Jean Sprackland – Perdendo o escuro

Novembro, quando o dia deveria terminar mais cedo
como um livro maçante. Mas naquela tarde
uma pequena nuvem em forma de ponto de interrogação
passou sobre o sol e se dissolveu.
Seis horas; oito; dez. E a luz do dia
ainda inundava a rua espantada.

Uma dádiva. Como uma daquelas noites de verão
em que nos sentamos, copo na mão,
sob a veloz rota de voo dos andorinhões.
Descerrou rostos, lojas, portas dos fundos.
O sono e os segredos eram como fetiches empoeirados;
caminhávamos à meia-noite, fazíamos amor em quartos ensolarados.
Até a sétima noite, sem sonhos
e nervosos, não tínhamos como prever:

estes empurrões e pontapés por porões
e subterrâneas estações, para longe do brilho intenso
que nos abria como uma faca. Como todas as aves,
que às vezes cantam até morrer.

Trad.: Nelson Santander

Losing the dark

November, when day should close early
like a dull book. But that afternoon
a small cloud in the shape of a question-mark
passed over the sun and dissolved.
Six o’clock; eight; ten. Daylight
still flooded the startled street.

Such a gift. Like one of those summer evenings
when you sit out, glass in hand,
under the darting flightpaths of swifts.
It opened faces, shops, back doors.
Sleep and secrets were like dusty fetishes;
we took midnight walks, made love in sunlit rooms.
Even on the seventh night, dreamless
and nervy, we couldn’t foresee it:

this shoving and kicking for basements
and underground stations, away from the glare
that opens you like a knife. How all the birds
might sing themselves to death.

W. S. Merwin — Um aniversário

Algo continua e     eu não sei como chamá-lo
embora o idioma esteja cheio de sugestões
em termos de linguagem
mas elas todas são anônimas
e é quase seu aniversário música junto aos meus ossos

nestas noites ouvimos os cavalos correndo na chuva
ao parar a lua aparece e nós ainda estamos aqui
as goteiras no telhado continuam pingando depois que a chuva passa
o cheiro das flores de gengibre se espalha pela casa escura
perto do mar o lento coração do farol pisca

o longo caminho até você ainda está atado a mim mas isso me trouxe até você
continuo querendo lhe dar o que já é seu
esta é a manhã das manhãs juntas
alento de verão oh meu achado
o sono na mesma corrente e cada despertar é para você

quando abro os meus olhos você é quem eu queria ver.

Trad.: Nelson Santander
A Birthday

Something continues and     I don't know what to call it
though the language is full of suggestions
in the way of language
                                     but they are all anonymous
and it's almost your birthday     music next to my bones

these nights we hear the horses     running in the rain
it stops and the moon comes out     and we are still here
the leaks in the roof go on dripping     after the rain has passed
smell of ginger flowers     slips through the dark house
down near the sea     the slow heart of the beacon flashes

the long way to you is still tied to me     but it brought me to you
I keep wanting to give you     what is already yours
it is the morning     of the mornings together
breath of summer     oh my found one
the sleep in the same current     and each waking to you

when I open my eyes     you are what I wanted to see.

Sara Teasdale – Eu não sou tua

Eu não sou tua, e não estou perdida em ti,
Não estou perdida embora deseje estar
Perdida como uma vela acesa ao meio-dia,
Perdida como um floco de neve no mar.

Tu me amas, e eu ainda te considero
Uma alma com brilho e beleza incontroversa,
Contudo, eu sou eu, que anseia por estar
Perdida como uma luz que na luz se dispersa.

Oh, mergulha-me profundamente no amor – susta
Meus sentidos, deixa-me surda e sem visão,
Varrida pela tempestade do teu amor,
Uma vela em um indomável furacão.

Trad.: Nelson Santander

I am not yours

I am not yours, not lost in you,
Not lost, although I long to be
Lost as a candle lit at noon,
Lost as a snowflake in the sea.

You love me, and I find you still
A spirit beautiful and bright,
Yet I am I, who long to be
Lost as a light is lost in light.

