Ahmad ‘Abd al-Mu’ti Hijazi – Morte súbita

trago comigo o meu número de telefone
o meu nome e endereço
e assim se de súbito cair morto
podereis identificar-me
e meus amigos virão

Fancy, aconteça o que acontecer
não venhas.
ficarei na morgue duas longas noites
frios fios de telefone agitar-se-ão na noite.
a campainha começará.
sem resposta… uma vez… duas.

alguém irá ter com a minha mãe
e lhe dirá que eu morri
minha mãe essa triste camponesa
como caminhará só pela cidade
levando o meu endereço!
como passará a noite a meu lado
no átrio completamente mudo
subjugada pela solidão
confortada pelo seu recolhimento em dor
quando pondera só
por sobre as suas penas secretas
em tecer a minha mortalha das suas negras lágrimas

quem dera que a minha mãe tivesse
tatuado o meu braço de rapaz
assim não me perderia
assim não trairia meu pai
assim o meu primeiro rosto
não se perderia sob o meu segundo rosto.
quando vejo homens e mulheres saindo em silêncio
depois de terem passado duas horas diante de mim
durante as quais não trocamos olhares
ou vimos diferentes cenários
quando vi que a vida não tem loucura
e o pássaro da quietude se alvoroça sobre todos
sinto como se estivesse realmente morto
jazendo silenciosamente
contemplando este mundo agonizante.

Trad.: Adalberto Alves

Daqui: https://canaldepoesia.blogspot.com/2021/02/ahmad-abd-al-mu-ti-hijazi-morte-subita.html

Galway Kinnell – Aquela noite silenciosa

Eu voltarei àquela noite silenciosa
em que nos deitamos juntos e conversamos em vozes baixas, silenciosas,
enquanto do lado de fora caíam lentos fragmentos de neve
suave, silenciando ao se aproximar do solo,
com um incêndio no quarto, onde séculos
de árvores evolaram-se em contínuas almas-ausentando-se,
sem um estalido, até a luz da manhã.
Só dormimos quando o que se apressava mais lento se tornou.
Quando chegamos em casa, nos viramos e olhamos para trás,
para nossos entrelaçados rastros fora da floresta,
onde os ramos em que roçamos deixavam cair
porções de neve cintilante, rapidamente, em silêncio,
como beijos roubados, e onde o tuim tuim tuim
entre as árvores, que é o som que morre
no interior das fagulhas da cunha quando a marreta
atinge-a fora do centro dizendo que tudo dentro
dela é lume, pulou para um galho escuro, orgulhoso
mas sem braços e, por isso, para os nossos olhos solitários,
e ainda assim – como poderíamos sabe-lo? – feliz!
na forma de um chapim. Deitados ainda na neve,
nenhuma vontade férrea, como trilhos de ferrovia dispostos
a não se encontrar até o céu, mas aqui e ali
fazendo paradas para molhados beijos no campo,
nossas rastros agitam na neve seu longo rabisco.
Tudo o que aqui acontece é realmente pouco mais,
se assim for, do que um rabisco, igualmente. As palavras, em nossas bocas,
estão quase prontas, já, para envolver aquele
a quem os tuim tuim tuim, que significam se como quando
podemos perder um ao outro, riscam riscam riscam
de um momento para o outro. Então eu voltarei
àquela noite silenciosa, em que o passado simplesmente logrou
sobrepor-se ao futuro, ainda que apenas por um triz,
e em que a luz redobra e reluz
na escuridão a cintilação que elevou aos céus a terra.

Trad.: Nelson Santander

That Silent Evening

I will go back to that silent evening
when we lay together and talked in low, silent voices,
while outside slow lumps of soft snow
fell, hushing as they got near the ground,
with a fire in the room, in which centuries
of tree went up in continuous ghost-giving-up,
without a crackle, into morning light.
Not until what hastens went slower did we sleep.
When we got home we turned and looked back
at our tracks twining out of the woods,
where the branches we brushed against let fall
puffs of sparkling snow, quickly, in silence,
like stolen kisses, and where the scritch scritch scritch
among the trees, which is the sound that dies
inside the sparks from the wedge when the sledge
hits it off center telling everything inside
it is fire, jumped to a black branch, puffed up
but without arms and so to our eyes lonesome,
and yet also – how could we know this? – happy!
in shape of chickadee. Lying still in snow,
not iron-willed, like railroad tracks, willing
not to meet until heaven, but here and there
making slubby kissing stops in the field,
our tracks wobble across the snow their long scratch.
Everything that happens here is really little more,
if even that, than a scratch, too. Words, in our mouths,
are almost ready, already, to bandage the one
whom the scritch scritch scritch, meaning if how when
we might lose each other, scratches scratches scratches
from this moment to that. Then I will go back
to that silent evening, when the past just managed
to overlap the future, if only by a trace,
and the light doubles and shines
through the dark the sparkling that heavens the earth.

