Nicanor Parra – Último brinde

Querendo ou não,
só temos três alternativas:
o ontem, o presente e o amanhã.

E nem sequer três,
pois, como diz o filósofo,
ontem é ontem,
é nosso apenas na memória:
à rosa que já se desbastou
não se pode arrancar outra pétala.

As cartas por jogar
são apenas duas:
o presente e o dia de amanhã.

E nem sequer duas,
porque é um fato bem estabelecido
que o presente só existe
na medida em que se faz passado
e já passou…,
como a juventude.

Em suma,
só nos resta o amanhã:
levanto minha taça
para esse dia que nunca chega
mas que é o único
de que realmente dispomos.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

.
Ultimo brindis

Lo queramos o no
sólo tenemos tres alternativas:
el ayer, el presente y el mañana.

Y ni siquiera tres
porque como dice el filósofo
el ayer es ayer
nos pertenece sólo en el recuerdo:
a la rosa que ya se deshojó
no se le puede sacar otro pétalo.

Las cartas por jugar
son solamente dos:
el presente y el día de mañana.

Y ni siquiera dos
porque es un hecho bien establecido
que el presente no existe
sino en la medida en que se hace pasado
y ya pasó…,
como la juventud.

En resumidas cuentas
sólo nos va quedando el mañana:
yo levanto mi copa
por ese día que no llega nunca
pero que es lo único
de lo que realmente disponemos.

Jorge Valdés Díaz-Vélez – Ishmar

            para Martha Iga

A maneira de pentear-te nua
diante do espelho úmido do banheiro,
de prender na palma teus cabelos
para fazer correr a água e de agachar-te
no meio de palavras que não entendo;
o ato de secar tua pele, a forma
de sentir com os dedos uma ruga
que ontem não estava, ou de passar a toalha
pela pátina escura de tua púbis;
o modo de olhar para ti contigo
tão perto e tão distante, concentrada
em uma intimidade que a mim me exclui,
são gestos cotidianos de surpresa,
ritos que eu desconheço ao observar
as mesmas cerimônias que renovas
ao calor de teu corpo e que dividem
um segundo em partículas: espaços
onde a vida expressa seu possível
significado e que se afirmam ao pentear-te
nua nas manhãs, como um fruto
que contemplo pela primeira vez.

Trad.: Nelson Santander

Ishmar

            para Martha Iga

La manera de peinarte desnuda
ante el espejo húmedo del baño,
de apresar en la palma tu cabello
para escurrir el agua y agacharte
en medio de palabras que no entiendo;
el acto de secar tu piel, la forma
de sentir con las yemas una arruga
que ayer no estaba, o de pasar la toalla
por la pátina oscura de tu pubis;
el modo de mirarte a ti contigo
tan cerca y tan lejana, concentrada
en una intimidad que a mí me excluye,
son gestos cotidianos de sorpresa,
ritos que desconozco al observar
las mismas ceremonias que renuevas
al calor de tu cuerpo y que dividen
un segundo en partículas: espacios
donde la vida expresa su sentido
posible y que se afirman al peinarte
desnuda en las mañanas, como un fruto
que yo contemplo por primera vez.

Ernesto Cardenal – de “Epigramas”

Ao perder-te eu a ti, tu e eu perdemos:
eu porque tu eras o que eu mais amava
e tu porque eu era o que te amava mais.
Mas de nós dois tu perdeste mais que eu:
porque eu poderei amar a outras como te amava a ti,
mas a ti não te amarão como te amava eu.

Trad.: Nelson Santander

Epigrama

Al perderte yo a ti tú y yo hemos perdido:
yo porque tú eras lo que yo más amaba
y tú porque yo era el que te amaba más.
Pero de nosotros dos tú pierdes más que yo:
porque yo podré amar a otras como te amaba a ti
pero a ti no te amarán como te amaba yo.

