Categoria: Poesia em Língua Espanhola
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Francisco Brines – Últimos dias

Na herdade ele confina a memóriae o corpo que declina. Tudo morresobre este mundo vivo; e a laranjeira,e o voo do pombo, são traspassadospor um raio outonal de azul.Acompanham-lhe os livros; as caminhadastrazem até ele o odor de rosas abertas,e o suave abatimento dos dias.Ele ardeu na solidão, e agora escutaa primavera viva dos melros.Dias…
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Joan Margarit – Faróis na noite

Tento seduzir-te no passado.As mãos ao volante e esta luzde boate no painel me permitem– fantasia invernal – dançar contigo.Atrás de mim, como um grande caminhão,o amanhã fabrica explosões de luzes.Ninguém o conduz e ele me ultrapassa,mas agora tu e eu viajamos juntose a carruagem pode ser a dos cavalosdos anos sessenta para Paris.“Je ne…
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Francisco Brines – Discurso pagão

Achais, por acaso, que por crerdesna imortalidadeela vos deve ser dada?Ela é obra da fé, do egoísmoou da desolação.E, se existe, não importa não haverdes nela acreditado:respostas ignorantes são todas humanasse a morte interroga. Continuai com vossos faustosos ritos, oferendas aos deuses,ou grandes monumentos funerários,as acolhedoras preces, vossa esperança cega.Ou aceitai o vazio que virá,onde…
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Jorge Valdés Díaz-Vélez – A última vez de Casanova

Giacomo se envolve no crepúsculo do Florian Perguntas-me, Lesbia, quantos dos teus beijosseriam suficientes para me satisfazer.Catulo Enquanto beijo tua boca, docedonzela na conquista, mordoas comissuras de tua mãee os lábios que tuas irmãscedem ao peso do desejo;beijo as próximas mulheresdistantes e ainda desconhecidaspor minha cobiça, aquelasque um dia serão tu em outratu, que agora…
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Javier Salvago – Outra idade

Já passou a idade de ser poetaporque tudo passa, é a lei da vida;embora eu continue, por dependência ou vício, falando a um pedaço de papel, a poesiajá não é mais minha pátria, nem meu território.Só regresso às vezes, de visita, como quem volta para onde foi feliz. Trad.: Nelson Santander Otra edad Se me…
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Juan Vicente Piqueras – A praga de Tebas

A praga de Tebas E o que quer que eu faça se torna para sempre o que eu fiz.Wisława Szymborska Quando a tragédia começouo crime já havia sido cometido.A tragédia era, agora, descobrir o delitoe o culpado. Eu teria preferido a ignorância.Tu optaste por indagar contra ti. O passado é mais forteque Deus. Ninguém, nem…
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Miguel D’Ors – Variações sobre um tema de Stevens

Não é o canto do melro:é o silêncioque nos deixa, um silêncioque é algo diferente do silêncioporque nele ainda soaa lembrança do cantodo melro. Nem silêncionem canto: o que acontecequando o cantojá terminoue ainda não começou o silêncio.Podes chamá-lo de alma. Trad.: Nelson Santander Variaciones sobre un tema de Stevens No es el canto del…
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Joan Margarit – Arcadi Volodos: Sonata D894

É uma música modestacomo um jantar na cozinha,hospitaleira como ter tido filhos.Compadece-se do corpoque a maré arrastaà praia invernal de cada um.Que franqueza nas notas mais abruptasdizendo-me: é amortambém aquilo que parece hostil.Quando se extingue o eco do piano,o que escutei ainda me estremece.A música de Schuberté uma forma de caridade. Trad.: Nelson Santander Arkadi…
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Jorge Valdés Díaz-Vélez – Matzhevá

/ Em um livro do meu pai, leioa frase: «A ti, que me lês».É o título de uma elegiaescrita há dois séculos, ou um soprode solitude que se elevouao leitor imaginário de fora dos círculos do tempo.Essa linha guarda em cada sílabaa fresca impressão de sua veemência:ser uma semente indócil em algum dialimítrofe ao de agora,…
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Juan Vicente Piqueras – O testemunho do gajeiro

Para falar a verdade, pareceu-me outro gesto de presunção,muito dele,aquela urgência com que nos pediuque o amarrássemos ao mastropara escapar do canto das sereias. As sereias cantavam, isso é verdade,mas não exatamente para seduzi-lo. E por que não a qualquer um de nós?Por que elas deveriam tentar seduzir alguém?Quem pode garantir que não estavam cantando simplesmente?Ou…