Barbara Crooker – No meio

de uma vida que é tão complicada quanto a de todo mundo,
batalhando por equilíbrio, equilibrando o tempo.
O relógio de lareira que foi do meu avô
parou às 9:20; não tivemos tempo
de conserta-lo. O pêndulo de bronze está imóvel,
os sinos não soam. Um dia eu olho pela janela,
verde verão, no outro, as folhas já caíram
e um céu cinza baixa no horizonte. Nossos filhos quase crescidos,
nossos pais se foram, aconteceu tão rápido. Diariamente, devemos aprender
novamente como amar, entre o célere café da manhã
e o demorado regresso da noite. Sobe o vapor de uma panela de sopa,
mesclando-se ao cheiro fermentado de pão de forno. Nossos corpos
se enroscam, e o grande cão preto pressiona sua grande cabeça entre eles;
sua cauda, um metrônomo, compasso ternário. Nós nunca chegaremos lá,
o Tempo está sempre à nossa frente, correndo pela praia, impelindo-
nos a ir mais rápido, mais rápido, mas, às vezes, despimo-nos de nossos relógios,
às vezes deitamos na rede, aprisionados entre a malha
de corda e a rede de estrelas, suspensos, enredados
no amor, esgotando o tempo.

Trad.: Nelson Santander

In the Middle

of a life that’s as complicated as everyone else’s,
struggling for balance, juggling time.
The mantle clock that was my grandfather’s
has stopped at 9:20; we haven’t had time
to get it repaired. The brass pendulum is still,
the chimes don’t ring. One day I look out the window,
green summer, the next, the leaves have already fallen,
and a grey sky lowers the horizon. Our children almost grown,
our parents gone, it happened so fast. Each day, we must learn
again how to love, between morning’s quick coffee
and evening’s slow return. Steam from a pot of soup rises,
mixing with the yeasty smell of baking bread. Our bodies
twine, and the big black dog pushes his great head between;
his tail, a metronome, 3/4 time. We’ll never get there,
Time is always ahead of us, running down the beach, urging
us on faster, faster, but sometimes we take off our watches,
sometimes we lie in the hammock, caught between the mesh
of rope and the net of stars, suspended, tangled up
in love, running out of time.

Sophia de Mello Breyner Andresen – Ausência

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

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Juan Vicente Piqueras – O testemunho do gajeiro

Para falar a verdade, 
pareceu-me outro gesto de presunção,
muito dele,
aquela urgência com que nos pediu
que o amarrássemos ao mastro
para escapar do canto das sereias.

As sereias estavam cantando, isso é verdade,
mas não exatamente para seduzi-lo.

E por que não a qualquer um de nós?
Por que elas deveriam tentar seduzir alguém?
Quem pode garantir que não estavam simplesmente cantando?
Ou que guardavam silêncio e cada um ouvia
seu próprio canto de sereia interior?

Era ele quem lutava contra sua vocação de perdedor.
Era ele quem acreditava que as sereias o amavam.
Era ele quem, sob qualquer pretexto,
nos colocava sob suas ordens.
Era ele quem não sabia mais o que inventar
para atrasar nosso retorno a Ítaca.

Eu queria regressar à minha pátria, abraçar minha esposa,
cuidar dos meus pais, já idosos,
ver meus filhos crescerem.

Ele determinou e nós o amarramos.
Se dependesse de mim, o teríamos abandonado em alto mar,
seguido para Ítaca e ali ele teria ficado,
atado ao mastro, sozinho, novamente à deriva.

E teria morrido assim, atado à sua insensatez,
enquanto as sereias continuavam, continuarão,
cantando para ninguém, como sempre.

Trad.: Nelson Santander

Testimonio del gaviero

Si he de decir la verdad, 
me pareció otro gesto de presunción,
muy suyo,
aquella urgencia con que nos pidió
que lo atásemos al mástil
para escapar al canto de las sirenas.

