Categoria: Poema
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Bertolt Brecht – Tudo Muda

Tudo muda. De novo começar podes, com o último alento. O que acontece, porém, fica acontecido: e a água que pões no vinho, não podes mais separar. O que acontece, fica acontecido: a água que pões no vinho, não podes mais separar. Porém, tudo muda: com o último alento podes de novo começar. Tradução: Geir…
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Ferreira Gullar – Ano Novo

Meia-noite. Fim de um ano, início de outro. Olho o céu: nenhum indício. Olho o céu: o abismo vence o olhar. O mesmo espantoso silêncio da Via-Láctea feito um ectoplasma sobre a minha cabeça nada ali indica que um ano novo começa. E não começa nem no céu nem no chão do planeta: começa no…
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Jorge de Lima – A Divisão de Cristo

Dividamos o mundo em duas partes iguais: uma para portugueses, outra para espanhóis. Vêm quinhentos mil escravos no bojo das naus: a metade morreu na viagem do oceano. Dividamos o mundo entre as pátrias. Vêm quinhentos mil escravos no bojo das guerras: a metade morreu nos campos de batalha. Dividamos o mundo entra as máquinas.…
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Torquato Neto – Cogito

eu sou como eu sou pronome pessoal intransferível do homem que iniciei na medida do impossível eu sou como eu sou agora sem grandes segredos dantes sem novos secretos dentes nesta hora eu sou como eu sou presente desferrolhado indecente feito um pedaço de mim eu sou como eu sou vidente e vivo tranqüilamente todas…
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Manuel Bandeira – Versos de Natal

Espelho, amigo verdadeiro, Tu refletes as minhas rugas, Os meus cabelos brancos, Os meus olhos míopes e cansados. Espelho, amigo verdadeiro, Mestre do realismo exato e minucioso, Obrigado, obrigado! Mas se fosses mágico, Penetrarias até o fundo desse homem triste, Descobririas o menino que sustenta esse homem, O menino que não quer morrer, Que não…
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Philip Larkin – Aubade

De dia, trabalho; à noite, eu meio que encho a cara. Olho o negror sem som, me levantando às quatro. Em tempo, a borda da cortina vai estar clara. Até lá, vejo aquilo que está ali, de fato: A morte infatigável, um dia mais perto, Tornando inviável todo pensamento, exceto O de onde, como e…
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Philip Larkin – Eu Comecei a Dizer

Eu comecei a dizer “Um quarto de século” Ou “trinta anos atrás” Sobre minha própria vida. Isso me deixa sem fôlego É como despencar e arremeter Acenando em largos giros Através do céu vazio. Tudo o que resta acontecer São algumas mortes (incluindo a minha). Em que ordem, e de que maneira, É o que…
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Philip Larkin – As Árvores

As árvores se põem a enfolhar Como algo quase expresso. Seus brotos, Tenros, estão se estendendo, soltos; Seu verde é uma espécie de pesar. Renascem, ou é a gente que vem a Envelhecer? Não, morrem, por certo. O truque anual de um novo aspecto Está inscrito nos anéis da lenha. E cada castelo móvel, no…
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Miguel Torga – Agenda

Folheio a vida Num calendário velho. Dias riscados, como contas pagas. Domingos de repouso, Segundas de trabalho Sábados de cansaço, Sem nenhum sentido. No abismo do nada, O nada, apenas. Quem sofreu nestas páginas vazias, Tão frias, Tão serenas?