Joan Margarit – Coisas em comum

Ter-nos conhecido
em um outono num trem que ia vazio;
A radiante, embora cruel,
promessa do desejo.
A cicatriz da melancolia
e o velho afeto com o qual compreendemos
os motivos do lobo.
A lua que acompanha o trem noturno
Barcelona-Paris.
Uma faca de luz para os crimes
que por amor devemos cometer.
Nossa maldita e inocente sorte.
A voz do mar, que sempre te dirá
onde estou, porque é nosso confidente.
Os poemas, que são cartas anônimas
escritas de onde não imaginas
à mesma menina que em um outono
conheci naquele trem que ia vazio.

Trad.: Nelson Santander
Cosas en Común 

Habernos conocido
un otoño en un tren que iba vacío;
La radiante, aunque cruel
promesa del deseo.
La cicatriz de la melancolía
y el viejo afecto con el que entendemos
los motivos del lobo.
La luna que acompaña al tren nocturno
Barcelona-París.
Un cuchillo de luz para los crímenes
que por amor debemos cometer.
Nuestra maldita e inocente suerte.
La voz del mar, que siempre te dirá
dónde estoy, porque es nuestro confidente.
Los poemas, que son cartas anónimas
escritas desde donde no imaginas
a la misma muchacha que un otoño
conocí en aquel tren que iba vacío.

Nickole Brown – Susto

Deixe-me dizer-lhe — nenhum animal de longe é o mesmo
que de perto. Ou seja, uma baleia em uma revista pode
parecer majestosa e livre, mas o que você não vê é
quão perto da superfície ela adormece,
como a luz a empola deixando-a em carne viva e como
as gaivotas rasgam sua pele queimada pelo sol, alçando ao ar
os bicos repletos de sua carne orgulhosa.
Ou você pode acreditar que o rinoceronte é uma fera

com visão tão pobre que não se preocupa em
distinguir uma forma à sua frente antes de
sair correndo do mato, carregando
seu pré-histórico chifre primordial, mas venha comigo — conheça Jo,
o solitário rinoceronte-negro no zoológico. Seu zelador disse,
Não se preocupe, ele não vai morder, e efetivamente
eu coloquei minha mão na intimidante cavidade
de sua boca, e dentro dela estava

docemente rosado e quente. Ele gentilmente recebeu
a guloseima que deixei cair lá, e fechou as almofadas macias de seus olhos
enquanto mastigava. Depois, ele encostou na cerca
para se coçar, e, trêmula, eu o alcancei para tocar
o concreto vivo de suas costas.

Ou pegue o pardal — inofensivo chilreador
suburbano, comum como uma batata frita — já os vi
sangrentos depenando uns aos outros, arrancando penas para forrar
seus próprios ninhos, e não é segredo que eles costumam reunir
seus parentes, e despachar os filhotes de suas irmãs com facilidade.
Veja, uma vez, quando tive câncer,

ou pelo menos novamente pensei que tinha, um desses pássaros elétricos
guerreou contra o seu reflexo em minha janela, e diante de um adversário
igual a si mesmo, ele quebrou o próprio pescoço.
Portanto, não se deixe enganar pelas palavras:

É só um susto. Foi apenas um susto.
Rainha da recusa, a palavra é rápida para exalar um
OhGraçasaDeus, para suspirar: essa foi por pouco. Mas ouça: a palavra é
uma película, uma pele amniótica arrancada de um recém-nascido para que ele possa
respirar, mas também uma membrana de presságio e sexto sentido.
O susto é a ameaça de morte que se foi, mas ameaça
concretizada; o susto é a sua vida de volta, mas pior,
sua vida que volta a ser como era — você irá brigar
novamente e da-la por certa outra vez,
e todas aquelas promessas
feitas a Deus e aos céus
se sua doença fosse expurgada você