Las sirenas cantaban, eso es cierto,
pero no precisamente para seducirlo a él.

¿Y por qué no a cualquiera de nosotros?
¿Por qué tendrían que pretender seducir a alguien?
¿Quién puede asegurar que no cantaban simplemente?
¿O que guardaban silencio y cada uno oía
su propio canto de sirenas dentro?

Era él quien luchaba contra su vocación de perdidizo.
Era él quien creía que las sirenas lo amaban.
Era él quien, con cualquier pretexto,
nos ponía a sus órdenes.
Era él quien no sabía qué inventarse
con tal de demorar nuestro regreso a Ítaca.

Yo quería volver a mi patria, abrazar a mi esposa,
cuidar de mis padres ya ancianos,
ver crecer a mis hijos.

Nos lo ordenó y lo atamos.
Si hubiera sido por mí lo habríamos dejado en alta mar,
hubiésemos puesto rumbo a Ítaca y allí se habría quedado,
atado al mástil, solo, de nuevo a la deriva.

Y habría muerto así, atado a su extravío,
mientras que las sirenas seguían, seguirán,
cantando para nadie, como siempre.

Nelson Santander – O dia em que meu pai ouviu a voz de Deus

O conhecido escritor de ficção científica Arthur C. Clarke formulou três “leis” acerca da relação entre o homem e a tecnologia que ficaram muito famosas. Dentre elas, a mais conhecida é a terceira, que reza:

“Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia.”

Lembrei dessa Lei quando, em um certo domingo, fui visitar meus pais. Antes mesmo que eu tivesse tempo de tomar um café, meu pai disparou, com um olhar esquisito:

“Eu sei que você não acredita em sobrenatural, mas aconteceu uma coisa estranha comigo”.

Normalmente, quando alguém que conhece meu ceticismo tenta me convencer de algo sobrenatural, costuma me lançar um olhar que é um misto de temor e desafio. Mas não era esse o olhar do meu pai. Para mim a princípio me pareceu o olhar de quem, em face do desconhecido, quer ser convencido de que nada de extraordinário aconteceu, e que o mundo pode seguir seu curso regular novamente.

Ele então me contou que na semana anterior havia ligado a TV e que, inusitadamente, o aparelho não sintonizou no “Brasil Urgente” (seu programa favorito de todas as tardes). De forma surpreendente, a tela ficou escura e então os auto-falantes da TV começaram a reproduzir uma música, segundo ele, “maravilhosa”. Meu pai ficou paralisado, confuso. Ele tentou voltar para o Datena, mas não conseguiu. Vencido pela beleza da orquestração, sentou-se no sofá e pôs-se a ouvir o que saía da TV. Depois daquela música, outra se seguiu. E outra. E outra. Todas completamente desconhecidas pra ele, mas absurdamente lindas (ele não usou precisamente essas palavras, mas era isso que seus olhos diziam).

E assim se passaram mais de três horas em que meu pai, embora meio assustado por estar testemunhando um evento estranho, não conseguia deixar de apreciar o momento. Depois que o som cessou, ele tentou que a TV tocasse novamente aquelas canções, mas tudo o que conseguiu foi dar de cara com o Datena narrando a história de mais um esquartejamento. Para sua decepção, meu pai não mais conseguiu fazer a TV falar com ele com aquelas melodias.

Quando concluiu sua narrativa, ele me perguntou, genuinamente curioso, mas ainda um tanto quanto espantado: “E aí?”, o olhar desafiador finalmente surgindo.

À essa altura, eu já estava com um meio-sorriso no rosto. Chamei-o à sala, fui até a TV, liguei o aparelho, fiz a minha “magia” e de repente, o adágio do Concerto para Clarineta em A maior, K.622, de Mozart, inundava a sala, sob o olhar atento e extasiado do meu pai. Na sequência, veio a famosa Ária na corda sol, de Bach, seguida do Adágio em Sol Menor, de Albinoni. Só então ele se lembrou de me perguntar como eu tinha conseguido fazer aquilo.