Oh plunge me deep in love — put out
My senses, leave me deaf and blind,
Swept by the tempest of your love,
A taper in a rushing wind.

Linda Pastan – Chegamos ao silêncio

Chegamos ao silêncio lentamente. Tragados para o mundo
em uma onda de som
dele saímos mais tarde com as bocas fechadas,
nossas línguas tornadas pesadas
como pedras para nos ancorar
na terra. Agora ouvimos
o vento nas folhas farfalhantes,
um burburinho de água
sobre as pedras,
a batalha musical
dos pássaros.
Considere a orelha
em forma de clave de fá,
mas vazia.
Considere os espaços entre as estrelas,
solilóquios de luz.
É quase hora
de aquietar as crianças,
silenciar os cães.
Mesmo nossas palavras se tornam abafadas
em meu cabelo, logo
será apenas pelo toque
que o reconhecerei.
Estes são os corredores
do silêncio; entre
na ponta dos pés.
Aqui Orfeu repousa,
sua harpa desencordoada.
Aqui os sons que
uma folha produz
ao cair no chão
podem nos ensurdecer.

Trad.: Nelson Santander

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We come to silence

We come to silence slowly. Washed into the world
on a wave of sound
we leave it later with closed mouths,
our tongues grown heavy
as stones to anchor us
in earth. Now we hear
wind in the noisy leaves,
a hubbub of water
over the rocks,
the musical warfare
of the birds.
Consider the ear
shaped like the bass clef
but empty.
Consider the spaces between stars,
soliloquies of light.
It is almost time
to hush the children,
to quiet the dogs.
Even our words grow muffled
in my hair, soon
it will be only touch
I know you by.
These are the corridors
of silence; enter
on tiptoe.
Here Orpheus sleeps,
his harp unstrung.
Here the sounds
a leaf makes
falling to ground
may deafen us.

Faith Shearin – Cinzas, cinzas

O inverno é a morte pela qual todos temos esperado.
Mesmo nas Festas, em que o ano novo é louvado,
os galhos se quebram sob o peso da neve.
Conhecemos esta estação como reconheceremos o fim
de nossas vidas quando a vida estiver na metade.
Os anos seguem o caminho dos dentes da infância: premidos tão
esperançosamente sob travesseiros limpos. Pele morta.
As unhas que crescem sem pulsação.
Uma terra que engole bebês
devolve um erupção de margaridas de olhos brancos.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: pelo contexto do poema, o seu título pode ser a) a derivação de um dos grandes temas bíblicos (“Ashes to ashes, dust to dust” – em tradução livre, “Do pó viemos, ao pó retornaremos”), b) uma alusão ao título de uma canção de David Bowie (“Ashes to Ashes”) ou talvez c) remeta à uma interpretação corrente da antiga cantiga de roda – muito famosa no Reino Unido – chamada “Ring Around the Rosie” e seus famosos versos: Ring around the rosie / pocket full of posies / ashes, ashes / we all fall down! Segundo essa interpretação, a cantiga referir-se-ia na verdade, à peste bubônica que atingiu Londres no Século XVII. Assim, o título “Ring Around the Rosie” seria uma menção à erupção cutânea em torno da ferida de uma pessoa contaminada pela peste; “pocket full of posies“, as pétalas de flores que os médicos derramavam sobre seus pacientes mortos para afastar o cheiro da doença e da decomposição; ashes, ashes, o que sobrou dos defuntos após a cremação necessária para diminuir a transmissão da doença; e we all fall down! a constatação de que todos mais cedo ou mais tarde cairemos. Em um sentido mais amplo, “Ashes to ashes” é frequentemente utilizado para se referir à transitoriedade da vida e de tudo que nos cerca e à futilidade das realizações humanas.

Ashes, Ashes

Winter is the death we have all been waiting for.
Even at parties where the new year is praised
branches are breaking beneath the weight of snow.
We know this season like we will know the end
of our lives when the living is halfway through.
Years go the way of childhood teeth: pressed so
hopefully beneath clean pillows. Dead skin.
The fingernails that grow without a pulse.
An earth that swallows babies
gives back a rash of white-eyed daisies.