irá quebrar. Isso mesmo: eu perdi
todas as chances — seis vezes já, eu vi como a morte
pode me encontrar em cada núcleo tumoral perfurado e extirpado,
cauterizado e cortado, e entre a detecção
e o diagnóstico eu pensei que, pelo menos, conseguiria acertar
a última parte dos meus dias com tão pouco
pela frente. Agora, estou novamente livre, mas o prognóstico
ainda faz cócegas em minha garganta — não é e se
mas quando. O que quero dizer é
que fui levada até a beira
da mata, perto o suficiente para encontrar uma manada de bisões
que um amigo mantinha, e quando o touro se aproximou do nosso caminhão
vi primeiro uma criatura sublime, um soberano do passado,
mas quando ele estava perto o suficiente para sentir o cheiro da estranha que eu era
em seu domínio, eu vi uma fileira perfeita de moscas bebendo
da borda úmida de seus olhos perfeitos, e como o círculo alado
delas persistia mesmo quando ele piscava como se ainda pudesse ver
os incontáveis de sua espécie que um dia foram assassinados naquele lugar. Ouça.
Eu não sou ingrata: sobrevivi

a outro verão para ver tal coisa.
E não tenho mais pena de mim mesma
do que tenho de todos nós que temos que
partir. Só quero dizer que quando tive a certeza de que
minha medula havia azedado e estava me matando
de dentro pra fora, eu sonhei que todo animal
era uma gaiola e dentro de cada animal havia outro
animal, outra gaiola. Quando acordei, pretendia
escrever sobre o sonho mas em vez disso escrevi
duas palavras: estou assustada.

Agora, eu me curei. Fui abençoada com
outro atestado de saúde. Mas o susto aumentou de
tamanho. Agora, eu volto. Eu reviso minha inserção
inicial. Eu risco assustada e escrevo apavorada,
então mudo para aterrorizada. Não. Tente novamente.
Eu escrevo: Sinto muito. Estou paralisada, Senhor. Estou
profundamente assustada. Você pode me ouvir? Eu sou um animal
que sabe que vai morrer. Você pode me deixar ficar
na minha jaula?

Nota da autora:

Tenho um corpo propenso a inchaços, caroços e miomas, tumores que – desde os meus dezesseis anos – me aterrorizaram cada vez que descobri que tinha um. Felizmente, até agora, todos eles eram benignos, mas depois de tantas surpresas assustadoras espreitando dentro de mim, eu tive uma relação difícil com meu corpo. Uma solução que encontrei foi me dedicar ao estudo e à observação de animais. Nada é tão reconfortante para mim quanto vestir meu macacão e limpar um celeiro; nada é tão estimulante para mim quanto estar na presença de animais e ouvir o que eles podem ter para ensinar. Quando estava lutando com a incerteza de um tumor no interior da minha perna, passei dias e dias no Zoológico de Little Rock e foi lá que encontrei aquele rinoceronte – uma experiência profunda durante aquela temporada no fogo do inferno. Muitos anos mais tarde, não muito tempo depois da remoção de uma grande massa abdominal, dois queridos amigos do Tennessee me levaram para conhecer uma manada de bisões que eles mantêm, e jamais esquecerei o poder daquele touro saindo da floresta, aproximando-se para farejar minha presença desconhecida. Então, sim, o modo profundamente corporificado dos animais me ajudou a superar, mas é igualmente importante não romantizá-los ou transformá-los em metáforas para nosso próprio uso — suas realidades são muito mais complexas do que as ideias que temos sobre eles, e eles freqüentemente sofrem, assim como nós. Esse é o foco deste poema. Suponho que o que tudo isso me ensinou foi como estamos profundamente interconectados com nossos parentes não humanos. Conhecer a realidade mais profunda dos animais não torna a história fácil, significa que eu, você e todos os seres vivos pertencemos – todos nós, juntosa esta terra. Nenhum de nós, vivos – humano ou não -, está sozinho em nosso sofrimento ou em nossa vontade de sobreviver.