Desliguei a TV, estiquei a mão e, tateando na parte de trás do aparelho, retirei o pendrive que eu havia colocado lá na última visita que fizera à casa dele, um mês antes. Na ocasião, eu havia tentado de toda forma ensinar meu pai a acessar o pendrive pelo controle remoto para que pudesse ouvir uma playlist de músicas clássicas em MP3 que eu havia criado especialmente pra ele. Sem sucesso. Meu pai sempre foi uma nulidade com equipamentos eletrônicos, mal e mal sabendo ligar a TV e colocar nos canais que ele gosta de assistir. Desisti de explicar e acabei esquecendo o pendrive lá. De alguma maneira, ao tentar sintonizar em seu programa na TV, ele apertou algum botão errado no controle e acessou a pasta com a playlist que eu havia criado. Como não conhecia aquelas músicas e como a TV não estava ligada em nenhum canal, ele ficou tentando imaginar o que acontecera, e não chegou a nenhuma conclusão lógica. Portanto, concluiu, só podia ser algo sobrenatural.

“Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia.”

Depois que mostrei que não havia nada de extraordinário no que acontecera com ele, a reação do meu pai foi muito interessante. Claramente, ele ficou um pouco envergonhado por ter pensado que havia testemunhado um milagre quando tudo não passara de um feito tecnológico. De entremeio com a vergonha, percebi também uma genuína frustração. Não sei se traduzo adequadamente, mas minha intuição é a de que ele talvez tenha imaginado que algo, ou “A Voz”, o havia escolhido para lhe mostrar a Sua obra: músicas divinas que ninguém jamais ouvira, a não ser o meu pai.

Mas o mais interessante foi que, depois de ter descoberto que não eram divinas, mas humanas as canções que o haviam arrebatado, seu interesse por elas claramente diminuiu:

– São bonitas sim, Nelsinho. Mas você sabe, eu gosto é de música orquestrada, Glenn Miller, Billy Vaughn. E Ray Conniff. Conhece? “Besame Mucho” é que é música!

Não sei se existe alguma lição a se tirar do episódio. Meu olhar cético para as coisas tende a achar graça na necessidade que as pessoas têm de encontrar o divino em qualquer fenômeno natural ou humano desconhecido ou inusitado com o qual se deparam. Meu velho pai achava que estava ouvindo a voz de Deus, quando na verdade eram os humanos Mozart, Beethoven, Chopin e etc. quem lhe falavam por meio de suas árias, adágios e andantes.

Mas minha visão seria totalmente limitada se eu negasse que uma outra leitura desse tipo de evento é também possível: não seriam essas canções uma forma que o Incognoscível encontrou para falar com os seres humanos? E, nesse contexto, não seriam os compositores e músicos apenas como aparelhos de TV nos quais Ele espetou Seu pendrive divino para emitir o Seu som e a Sua voz?

(relato retirado da página de perfil do autor no Facebook)

Gastão Cruz – Pedro Hestnes

Passou a alguns metros de onde eu
estava; não o via
há anos e nem sei
qual a última vez que com ele falara

Não o reconheci de imediato e bastou
essa dúvida para criar um hiato
na linha dos olhares de repente cruzados
dentro da tarde; receara

decerto não ter sido por mim reconhecido
enquanto que eu não fora já a tempo
de lhe mostrar que o vira e me lembrava
do seu rosto mesmo que um pouco menos

luminoso que outrora; e um remorso
absurdo me tomou por ter perdido
esse olhar hesitante
no desconcerto breve de uma tarde

Carlos Drummond de Andrade – Ciência

Começo a ver no escuro
um novo tom
de escuro.

Começo a ver o visto
e me incluo

no muro.

Começo a distinguir
um sonilho, se tanto,
de ruga.

E a esmerilhar a graça
da vida, em sua
fuga.

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John Keats – Ode a um rouxinol

1.
Meu peito dói; um sono insano sobre mim
Pesa, como se eu me tivesse intoxicado
De ópio ou veneno que eu sorvesse até o fim,
Há um só minuto, e após no Letes me abismado:
Não é porque eu aspire ao dom de tua sorte,
É do excesso de ser que aspiro em tua paz –
Quando, Dríade leve-alada em meio à flora,
Do harmonioso recorte
Das verdes árvores e sombras estivais,
Lanças ao ar a tua dádiva sonora.


2.
Ah! um gole de vinho refrescado longamente
Na solidão do solo muito além do chão,
Sabendo a flor, a seiva verde e a relva quente,
Dança e Provença e sol queimando na canção!
Ah! uma taça de luz do Sul, plena e solar,
Da fonte de Hipocrene enrubescida e pura,
Com bolhas de rubis à beira rebordada
Nos lábios a brilhar,
Para eu saciar a sede até chegar ao nada
E contigo fugir para a floresta escura.

