Óscar Hahn – Abalo sísmico

Tive uma vez um grande amor
que derrubou minha casa
trincou minhas pontes
e me fez perder o equilíbrio.
Depois, vieram as réplicas:
aventuras de baixa intensidade
que nem sequer
me fizeram tremer
Quanto ao grande amor
pobre de mim
ainda respira
debaixo das ruínas

Trad.: Nelson Santander

Movimiento Sísmico

Tuve una vez un gran amor
que derribó mi casa
agrietó mis puentes
y me hizo perder el equilibrio
Después vinieron las réplicas:
amoríos de baja intensidad
que ni siquiera
me hicieron temblar
En cuanto al gran amor
ay mísero de mí
todavía respira
debajo de las ruínas

Antonio Pérez Morte – Para Berta

Para restabelecer a infância, uma bola de gude.
Para a adolescência um beijo,
                                  um verso,
                                  uma esperança.

Para a juventude,
um compromisso de amor definitivo.
Para a maturidade, talvez a rebeldia,
                                  a eterna, renovada,
                                  incombustível rebeldia
                                  daqueles velhos derrotados
                                  que nunca se deram por vencidos.

Trad.: Nelson Santander

Para Berta

Para recuperar la infancia, una canica.
Para la adolescencia
un beso,
un verso,
una esperanza.

Para la juventud,
un compromiso
de amor definitivo.

Para la madurez,
quizá la rebeldía,
la eterna,
renovada,
incombustible rebeldía
de aquellos viejos derrotados
que nunca
se dieron por vencidos.

Javier Salvago – Quinta-feira Santa

A mesma lua, o mesmo
aroma de laranjeiras
perfumando as ruas,
onde a vida explode

em uma multidão de corpos
que se atraem e se buscam.
Calor de primavera
na pele e no ar.

Jovens incansáveis,
como nós naquela época,
percorrem a cidade
bêbados de desejo

— jovens com invernos
de abstinência, que sentem,
como Ele, que também
seu reino não é deste mundo —.

Os tambores lembram
que estão indo para o patíbulo.
Diante de virgens chorosas,
com despudor, os deuses

que vão morrer se beijam
— como os deuses que ontem fomos —,
sem remédio nem culpa,
na cruz dos anos.

Trad.: Nelson Santander

Jueves Santo

La misma luna, el mismo
perfume del naranjo
aromando las calles,
donde la vida estalla

en multitud de cuerpos
que se atraen y se buscan.
Calor de primavera
en la piel y en el aire.

Jóvenes incansables,
como entonces nosotros,
recorren la ciudad
borrachos de deseo

— jóvenes con inviernos
de abstinencia, que sienten,
como Aquél, que tampoco
su reino es de este mundo —.

Los tambores recuerdan
que se marcha al patíbulo.
Ante llorosas vírgenes,
con descaro, se besan

dioses que morirán
— como el dios que ayer fuimos —,
sin remedio ni culpa,
en la cruz de los años.

Jorge Valdés Días-Vélez – O olival

Não direi a oração que se pronuncia
em outras ocasiões como esta.
Eu vim para enterrar-te. E o meu silêncio
é o outro lugar para onde foste.
Porque não há mais verdade do que a tua memória
e nada a dizer que tu não saibas.
Talvez alguma imagem te restitua
a sombra original, a água de jarro
nos lábios de tua sede, talvez as flores
que incendiavam o quarto com luz pura,
a evocação teimosa de suas corolas
atrás de uma janela, entre as linhas
de Ungaretti ou Cernuda que esquecemos.
Mas tudo é real e é diferente
o ar que aqui respiro, tão fora
de tua respiração e suas raízes. Amanhã
irão ligar e com certeza
alguém dirá que não, que ainda não chegaste.
Seguirá o vale cinzento com suas oliveiras
secando ao sol como se nada
tivesse continuação, e será em vão
que perguntem por ti. Tu terás partido.

