Francisco Brines – Deitado

Chove, e amo.
Pulsam, em alongada sombra,
duas sombras vivas, sondam o nada,
e nele se alimentam.
           São farrapos de luz,
e à sua luz se veem olhos, músculos, cabelos,
enquanto a sombra se extingue em mais sombra,
e o repouso nos lençóis
das fúrias do corpo
é a gratidão de quem há de morrer,
e sem pedir por mais vida, a vida o transborda
até negar a morte miserável,
a ferrugem dos corpos ainda vivos
e as sombras já ocas dos mortos.

Trad.: Nelson Santander

Tendido

LLueve, y amo.
Jadean, en extendida sombra,
dos sombras vivas, hozan la nada,
y en ella se alimentan.
           Son jirones de luz,
y a su luz se ven ojos, muslos, cabellos,
mientras la sombra se extingue hacia más sombra,
y el reposo en las sábanas
de las furias del cuerpo
es el agradecimiento de quien ha de morir,
y sin pedir la vida, la vida le desborda
hasta negar la muerte miserable,
la herrumbre de los cuerpos aún vivos
y las sombras ya huecas de los muertos.

Jaime Gil de Biedma – Valsa de Aniversário

Não há nada tão doce como um quarto
para dois (quando já não nos amamos tanto)
fora da cidade, em um hotel tranquilo,
e casais duvidosos e alguma criança com caxumba,

não fosse esta ligeira sensação
de irrealidade. Algo como o verão
na casa de meus pais, há tempos,
como viajar de trem à noite. Chamo-te

para dizer que não digo nada
que tu já não saibas, ou se precisar
para beijar-te vagamente
os mesmos lábios.

Deixaste a varanda.
O quarto escureceu
enquanto nos olhamos ternamente, incomodados
de não sentir o peso dos anos.

Tudo continua igual, parece
que não foi ontem. E este gosto nostálgico
que os silêncios colocam na boca
possivelmente levam a nos equivocarmos

sobre nossos sentimentos. Mas não
sem alguma reserva, porque por baixo
algo puxa com mais força e é (para dize-lo
talvez de um modo menos inexato)

difícil lembrar que nos amamos,
senão com alguma imprecisão, e o sábado,
que é hoje, está tão perto
de ontem no último minuto e de depois de

amanhã
de manhã.

Trad.: Nelson Santander

Vals de Aniversario

Nada hay tan dulce como una habitación
para dos (cuando ya no nos queremos demasiado)
fuera de la ciudad, en un hotel tranquilo,
y parejas dudosas y algún niño con ganglios,

si no es esta ligera sensación
de irrealidad. Algo como el verano
en casa de mis padres, hace tiempo,
como viajes en tren por la noche. Te llamo

para decir que no te digo nada
que tú ya no conozcas, o si acaso
para besarte vagamente
los mismos labios.

Has dejado el balcón.
Ha oscurecido el cuarto
mientras que nos miramos tiernamente,
incómodos de no sentir el peso de tres años.

Todo es igual, parece
que no fue ayer. Y este sabor nostálgico,
que los silencios ponen en la boca,
posiblemente induce a equivocarnos

en nuestros sentimientos. Pero no
sin alguna reserva, porque por debajo
algo tira más fuerte y es (para decirlo
quizá de un modo menos inexacto)

difícil recordar que nos queremos,
si no es con cierta imprecisión, y el sábado,
que es hoy, queda tan cerca
de ayer a última hora y de pasado

mañana
por la mañana

Luis Cernuda – Os espinhos

Possuem já os espinhos
verdor novo na colina,
toda de púrpura e neve
pelo ar estremecida.

Quantos céus em flor já viste?
Embora ao encontro eles
serão sempre devotados,
tu não o serás um dia.

Antes que a penumbra caia,
sabe o que a alegria é
junto aos espinhos vermelhos
e alvos em flor. Olha. Vê.

Trad.: Nelson Santander

Los Espinos

Verdor nuevo los espinos
tienen ya por la colina,
toda de púrpura y nieve
en el aire estremecida.

Cuántos cielos florecidos
les has visto; aunque a la cita
ellos serán siempre fieles,
tú no lo serás un día.

Antes que la sombra caiga,
aprende cómo es la dicha
ante los espinos blancos
y rojos en flor. Vé. Mira.

