Categoria: Poesia em Língua Espanhola
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Jorge Valdés Díaz-Vélez – Ishmar

para Martha Iga A maneira de pentear-te nua diante do espelho úmido do banheiro, de prender na palma teus cabelos para fazer correr a água e de agachar-te no meio de palavras que não entendo; o ato de secar tua pele, a forma de sentir com os dedos uma ruga que ontem não estava, ou…
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Joan Margarit – No museu

Agacha-se junto ao menino e aponta para o quadro.Com um gesto solene, comprime o punhoe tenta explicar a força queacredita ver na pintura.Esta velha obsessão de transmitiraos pequenos nossos pobres recursos.Atento, o menino observa com temor.Talvez pressinta a solidão que se ocultanos gestos, na retórica da arte.Temos sempre a verdade diante de nós,mas, assim como…
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Roberto Juarroz – Assim como não podemos

Assim como não podemossustentar por muito tempo um olhar,tampouco podemos sustentar por muito tempo a alegria,a espiral do amor,o gratuidade do pensamento,a terra em suspensão no cântico. Não podemos sequer sustentar por muito tempoas proporções do silêncioquando algo o visita.E menos aindaquando nada o visita. O homem não pode sustentar por muito tempo o homem,nem…
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José Emílio Pacheco – Crianças e adultos

Aos dez anos, acreditavaque o mundo era dos adultos.Podiam fazer amor, fumar, beber à vontade,ir aonde quisessem.Sobretudo, nos esmagar com seu poder indomável. Agora sei, por vasta experiência, o lugar-comum:em verdade, não há adultos,apenas crianças envelhecidas. Desejam o que não têm:o brinquedo do outro.Sentem medo de tudo.Obedecem sempre a alguém.Não governam a própria existência.Choram por…
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Juan Vicente Piqueras – Papoulas

No antigo campo de batalha onde morreram milhares de meninos cresce novamente o trigo, salpicado aqui e ali de ardentes papoulas. E dois amantes, que terão mais ou menos a idade dos soldados que aqui então morreram, hoje fazem amor no semeado. Deitam o trigo. Calcam as papoulas. Trad.: Nelson Santander Amapolas Sobre el antiguo…
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Raquel Lanseros – A propósito de Eros

De todas as terrenas servidões que aprisionam meu afã neste cárcere confesso-me devedora da carne e de todos os seus íntimos vaivéns que me fazem mais feliz e menos livre. Às vezes, porém, a escravidão se mostra soberana e me sinto senhora do destino. Porque sei amar, porque provei da fruta e nunca maldisse o…
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Jorge Valdés Díaz-Vélez – O material do relâmpago

Calculaste em detalhes cada passo, sutil, há muitos séculos. Finalmente teu marido viajou e as crianças foram dormir com os avós. Estás agora sozinha e eufórica voltaste-te a se maquiar e vestiste-te de preto rigoroso e perfumaste tua mínima porção de lingerie. Estás tremendo, dizes a ti mesma, mas nada te fará voltar atrás. Olhas…
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Blas de Otero – Ímpeto

Mas nem tudo há de ser ruína e vazioE nem tudo escombro ou descongelação.Por cima deste ombro levo o céu,e por cima deste outro, um vasto rio de entusiasmo. E meu corpo no meio,árvore luzente gritando do chão.E, entre raízes mortais, sofreguidão,meu coração desperto, raio sombrio. Somente o anseio me vence. Mas avançosem duvidar, sobre…
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Marisa de la Peña – O tempo que nos resta

“Somos o tempo que nos resta” J. M. Caballero Bonald. É isso o que somos: o tempo que nos resta, o último batimento interrompido, a palavra não dita, o deserto cruzado, e o caminho sem nome que deixamos para trás. Somos o abandono, a intempérie, as luzes apagadas, e as portas, fechadas para sempre, ao…