El olivar

No diré la oración que se pronuncia
en otras ocasiones como ésta.
Yo he venido a enterrarte. Y mi silencio
es el otro lugar a donde has ido.
Porque no hay más verdad que tu memoria
y nada por decir que no conozcas.
Acaso alguna imagen te devuelva
la sombra original, agua de jarro
en labios de tu sed, tal vez las flores
que incendiaban la estancia con luz pura,
la terca evocación de sus corolas
detrás de un ventanal, entre las líneas
de Ungaretti o Cernuda que olvidamos.
Pero todo es real y es diferente
el aire que respiro aquí, tan fuera
de tu aliento y sus raíces. Mañana
llamarán por teléfono y seguro
alguien dirá que no, que no has llegado.
Seguirá el valle gris con sus olivos
resecándose al sol como si nada
tuviera sucesión, y será en vano
que pregunten por ti. Tú habrás partido.

Joan Margarit – Dignidade

Se a desesperança
tem o poder de uma certeza lógica,
e a inveja uma programação tão secreta
quanto um trem militar,
já estamos condenados.
O castelhano me sufoca, embora nunca o tenha odiado.
Ele não é culpado por sua força
e muito menos por minha fraqueza.
Ele foi, ontem, um idioma bem articulado
para pensar, negociar, sonhar,
que já ninguém mais fala: um subconsciente
de perdas e ambições
onde soam belíssimas canções.
O presente é o idioma das ruas,
maltratado e espúrio, que se agarra
feito hera às ruínas da história.
O idioma em que escrevo.
Também é um idioma bem articulado
para pensar, negociar. Para sonhar.
E as velhas canções
se salvarão.

Trad.: Nelson Santander

Dignidad

Si la desesperanza
tiene el poder de una certeza lógica,
y la envidia un horario tan secreto
como un tren militar,
estamos ya perdidos.
Me ahoga el castellano, aunque nunca lo odié.
Él no tiene la culpa de su fuerza
y menos todavía de mi debilidad.
El ayer fue una lengua bien trabada
para pensar, pactar, soñar,
que no habla nadie ya: un subconsciente
de pérdida y codicia
donde suenan bellísimas canciones.
El presente es la lengua de las calles,
maltratada y espuria, que se agarra
como hiedra a las ruinas de la historia.
La lengua en la que escribo.
También es una lengua bien trabada
para pensar, pactar. Para soñar.
Y las viejas canciones
se salvarán.

Alfonso Brezmes – Os outros

São as formas que a memória assume.
A sensação de ter estado lá
apesar de todas as evidências em contrário;
um algo onde havia um buraco,
um buraco onde havia alguém;
a dor deste membro fantasma
que se parece muito com a vida;
os ecos familiares que Verlaine citava
naquele poema que ainda perdura
em uma distante sala de aula da infância;
e, para concluir o quadro, nós:
os velhos e cativantes fantasmas
dos quais os demais ainda se lembram,
quase com as mesmas vozes e gestos
de quando estávamos vivos.

Trad.: Nelson Santander

Los otros

Son las formas que adopta la memoria.
La sensación de haber estado allí
pese a toda la evidencia en contra;
un algo donde había un hueco,
un hueco donde había alguien;
el dolor de este miembro fantasma
que se parece mucho a la vida;
los ecos familiares que citaba Verlaine
en aquel poema que aún perdura
en un aula perdida de la infancia;
y, para terminar la foto, nosotros:
los viejos y entrañables espectros
que los demás aún recuerdan,
casi con la misma voz y ademán
que cuando estuvimos vivos.

Javier Salvago – Retrato

Fala pouco, e a bem poucos
se permite chamar de amigos,
segue adiante se há tumulto,
não visita os vizinhos,

cruza a rua fumando,
sempre voltado para dentro,
vendo o mundo de fora
como quem lê um livro,

enredado – sem saída –
no próprio labirinto,
mas nem surdo nem cego
nem indiferente nem frio:

um solitário que vive
com uma mulher e um filho.