Joan Margarit – No museu

Agacha-se junto ao menino e aponta para o quadro.
Com um gesto solene, comprime o punho
e tenta explicar a força que
acredita ver na pintura.
Esta velha obsessão de transmitir
aos pequenos nossos pobres recursos.
Atento, o menino observa com temor.
Talvez pressinta a solidão que se oculta
nos gestos, na retórica da arte.
Temos sempre a verdade diante de nós,
mas, assim como ao contemplar o céu,
não conseguimos ver mais do que a grafia
de um poema em um idioma estranho.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog


En el museo

Se agacha junto al niño y le señala el cuadro.
Con un grave ademán aprieta el puño
y trata de explicar aquella fuerza
que le parece ver en la pintura.
Esta vieja obsesión por transmitir
a los pequeños nuestras pobres armas.
Atento, el niño mira con temor.
Quizá intuye la soledad que ocultan
los gestos, la retórica del arte.
Siempre tenemos la verdad delante
pero, como al mirar el firmamento,
no podemos ver más que la grafía
de un poema en una lengua extraña.

Roberto Juarroz – Assim como não podemos

Assim como não podemos
sustentar por muito tempo um olhar,
também não podemos sustentar por muito tempo a alegria,
a espiral do amor,
a gratuidade do pensamento,
a terra em suspensão do cântico.

Não podemos sequer sustentar por muito tempo
as proporções do silêncio
quando algo o visita.
E menos ainda
quando nada o visita.

O homem não pode sustentar o homem por muito tempo,
nem tampouco o que o homem não é.

E, no entanto, pode
suportar o peso inexorável
do que não existe.

Trad.: Nelson Santander

.

Así como no podemos

Así como no podemos
sostener mucho tiempo una mirada,
tampoco podemos sostener mucho tiempo la alegría,
la espiral del amor,
la gratuidad del pensamiento,
la tierra en suspensión del cántico.

No podemos ni siquiera sostener mucho tiempo
las proporciones del silencio
cuando algo lo visita.
Y menos todavía
cuando nada lo visita.

El hombre no puede sostener mucho tiempo al hombre,
ni tampoco a lo que no es el hombre.

Y sin embargo puede
soportar el peso inexorable
de lo que no existe.

José Emílio Pacheco – Crianças e adultos

Aos dez anos, acreditava
que o mundo era dos adultos.
Podiam fazer amor, fumar, beber à vontade,
ir aonde quisessem.
Sobretudo, nos esmagar com seu poder indomável.

Agora sei, por vasta experiência, o lugar-comum:
em verdade, não há adultos,
apenas crianças envelhecidas.

Desejam o que não têm:
o brinquedo do outro.
Sentem medo de tudo.
Obedecem sempre a alguém.
Não governam a própria existência.
Choram por qualquer motivo.

Mas não são valentes como eram aos dez anos:
fazem-no à noite e em silêncio e sozinhos.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

Niños y adultos

A los diez años creía
que la tierra era de los adultos.
Podían hacer el amor, fumar, beber a su antojo,
ir a donde quisieran.
Sobre todo, aplastarnos con su poder indomable.

Ahora sé por larga experiencia el lugar común:
en realidad no hay adultos,
sólo niños envejecidos.

Quieren lo que no tienen:
el juguete del otro.
Sienten miedo de todo.
Obedecen siempre a alguien.
No disponen de su existencia.
Lloran por cualquier cosa.

Pero no son valientes como lo fueron a los diez años:
lo hacen de noche y en silencio y a solas.

Juan Vicente Piqueras – Papoulas

No antigo campo de batalha
onde morreram milhares de meninos
cresce novamente o trigo, salpicado
aqui e ali de ardentes papoulas.

E dois amantes, que terão
mais ou menos a idade dos soldados
que aqui então morreram,
hoje fazem amor no semeado.

Deitam o trigo. Calcam as papoulas.

Trad.: Nelson Santander

Amapolas

Sobre el antiguo campo de batalla
donde murieron miles de muchachos
vuelve a crecer el trigo, salpicado
aquí y allá de ardientes amapolas.

Y dos enamorados, que tendrán
más o menos la edad de los soldados
que aquí entonces murieron,
hoy hacen el amor en el sembrado.

Tumban el trigo. Aplastan amapolas.

Raquel Lanseros – A propósito de Eros

De todas as terrenas servidões
que aprisionam meu afã neste cárcere
confesso-me devedora da carne
e de todos os seus íntimos vaivéns
que me fazem mais feliz
       e menos livre.

Às vezes, porém,
a escravidão se mostra soberana
e me sinto senhora do destino.
  Porque sei amar, porque provei da fruta
  e nunca maldisse o seu sabor agridoce,
  porque posso oferecer meu coração intacto
  se o caminho se digna em requere-lo,
  porque suporto em pé, com humilde firmeza,
  o rigor deste fogo que enlouquece.