Luís de Góngora – Estamos desperdiçando a páscoa, moças

Estamos desperdiçando a páscoa, moças,
Estamos desperdiçando a páscoa!

Moçoilas do meu distrito,
Louquinhas e confiantes,
Que não vos engane o tempo,
a idade e a confiança.
Não deixeis cortejar-vos
o frescor da juventude,
porque de flores caducas
tece o tempo suas grinaldas.

Estamos desperdiçando a páscoa, moças,
Estamos desperdiçando a páscoa!

Voam os velozes anos,
e com pressurosas asas
nos afanam, como harpias,
nossas saborosas carnes.
É a flor da maravilha
Que a verdade nos declara,
Porque subtrai à tarde
O que lhe deu a manhã.

Estamos desperdiçando a páscoa, moças,
Estamos desperdiçando a páscoa!

Notai que quando pensais
que os sinos da vida anun-
ciam os sinais da aurora
já é o fim, e os apartam
de vossa cor e esplendor,
de vossa elegância e graça,
e estais todas perdidas,
além das próprias idades.*

Estamos desperdiçando a páscoa, moças,
Estamos desperdiçando a páscoa!

Sei de uma boa velhinha
Que um dia foi loira e clara
E hoje muito lhe custa
Entrever o próprio rosto,
Porque sua lustrosa face
E suas bochechas estão
Mais murchas e enrugadas
Do que roquete de bispo.

Estamos desperdiçando a páscoa, moças,
Estamos desperdiçando a páscoa!

E sei de outra boa idosa
Com um dente cai-não-cai
Deixou-o no outro dia
Sepultado em chantili,
E com lágrimas lhe disse:
“Dente meu de minha alma,
Eu sei quando foste pérola,
E agora não és mais branco.”

Estamos desperdiçando a páscoa, moças,
Estamos desperdiçando a páscoa!

Por isso, moçoilas loucas,
Antes que a velhice avara
Os loiros cabelos fulvos
Converta em luzente prata,
Amai quando amadas fordes,
Se houver oportunidade.

Trad.: Nelson Santander

¡Que se nos va la Pascua, mozas

¡Que se nos va la Pascua, mozas,
Que se nos va la Pascua!

Mozuelas las de mi barrio,
Loquillas y confiadas,
Mirad no os engañe el tiempo,
La edad y la confianza.
No os dejéis lisonjear
De la juventud lozana,
Porque de caducas flores
Teje el tiempo sus guirnaldas.

¡Que se nos va la Pascua, mozas,
Que se nos va la Pascua!

Vuelan los ligeros años,
Y con presurosas alas
Nos roban, como harpías,
Nuestras sabrosas viandas.
La flor de la maravilla
Esta verdad nos declara,
Porque le hurta la tarde
Lo que le dio la mañana.

¡Que se nos va la Pascua, mozas,
Que se nos va la Pascua!

Mirad que cuando pensáis
Que hacen la señal del alba
Las campanas de la vida,
Es la queda, y os desarman
De vuestro color y lustre,
De vuestro donaire y gracia,
Y quedáis todas perdidas
Por mayores de la marca.*

¡Que se nos va la Pascua, mozas,
Que se nos va la Pascua!

Yo sé de una buena vieja
Que fue un tiempo rubia y zarca,
Y que al presente le cuesta
Harto caro el ver su cara,
Porque su bruñida frente
Y sus mejillas se hallan
Más que roquete de obispo
Encogidas y arrugadas.

¡Que se nos va la Pascua, mozas,
Que se nos va la Pascua!

Y sé de otra buena vieja,
Que un diente que le quedaba
Se lo dejó este otro día
Sepultado en unas natas,
Y con lágrimas le dice:
«Diente mío de mi alma,
Yo sé cuándo fuistes perla,
Aunque ahora no sois caña.»

¡Que se nos va la Pascua, mozas,
Que se nos va la Pascua!

Por eso, mozuelas locas,
Antes que la edad avara
El rubio cabello de oro
Convierta en luciente plata,
Quered cuando sois queridas,
Amad cuando sois amadas,
Mirad, bobas, que detrás
Se pinta la ocasión calva.

¡Que se nos va la Pascua, mozas,
Que se nos va la Pascua!