Trad.: Nelson Santander

Retrato

Habla poco, y a muy pocos
se atreve a llamar amigos,
pasa de largo si hay bulla,
no visita a sus vecinos,

cruza la calle fumando,
siempre dentro de sí mismo,
viendo el mundo desde fuera
igual que quien lee un libro,

atrapado — sin salida —
en su propio laberinto,
pero ni sordo ni ciego
ni indiferente ni frío:

un solitario que vive
con una mujer y un niño.

Ernesto Pérez Vallejo – Com vista para dentro

Não sou o melhor homem que já conheceste,
nem metade do bom que ainda te falta descobrir por aí,
nem sequer tenho estudos, e minha voz
treme diante de qualquer um que me olha nos olhos.
Minha tristeza pesa mais aos domingos,
mas na verdade é meu estado mais corriqueiro.
Às vezes, tenho crises de ansiedade,
às vezes, de raiva;
tenho uns vinte segundos complicados nos quais posso
desde matar um homem até dormir em paz.
Não diria que sou louco, mas um são fora do padrão.

Sério, sou um desastre,
nem fiel eu sou.
Se ouço uns saltos altos, ensaio um bailado lúbrico,
se vejo um decote, busco o mar em outros portos,
melhor nem falar se o poente
resolver levantar uma saia na minha frente.
A última vez que pedi perdão
eu tinha dezenove anos,
e ele já não podia me ouvir.

Faz tempo que não confio em ninguém,
a esperança me parece um ato masoquista,
a fé, um truque barato de ilusionismo,
o destino, uma folha em branco
em que escrevo com erros ortográficos
só para que ele também não saiba me guiar.

Talvez se fores agora,
alguém possa te dar o prazer
que não concebo sem dor.
Alguém, qualquer um,
poderá fazer-te promessas lindas, dessas
que nunca se cumprem
e tu consigas sorrir com alguma dignidade,
atando teus sonhos a um futuro inexistente.

Creio, quando olho tua boca,
que há mulheres que deviam ter mais cuidado
em ocultar o sorriso do que a calcinha.
Mas isso quase só me acontece contigo.

Suponho que tua boca seja capaz de escravizar um homem.
E, sinceramente, a esta altura de minha vida
o fácil seria não resistir.
Me deixar levar ou me jogar,
porque quando a abres assim, como quem boceja do nada,
eu vejo um precipício onde cair é erguer-se
e fugir é conseguir que o abismo
te persiga até te derrubar.
E uma vez deitados, já sabes: o amor
para mim sempre teve sabor de boceta.

Mas é verdade:
devias ir embora,
deixar que o amor te surpreenda pelas costas,
e deixar na porta um eu te amo
pra que, se um dia eu sair e não souber quem sou, possa lembrar.

Porque se ficares,
não saberás o que penso quando penso demais,
nem ouvirás um eu também depois de um eu te amo,
porque eu jamais soube forçar palavras,
e já é tarde para contrariar meu próprio abecedário.
E nunca saberei pedir que fiques,
nem que esse seja meu maior desejo,
porque se eu pudesse fugir de mim mesmo,
também o faria.

E mesmo que decidas ficar,
não serei capaz de escrever nenhum verso decente em teu nome
porque seria demasiado feliz
para ser poeta.

Talvez tu não entendas que há pessoas
que precisam sentir saudade
para não se sentirem demais.
Que há quem ache que sorrir hoje em dia
é um insulto,
respirar, um ato de ousadia,
viver, um surto,
perder, uma rotina.

Talvez não percebas que sou esse tipo de pessoa.
Alguém incapaz de voar sem ressaca,
um cara que aposta na carta mais alta
sua próxima derrocada.
Um algo que não é alguém
se seu nome não soa
do buraco mais profundo
de um boteco de beira de estrada.

Deverias partir,
recolher tuas carícias de minha pele,
atravessar-me o coração de dentro para fora,
de modo que, pelo buraco no meu peito,
possas ver os escombros que deixaste com tua partida.
Ignorar o que vês em meus olhos,
o que gritam minhas pálpebras quando olho para ti
porque, no fim das contas, somente a ignorância
pode fazer felizes as pessoas.