Neste fragor mudo em que todos somos
rufiões, vagabundos, despossuídos e presos
não existem vencedores nem vencidos
e a manhã não arrenda a ganância do ontem.

Que não entre na batalha quem sucumba
ante o rancor pequeno das humilhações.
Sabei, são necessárias enormes doses
de grandeza de espírito e coragem
nas silenciosas lides da paixão humana.

A recompensa, em troca, é substancial.
 Ser súdito tão só da natureza,
  não temer a morte nem o esquecimento,
   não aceitar da vida nenhuma esmola,
    não conformar-se com menos que tudo.

Trad.: Nelson Santander

A propósito de Eros

De todas las terrenas servidumbres
que aprisionan mi afán en esta cárcel
me confieso deudora de la carne
y de todos sus íntimos vaivenes
que me hacen más feliz
       y menos libre.

A veces, sin embargo,
la esclavitud se muestra soberana
y me siento señora del destino.
  Porque sé amar, porque probé la fruta
  y no maldije nunca su sabor agridulce,
  porque puedo ofrecer mi corazón intacto
  si el camino se digna requerirlo,
  porque resisto en pie, con humilde firmeza,
  el rigor de este fuego que enloquece.

En este fragor mudo en el que todos somos
rufianes, vagabundos, desposeídos y presos
no existen vencedores ni vencidos
y mañana no arrienda la ganancia de ayer.

Que no entre en la batalla quien sucumba
ante el rencor pequeño de las humillaciones.
Sabed, son necesarias descomunales dosis
de grandeza de espíritu y coraje
en las lides calladas de la pasión humana.

La recompensa, en cambio, es sustanciosa.
 Ser súbdito tan sólo de la naturaleza,
  no temer a la muerte ni al olvido,
   no aceptarle a la vida una limosna,
    no conformarse con menos que todo.

Jorge Valdés Díaz-Vélez – O material do relâmpago

Calculaste em detalhes cada passo,
sutil, há muitos séculos. Finalmente
teu marido viajou e as crianças
foram dormir com os avós.
Estás agora sozinha e eufórica
voltaste-te a se maquiar e vestiste-te
de preto rigoroso e perfumaste
tua mínima porção de lingerie.
Estás tremendo, dizes a ti mesma, mas nada
te fará voltar atrás. Olhas tua imagem
levantada nos saltos, desafiadora.
Tu e a noite são jovens e belas
como uma tempestade que se aproxima.

Trad.: Nelson Santander

Materia del relámpago

Calculaste al detalle cada paso,
sutil, desde hace siglos. Finalmente
tu esposo está de viaje y tus pequeñas
se fueron a dormir con sus abuelos.
Así que ahora estás sola y con euforia
te has vuelto a maquillar y te has vestido
de negro riguroso y perfumado
tu mínima porción de lencería.
Estás temblando, te dices, pero nada
te hará volver atrás. Miras tu imagen
alzada en los tacones, desafiante.
Tú y la noche son jóvenes y hermosas
como una tempestad que se aproxima.

Blas de Otero – Ímpeto

Mas nem tudo há de ser ruína e vazio
E nem tudo escombro ou descongelação.
Por cima deste ombro levo o céu,
e por cima deste outro, um vasto rio

de entusiasmo. E meu corpo no meio,
árvore luzente gritando do chão.
E, entre raízes mortais, sofreguidão,
meu coração desperto, raio sombrio.

Somente o anseio me vence. Mas avanço
sem duvidar, sobre abismos infinitos,
com a mão estendida: se não alcanço

com minha mão, hei de alcançar com gritos!
e sigo, sempre, de pé, e assim, me lanço
às águas dos apetites que habito.

Trad.: Nelson Santander

Ímpetu

Mas no todo ha de ser ruina y vacío.
No todo desescombro ni deshielo.
Encima de este hombro llevo el cielo,
y encima de este otro, un ancho río

de entusiasmo. Y, en medio, el cuerpo mío,
árbol de luz gritando desde el suelo.
Y, entre raíz mortal, fronda de anhelo,
mi corazón en pie, rayo sombrío.

Sólo el ansia me vence. Pero avanzo
sin dudar, sobre abismos infinitos,
con la mano tendida: si no alcanzo

con la mano, ¡ya alcanzaré con gritos!
y sigo, siempre, en pie, y así, me lanzo
al mar, desde una fronda de apetitos.