Nota do tradutor: de acordo com Dámaso Alonso as expressões “mayor es de la marca” ou “de más de lamarca” se referiam a espadas ou outros objetos que excediam o tamanho permitido. Cervantes a emprega inúmeras vezes referindo-se a espadas. A expressão se generalizou e logo passou a significar “o que excedia o permissível ou tolerável” (…) Desta ampliação de significado se vale Góngora para dizer que as moças estarão perdidas, mais velhas do que a própria idade para o amor” (ALONSO, Dámaso. Góngora y el Polifemo. v. 2. Madrid: Gredos, 1967 – https://revistas.ufpr.br/letras/article/download/18945/12265 ).

Javier Salvago – No verso de uma velha fotografia

Os Beatles ainda não tinham surgido, nem haviam abatido Che Guevara.

Nat King Cole cantava ansiedad de tenerte en mis brazos ou solamente una vez se entrega el alma.

e no cinema talvez exibissem Sete noivas para sete irmãos.

O comandante Armstrong ainda não havia deixado sua profana pegada no rosto esburacado da lua.

Os velhos seguiam contando histórias da guerra ao calor da fogueira.

Estavam longe o Vietnã, os hippies, a Primavera, Maio1 e esta discreta liberdade… para fazer o quê?

Trad.: Nelson Santander

  1. O autor se refere provavelmente à “Primavera de Praga”, evento social ocorrido na antiga Tchecoslováquia entre janeiro e agosto de 68, e ao movimento havido no mês de maio de 68 na França que ficou conhecido como o “Maio de 68”. ↩︎

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Al dorso de una vieja fotografía

Todavía no habían llegado los Beatles, ni habían acribillado a Che Guevara.

Nat King Cole cantaba por la radio ansiedad de tenerte en mis brazos o solamente una vez se entrega el alma.

y en el cine tal vez ponían Siete novias para siete hermanos.

Todavía el comandante Armstrong no había dejado su profana huella sobre el picado rostro de la luna.

Todavía los viejos seguían contando historias de la guerra al calor de la lumbre.

Quedaban lejos Vietnam, los hippies, la Primavera, el Mayo y esta discreta libertad… ¿para hacer qué?

Joan Margarit – No álbum

És tu antes de partir,
quando ainda vivias em casa.
O olhar brilhante que nos recompensava.
Teu nome foi ficando para trás,
na foto de onde ainda nos sorris
como se tudo fosse para sempre
e nada tivesse acontecido em outro lugar,
nem no sorriso que hoje desconhecemos,
longe do que teu rosto exibe neste álbum.
Este sorriso, agora, é só para nós:
convive com cartas, bonecas e desenhos,
suvenires que desvelam a manhã
que entra pela tua varanda. Às vezes pronunciamos
teu nome de um jeito mais jovial, como antes.
Talvez assim continues aqui
e teu nome preserve as memórias mais fiéis
para seguir contigo ao nosso lado.

Trad.: Nelson Santander

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En El Álbum

Eres tú antes de irte,
cuando vivías todavía en casa.
La mirada brillante que nos recompensó.
Tu nombre se nos fue quedando atrás,
en la fotografía donde aún nos sonríes
como si todo fuese para siempre
y nada sucediera en otro sitio,
ni en la sonrisa que hoy desconocemos,
lejos de la que tiene tu cara en este álbum.
Esta sonrisa, ahora, sólo es para nosotros:
convive con las cartas, muñecas y dibujos,
recuerdos que desvela la mañana
que entra por tu balcón. A veces pronunciamos
tu nombre de una forma más joven, como antes.
Quizá de esta manera continúas aquí
y tu nombre protege los recuerdos más fieles
para vivir contigo a nuestro lado.

Maria Mercedes Carranza – Kavafiana

O desejo aparece de repente,
em qualquer sítio, a propósito de nada.
Na cozinha, caminhando pela rua.
Basta um olhar, um aceno, um roçar.
Mas dois corpos
têm também o seu amanhecer e o seu acaso,
a sua rotina de amor e de sonhos,
de gestos sabidos até ao cansaço.
Dispersam-se os risos, deformam-se.
Há cinzas nas bocas
e o íntimo desdém.
Dois corpos têm a sua vida
e a sua morte um frente ao outro.
Basta o silêncio.

