O pensamento
é um pornógrafo
e quase só de palavras
se faz o amor
e no entanto não se embaraça
o pensamento com os cabelos
como os meus cabelos
se embaraçavam nos seus
e não se misturam as palavras
com as palavras como na boca
a saliva se mistura
com a saliva
nem as línguas que falamos
deixam gosto na língua
ou eu teria ainda na minha
o sal da sua
nem anoitece na memória
aos poucos como anoitecia
naquele quarto estreito
já fui um ser de duas cabeças
e ancas
já tive quatro pernas duas bocas
tive quatro braços e mãos
e vinte dedos das mãos
e dois sexos e dois corações
pulsando
simultâneos
já tive só palavras rápidas
como relâmpagos
atravessando a pele
o que foi feito das palavras
que trocamos?
o que foi feito desse ser
desajustado para o mundo?
o que ficou além da cicatriz
dos relâmpagos?
Louis Jenkins – O casal
Eles já não dormem tão bem como
quando eram jovens. Ele fica desperto pensando
em coisas que aconteceram anos atrás, virando
desconfortavelmente de vez em quando, puxando o
cobertor. Ela se preocupa com dinheiro. Primeiro um
e depois o outro ficam ambos acordados durante a noite,
em turnos como se estivessem de guarda, embora não consigam
ver muito no escuro e esteja tudo calmo. Eles
são sentinelas em algum posto avançado, um forte abandonado
em algum lugar no meio das Grandes Planícies
onde apenas o vento é um visitante regular. Cada qual
fica de guarda na vastidão selvagem de uma vida
imaginária na qual o outro dorme despreocupado.
Trad.: Nelson Santander
The Couple
They no longer sleep quite as well as they did
when they were younger. He lies awake thinking
of things that happened years ago, turning
uncomfortably from time to time, pulling on the
blankets. She worries about money. First one
and then the other is awake during the night,
in shifts as if keeping watch, though they can’t
see very much in the dark and it’s quiet. They
are sentries at some outpost, an abandoned fort
somewhere in the middle of the Great Plains
where only the wind is a regular visitor. Each
stands guard in the wilderness of an imagined
life in which the other sleeps untroubled.
Ada Limón – O ano dos pintassilgos
Eram dois pendendo e pairando próximos
da poça de lama e do cardo almiscarado.
Esvoaçando de um poste partido
para outro, banhando-se no reflexo da água da chuva
como se fosse um espelho para algum outro universo
onde as coisas fossem mais aceitáveis, mais fáceis
do que no lugar onde eu vivia. Eu os observaria:
o exibido macho brilhante, a mirrada
fêmea, em cada caminhada matinal, dias consumidos
buscando por algum tipo de resposta fugidia
para a pergunta que minha curvada figura fazia.
Mais tarde, soube que eles eram um símbolo
da ressurreição. Claro que eram,
meus dois gêmeos de áureas-asas fazendo festa
nos espinheiros e adorando.
Trad.: Nelson Santander
The Year of the Goldfinches
There were two that hung and hovered
by the mud puddle and the musk thistle.
Flitting from one splintered fence post
to another, bathing in the rainwater’s glint
like it was a mirror to some other universe
where things were more acceptable, easier
than the place I lived. I’d watch for them:
the bright peacocking male, the low-watt
female, on each morning walk, days spent
digging for some sort of elusive answer
to the question my curving figure made.
Later, I learned that they were a symbol
of resurrection. Of course they were,
my two yellow-winged twins feasting
on thorns and liking it.
Wendell Berry – Tudo de que precisamos está aqui
Gansos surgem bem acima de nós,
passam, e o céu se fecha. O abandono,
como no amor ou no sono, os mantém
no seu caminho, claro
na antiga fé: tudo de que precisamos
está aqui. E oramos, não
por uma terra ou um céu novos, mas para termos
calma no coração, e no olhar,
clareza. Tudo de que precisamos está aqui.
Trad.: Nelson Santander
What We Need Is Here
Geese appear high over us,
pass, and the sky closes. Abandon,
as in love or sleep, holds
them to their way, clear
in the ancient faith: what we need
is here. And we pray, not
for new earth or heaven, but to be
quiet in heart, and in eye,
clear. What we need is here.
Lisel Mueller – Coisas
O que aconteceu é que nos sentimos solitários
vivendo entre as coisas,
por isso demos ao relógio um rosto,
à cadeira um encosto,
à mesa quatro pernas robustas
que jamais sofrerão fadiga.
Calçamos nossos sapatos que têm línguas
tão macias quanto as nossas
e penduramos linguetas dentro dos sinos
para podermos ouvir
sua linguagem emocional,
e porque adoramos perfis elegantes
a jarra recebeu boca,
a garrafa um longo e fino gargalo.
