Categoria: Poesia em Língua Espanhola
-
Joan Margarit – Oceano Atlântico, 1956

Preferia o mercante, sua solidão. Estavaenvolto em silêncio. Pareciaque navegava sem tripulação,e que o mar era um navio,maior ainda, de mármore, que o balançava.Era maravilhoso subir ao convés,entre caixas de bananas: o peso delasafundava o navio até a linha d’águaem meio às ondas como montanhas.O navio, às vezes, adernava:parecia atender a alguma voz do mar.Havia…
-
Joan Margarit – A felicidade

O vento do norte varre o mar,prata plana perto da praiae agitada junto ao horizonte:é como se, com seu pincel, o ventopintasse um quadro da costa: o mar,o porto e aquela barraca solitáriaque abre todo inverno.As gaivotas planam e suas asasindiferentes e confiantesse adaptam às rajadas de ventocomo foices imóveis.Mas a noite tudo apagou:os postes…
-
Joan Margarit – Sant Just, 2 de março de 2001

Suavemente, as rodas da cadeirate levam para casa. As nuvens violáceasacumulam-se atrás dos telhados.Todas te dizem coisas: tu, tímida, respondessorrindo, mas às vezescom um vazio dentro dos olhosque reflete a luz da tempestade. E a chuva começa a falar contigocomo uma mãe perigosa e acolhedora,pedindo de longe que regresses.Buscas — molhada, absorta — no umbralos…
-
Joan Margarit – Pai e filha

Diante das janelas que se abrem para o pátioele adormeceu na poltrona,ao lado do sofá onde ela descansava.O jovem rostoque a morfina havia endurecido,tinha aos poucos deixado seu sorrisono ontem que guardam os retratos.À noite, ele a carregou para o quarto,colocou-a para dormir e fechou as persianas. E se deu conta, diante do sofá vazio,de…
-
Joan Margarit – Metrô Fontana

Começava a noite nas estreitasruas de Gràcia, todas com as luzesde natal mesclando-se à multidão.Dos bares repletos nos chegavamas vozes altas e alegres dos rapazes e das moças.Cercavam-nos sorridentes os casacos,os faróis e flashes de luz do comércio,os casais fugazes em suas motoscom os rostos ocultos pelo capacete.Via Joana por toda parte:surgia por toda parte…
-
Joan Margarit – Manhã de domingo com a música de Lluís Claret

Na hospitalidade do sol de invernode domingos passados,estávamos muito tristes com o que desconhecias.Já os aplausos — como gostavas,tão séria, dos aplausos — cediamà peça solene de Berlioz.A viola — nunca o saberás — já eraa voz acolhedora da Morte. Lluís subiu ao palco comseu violoncelo. Não tarda o ouviremostocar a «Aria pastoral» de Bachpara…
-
Joan Margarit – Às quatro da madrugada

Uiva o primeiro cão, e imediatamentehá um eco em um pátio, outros ressoamao mesmo tempo em um único latido,acerbo, sem ritmo nenhum.Ladram com seus focinhos levantados.Oh, cães, de onde viestes?Que manhã me evoca vossa noturna queixa?Ouço como acossais o sonho de minha filhade vosso catre, em meio aos excrementoscom os quais demarcastes um territóriode becos,…
-
Joan Margarit – Amanhecer em Cádiz

Em frente ao hotel, o mar enevoado.As longas linhas da espuma cinzadesenham uma barreira de recifediante da balaustrada da praia.Ouvi teu nome pronunciado na línguado mar. E ele diz que estás partindo. Repetem-no as negras, solitárias cegonhasque em silêncio planam sobre a água.Nunca saberei o que sabes tu de mim,ou em que verdade estivemos juntos,ou…
-
Joan Margarit – Riera Pahissa

RIERA PAHISSA […] why abandon a belief merely because it ceases to be true?ROBERT FROST Deixava-te na entrada da escola,em frente ao estreito portão daquele muro que, encerrando a horta de um convento,seguia o leito seco de um riacho.Por uma pequena ponte de ferro com tábuascruzava-se a ravina sobre o brilhode algumas poucas poças como…
-
Joan Margarit – Não há milagres

Chovia preguiçosamente.Dezenove de outubro, nove da noite.Joana foi assustada para a sala de cirurgiaem nossa companhia.Quando entrou, ficamos esperandona sala mal iluminada ao lado dos elevadores.Contam que, em uma tentativade se salvar, ela disse um eu te amo ao cirurgião.Acreditávamos que uma fada poderia nos devolverJoana, calma, como sempre,com seus confiantes olhos cintilantes.Às onze, observamosas…