Juan Vicente Piqueras – O barbeiro

Nos últimos meses, olhava-se no espelho
e via um intruso. Irritava-se com ele.

Já estás aqui outra vez? Será possível?
Sai daqui agora mesmo.
Para a rua, vagabundo,
dizia-lhe.

Era-lhe doloroso, era-nos doloroso,
toda vez que ele tinha que ir ao banheiro.
Tínhamos que conduzi-lo pelo braço, convence-lo
do porquê.

Ele se tornou o dono desse lugar, dizia,
quem lhe deu as chaves?

Pouco a pouco o do espelho tornou-se mais um em casa.
Chamava-lhe o barbeiro.

Em vão, diziam-lhe que aquele homem era ele.
Eu nunca tentei porque sabia
que aquele homem era outra pessoa,
que em seu delírio ele tinha razão.

Pouco a pouco fomo-nos resignando
à invasão do barbeiro.

Uma noite, ao sair do banheiro, deixou a luz acesa.
Quando minha mãe lhe disse: Deixaste a luz acesa, ele respondeu:
Deixa-o, ele está lá dentro, o que podemos fazer?

Meu pai compreendeu que o barbeiro, o intruso,
tinha vindo busca-lo.

Agora o está barbeando naquela barbearia
que há sempre do outro lado do espelho.

E de lá me olham, sorriem para mim,
me esperam.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: este poema pode ser lido em conjunto com Nomes apagados, o primeiro de Juan Vicente Piqueras que traduzi para o blog.

El Barbero

En los últimos meses se miraba al espejo
y veía a un intruso. Se enfadaba con él.

¿Ya estás aquí otra vez? ¿Será posible?
Largo de aquí ahora mismo.
A la calle, granuja,
 le decía.

Le costaba un disgusto, nos costaba,
cada vez que tenía que entrar en el cuarto de aseo.
Había que sacarlo del brazo, convencerlo,
de qué.

Se ha hecho el amo, decía,
¿quíen le habrá dao las llaves?

Poco a poco el del espejo fue uno más en la casa.
Le llamava el barbero.

En vano le decían que ese hombre era él.
Yo nunca lo intenté porque sabía
que ese hombre era otro,
que en su delirio tenía razón.

Poco a poco nos fuimos resignando
a la invasión del barbero.

Una noche al salir del aseo dejó la luz encendida.
Cuando mi madre le dijo: Que te dejas la luz, él replicó:
Déjalo, está él ahí dentro, qué le vamos a hacer.

Mi padre comprendió que el barbero, el intruso,
había venido a llevárselo.

Ahora lo está afeitando en esa barbería
que hay siempre al otro lado del espejo.

Y desde alli me miran, me sonríen,
me esperam.

Suzanne Buffam – Basta

Estou usando óculos escuros dentro de casa
Para combinar com meu baixo astral.

Eu deixei todo o açúcar de fora da torta.
Minha raiva é uma espécie de raiva doméstica.

Aprendi com minha mãe
Que aprendeu com a mãe dela antes dela

E assim por diante.
Certamente os gregos tinham uma palavra para isso.

E hoje com certeza os alemães a têm.
Quanto mais palavras uma pessoa conhece

Para descrever suas dores privadas
Mais vagamente ela consegue compreende-las.

Repito os nomes de todas as cidades que conheci
E observo uma formiga arrastar sua sombra distorcida para casa.

O que significa amar a vida que nos foi dada?
Representar bem o papel para o qual fomos escalados?

Vento. Luz. Fogo. Tempo.
Um trem apita através das colinas distantes.

Um dia eu pretendo galgá-lo.

Trad.: Nelson Santander

Enough

I am wearing dark glasses inside the house
To match my dark mood.

I have left all the sugar out of the pie.
My rage is a kind of domestic rage.