Trad.: Nelson Santander

Scare

Let me tell you — no animal far away is the same
up close. I mean, a whale in a magazine might
seem majestic and free, but what you don’t see is
how too near the surface she falls
asleep, how the light blisters her so raw
gulls tear into her sunburnt skin, lifting into the air
beaks full of her proud flesh.
Or you might believe the rhinoceros a beast

with sight so poor and mean he doesn’t bother
to make out a shape ahead before
rushing from the bush, charging
prehistoric horn first, but come with me — meet Jo,
the lone black rhino at the zoo. His caretaker said,
No worries, he won’t bite down, and sure enough,
I placed my hand in the daunting socket
of his mouth, and inside it was

sweetly pink and warm. He gently received
the treat dropped there, closed the soft pads of his eyes
while he chewed. After, he puppied up to the fence
for a scratch, and trembling I reached to touch
the living concrete of his back.

Or take the house sparrow — harmless suburban
chirper, common as a potato chip — I’ve seen them
pluck each other bloody, snatching feathers to line
their own nests, and it’s no secret they’ll mob
their kin, dispatch their sister’s hatchlings with ease.
You see, once, when I had cancer

or at least again thought I did, one of those hot-wired birds
fought his reflection in my window, and facing an adversary
equal to his own, he broke his own neck.
So don’t let the word fool you:

It’s just a scare. It was only a scare.
Queen of dismissal, the word is quick to exhale,
OhthankGod, to sigh, that was close. But listen: the word is
a caul, an amniotic skin peeled off a newborn so she can
breathe but also a membrane of omen and second sight.
Scare is the threat of death gone but the threat
made real; scare is your life returned but worse
your life returned to how it was — you will bicker
again and take it for granted again,
and all those promises
made to God and heaven above
if your pathology was clean you

will break. That’s right: I’ve missed
every chance — six times already, I’ve seen how death
might find me, each tumor core-needled and excised,
cauterized and cut away, and between detection
and diagnosis I thought at least I’d get
the last bit of my days right with so little left
to go. Now, I’m again set free, but the forecast
still tickles the back of my throat — not what if
but when. What I mean to say is
I’ve been brought to the edge
of the woods, close enough to meet a herd of bison
a friend kept, and when the bull ambled to our truck
I saw at first a sublime beast, a sovereign of the past,
but once he was close enough to smell the stranger I was
in his field, I saw a perfect row of flies drinking
from the wet rim his perfect eyes, how the winged ring
of them persisted even when he blinked as if he could still see
the countless of his kind once murdered in this place. Listen.
I’m not ungrateful: I survived

another summer to see such a thing.
And I don’t pity myself more
than I pity all of us who have to
go. I only mean to say when I felt for sure
my marrow had soured and was killing me
from the inside out, I dreamt every animal
was a cage and inside each animal was another
animal, another cage. When I woke, I meant to
write down the dream but instead wrote
two words: I’m scared.

Now, I’ve healed. I’ve been blessed
another clean bill of health. But the scare has grown
teeth. Now, I go back. I revise my original
entry. I cross out scared and write terrified,
then change it to terrorized. No. Try again.
I write: I am sorry. I am petrified, Lord. I am
deeply afraid. Can you hear me? I am an animal
who knows she will die. Can you not let me stay
in my cage?



Author’s Note
I have a body prone to making bumps and lumps and fibroids, tumors that have—ever since I was sixteen — terrorized me every time I’ve discovered one. Gratefully, thus far, they’ve all been benign, but after so many frightening surprises lurking within, I’ve had a difficult relationship with my body. One solution I’ve found is giving myself over to the study and observation of animals. Nothing is quite as comforting to me as putting on my overalls and mucking out a barn; nothing is as nurturing to me as being in the presence of animals and listening for what they might have to teach. When I was struggling with the uncertainty of a growth deep within my leg, I spent days and days at the Little Rock Zoo, and it was there I encountered that rhinoceros—a profound experience during that hellfire time. Many years later, not too long after the removal of a large abdominal mass, two dear friends in Tennessee drove me out to meet a herd of bison they keep, and I’ll never forget the power of that bull stepping out of the forest, approaching to smell my unfamiliar presence. So, yes, the deeply embodied way of animals has helped me heal, but it’s equally as important that we not romanticize them or make them into metaphors for our own uses—their realities are far more complex than the ideas we have of them, and they often suffer, just as we do. That’s the focus of this poem. I suppose what all of it has taught me is how deeply interconnected we are to our non-human kin. Knowing the deeper reality of animals doesn’t make for an easy story, it does mean that I and you and every living being belong — all of us, together — here on this earth. None of us alive — human or not— are alone in our suffering or our will to survive.