E descer as escadas com teus saltos pretos,
os mesmos que eu descalçava de ti com a boca,
toda noite em que o desejo
nos punha de joelhos.
E perder-te rua abaixo,
como se perdem os ônibus e os carros
e as putas da rua Magdalena
e as mães dos meninos de colégio.
Como se perdem as nuvens que não molham
ou o sol que não aquece.
Sem um adeus, sem um até nunca,
só silêncio.

Deverias partir agora mesmo,
porque é o único jeito de sabermos
se eu realmente preciso de ti.

Trad.: Nelson Santander

 

Con vistas al interior

No soy el mejor hombre que has conocido,
ni la mitad de bueno de los que te quedarían por explorar,
ni siquiera tengo estudios y mi voz
se quiebra ante cualquiera que me mire a los ojos.
Mi tristeza se acentúa los domingos
pero en realidad es mi estado más corriente.
A veces sufro ansiedad,
también ira,
tengo veinte segundos complicados en los que puedo
desde matar a un hombre a dormir sin ella.
No diría que estoy loco pero soy un cuerdo anormal.

En serio, soy un desastre,
ni siquiera soy fiel,
si escucho tacones bailo canciones perversas,
si veo un escote busco el mar en otros puertos,
mejor no hablar si al poniente
le da por levantar una falda en mi presencia.
La última vez que pedí perdón
tenía diecinueve años
y el ya no podía escucharme.

Hace tiempo que no confío en nadie,
la esperanza me resulta un acto masoquista,
la fe un mal truco de magia,
el destino un folio en blanco
que escribo con faltas de ortografía
para que el tampoco sepa guiarme.

Quizás si te vas ahora,
alguien podrá darte el placer
que no concibo sin dolor.
Alguien, cualquiera,
podrá hacerte promesas preciosas de esas
que jamás se cumplen
y tu puedas sonreír dignamente,
atando tus sueños a un futuro que no existe.

Creo cuando miro tu boca,
que hay mujeres que deberían poner más cuidado
en esconder la sonrisa que las bragas.
Pero esto casi solo me ocurre contigo.

Supongo que tu boca es capaz de hacer esclavo a un hombre.
Y seguramente a estas alturas de mi vida
lo fácil sería no rebelarse.
Y dejarme llevar o caer,
porque cuando la abres así como quién bosteza sin más
yo veo un precipicio donde caer es levantarse
y huir de ella es conseguir que el vértigo
te persiga hasta que te tumbe.
Y tumbados ya sabes que el amor
a mí siempre me ha sabido a coño.

Pero es cierto,
que deberías marcharte,
a que el amor te sorprenda por la espalda
y dejar en la puerta un te quiero
por si un día al salir no se quien soy.

Porque si te quedas,
no sabrás que pienso cuando pienso tanto,
ni oirás un yo también después de un te amo,
porque jamás supe forzar una palabra
y ya es tarde para contradecir mi abecedario.
Y no sabré decir nunca que te quedes,
ni aunque sea mi deseo primordial
porque si yo pudiera irme de mi mismo,
también lo haría.

Ni siquiera si decides quedarte
podré escribir algún verso decente en tu nombre
porque sería demasiado feliz
para ser poeta.

Quizás no entiendas que hay gente,
que necesita echar de menos
para no echarse de más.
Que hay gente a la que sonreír en estos tiempos
le parece un insulto,
que respirar una osadía,
que vivir un arrebato,
que perder una rutina.

Quizás no entiendas que soy de ese tipo de gente.
Alguien incapaz de volar sin resaca,
un tipo que se juega a la carta más alta
su próximo desequilibrio.
Un algo que no es alguien
si no suena su nombre
desde la garganta más profunda
de un bar de carretera.

Deberías irte,
recoger tus caricias de mi espalda,
atravesar mi corazón hacía fuera,
que pueda verse en el agujero de mi pecho
los escombros que has dejado tras tu marcha.
Ignorar aquello que ves en mis ojos,
lo que te gritan mis párpados cuando te observo
porque en realidad solamente la ignorancia
puede hacer feliz a las personas.

