Luís de Góngora – Estamos desperdiçando a páscoa, moças

Estamos desperdiçando a páscoa, moças,
Estamos desperdiçando a páscoa!

Moçoilas do meu distrito,
Louquinhas e confiantes,
Que não vos engane o tempo,
a idade e a confiança.
Não deixeis cortejar-vos
o frescor da juventude,
porque de flores caducas
tece o tempo suas grinaldas.

Estamos desperdiçando a páscoa, moças,
Estamos desperdiçando a páscoa!

Voam os velozes anos,
e com pressurosas asas
nos afanam, como harpias,
nossas saborosas carnes.
É a flor da maravilha
Que a verdade nos declara,
Porque subtrai à tarde
O que lhe deu a manhã.

Estamos desperdiçando a páscoa, moças,
Estamos desperdiçando a páscoa!

Notai que quando pensais
que os sinos da vida anun-
ciam os sinais da aurora
já é o fim, e os apartam
de vossa cor e esplendor,
de vossa elegância e graça,
e estais todas perdidas,
além das próprias idades.*

Estamos desperdiçando a páscoa, moças,
Estamos desperdiçando a páscoa!

Sei de uma boa velhinha
Que um dia foi loira e clara
E hoje muito lhe custa
Entrever o próprio rosto,
Porque sua lustrosa face
E suas bochechas estão
Mais murchas e enrugadas
Do que roquete de bispo.

Estamos desperdiçando a páscoa, moças,
Estamos desperdiçando a páscoa!

E sei de outra boa idosa
Com um dente cai-não-cai
Deixou-o no outro dia
Sepultado em chantili,
E com lágrimas lhe disse:
“Dente meu de minha alma,
Eu sei quando foste pérola,
E agora não és mais branco.”

Estamos desperdiçando a páscoa, moças,
Estamos desperdiçando a páscoa!

Por isso, moçoilas loucas,
Antes que a velhice avara
Os loiros cabelos fulvos
Converta em luzente prata,
Amai quando amadas fordes,
Se houver oportunidade.

Trad.: Nelson Santander

¡Que se nos va la Pascua, mozas

¡Que se nos va la Pascua, mozas,
Que se nos va la Pascua!

Mozuelas las de mi barrio,
Loquillas y confiadas,
Mirad no os engañe el tiempo,
La edad y la confianza.
No os dejéis lisonjear
De la juventud lozana,
Porque de caducas flores
Teje el tiempo sus guirnaldas.

¡Que se nos va la Pascua, mozas,
Que se nos va la Pascua!

Vuelan los ligeros años,
Y con presurosas alas
Nos roban, como harpías,
Nuestras sabrosas viandas.
La flor de la maravilla
Esta verdad nos declara,
Porque le hurta la tarde
Lo que le dio la mañana.

¡Que se nos va la Pascua, mozas,
Que se nos va la Pascua!

Mirad que cuando pensáis
Que hacen la señal del alba
Las campanas de la vida,
Es la queda, y os desarman
De vuestro color y lustre,
De vuestro donaire y gracia,
Y quedáis todas perdidas
Por mayores de la marca.*

¡Que se nos va la Pascua, mozas,
Que se nos va la Pascua!

Yo sé de una buena vieja
Que fue un tiempo rubia y zarca,
Y que al presente le cuesta
Harto caro el ver su cara,
Porque su bruñida frente
Y sus mejillas se hallan
Más que roquete de obispo
Encogidas y arrugadas.

¡Que se nos va la Pascua, mozas,
Que se nos va la Pascua!

Y sé de otra buena vieja,
Que un diente que le quedaba
Se lo dejó este otro día
Sepultado en unas natas,
Y con lágrimas le dice:
«Diente mío de mi alma,
Yo sé cuándo fuistes perla,
Aunque ahora no sois caña.»

¡Que se nos va la Pascua, mozas,
Que se nos va la Pascua!

Por eso, mozuelas locas,
Antes que la edad avara
El rubio cabello de oro
Convierta en luciente plata,
Quered cuando sois queridas,
Amad cuando sois amadas,
Mirad, bobas, que detrás
Se pinta la ocasión calva.

¡Que se nos va la Pascua, mozas,
Que se nos va la Pascua!

Nota do tradutor: de acordo com Dámaso Alonso as expressões “mayor es de la marca” ou “de más de lamarca” se referiam a espadas ou outros objetos que excediam o tamanho permitido. Cervantes a emprega inúmeras vezes referindo-se a espadas. A expressão se generalizou e logo passou a significar “o que excedia o permissível ou tolerável” (…) Desta ampliação de significado se vale Góngora para dizer que as moças estarão perdidas, mais velhas do que a própria idade para o amor” (ALONSO, Dámaso. Góngora y el Polifemo. v. 2. Madrid: Gredos, 1967 – https://revistas.ufpr.br/letras/article/download/18945/12265 ).

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