William Ernest Henley – Invictus

No meio da noite que me abraça,
Negra como um Poço em sua inteireza,
Agradeço a cada Deus pela graça
De minha invencível natureza.

Nas terríveis garras das circunstâncias
Não recuei nem alteei meu pranto.
Debaixo dos golpes das contingências
Minha fronte sangra – altiva, no entanto.

Além deste lugar de desenganos,
Somente o Horror das sombras desponta,
E entretanto a ameaça dos anos
Deve me encontrar sem medo, e encontra.

Não importa se o portão é mofino,
Se a Lei é repleta de punição
Eu sou o condutor do meu destino
Eu sou de minha alma o capitão

Trad.: Nelson Santander

Invictus

Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

Republicação

Lisel Mueller – De passagem

A rapidez com que o mel filtrado
da luz da tarde
flui para a escuridão

e o fechado broto livra-se
de seu singular mistério
a fim de desabrochar:

como se o que existe, exista
para poder perder-se
e tornar-se precioso.

Trad.: Nelson Santander

In Passing

How swiftly the strained honey
of afternoon light
flows into darkness

and the closed bud shrugs off
its special mystery
in order to break into blossom:

as if what exists, exists
so that it can be lost
and become precious.

Jane Hirshfield – Um dia é vasto

Um dia é vasto.
Até o meio-dia.
Depois acaba.

A água da lagoa de ontem, entrelaçada,
ainda está molhada em meus cabelos.

Eu não sei o que é o tempo.

Você nunca pode encontra-lo.
Mas você pode perde-lo.
Trad.: Nelson Santander
A Day Is Vast

A day is vast.
Until noon.
Then it’s over.

Yesterday’s pondwater
braided still wet in my hair.

I don’t know what time is.

You can’t ever find it.
But you can lose it.

Mary Oliver – Primavera

Em algum lugar,
uma ursa-negra
acaba de despertar
e lança seu olhar

para baixo na montanha.
A noite toda,
na inquietude vivaz e superficial
do início da primavera,

eu penso nela,
suas quatro patas pretas
esparramando o cascalho,
sua língua

como uma chama rubra
tocando a relva,
a água fria.
Só há uma questão:

como amar este mundo?
Eu penso nela
erguendo-se
como um rochedo negro e musgoso

para afiar suas garras contra
o silêncio
das árvores.
O que quer que seja

a minha vida
com seus poemas
e sua música
e suas cidades,

ela é também este ofuscante negror
descendo
a montanha,
respirando e saboreando;

o dia todo eu penso nela –
em suas presas brancas,
sua ausência de palavras,
seu amor perfeito.

Trad.: Nelson Santander

Spring

Somewhere
a black bear
has just risen from sleep
and is staring

down the mountain.
All night
in the brisk and shallow restlessness
of early spring

I think of her,
her four black fists
flicking the gravel,
her tongue

like a red fire
touching the grass,
the cold water.
There is only one question:

how to love this world.
I think of her
rising
like a black and leafy ledge

to sharpen her claws against
the silence
of the trees.
Whatever else

my life is
with its poems
and its music
and its cities,

it is also this dazzling darkness
coming
down the mountain,
breathing and tasting;

all day I think of her –
her white teeth,
her wordlessness,
her perfect love.

Jorge Valdés Díaz-Vélez – As flores do mall

As jovens deusas, noturnas
aparições (roupas escuras,
prata queimando seus umbigos)
na cadência da pista,
começam a desbotar
com a premência dos anos,
os problemas, talvez os filhos
que ainda não têm. Olham
agora para os teus olhos com claro
desprezo (já tens quarenta)
e pensas em certas palavras
de Baudelaire que lhes darias
como se fossem teus frutos
(se ao menos se aproximassem), se
soubessem quem foi o poeta.
Mas elas dançam, te rodeiam
sem importar-lhes o que calas.
Envelhecendo sós, saltam
sobre teus textos (tão perpétuos
e frágeis), novas deidades,
elas, que dançam retiradas
de teu vaso de Lladró.

Trad.: Nelson Santander

* N. do T.: o título do poema faz, evidentemente, um trocadilho com o título da obra mais aclamada de Charles Baudelaire (mencionado no poema), Les Fleurs du mal, traduzido no Brasil literalmente como “As Flores do Mal”. Em países da língua espanhola, a palavra inglesa Mall foi devidamente assimilada, o que não ocorreu no Brasil, em que Mall virou Shopping Center – ou apenas Shopping -, Centro Comercial, etc.. Tratando-se de um trocadilho, s.m.j., irrecuperável em português, optei por manter o substantivo em inglês, justamente para não perder o efeito acridoce que a sua utilização empresta ao título.