Trad.: Nuno Júdice

Kavafiana

El deseo aparece de repente,
en cualquier parte, a propósito de nada.
En la cocina, caminando por la calle.
Basta una mirada, un ademán, un roce.
Pero dos cuerpos
tienen también su amanecer y su ocaso,
su rutina de amor y de sueños,
de gestos sabidos hasta el cansancio.
Se dispersan las risas, se deforman.
Hay cenizas en las bocas
y el íntimo desdén.
Dos cuerpos tienen su vida
y su muerte el uno frente al otro.
Basta el silencio.

Amalia Bautista – A pesagem do coração

Que ninguém por tua culpa tenha passado fome,
tenha sentido medo ou frio.
Que ninguém tenha deixado de viver por tua culpa,
nem temido a morte, nem desejado morrer.
Que nenhuma pessoa tenha dito o teu nome com pavor
ou olhado o teu rosto com desprezo.
Que os outros te chorem quando partires.
Assim o teu coração não terá guardado o chumbo
que pesa nas mudanças.
Assim o teu coração será mais leve
que a mais leve pluma.

Trad.: Inês Dias

 

El pesaje del corazón

Que nadie por tu culpa haya pasado hambre,
haya sentido miedo o frío.
Que nadie haya dejado de vivir por tu culpa,
ni temido la muerte, ni deseado morir.
Que ninguno haya dicho tu nombre con espanto
o mirado tu rostro con desprecio.
Que los demás te lloren cuando partas.
Así tu corazón no habrá albergado el plomo
que lastra las mudanzas.
Así tu corazón será más leve
que la más leve pluma.

Amalia Bautista – S.O.S.

Protege-me do medo e das sombras
defende-me de todas as tristezas,
exila de minha vida o desconsolo,
se puderes, com teu amor, se não
com o fim do mundo ou com a minha morte.

Trad.: Nelson Santander

S.O.S

Protégeme del miedo y de las sombras,
defiéndeme de todas las tristezas,
destierra de mi vida el desconsuelo.
si puedes, con tu amor, y si no puedes,
con el final del mundo o con mi muerte.

José Hierro – Réquiem

Manuel del Río, natural
da Espanha, faleceu no sábado,
onze de maio, em consequência
de um acidente. Seu cadáver
está estendido na funerária
D´Agostino. Haskell. Nova Jersey.
Uma missa cantada será celebrada
às nove e meia, em St. Francis.

É uma história que começa
com sol e pedra, e que termina
sobre uma mesa, no D’Agostino,
com flores e círios elétricos.
É uma história que começa
em uma margem do Atlântico.
Continua em uma cabine
de terceira, sobre as ondas
– sobre as nuvens – das terras
submersas antes de Platão.
Encontra na América seu termo
com uma grua e um hospital,
com um obituário e uma missa
cantada na igreja St. Francis.

Afinal, qualquer lugar
é lugar de se morrer:
o que se perfuma de alecrim,
o esculpido em pedra, ou em neve,
o encharcado de petróleo.
Tanto faz que um corpo se torne
pedra, petróleo, neve, aroma.
O doloroso não é morrer
aqui ou lá…
Requiem aeternam,
Manuel del Río. Sobre o mármore
no D’Agostino pastam touros
da Espanha, Manuel e as flores
(funeral de segunda, caixão
que cheira a abetos do inverno)
quarenta dólares. E colocaram
umas flores artificiais
entre as outras que arrancaram
do jardim… Liberame domine
de morte aeterna… Quando morrem
James ou Jacob verão as flores
que Giulio ou Manuel pagaram…

Agora descem às tuas cimeiras
garras de águia. Dies irae.
O doloroso não é morrer
Dies illa aqui ou lá,
mas sem glória…
Teus avós
fecundaram toda a terra,
a embeberam de aventura.

Quando caía um espanhol
mutilava-se o universo.
Não os velavam na Funerária
D´Agostino, mas entre piras,
entre cavalos e armas. Heróis
para sempre. Estátuas de rosto
apagado. Vestidos ainda
com cores de papagaio,
de poder e fantasia.

Ele não caiu assim. Não morreu
por nenhuma bela loucura.
(Faz muito que o espanhol
morre de anonimato e sensatez,
ou de dilacerantes disparates
entre irmãos: quando golpeia
odres de vinho, derrama
sangue fraterno). Veio um dia
porque sua terra é pobre. O mundo
Liberame Domine é pátria.
E morreu. Não fundou cidades.
Não deu seu nome a algum mar. Não fez
mais do que morrer por dezessete
dólares (ele os pensaria
em pesetas). Requiem aeternam.
E no D’Agostino o visitam
os poloneses, os irlandeses,
os espanhóis, aqueles que morrem
no week-end.