3.
Fugir e dissolver-me, enfim, para esquecer
O que das folhas não aprenderás jamais:
A febre, o desengano e a pena de viver
Aqui, onde os mortais lamentam os mortais;
Onde o tremor move os cabelos já sem cor
E o jovem pálido e espectral se vê finar,
Onde pensar é já uma antevisão sombria
Da olhipesada dor,
Onde o Belo não pode erguer a luz do olhar
E o Amor estremecer por ele mais que um dia.

4.
Adeus! Adeus! Eu sigo em breve a tua via,
Não em carro de Baco e guarda de leopardos,
Antes, nas asas invisíveis da Poesia,
Vencendo a hesitação da mente e os seus retardos;
Já estou contigo! suave é a noite linda,
Logo a Rainha-Lua sobe ao trono e luz
Com a legião de suas Fadas estelares,
Mas aqui não há luz,
Salvo a que o céu por entre as brisas brinda
Em meio à sombra verde e ao musgo dos lugares.

5.
Não posso ver as flores a meus pés se abrindo,
Nem o suave olor que desce das ramagens,
Mas no escuro odoroso eu sinto defluindo
Cada aroma que incensa as árvores selvagens,
A impregnar a grama e o bosque verde-gaio,
O alvo espinheiro e a madressilva dos pastores,
Violetas a viver sua breve estação;
E a princesa de maio,
A rosa-almíscar orvalhada de licores
Ao múrmuro zumbir das moscas do verão.

6.
Às escuras escuto; em mais de um dia adverso
Me enamorei, de meio-amor, da Morte calma,
Pedi-lhe docemente em meditado verso
Que dissolvesse no ar meu corpo e minha alma.
Agora, mais que nunca, é válido morrer,
Cessar, à meia-noite, sem nenhum ruído,
Enquanto exalas pelo ar tua alma plena
No êxtase do ser!
Teu som, enfim, se apagaria em meu ouvido
Para o teu réquiem transmudado em relva amena.

7.
Tu não nasceste para a morte, ave imortal!
Não te pisaram pés de ávidas gerações;
A voz que ouço cantar neste momento é igual
À que outrora encantou príncipes e aldeões:
Talvez a mesma voz com que foi consolado
O coração de Rute, quando, em meio ao pranto,
Ela colhia em terra alheia o alheio trigo;
Quem sabe o mesmo canto
Que abriu janelas encantandas ao perigo
Dos mares maus, em longes solos, desolado.

8.
Desolado! a palavra soa como um dobre,
Tangendo-me de ti de volta à solidão!
Adeus! A fantasia é véu que não encobre
Tanto como se diz, duende da ilusão.
Adeus! Adeus! Teu salmo agora tristemente
Vai-se perder no campo, e além, no rio silente,
Nas faldas da montanha, até ser sepultado
Sob o vale deserto:
Foi só uma visão ou um sonho acordado?
A música se foi – durmo ou estou desperto?

Trad.: Augusto de Campos

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Ode to a Nightingale


1.

My heart aches, and a drowsy numbness pains
  My sense, as though of hemlock I had drunk,
Or emptied some dull opiate to the drains
  One minute past, and Lethe-wards had sunk:
‘Tis not through envy of thy happy lot,
  But being too happy in thine happiness,—
    That thou, light-winged Dryad of the trees,
          In some melodious plot
  Of beechen green, and shadows numberless,
    Singest of summer in full-throated ease.

2.

O, for a draught of vintage! that hath been
  Cool’d a long age in the deep-delved earth,
Tasting of Flora and the country green,
  Dance, and Provencal song, and sunburnt mirth!
O for a beaker full of the warm South,
  Full of the true, the blushful Hippocrene,
    With beaded bubbles winking at the brim,
          And purple-stained mouth;
  That I might drink, and leave the world unseen,
    And with thee fade away into the forest dim:

3.

Fade far away, dissolve, and quite forget
  What thou among the leaves hast never known,
The weariness, the fever, and the fret
  Here, where men sit and hear each other groan;
Where palsy shakes a few, sad, last gray hairs,
  Where youth grows pale, and spectre-thin, and dies;
    Where but to think is to be full of sorrow
          And leaden-eyed despairs,
  Where Beauty cannot keep her lustrous eyes,
    Or new Love pine at them beyond to-morrow.