Las flores del Mall

Las jóvenes diosas, nocturnas
apariciones (ropa oscura,
plata quemando sus ombligos)
en la cadencia de la pista,
comenzarán a despintarse
con la premura de los años,
los problemas, quizá los hijos
que no tienen aún. Ahora
miran tus ojos con un claro
desprecio (ya tienes cuarenta)
y piensas en ciertas palabras
de Baudelaire que les darías
como si fueran frutas tuyas
(si al menos se acercaran), si
supieran quién es el poeta.
Pero ellas danzan, te rodean
sin importarles lo que callas.
Envejeciendo solas, brincan
sobre tus textos (tan perpetuas
y frágiles), deidades nuevas,
ellas, que bailan retiradas
de tu florero de Lladró.

Charles Simic – Medo

O medo passa de homem para homem
Inconscientemente,
Como uma folha passa o seu estremecimento
Para outra.

De repente, a árvore toda está tremendo,
E não há nenhum sinal do vento.

Trad.: Nelson Santander

Fear

Fear passes from man to man
Unknowing,
As one leaf passes its shudder
To another.

All at once the whole tree is trembling,
And there is no sign of the wind.

Linda Pastan – As Íris de Monet

Estas flores
se sonharam
de volta à cor pura –
os verdes
da água indivisa,
os verdes
informes do prado
assim como Deus disse:
Que haja
Íris.

Trad.: Nelson Santander

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Monet’s Irises

These flowers
have dreamed themselves
back into pure color—
the greens
of undivided water,
the formless
greens of meadow
just as God said:
Let there be
Irises.

Danusha Laméris – Vestindo-se para o enterro

Ninguém fala sobre a hilaridade após a morte —
a forma como na semana em que o meu irmão se matou
a esposa dele e eu caímos na cama gargalhando
porque ela não conseguia decidir sobre o que vestir para o grande dia,
e me perguntou, “Eu quero ser sexy ou Amish?” Eu respondi: sexy.
E nós rolamos sobre o colchão que eles haviam compartilhado
por dezoito anos, nossas barrigas até doendo.
Enquanto isso, ele repousava em uma estreita gaveta refrigerada,
cachos castanhos macios brotando de seu couro cabeludo,
emoldurando seu bonito rosto. Isso foi quando
ele ainda tinha um rosto, e íamos vê-lo.
“Mostre-me a saia preta de novo,” eu disse. E ela, “Qual delas?”
E então ela falou, “Você está tão Máfia Chic,” e eu disse, “Obrigada,”
e isso continuou até que nós duas nos cansamos e nossos costelas doeram e agora
eu nem me lembro o que acabamos vestindo. Lembro apenas que estávamos fabulosas
chorando por causa daquele buraco aberto no chão.

Trad.: Nelson Santander

Dressing for the Burial

No one wants to talk about the hilarity after death —
the way the week my brother shot himself,
his wife and I fell on the bed laughing
because she couldn’t decide what to wear for the big day,
and asked me, “Do I go for sexy or Amish?” I told her sexy.
And we rolled around on the mattress they’d shared
for eighteen years, clutching our sides.
Meanwhile, he lay in a narrow refrigerated drawer,
soft brown curls springing from his scalp,
framing his handsome face. This was back when
he still had a face, and we were going to see it.
“Hold up the black skirt again,” I said. She said, “Which one?”
And then she said, “You look so Mafia Chic,” and I said, “Thank you,”
and it went on until we both got tired and our ribs hurt and now
I don’t even remember what we wore. Only that we both looked fabulous
weeping over that open hole in the ground.

Kenneth Rexroth – Delia Rexroth

A Califórnia entra num
Verão modorrento, e o ar
Está repleto da agridoce
Fumaça de relva queimando
Nas colinas de São Francisco.
A carne arde assim, as pirâmides
Idem, assim como as estrelas em combustão.
Cansado esta noite, em uma cidade
De arrivistas, no desumano
Oeste, no mais sangrento dos anos,
Peguei um livro de poemas
De que você costumava gostar, com
Aquela música que você costumava cantar
E que eu nunca mais encontrei em nenhum outro lugar —
Um livro de Michael Fields, Long Ago.
De fato, já foi há muito tempo —
Seus cabelos castanhos e seu corpo esbelto.
Creio que você foi uma amante ardorosa,
Uma esposa selvagem, uma mãe
Sensual. E agora a vida já me custou
Mais anos, embora menos dor,
Do que você teve que pagar por ela.
E eu comprei de volta, para e de
Mim mesmo, esses poemas e pinturas,
Esculpidos de ossos queixosos,
As inestimáveis consequências
De sua vida louca e despedaçada.