Requiem aeternam
Definitivamente tudo
terminou. Seu corpo
se encontra na Funerária
D´Agostino. Haskell. Nova Jersey.
Uma missa cantada será celebrada
por sua alma.
Limitei-me
a refletir aqui sobre um obituário
de um jornal de Nova York.
Objetivamente, sem arroubos
no verso. Objetivamente.
Um espanhol como milhões
de espanhóis. Não disse a ninguém
que estive a ponto de chorar.

Trad.: Nelson Santander

Na página seguinte, você poderá ler (em espanhol) uma análise aprofundada deste poema, que na temática e desenvolvimento, lembra bastante o famoso poema de Ferreira Gullar, “Notícia da morte de Alberto Silva”, já publicado em nosso blog (https://singularidadepoetica.art/2019/07/28/ferreira-gullar-noticia-da-morte-de-alberto-da-silva/).

Vale a pena conferir: https://poemario.org/requiem/

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Réquiem

Manuel del Río, natural
de España, ha fallecido el sábado
once de mayo, a consecuencia
de un accidente. Su cadáver
está tendido en D′Agostino
Funeral Home. Haskell. New Jersey.
Se dirá una misa cantada
a las nueve treinta, en St. Francis.

Es una historia que comienza
con sol y piedra, y que termina
sobre una mesa, en D′Agostino,
con flores y cirios eléctricos.
Es una historia que comienza
en una orilla del Atlántico.
Continúa en un camarote
de tercera, sobre las olas
-sobre las nubes- de las tierras
sumergidas ante Platón.
Halla en América su término
con una grúa y una clínica,
con una esquela y una misa
cantada, en la iglesia St. Francis.

Al fin y al cabo, cualquier sitio
da lo mismo para morir:
el que se aroma de romero,
el tallado en piedra, o en nieve,
el empapado de petróleo.
Da lo mismo que un cuerpo se haga
piedra, petróleo, nieve, aroma.
Lo doloroso no es morir
acá o allá…

Requiem aeternam,
Manuel del Río. Sobre el mármol
en D′Agostino, pastan toros
de españa, Manuel, y las flores
(funeral de segunda, caja
que huele a abetos del invierno),
cuarenta dólares. Y han puesto
unas flores artificiales
entre las otras que arrancaron
al jardín… Liberame domine
de morte aeterna… Cuando mueran
James o Jacob verán las flores
que pagaron Giulio o Manuel…

Ahora descienden a tus cumbres
garras de águila. Dies irae.
Lo doloroso no es morir
Dies illa acá o allá,
sino sin gloria…
Tus abuelos
fecundaron la tierra toda,
la empapaban de la aventura.
Cuando caía un español
se mutilaba el universo.
Los velaban no en D′Agostino
Funeral Home, sino entre hogueras,
entre caballos y armas. Héroes
para siempre. Estatuas de rostro
borrado. Vestidos aún
sus colores de papagayo,
de poder y fantasía.

El no ha caído así. No ha muerto
por ninguna locura hermosa.
(Hace mucho que el español
muere de anónimo y cordura,
o en locuras desgarradoras
entre hermanos: cuando acuchilla
pellejos de vino, derrama
sangre fraterna). Vino un día
porque su tierra es pobre. El mundo
Liberame Domine es patria.
Y ha muerto. No fundó ciudades.
No dió su nombre a un mar. No hizo
más que morir por diecisiete
dólares (él los pensaría
en pesetas). Requiem aeternam.
Y en D′Agostino lo visitan
los polacos, los irlandeses,
los españoles, los que mueren
en el week-end.

Requiem aeternam.
Definitivamente todo
ha terminado. Su cadáver
está tendido en D′Agostino
Funeral Home. Haskell. New Jersey.
Se dirá una misa cantada
por su alma.

Me he limitado
a reflejar aquí una esquela
de un periódico de New York.
Objetivamente, sin vuelo
en el verso. Objetivamente.
Un español como millones
de españoles. No he dicho a nadie
que estuve a punto de llorar.