Aqui: https://www.missourireview.com/scare-nickole-brown/?fbclid=IwAR311atAUUi1LdO_IOhQFx61M89aA67NWyFgRNia5uYbnR3jZ-B5vFP2W94

Victoria Kennefick – Depoimento

Eu te amo como as ondas amam os penhascos.
Elas lançam saias de rendas contra os rochedos,
pernadas de dançarinas do can-can escalam até o topo,
e voltam para o mesmo lugar; espuma se agarra – um beijo.
Algumas vezes, elas levam coisas usadas para a praia;
em outras, deslizam em silêncio, sem nada dizer,
cavam, escondem-se no eco-escuro –
esperam até que haja um horizonte.

Eu te amo desta maneira porque
você é um planeta no espaço que orbita
friamente o sol, que permite oceanos.
Eu te amo desta maneira porque
você me faz um mar de tranquilidade,
ou me deixa bater e debater-me contra o cais.
Você me pega, seixo e solo,
areia que fiz pra você.

Eu te amo, não importa se eu açoite seu olho,
eroda um pedaço, eu vou compensa-lo –
espuma e sedimento, meu vestido de noiva;
sal e aerossol, meu véu, buquê de redes azuis.
Eu te amo porque sem você há apenas o mar;
um corpo todo ao mar, acenando uma rendição aos céus,
esperneando e gritando contra a linha –
água, que não irá a lugar nenhum.

Trad.: Nelson Santander

Deposition

I love you the way waves love cliffs.
They fling lace skirts against rock,
can-can dancer kicks rush the top,
fall back down; froth clings – a kiss.
Sometimes they wash worn things to shore;
others, they roll silent, say nothing,
tunnel under, hide in echo-dark –
wait until there’s a horizon.

I love you in this way because
you are a planet in space that orbits
the sun coolly, allows for oceans.
I love you in this way because
you let me moon about as a pond,
or thrash and flail over piers.
You scoop me up, stone and soil,
sand I’ve made for you.

I love you, don’t mind if I whip in your eye,
erode a piece, I’ll make up for it –
silt and foam, my wedding dress;
spray and salt, my veil, bouquet of blue nets.
I love you because without you there is just sea;
a body all at sea, waving surrender to sky,
kicking and screaming against the line –
water, not going anywhere.

David Whyte – O verdadeiro amor

Há fé em amar ferozmente
aquele que é seu por direito,
especialmente se você
esperou por anos e especialmente
se parte de você nunca acreditou
que poderia merecer esta
amada mão acenando
estendida para você desta forma.

Estou pensando na fé agora
e nos testamentos da solidão
e naquilo de que nos sentimos
dignos neste mundo.