I learned it from my mother
Who learned it from her mother before her

And so on.
Surely the Greeks had a word for this.

Now surely the Germans do.
The more words a person knows

To describe her private sufferings
The more distantly she can perceive them.

I repeat the names of all the cities I’ve known
And watch an ant drag its crooked shadow home.

What does it mean to love the life we’ve been given?
To act well the part that’s been cast for us?

Wind. Light. Fire. Time.
A train whistles through the far hills.

One day I plan to be riding it.

Gregory Fraser – Depois do fogo

Ouvi dizer que você está indo para a Itália, ele disse1. Você ouviu corretamente, ela respondeu.
Você finalmente conseguiu, disse ele, estou feliz por você. Estou feliz por mim mesma, ela falou.
Uma sonata de Scarlatti jorrou através das amplas portas francesas
e um brinde foi feito aos anfitriões, que disseram ter sido
inspirados pelos espíritos para dar aquele pequeno sarau.

Algumas vezes, ele disse, eu me sinto assim, não sei — abatido — quando penso em nós,
como uma luva, ele disse, em uma mão sem dedos. Engraçado, ela disse,
às vezes eu me sinto como a mão. O vento passou como uma lembrança
através de um bosque de pinheiros, e então, como se um grande guarda-chuva
tivesse sido aberto, fez-se noite. Ele olhou distraidamente para além da varanda

e pensou nos dias que se seguiram à partida dela, longos,
uniformes e vazios, como uma paisagem desértica. Você sente minha falta? perguntou.
Você sente a minha falta? ela respondeu. Sinto falta de quem eu era com você, ele disse.
O rosto dele era uma carta rasgada em pedaços e remendada com fita adesiva. Ela tremeu
como o filamento dentro de uma lâmpada. Você se lembra, ela falou,

quando me disse que a poesia é para aqueles que caminham durante o sono?
Você se lembra, ele disse, de quando chamou um autorretrato de uma tela
em que você se pinta de fora? Ela deixou escapar uma risada e
em seguida se calou. Estava ficando tarde. Logo os convidados encontrariam
seus casacos e partiriam. Esta vida é apenas o som de um sino, ele disse.

E a morte, o seu eterno eco, respondeu ela, concluindo o pensamento como se tivessem ensaiado.
Eles ficaram quietos então pelo que pareceu ser um longo tempo. Veneza?
ele perguntou, por fim. Florença? Roma? Nenhuma dessas, ela respondeu. Estou indo
para um pequeno burgo nas colinas da Úmbria chamado Postignano. Ele semicerrou os olhos
por um instante. Depois do fogo2, ele disse. Assim dizia o folder, ela falou.

Trad.: Nelson Santander

NOTAS

1. Um dos recursos poéticos mais evidentes desse poema é o uso intensivo da anáfora mediante a repetição das expressões “he said” (9 vezes) e “she said” (8 vezes). Vejo nisso ecos da canção She Said She Said, que faz parte do “Álbum Branco”, dos Beatles. Isso porque, além do uso reiterativo da expressão she said, o tema do poema se assemelha bastante ao da canção. Na língua original, o uso desse recurso não soa desarmonioso ou redundante, e parece uma boa opção o uso de uma técnica que, pela recorrência ad nauseam que revela o quão diferentemente pensam as personagens do poema, ajuda a expressar a ideia de irreconciliabilidade contida no texto. Julguei que, em língua portuguesa, o uso reiterado da expressão resultaria em algo maçante, parecido com má literatura. Assim, na busca de um efeito estético que resultasse em versos mais elegantes e menos cansativos, optei por diversificar as expressões, usando com parcimônia o “ele disse” e o “ela disse” e substituindo-os algures por outras expressões correlatas no curso do texto (“ela respondeu”, “ele falou”, “perguntou”, etc.). Espero que, apesar disso, o resultado da tradução não resulte na perda da ideia central da incompatibilidade encoberta do casal do poema.