Mesmo o que estava além de nós
foi reformulado à nossa imagem;
demos ao país um coração,
ao temporal um olho,
à caverna uma boca
para que pudéssemos passar em segurança.
Trad.: Nelson Santander
Noël Coward – Nada se perde
No fundo do nosso subconsciente, nos é dito,
Repousam todas as nossas memórias, todas as notas
De toda música que já ouvimos,
E o que disseram os que amamos, cada frase pronunciada,
Tristezas e perdas que desde então o tempo tem consolado,
Piadas de família, caquéticas anedotas
Cada souvenir sentimental e cada
Símbolo de tudo o que já vimos e vivemos,
Cada palavra que nos foi dirigida na infância, antes
Antes que pudéssemos sequer conhecer ou compreender
As implicações de nosso mundo mágico.
Ali estão todas elas, as míticas fabulações
As surpresas de aniversário, as visões, os sons,
As lágrimas, fragmentos esquecidos de anos perdidos
À espera de serem lembrados, prontos para emergir
Antes que o nosso mundo se dissolva diante dos nossos olhos
À espera de alguma pequena, íntima recordação,
Uma palavra, uma melodia, um familiar aroma corrente
Um eco do passado quando, inocentes
Olhávamos o presente com deleite
E não duvidávamos que o futuro seria mais generoso
E nunca experimentávamos a noite e sua solidão.
Trad.: Nelson Santander
Nothing is Lost
Deep in our sub-conscious, we are told
Lie all our memories, lie all the notes
Of all the music we have ever heard
And all the phrases those we loved have spoken,
Sorrows and losses time has since consoled,
Family jokes, out-moded anecdotes
Each sentimental souvenir and token
Everything seen, experienced, each word
Addressed to us in infancy, before
Before we could even know or understand
The implications of our wonderland.
There they all are, the legendary lies
The birthday treats, the sights, the sounds, the tears
Forgotten debris of forgotten years
Waiting to be recalled, waiting to rise
Before our world dissolves before our eyes
Waiting for some small, intimate reminder,
A word, a tune, a known familiar scent
An echo from the past when, innocent
We looked upon the present with delight
And doubted not the future would be kinder
And never knew the loneliness of night.
Claudia Rankine – Intempérie
Em um pedaço do papel no arquivo está escrito
esqueci minha sombrinha. Acontece que
em uma pandemia todos, não só o filósofo,
estamos sem uma. Nós batalhamos na seca de informações
retidas por investidores privilegiados. Gota a gota. Protegendo
o rosto? Sim. Distanciamento social? Sete palmos
sob a terra por condições subjacentes. Pretos.
Apenas nós e os azuis ajoelhados em um pescoço
com todo o peso do corpo de um homem de azul.
Oito minutos e quarenta e seis segundos.
In extremis, eu não consigo respirar cede lugar
à asfixia, à renúncia a este mundo,
e então mamãe, clamando, um chamado
para o protesto, fogo, vidro, digam seus nomes, digam
seus nomes, silêncio branco é igual a violência,
a violência de novo, uma força policial
militarizada lançando gás lacrimogêneo, balas ricocheteando,
e os distúrbios civis derrubando-a, queimando-a. Quaisquer que sejam
os contratos que nos mantêm sociais, eles nos compelem agora
a desordenar a desordem. Paz. Estamos aqui
para reparar o futuro. Há uma sombrinha
perto da porta, não para ontem mas para a intempérie
que está fazendo. Eu digo intempérie mas me refiro
a uma forma de governar que distribui mortes
e lhes dá nomes de vida. Eu digo intempérie mas me refiro a
um novembro que não será adiado. Desta vez
nada nem ninguém se esqueceu. Estamos aqui para a tempestade
que a tudo assola porque o que está acontecendo é importante.
Trad.: Nelson Santander
Weather
On a scrap of paper in the archive is written
I have forgotten my umbrella. Turns out
in a pandemic everyone, not just the philosopher,
is without. We scramble in the drought of information
held back by inside traders. Drop by drop. Face
covering? No, yes. Social distancing? Six feet
under for underlying conditions. Black.
Just us and the blues kneeling on a neck
with the full weight of a man in blue.
Eight minutes and forty-six seconds.