Anos atrás, nas Hébridas,
eu me lembro de um velho
que caminhava todas as manhãs
sobre as pedras cinzentas
até a praia das focas,
e que pressionava o seu chapéu
contra o peito sob o tempestuoso
vento salgado e fazia sua oração
para o turbulento Jesus
oculto na água,

e penso na história
da tempestade e de todos
despertando e vendo
a figura distante
mas familiar
do outro lado da água
chamando por eles

e em como todos nós estamos
nos preparando para aquele
abrupto despertar,
e para aquele chamado,
e em como naquele momento
nós teremos que dizer sim,
exceto que não
virá de forma tão grandiosa
nem tão bíblica
mas mais sutil
e intimamente diante
daqueles que você sabe
que temos que amar

de modo que quando
finalmente sairmos do barco
em direção a eles, descobriremos
tudo o que nos sustenta
e tudo o que confirma
a nossa coragem, e que se você quisesse
se afogar você poderia,
mas você não quer
porque finalmente
depois de toda essa luta
e de todos esses anos
você simplesmente não
quer mais
você simplesmente se cansou
de se afogar
e quer viver e
quer amar e você
atravessará qualquer território
e qualquer escuridão
por mais líquida e perigosa
que seja para pegar a
única mão que você sabe que
pertence à sua.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: segundo este site, o poeta e filósofo David Whyte foi convidado pelas Irmãs da Misericórdia para discusar em uma conferência na cidade de Galveston, Texas. O tema da conferência era a passagem bíblica em que Jesus se dirige aos discípulos caminhando sobre as águas e os chama para sair do barco. O poema acima é o que ele escreveu em resposta. Ao ler o poema, Whyte disse: “aquele que nos chama para fora de nossos barcos pode ser uma pessoa, uma nova vida, ou mesmo alguma parte profunda de nós mesmos.”

The Truelove

There is a faith in loving fiercely
the one who is rightfully yours,
especially if you have
waited years and especially
if part of you never believed
you could deserve this
loved and beckoning hand
held out to you this way.

I am thinking of faith now
and the testaments of loneliness
and what we feel we are
worthy of in this world.

Years ago in the Hebrides,
I remember an old man
who walked every morning
on the grey stones
to the shore of baying seals,
who would press his hat
to his chest in the blustering
salt wind and say his prayer
to the turbulent Jesus
hidden in the water,

and I think of the story
of the storm and everyone
waking and seeing
the distant
yet familiar figure
far across the water
calling to them

and how we are all
preparing for that
abrupt waking,
and that calling,
and that moment
we have to say yes,
except it will
not come so grandly
so Biblically
but more subtly
and intimately in the face
of the one you know
you have to love

so that when
we finally step out of the boat
toward them, we find
everything holds
us, and everything confirms
our courage, and if you wanted
to drown you could,
but you don’t
because finally
after all this struggle
and all these years
you simply don’t want to
any more
you’ve simply had enough
of drowning
and you want to live and you
want to love and you will
walk across any territory
and any darkness
however fluid and however
dangerous to take the
one hand you know
belongs in yours.

Lucille Clifton – o que eu sei é isso

o que eu sei é isso:
minha mãe enlouqueceu
na casa dos meus pais
por falta de carinho

o que eu sei é isso:
os dias de algumas mulheres
são desperdiçados
nas cozinhas de suas vidas

é por isso que eu sei:
os deuses
são homens

Trad.: Nelson Santander

this is what i know

this is what i know
my mother went mad
in my fathers house
for want of tenderness

this is what i know
some womens days
are spooned out
in the kitchen of their lives

this is why i know
the gods
are men

Czesław Miłosz – Dádiva

Um dia tão feliz.
O nevoeiro cedo dissipou-se, e eu trabalhei no jardim.
Os Beija-Flores se detinham sobre as flores de madressilva.
Não havia nada na terra que eu quisesse possuir.
Eu não conhecia ninguém que valesse a pena invejar.
Qualquer mal que eu tivesse sofrido, esqueci.
Pensar que uma vez eu fui o mesmo homem não me envergonhava.
Em meu corpo eu não sentia dor.
Ao endireitar-me, vi o mar azul e as velas.

Trad.: Nelson Santander

Gift

A day so happy.
Fog lifted early, I worked in the garden.
Hummingbirds were stopping over honeysuckle flowers.
There was no thing on earth I wanted to possess.
I knew no one worth my envying him.
Whatever evil I had suffered, I forgot.
To think that once I was the same man did not embarrass me.
In my body I felt no pain.
When straightening up, I saw the blue sea and sails.

