Soon
I will be alone
here.

To Remember

To remember is
to let the future
intervene in events.
Everything is settled. Even
chaos gets a name. No one
offers any resistance. Fate
wreaks havoc in vain.

Mother, One Autumn Day

A storm rages, locked up
in its narrow hours. Blood­red
the palm of the hand rests above the forest
of spears. Her death was
too great. What happened
only happened. It was morning
or evening. The birds fumbled
on the surface of the sky. The very
great does not happen; it is.
Near my writing hand
I sit now, motionless
with yearning, but without sorrow.
She died, only died.
And the storm abates;
it is free again.

Five Kilometres

Nine years old I run forever
home through the forest. Its
tall, dark creatures are waiting
for me. It is thirty
below zero. In the face
up there stars are beginning
to flame. My body grows slowly
severe. It surrounds me
like something else. A shoe
bursts. I walk in the fire
of the cold; I pray to what
will happen, but all shivering
freezes to iron when that
immense breast opens
on nothingness. I came home
at last, but it was
too late.

At Dusk

I will be forgotten,
he thinks. Oblivion is
a deep mother. No one
will touch you there; no one
will forget you any more.

Cassiano Ricardo – O hipopótamo

Não adianta o rio lhe ofertar um espelho,
se ele não sabe de quem é a imagem
que o espelho reflete. Se ele pensa que a sua
imagem n’água é a de um outro hipopótamo.

A paisagem por volta tem algo de bíblico
pois é a água da criação, ainda viva,
como no primeiro dia. As árvores folhudas
guardam segredos a ninguém, jamais, contados.

São árvores virgens fotograficamente.
Milhões de borboletas voam em redor
da estrela diurna, as flores são douradas bocas
de uma lúbrica, gigantesca primavera.

Um céu vestido de azul-rei (mal brilha a alva),
completa a inenarrável beleza das coisas.
E eis que, foto-potamo-gráfico, o hipopótamo
emerge dágua e vem, rombudo, estragar tudo.

Tudo parecia em ordem, o céu pernalta,
as aves egípcias, os troncos que simulam
primitivas colunas de algum templo, a lisa
epiderme do rio enrolado na cauda.

Sim, o rio e as demais serpentes que aí moram
dormiam tranquilos, quando a enorme figura
do hipopótamo perturbou tudo e agitou
as cores, e inda fez as borboletas voarem,

elétricas, e as garças gritarem no abismo.
Porém ele, na glória de sua inconsciência,
nem sabe que desfez a alegria das coisas.
Pensa que tudo é festa e a natureza o aplaude.

Até que volta a calma e se refaz o espelho
maravilhoso. Mas, que adianta o espelho
se o que ele quer é a lama? se ele pensa que a sua
imagem n’água é de um outro hipopótamo?

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 26/03/2016

Wendy Cope – Nomes

Ela foi Eliza por algumas semanas
Quando ainda bebê —
Eliza Lily. Logo virou Lil.

Mais tarde foi Srta. Steward na padaria,
E depois ‘meu amor’, ‘minha querida’, Mãe.

Viúva aos trinta, voltou ao trabalho
Como dona Hand. Sua filha cresceu,
Casou-se e teve filhos.

Agora ela era a Vovó. ‘Todo mundo
Me chama de Vovó’, ela dizia aos visitantes.
E assim o faziam — amigos, comerciantes, o médico.

Na ala geriátrica,
Usavam os nomes de batismo dos pacientes.
‘Lil,’ dizíamos, ‘ou Vovó’,
Mas isso não estava no prontuário
E, naquelas últimas semanas confusas,
Ela foi Eliza outra vez.

Trad.: Nelson Santander

Names

She was Eliza for a few weeks
When she was a baby —
Eliza Lily. Soon it changed to Lil.

Later she was Miss Steward in the baker’s shop
And then ‘my love’, ‘my darling’, Mother.

Widowed at thirty, she went back to work
As Mrs Hand. Her daughter grew up,
Married and gave birth.

Now she was Nanna. ‘Everybody
Calls me nanna,’ she would say to visitors.
And so they did — friends, tradesmen, the doctor.

