Claudia Rankine – Intempérie

Em um pedaço do papel no arquivo está escrito
esqueci minha sombrinha. Acontece que
em uma pandemia todos, não só o filósofo,
estamos sem uma. Nós batalhamos na seca de informações
retidas por investidores privilegiados. Gota a gota. Protegendo
o rosto? Sim. Distanciamento social? Sete palmos
sob a terra por condições subjacentes. Pretos.
Apenas nós e os azuis ajoelhados em um pescoço
com todo o peso do corpo de um homem de azul.
Oito minutos e quarenta e seis segundos.
In extremis, eu não consigo respirar cede lugar
à asfixia, à renúncia a este mundo,
e então mamãe, clamando, um chamado
para o protesto, fogo, vidro, digam seus nomes, digam
seus nomes, silêncio branco é igual a violência,
a violência de novo, uma força policial
militarizada lançando gás lacrimogêneo, balas ricocheteando,
e os distúrbios civis derrubando-a, queimando-a. Quaisquer que sejam
os contratos que nos mantêm sociais, eles nos compelem agora
a desordenar a desordem. Paz. Estamos aqui
para reparar o futuro. Há uma sombrinha
perto da porta, não para ontem mas para a intempérie
que está fazendo. Eu digo intempérie mas me refiro
a uma forma de governar que distribui mortes
e lhes dá nomes de vida. Eu digo intempérie mas me refiro a
um novembro que não será adiado. Desta vez
nada nem ninguém se esqueceu. Estamos aqui para a tempestade
que a tudo assola porque o que está acontecendo é importante.

Trad.: Nelson Santander

Weather

On a scrap of paper in the archive is written
I have forgotten my umbrella. Turns out
in a pandemic everyone, not just the philosopher,
is without. We scramble in the drought of information
held back by inside traders. Drop by drop. Face
covering? No, yes. Social distancing? Six feet
under for underlying conditions. Black.
Just us and the blues kneeling on a neck
with the full weight of a man in blue.
Eight minutes and forty-six seconds.
In extremis, I can’t breathe gives way
to asphyxiation, to giving up this world,
and then mama, called to, a call
to protest, fire, glass, say their names, say
their names, white silence equals violence,
the violence of again, a militarized police
force teargassing, bullets ricochet, and civil
unrest taking it, burning it down. Whatever
contracts keep us social compel us now
to disorder the disorder. Peace. We’re out
to repair the future. There’s an umbrella
by the door, not for yesterday but for the weather
that’s here. I say weather but I mean
a form of governing that deals out death
and names it living. I say weather but I mean
a November that won’t be held off. This time
nothing, no one forgotten. We are here for the storm
that’s storming because what’s taken matters.

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