Linda Pastan – Estou aprendendo a abandonar este mundo

Estou aprendendo a abandonar este mundo
antes que ele possa me abandonar.
Já renunciei à lua
e à neve, fechando minhas persianas
contra as reivindicações do branco.
E o mundo levou
meu pai, meus amigos.
Abandonei as linhas melódicas das colinas,
mudando para uma paisagem plana, dissonante.
E toda noite abandono meu corpo,
membro por membro, seguindo
através dos ossos, em direção ao coração.
Mas a manhã chega trazendo as pequenas
tréguas do café e o canto dos pássaros.
Uma árvore do lado de fora da janela,
que era apenas sombra momentos atrás
recolhe de volta seus galhos, ramo
por ramo frondoso.
E enquanto retomo meu corpo,
o sol pousa seu caloroso focinho em meu colo
como se quisesse se redimir.

Trad.: Nelson Santander

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I am learning to abandon the world

I am learning to abandon the world
before it can abandon me.
Already I have given up the moon
and snow, closing my shades
against the claims of white.
And the world has taken
my father, my friends.
I have given up melodic lines of hills,
moving to a flat, tuneless landscape.
And every night I give my body up
limb by limb, working upwards
across bone, towards the heart.
But morning comes with small
reprieves of coffee and birdsong.
A tree outside the window
which was simply shadow moments ago
takes back its branches twig
by leafy twig.
And as I take my body back
the sun lays its warm muzzle on my lap
as if to make amends.

Dan Gerber – Cinema Paradiso

No final de novembro
palavras apareceram na ponta da minha caneta
como a resposta a uma pergunta que
eu ainda não havia feito.
Uma tornou-se um condor; outra,
uma nuvem,
enquanto uma terceira palavra, espinhosidade,
ganhou vida no sonho de um cardo.
O que é mais real,
a neve ou a bola de neve,
a palavra ou as letras que a
compõe?
Eu empacotei a neve, uma galáxia de minúsculas
estrelas brancas entre as palmas das mãos.
É assim que surge um buraco negro?
Não, um buraco negro é um eixo
repleto de luz.
Com o tempo,
que nem vem nem vai,
o próprio universo pode
se tornar um buraco negro;
nesse caso ainda estaremos todos juntos,
na escuridão,
esperando o início do espetáculo.

Trad.: Nelson Santander
Cinema Paradiso

On a morning in November
words appeared at the end of my pen
like the answer to a question
I hadn’t yet asked.
One became a condor, another
a cloud,
while a third word, spinosity,
came to life in the dream of a thistle.
Which is more real,
the snow or the snowball,
the word or the letters of which
it’s composed?
I packed the snow, a galaxy of tiny
white stars between my palms.
Is this how a black hole begins?
No, a black hole is an axis
chock-full of light.
In time,
which neither comes nor goes on,
the universe itself may
become a black hole,
in which case we’ll all still be together,
in the dark,
waiting for the show to begin.

Billy Collins – O desfile

Que emocionante foi marchar
ao longo das grandes avenidas
debaixo do clarão das trombetas
e sob todas as bandeiras tremulantes —
a bandeira da ambição, a bandeira do amor.

Tantos de nós fluindo ao longo do caminho —
toda a humanidade, na verdade —
movendo-se em perfeita sintonia,
mas cada qual perdido no quarto de um sonho particular.

Como é estimulante a paisagem do mundo,
as fileiras de árvores à beira da estrada,
a enorme cortina do céu.

Quão interminável parecia até que nos desviássemos
da grande estrada
para um pasto de grama alta,
em direção aos vertiginosos penhascos da mortalidade.

Geração após geração,
continuamos avançando
até pularmos da borda para o espaço.

