Categoria: Poesia em Língua Espanhola
-
Jorge Valdés Díaz-Vélez – S.T.T.R. Sit Tibi Terra Levis

Hoje lembro os mortos da minha casaOctavio Paz De todos os nossos mortos, jamais esqueceremoso primeiro. O meu habita a raiz do outono,sob os álamos. Sua memóriame oferece uma murta enquanto se inclinacom os braços abertos de outros dias. Lembrode sua estatura nas sombras, prestes a afastar-sedo espelho, seu rosto velado, o ornamentodas obstinadas lições…
-
Lope de Vega – Desmaiar, ousar, ficar furioso

Desmaiar, ousar, ficar furioso,áspero, terno, generoso, esquivo,entretido, mortal, defunto, vivo,leal, falso, covarde e corajoso; não achar, para além, paz e repouso,mostrar-se alegre, triste, humilde, altivo,irritado, valente, fugitivo,satisfeito, ofendido, receoso; furtar o rosto ao claro desengano,sorver veneno por licor suave,esquecer o proveito, amar o dano; crer que um céu em um inferno cabe,dar a vida e…
-
Juan Vicente Piqueras – História universal

Um homem nasce chora cresce risofre e faz sofrer caminha cantatem sede fome frio medose perde extravasa arde sorri. Um homem sozinho no meio da noiteassobia para domar as bestas que o habitam. Abraça empurra mata beija morrese cansa de si mesmo se apaixonase entrega à vida sabe que se findaque o que é escoa…
-
Hugo Mujica – Há escassos dias

Há escassos dias morreu meu pai,há muito tempo atrás. Caiu suavemente,como as pálpebras ao chegara noite, ou uma folhaque o vento não arranca, embala. Hoje não é como outras chuvas,hoje chove pela primeira vezsobre o mármore de sua lápide. Sob cada chuvapoderia ser eu quem jaz, agora eu sei,agora que morri em outro. Trad.: Nelson…
-
Joan Margarit – A aventura

Quando me ausento por um momento, ao finalizaruma inspeção de obra em algum bairro estranhoe entro para tomar café em um pequeno baronde não me conhecem, penso que soualguém que parte para não mais voltar.Quando me refugio no vaziode um entreato e procuro a escadaque leva aos banheiros,sinto que ali poderia começar minha ausência.Instantes que…
-
Ernesto Pérez Vallejo – A garota de preto

Hoje eu podia ter-me apaixonado por ti, apesar de tuas botas sem salto, podia até ter-te beijado assim, com o mar ao fundo, os beijos aos domingos têm um sabor distinto, mais intenso. Podia ter-te levado pelas mãos até a praia e ter-te despido docemente enquanto me ajoelhava na terra e perfumava o meu nariz.…
-
Hugo Vera Miranda – Os cavaleiros do apocalipse

Como defender-se dos furtivos invernos que aninham as moradas obscuras do desejo? Como voltar por um instante ao tempo feroz da infância onde um velho com cara de sapo solta pombas enquanto o trem passa? Como decifrar a carícia longínqua que agora atormenta a insônia? Vamos ficando sozinhos, cercados por demônios dançarinos e um tiro…
-
Joan Margarit – Noite escura na rua Balmes

Cumpridas as ameaças e temores — hoje já todas as ruas levam à velhice —, passo defronte à clínica em que tu nasceste, vinte e seis anos atrás, em uma noite de corredores feridos pela luz. Aqui foi a tua chegada, pequena e indefesa, à praia feliz do teu sorriso, à dificuldade da palavra, às…
-
Eloy Sánchez Rosillo – O segredo

Se por acaso a alegria se assuste e se apresse em me deixar, eu a escondo das pessoas e não digo a ninguém que veio à minha casa depois de muito tempo. Falo com ela, e com frequência vê-la de novo tão próxima me faz chorar, e rio. Depois a deixo sozinha e vou para…
-
Jorge Valdés Díaz-Vélez – Naquele agora

As chances de encontrar-te novamente eram remotas. Uma em um bilhão. E havendo infinitos lugares dispersos pelos números de um cálculo improvável, quem imaginaria que eu te veria naquela cantina, transformando-te na luz daqueles tempos felizes, ou isso quiseram crer, anos atrás, aqueles dois que fomos. Estavas ali, de repente e sem aviso prévio, com…