Trad.: Nelson Santander

Delia Rexroth

California rolls into
Sleepy summer, and the air
Is full of the bitter sweet
Smoke of the grass fires burning
On the San Francisco hills.
Flesh burns so, and the pyramids
Likewise, and the burning stars.
Tired tonight, in a city
Of parvenus, in the inhuman
West, in the most blood drenched year,
I took down a book of poems
That you used to like, that you
Used to sing to music I
Never found anywhere again—
Michael Fields book, Long Ago.
Indeed its long ago now—
Your bronze hair and svelte body.
I guess you were a fierce lover,
A wild wife, an animal
Mother. And now life has cost
Me more years, though much less pain,
Than you had to pay for it.
And I have bought back, for and from
Myself, these poems and paintings,
Carved from the protesting bone,
The precious consequences
Of your torn and distraught life.

Joan Margarit – No final da noite

O ar está congelando.
Até o rouxinol mantém-se em silêncio.
Com a testa apoiada na vidraça
peço perdão às minhas filhas mortas,
porque já quase nunca penso nelas.
O tempo passou, deixando sobre a cicatriz
sua argila empoeirada, e ocorre que, mesmo
quando se ama alguém, sobrevém o esquecimento.
A luz tem a mesma aspereza das gotas
que vão, com o degelo, caindo dos ciprestes.
Ponho uma tora, removo as cinzas,
ressurge a chama entre as brasas.
Começo a fazer café
e vossa mãe, do quarto,
sorri com sua voz: Que cheiro bom.
Acordaste muito cedo esta manhã.

Trad.: Nelson Santander

Joana e Joan, em 2000. Foto: arquivo da família Margarit Ribalta

JOANA FOI ESCRITO DE 10 DE OUTUBRO DE 2000 A 1 DE SETEMBRO DE 2001

What will survive of us is love.
PHILIP LARKIN

Nota a JOANA


Este livro foi escrito violando todos os conselhos que os poetas nos damos sobre a distância obrigatória entre os fatos e o poema. Uma vez que precisava escreve-lo assim, e, ademais, já começo a ter idade suficiente para ignorar os conselhos, usei como garantia a vigilância poética — pela qual ora agradeço — de meus amigos Pere Rovira, Paco Díaz de Castro, Ramón Andrés, Enrique Badosa, Luis García Montero, Antonio Jiménez Millán, Miguel Ángel e Ana del Arco, Isidor Cònsul, Maite Merodio e Jesús Munárriz, Àlex Susanna e Sam Abrams. E de Almudena del Olmo, que, diante das minhas dúvidas, me disse: Não penses mais nisso e dá-lhe o título do que é realmente a tua obsessão: Nunca mais. Foi assim que este livro começou a ser intitulado, mas no final ganhou o nome simples da protagonista, em relação à qual, ao fim e ao cabo, o título sugerido não passava de uma afirmação filosófica. Como me recordou Sam Abrams, o mesmo corvo de Poe diz Nevermore, e o nosso Nunca mais é Never again.

AL FONDO DE LA NOCHE

Está helando en el aire.
Guarda silencio hasta el ruiseñor.
Con la frente apoyada en el cristal
pido perdón a mis dos hijas muertas,
porque ya casi nunca pienso en ellas.
El tiempo ha ido dejando sobre la cicatriz
su polvorienta arcilla, y es que, incluso
cuando uno ama a alguien, sobreviene el olvido.
La luz tiene la misma dureza de las gotas
que van, con el deshielo, cayendo del ciprés.
Pongo un leño, remuevo las cenizas,
vuelve a surgir la llama entre las brasas.
Empiezo a hacer café
y vuestra madre, desde el dormitorio,
sonríe con su voz: Qué buen aroma.
Has madrugado mucho esta mañana.

JOANA FUE ESCRITO DEL 10 DE OCTUBRE DE 2000 AL 1 DE SEPTIEMBRE DE 2001

What will survive of us is love.
PHILIP LARKIN

Nota a JOANA

Este libro fue escrito vulnerando todos los consejos que los poetas damos sobre la obligada distancia entre los hechos y el poema. Puesto que necesitaba hacerlo así y, además, ya empiezo a tener la edad de saltarme los consejos, he utilizado como garantía la vigilancia poética —que aquí agradezco— de mis amigos Pere Rovira, Paco Díaz de Castro, Ramón Andrés, Enrique Badosa, Luis García Montero, Antonio Jiménez Millán, Miguel Ángel y Ana del Arco, Isidor Cònsul, Maite Merodio y Jesús Munárriz, Àlex Susanna y Sam Abrams.Y de Almudena del Olmo, que, ante mis dudas, me dijo: No le des más vueltas y ponle por título lo que realmente es tu obsesión: Nunca más. Así se empezó titulando este libro, pero al final ha ganado el sencillo nombre de la protagonista frente al que, al fin y al cabo, no era más que una afirmación filosófica. Como me
ha recordado Sam Abrams, el mismo cuervo de Poe dice Nevermore, y nuestro Nunca más es Never again.