4.

Away! away! for I will fly to thee,
  Not charioted by Bacchus and his pards,
But on the viewless wings of Poesy,
  Though the dull brain perplexes and retards:
Already with thee! tender is the night,
  And haply the Queen-Moon is on her throne,
    Cluster’d around by all her starry Fays;
          But here there is no light,
  Save what from heaven is with the breezes blown
    Through verdurous glooms and winding mossy ways.

5.

I cannot see what flowers are at my feet,
  Nor what soft incense hangs upon the boughs,
But, in embalmed darkness, guess each sweet
  Wherewith the seasonable month endows
The grass, the thicket, and the fruit-tree wild;
  White hawthorn, and the pastoral eglantine;
    Fast fading violets cover’d up in leaves;
          And mid-May’s eldest child,
  The coming musk-rose, full of dewy wine,
    The murmurous haunt of flies on summer eves.

6.

Darkling I listen; and, for many a time
  I have been half in love with easeful Death,
Call’d him soft names in many a mused rhyme,
  To take into the air my quiet breath;
Now more than ever seems it rich to die,
  To cease upon the midnight with no pain,
    While thou art pouring forth thy soul abroad
          In such an ecstasy!
  Still wouldst thou sing, and I have ears in vain—
    To thy high requiem become a sod.

7.

Thou wast not born for death, immortal Bird!
  No hungry generations tread thee down;
The voice I hear this passing night was heard
  In ancient days by emperor and clown:
Perhaps the self-same song that found a path
  Through the sad heart of Ruth, when, sick for home,
    She stood in tears amid the alien corn;
          The same that oft-times hath
  Charm’d magic casements, opening on the foam
    Of perilous seas, in faery lands forlorn.

8.

Forlorn! the very word is like a bell
  To toil me back from thee to my sole self!
Adieu! the fancy cannot cheat so well
  As she is fam’d to do, deceiving elf.
Adieu! adieu! thy plaintive anthem fades
  Past the near meadows, over the still stream,
    Up the hill-side; and now ‘tis buried deep
          In the next valley-glades:
  Was it a vision, or a waking dream?
    Fled is that music:—Do I wake or sleep?

Denver Butson – Meu irmão

Para escapar das dores de cabeça e aos medos de uma esposa infiel
meu irmão em perpétua reabilitação usuário de drogas
maquinista encrenqueiro preso aos 14 por incêndio premeditado
e encarcerado por algumas semanas
pai de um filho e de um feto abortado
jogador de boliche ocasional e fã de heavy metal
apreciador de ketchup batata chips stromboli
e cheesesteak usuário de jeans desbotados
camisas de flanela desbotadas camisetas de bolso
tênis de cano alto desamarrados ou botas de trabalho
camisetas de bandas bonés de pintor e
casaco militar sofredor de solidão
de paranoia e medo insone e falador
de outra língua durante o sono
especialista em arrotos e atirador experiente, inveterado mas péssimo mentiroso
bebedor moderado de cerveja barata violento impulsivo
demolidor de lâmpadas elétricas ventiladores telefones
mulherengo de olhos azuis pai irmão e filho
tímido mulherengo ruborizado mulherengo magricela de
olhos azuis meteu a extremidade final de uma Magnum .357
em sua narina direita com a outra extremidade
em suas mãos calejadas e sujas
e soprou suas dores de cabeça e sua cabeça
deste mundo para o outro
em uma noite como esta.

Trad.: Nelson Santander

My Brother

To escape headaches and fears of an unfaithful wife
my brother perpetually reforming drug user
machinist scrapper arrested at 14 for arson
and incarcerated for a few weeks
father of one son and one aborted fetus
occasional bowler heavy metal fan
connoisseur of ketchup potato chips stromboli
and cheesesteak wearer of faded jeans
faded flannel shirts pocket-tee shirts
unlaced hightops or workboots
concert tee shirts painters’ hats and
army coat sufferer of aloneness
of paranoia and fear insomniac and talker
of another language in his sleep
expert belcher and marksman constant but lousy liar
moderate drinker of cheap beer violent rampager
demolisher of lamps electric fans telephones
blue-eyed ladies’ man father brother and son
shy blushing ladies’ man skinny-legged blue-eyed
ladies’ man stuck the open end of a .357 Magnum
in his right nostril with the other end
in his calloused and stained hands
and blew his headaches and his head
from this world into the next
one night just like that.