E eu não deveria ter que lembra-lo
de que neste lugar pouco tempo é dado
para descansar em um banco à beira do caminho,
para parar e curvar-se para as flores silvestres,
ou para estudar um pássaro em um galho —

não quando os jovens
estão sempre nos empurrando por trás,
não quando os velhos continuam nos puxando para frente,
puxando nossos braços com toda sua débil força.

Trad.: Nelson Santander

The Parade

How exhilarating it was to march
along the great boulevards
in the sunflash of trumpets
and under all the waving flags—
the flag of ambition, the flag of love.

So many of us streaming along—
all of humanity, really—
moving in perfect step,
yet each lost in the room of a private dream.

How stimulating the scenery of the world,
the rows of roadside trees,
the huge curtain of the sky.

How endless it seemed until we veered
off the broad turnpike
into a pasture of high grass,
headed toward the dizzying cliffs of mortality.

Generation after generation,
we keep shouldering forward
until we step off the lip into space.

And I should not have to remind you
that little time is given here
to rest on a wayside bench,
to stop and bend to the wildflowers,
or to study a bird on a branch—

not when the young
are always shoving from behind,
not when the old keep tugging us forward,
pulling on our arms with all their feeble strength.

Carolyn Creedon – Mulher, minada

Na seção de cosméticos da Lord & Taylor
eles a levarão para um lugar bem exposto,
claro como o dia, e a fotografarão com uma câmera ultravioleta,
mostrando-lhe o que você fez com sua pele apenas
por viver, seu rosto subitamente exposto, como aquilo que
realmente está acontecendo sob uma tora levantada, a verdadeira você
que você é, capturada e fixada como uma mariposa,
como uma ladra, como uma mulher sobre uma mesa

e a senhora no impecável jaleco branco sacudirá
habilmente o instantâneo na sua frente, disposto
como um mapa de países conquistados, codificado por cores,
os lugares roxos e marrons que você abandonou
sem cuidados aos vinte e poucos anos, para as noitadas e
espreguiçadeiras e homens junto a piscinas, todos os homens
que você tocou, aqueles que a marcaram, cujos sinais
você carrega, e agora você pode ver a arqueologia
das lágrimas, seus rastros de ácido branco, e a senhora
dirá, severamente, Veja o que você fez

e você verá o estrago que fez, e você
verá as vezes em que foi descuidadamente para a cama
com alguém sem o hidratante adequado, quando você
amamentou aquele homem como a um bebê, e quando você se movia
com outro como uma menina sobre uma cadeira de balanço até cair
e perde-lo, e quando finalmente escolheu um outro, como a melhor de todas as
flores, e o manteve, chorou com ele, fez-lhe sanduíches,
fez-lhe um bebê, e você envergará o seu rosto
com seu âmbar merecido, sua ametista, seu entalhe
de diamante lanhado, e dirá: Eu sou lapidada assim.

Trad.: Nelson Santander

Woman, Mined

In the cosmetics department of Lord & Taylor
they’ll take you right there, right out in the open,
plain as day, and snap you with an ultraviolet camera,
show you what you’ve done to your skin just
by living, your face exposed suddenly like what’s
really going on under a lifted-up log, the real you
you are, caught and pinned like a moth,
like a shoplifter, like a woman on a table

and the lady in the crisp white smock will expertly
flick the snapshot in front of you, laid out
like a color-coded map of conquered countries,
the purples and browns places you gave up
without a care in your twenties, to late nights
and poolside deck chairs and men, all the men
you touched, the ones who marked you, whose traces
you bear, and now you can see the archaeology
of tears, their white-acid trails, and the lady
will say, sternly, Look what you did

and you will see the mess of it you made, and you
will see the times when you carelessly went to bed
with someone without the proper moisturizer, when you
suckled that man like a baby, and when you moved
with another like a girl on a rocker until you fell off
and lost him, and finally picked another, like the best-of-all
flower, and kept him, cried on him, made him sandwiches,
made him a baby, and you’ll wear your face
with its amber earned, its amethyst, its intaglio tear-
etched diamond, and say, I am cut that way.