Y bajar las escaleras con tus tacones negros,
los mismos que te quitaba con la boca,
cada noche que el deseo
nos ponía de rodillas.
Y perderte calle abajo,
como se pierden los autobuses y los coches
y las putas de la calle Magdalena
y las madres de los niños de colegio.
Como si pierden las nubes que no mojan
o el sol que no calienta.
Sin un adiós, sin hasta nunca,
solo silencio.

Deberías irte ahora mismo,
porque es el único modo que tenemos de saber
si de verdad te necesito.

Jorge Valdés Díaz-Vélez – O fotógrafo e a modelo

O tempo que foi sempre teu inimigo
se deteve em tua imagem. Já és aquela
garota do calendário, a princesa
sem fábulas, o anjo que consigo

pendurar em qualquer nuvem. De ouro e trigo
a luz encaracolada em tua cabeça,
a areia que acaba onde começa
a linha de teu sexo. Estás comigo

e não tens tristezas nem pesares
nem compromissos por honrar. Apenas repousas
imóvel no quadro, entre palmeiras
de plástico e congeladas mariposas

roubadas do Cântico dos Cânticos.
Não sabes que não morreste. Se soubesses…

Trad.: Nelson Santander

El fotógrafo y la modelo

El tiempo que fue siempre tu enemigo
se detuvo en tu imagen. Ya eres esa
chica de calendario, la princesa
sin fábulas, el ángel que consigo

colgar de cualquier nube. De oro y trigo
la luz ensortijada en tu cabeza,
la arena que se acaba en donde empieza
la línea de tu sexo. Estás conmigo

y no tienes tristezas ni pesares
ni citas por cumplir. Sólo reposas
inmóvil en el cuadro, entre palmeras
de plástico y heladas mariposas

robadas del Cantar de los cantares.
No sabes que no has muerto. Si supieras.

Juan Vicente Piqueras – Lázaro se recusa a ressuscitar

Um dia ouvi vozes que vinham de fora.
Finalmente!, vozes de fora, pensei – vozes de outros
que levam a luz dentro de si e a revelam,
que vem até mim do ar, e não de mim.

Vozes que ao se aproximarem, viraram sussurros.
Passos que pararam diante da minha porta.
Alguém disse: Aqui jaz, como se lesse.
Os demais ficaram em silêncio.
Uma voz me chamou: Lázaro, disse,
levanta-te e anda.
Eu a reconheci, mas fingi não ouvi-la.
Lembrei-me de Jonas. Fiquei em silêncio.
Pensei: Preferiria
não fazê-lo
, nunca sair daqui.

Conheço bem demais o mundo.
Lá fora, eu sei, espreita o mau amor,
seu mel amargo, seu engano, sua ameaça.

Levanta-te de ti. Sai de tua tumba.
Mas eu detestava os milagres.
E, além disso, tinha
demasiado apreço pela minha vida de morto.

Deixei passarem os anos. Agora espero
uma voz que me chame, que me diga
o que devo fazer, o que desejo.

Trad.: Nelson Santander

Lázaro se niega a resucitar

Un día oí unas voces que venían de afuera.
Por fin voces de afuera, pensé, voces de otros
que llevan la luz dentro y que la dicen,
que me llegan del aire y no de mí.

Voces que al acercarse eran susurros.
Pasos que se pararon delante de mi puerta.
Alguien dijo: Aquí yace, como si lo leyese.
Callaron los demás.
Una voz me llamó: Lázaro, dijo,
levántate y anda.
Yo la reconocí pero fingí no oírla.
Me acordé de Jonás. Me quedé quieto.
Pensé: preferiría
no hacerlo
, no salir nunca de aquí.

Conozco demasiado bien el mundo.
Allá afuera, lo sé, acecha el mal amor,
su amarga miel, su engaño, su amenaza.

Levántate de ti. Sal de tu tumba.
Pero yo detestaba los milagros.
Y además le tenía
demasiado cariño a mi vida de muerto.

Dejé pasar los años. Ahora espero
una voz que me llame, que me diga
lo que tengo que hacer, lo que deseo.