In the geriatric ward
They used the patients’ Christian names.
‘Lil,’ we said, ‘or Nanna,’
But it wasn’t in her file
And for those last bewildered weeks
She was Eliza once again.

Robert Frost – A estrada não trilhada

Num bosque, em pleno outono, a estrada bifurcou-se,
mas, sendo um só, só um caminho eu tomaria.
Assim, por longo tempo eu ali me detive,
e um deles observei até um longe declive
no qual, dobrando, desaparecia…

Porém tomei o outro, igualmente viável,
e tendo mesmo um atrativo especial,
pois mais ramos possuía e talvez mais capim,
embora, quanto a isso, o caminhar, no fim,
os tivesse marcado por igual.

E ambos, nessa manhã, jaziam recobertos
de folhas que nenhum pisar enegrecera.
O primeiro deixei, oh, para um outro dia!
E, intuindo que um caminho outro caminho gera,
duvidei se algum dia eu voltaria.

Isto eu hei de contar mais tarde, num suspiro,
nalgum tempo ou lugar desta jornada extensa:
a estrada divergiu naquele bosque – e eu
segui pela que mais ínvia me pareceu,
e foi o que fez toda a diferença.

Trad.: Renato Suttana

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 23/03/2016

The Road Not Taken

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I—
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

Robert Wrigley – Ser um lago

Ele nunca sonhou em ser um lago
nas altas montanhas, e agora se indaga por quê.
Certamente, não poderia haver devaneio
mais sublime: ser límpido e frio,
e percorrido por trutas. Permitir que a luz do sol
chegue às suas profundezas, ter profundezas
jamais visitadas. Ser recoberto por gelo
e camadas espessas de neve no inverno, luzir em azul puro
no puro azul do céu, revelar às estrelas
as estrelas, ser sorvido por animais selvagens.
E acolher um humano ocasional,
que, pela lembrança de ali ter estado,
poderia sonhar em voltar. Estar lá.
Não um visitante, mas um sonhador que sonha
que este lago é aquilo que ele sempre quis ser.

Trad.: Nelson Santander

Being a Lake

He has never dreamed of being a lake
in the high mountains, and now he wonders why.
Surely there could be no better, in the way
of dreamy aspirations: to be clear and cold
and swum through by trout. To allow the sunlight
far into your depths, to have depths no one
will ever visit. To be ceilinged by ice
and many feet of snow in winter, to shine pure blue
into the pure blue of the sky, to show the stars
the stars, to be drunk by wild animals.
And to admit an occasional human,
who, because of the memory of having been there,
might dream of being there. Being there.
Not a visitor but a dreamer, dreaming
this very lake is what he’s always wanted to be.

Carlos Drummond de Andrade – Declaração em Juízo

Peço desculpas de ser
o sobrevivente.
Não por longo tempo, é claro.
Tranqüilizem-se.
Mas devo confessar, reconhecer
que sou sobrevivente.
Se é triste/cômico
ficar sentado na platéia
quando o espetáculo acabou
e fecha-se o teatro,
mais triste/grotesco é permanecer no palco,
ator único, sem papel,
quando o público já virou as costas
e somente baratas
circulam no farelo.

Reparem: não tenho culpa.
Não fiz nada para ser
sobrevivente.
Não roguei aos altos poderes
que me conservassem tanto tempo.
Não matei nenhum dos companheiros.
Se não saí violentamente,
se me deixei ficar ficar ficar,
foi sem segunda intenção.

Largaram-me aqui, eis tudo,
e lá se foram todos, um a um,
sem prevenir, sem me acenar,
sem dizer adeus, todos se foram.
(Houve os que requintaram no silêncio).
Não me queixo. Nem os censuro.
Decerto não houve propósito
de me deixar entregue a mim mesmo,
perplexo,
desentranhado.
Não cuidaram que um sobraria.
Foi isso. Tornei, tornaram-me
sobre – vivente.

Se se admiram de eu estar vivo,
esclareço: estou sobrevivo.
Viver, propriamente, não vivi
senão em projeto. Adiamento.
Calendário do ano próximo.
Jamais percebi estar vivendo
quando em volta viviam quantos! quanto.
Alguma vez os invejei. Outras, sentia
pena de tanta vida que se exauria no viver
enquanto o não viver, o sobreviver
duravam, perdurando.
E me punha a um canto, à espera,
contraditória e simplesmente,
de chegar a hora de também
viver.