In extremis, I can’t breathe gives way
to asphyxiation, to giving up this world,
and then mama, called to, a call
to protest, fire, glass, say their names, say
their names, white silence equals violence,
the violence of again, a militarized police
force teargassing, bullets ricochet, and civil
unrest taking it, burning it down. Whatever
contracts keep us social compel us now
to disorder the disorder. Peace. We’re out
to repair the future. There’s an umbrella
by the door, not for yesterday but for the weather
that’s here. I say weather but I mean
a form of governing that deals out death
and names it living. I say weather but I mean
a November that won’t be held off. This time
nothing, no one forgotten. We are here for the storm
that’s storming because what’s taken matters.
R S Thomas – Charneca
É bela e calma;
o ar rarefeito
como o interior de uma catedral
esperando uma presença. É também onde
ocorre o tartaranhão,
materializando-se do nada, neve-
suave, mas com garras de fogo,
esquartejando a terra nua
pela presa que lhe escapa;
pairando sobre o guincho
incipiente, aqui por um momento, depois
não mais, como minha crença em Deus.
Trad.: Nelson Santander
It is beautiful and still;
the air rarefied
as the interior of a cathedral
expecting a presence. It is where, also,
the harrier occurs,
materialising from nothing, snow-
soft, but with claws of fire,
quartering the bare earth
for the prey that escapes it;
hovering over the incipient
scream, here a moment, then
not here, like my belief in God.
Antonio Cicero – O livro de sombras de Luciano Figueiredo
O livro de sombras de Luciano Figueiredo
1
Para onde vou, de onde vim?
Não sei se me acho ou me extravio.
Ariadne não fia o seu fio
à frente, mas sim atrás de mim.
Não será a saída um desvio
e o caminho o verdadeiro fim ?
2
Não é hora de regressos
Não é hora
3
É certo que me perco em sombras
e que, isolado em minha ilha,
já não me atingem as notícias
dos jornais a falar de bolsas,
modas, cidades que soçobram,
crimes, imitações da vida
ou da morte televisiva,
quadrilhas, teias penelópicas
de horrores ou de maravilhas
que dia a dia se desfiam
e fiam sem princípio ou fim
novíssimas novas artísticas,
científicas, estatísticas…
E há na noite quente um jasmim.
4
É aqui, mais real que as notícias, na própria
matéria, na dobradura de uma folha
em que se refolha este meu coração
babilônico, na configuração
da mancha gráfica sobre a tessitura
do papel tensionado, ou onde se apura
o lusco- fusco produzido por linhas
e entrelinhas, entre o preto e o branco e o cinza,
onde cada ideia, cada ponto e vírgula
dos trabalhos e das noites se confunde
com miríades de pontos de retícula
e meios-tons de clichês, entre o passado
que jamais está passado e alguns volumes,
linhas e planos apenas esboçados,
que súbito os elementos mais dispersos
se articulam, claro-escuro filme negro,
entre a pura matemática, o acaso
e a arte (esta árvore já foi vestido
de mulher) onde o delírio é mais preciso,
transparece o meu jornal imaginário.
5
Para onde vou, de onde vim?
Não sei se me acho ou me extravio.
Ariadne não fia o seu fio
à frente, mas sim atrás de mim.
Não será a saída um desvio
E o caminho o verdadeiro fim?
Jane Hirshfield – Hoje, outro universo
O arborista determinou:
senescência pragas cancro
acelerado pela seca
| mas, em qualquer caso,
não podável não tratável não passível de escoras.
E assim.
O ramo de onde gritam o gavião-miúdo e sua companheira.
O tronco onde a formiga.
O playground de vinte e cinco metros dos esquilos vermelhos.
A casca as camadas a seiva-do-pinheiro o aglomerado de formigueiros.
Os padrões japoneses a teia-tatuada.
As manchas de determinados peixes.
Hoje, para alguns, um universo desaparecerá.
Primeiro, ruidosamente,
depois, apenas mais um silêncio.
O silêncio do depois, de quando o teatro se esvazia.
Da perplexidade após a Era Glacial,
a espécie, a estrela.
Outra coisa, na escala das coisas velozes,
irá substituí-la,
este vazio de luz na luz, os pássaros confusos desviando-se dele.
Trad.: Nelson Santander
Today, another universe
The arborist has determined:
senescence beetles canker
quickened by drought
| but in any case
not prunable not treatable not to be propped.
And so.
The branch from which the sharp-shinned hawks and their mate-cries.
The trunk where the ant.
The red squirrels’ eighty-foot playground.
The bark cambium pine-sap cluster of needles.
The Japanese patterns the ink-net.
The dapple on certain fish.
Today, for some, a universe will vanish.
First noisily,
then just another silence.
The silence of after, once the theater has emptied.
Of bewilderment after the glacier,
the species, the star.
Something else, in the scale of quickening things,
will replace it,
this hole of light in the light, the puzzled birds swerving around it.