Não chegou. Digo que não. Tudo foram ensaios,
testes, ilustrações. A verdadeira vida
sorria longe, indecifrável.
Desisti. Recolhi-me
cada vez mais, concha, à concha. Agora
sou sobrevivente.

Sobrevivente incomoda
mais que fantasma. Sei, a mim mesmo
incomodo-me. O reflexo é uma prova feroz.
Por mais que me esconda, projeto-me,
devolvo-me, provoco-me.
Não adianta ameaçar-me. Volto sempre,
todas as manhãs me volto, viravolto,
com exatidão de carteiro que distribui más notícias.
O dia todo é dia
de verificar o meu fenômeno.
Estou onde não estão
minhas raízes, meu caminho
onde sobrei,
insistente, reiterado, aflitivo
sobrevivente
da vida que ainda
não vivi, juro por Deus e o Diabo, não vivi.

Tudo confessado, que pena
me será aplicada, ou perdão?
Desconfio nada pode ser feito
a meu favor ou contra.
Nem há técnica
de fazer, desfazer
o infeito infazível.
Se sou sobrevivente, sou sobrevivente.
Cumpre reconhecer-me esta qualidade
que finalmente o é. Sou o único, entendem?
de um grupo muito antigo
de que não há memória nas calçadas
e nos vídeos.
Único a permanecer, a dormir,
a jantar, a urinar,
a tropeçar, até mesmo a sorrir
em rápidas ocasiões, mas garanto que sorrio,
como neste momento estou sorrindo
de ser – delícia? – sobrevivente.

É esperar apenas, está bem?
que passe o tempo de sobrevivência
e tudo se resolve sem escândalo
ante a justiça indiferente.
Acabo de notar, e sem surpresa:
não me ouvem no sentido de entender,
nem importa que um sobrevivente
venha contar seu caso, defender-se
ou acusar-se, é tudo a mesma
nenhuma coisa, e branca.

In “As Impurezas do Branco”, publicado pela primeira vez em 1973, quando o poeta estava com 71 anos de idade. Drummond sobreviveu ainda até 17/08/1987.

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 22/03/2016

Shari Wagner – A mulher do fazendeiro muda de canal

O Jesus da minha infância
prefere estar ao ar livre.
Se não está pescando, está colhendo figos
ou nos mostrando sua plantação de mostarda.

Ele gosta das estradas poeirentas, do pardal banal,
e dos lírios do campo.
Quando bate à sua porta
segurando uma lanterna, você sabe que é hora
de caçar as botas
e segui-lo para alimentar as ovelhas.

Mas esse pregador, que encara
a câmera e afirma conhecer
Jesus, diz que o que ele quer
é que eu creia nele
para que ele possa entrar.

Isso me cheira a trapaça.
Como um lobo que cobriu as patas de farinha1.

O Jesus que curava os cegos
disse que conheceremos uma árvore pelo fruto.

Trad.: Nelson Santander

  1. A imagem do lobo com as patas cobertas de farinha alude ao conto popular europeu, difundido pelos Irmãos Grimm (O lobo e os sete cabritinhos), no qual o lobo disfarça as patas para fingir ser a mãe dos cabritos e enganá-los. No poema, a metáfora sugere dissimulação e falsa piedade: alguém que se apresenta como inofensivo ou virtuoso para conquistar confiança e acesso. ↩︎

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The Farm Wife Turns Off the TV Evangelist

The Jesus I grew up with
likes to be outside.
If he’s not fishing, he’s picking figs
or showing us his mustard crop.

He prefers dusty roads, the common sparrow,
and lilies of the field.
When he knocks on your door
holding a lantern, you know it’s time
to buckle on overshoes
and go with him to feed the sheep.

But this preacher, who looks straight
into the camera and claims he knows
Jesus, says what he wants
is for me to believe in him
so he can come inside.

That sounds shifty to me.
Like a wolf with his paws dipped in flour.

Jesus who heals the blind
said we will know a tree by its fruit.