2. Esta frase parece se referir à passagem bíblica do Livro dos Reis que narra as desventuras de Elias, o profeta, que, ameaçado de morte pela princesa Jezabel, esposa de Acabe, Rei de Israel, foge daquele reino para uma caverna em Horebe, onde recebe a visita de Deus, que fala com ele: “E eis que passava o Senhor, com também um grande e forte vento que fendia os montes e quebravas as penhas diante da face do Senhor; porém, o Senhor não estava no vento; e depois do vento, um terremoto; também o Senhor não estava no terremoto; E depois do terremoto, um fogo; porém também o Senhor não estava no fogo; e depois do fogo, uma voz mansa e delicada.” (Reis, 1:19:11 e 12). A passagem é mais uma daquelas mensagens que abundam na bíblia de que, mesmo diante das adversidades, é preciso prosseguir, pois depois da devastação sempre há algo de bom. No poema, a expressão ‘After the fire’ (‘Depois do fogo’) é proclamada pela personagem masculina do poema, de forma aparentemente surpresa, mas resignada, em resposta à informação de que sua ex-amada se mudaria de país. E não para um grande centro, mas para um pequeno lugarejo na Itália – como se estivesse fugindo, como Elias. Percebemos que a mulher já conhece a expressão porque a frase é grafada em itálico, o que indica que o homem está dizendo uma expressão familiar a ambos. Acima de tudo, “After the fire” parece ser uma metáfora para a fase pós-destruição de um relacionamento.

After the Fire

I heard you were going to Italy, he said. You heard correct, she said.
You finally did it, he said, I’m happy for you. I’m happy for myself, she said.
One of Scarlatti’s sonatas poured through the wide French doors
and a toast went up to the hosts, who announced they had been
summoned by the spirits to throw the “little soirée.”

Sometimes, he said, I feel so, I don’t know—droopy—when I think of us,
like a glove, he said, on a hand without fingers. Funny, she said,
I sometimes feel like the hand. Wind moved like memory
through a stand of pines, and then, as though a great umbrella
sprang open, it was night. He looked absently off the veranda

and thought of days that followed her exit, stretched on end,
uniform and blank, like pavement slabs. Do you miss me? he said.
Do you miss me? she said. I miss the self I was with you, he said.
His face was a letter torn to pieces and taped together. She trembled
like the wire inside a light bulb. Do you remember, she said,

when you told me poetry is for those who walk in their sleep?
Do you remember, he said, when you called a self-portrait a canvas
you paint yourself out of? She let slip a trickle of laughter
then shut the tap. It was getting late. Soon the guests would find
and vanish into their coats. This life is just the clang of a bell, he said.

And death its eternal echo, she said, finishing the thought as if they’d rehearsed.
They kept quiet then for what seemed like a very long while. Venice?
he asked, at last. Florence? Rome? None of these, she said. I’m off
to a tiny borgo in the Umbrian hills called Postignano. He squinted
for a moment. After the fire, he said. So the brochure said, she said.

Ada Limón – O que eu não sabia antes

era como os cavalos simplesmente davam à luz outros
cavalos. Não um bebê de qualquer jeito, não
uma criatura de espaços limiares, mas um animal
de quatro patas decidido a andar, correndo atrás
da mãe. Um cavalo dá lugar a outro
cavalo e, de repente, há dois cavalos,
simples assim. Foi como eu te amei. Você,
descendo do longo trem na Red Bank carregando
um café do tamanho do seu braço, uma bolsa com dois
computadores balançando desajeitadamente ao seu
lado. Lembro-me de termos caído na risada
quando nos vimos. O que houve entre
nós não foi uma coisa frágil para ser mimada, murmurada.
Já veio totalmente formada, pronta para correr.

Trad.: Nelson Santander

What I Didn’t Know Before

was how horses simply give birth to other
horses. Not a baby by any means, not
a creature of liminal spaces, but a four-legged
beast hellbent on walking, scrambling after
the mother. A horse gives way to another
horse and then suddenly there are two horses,
just like that. That’s how I loved you. You,
off the long train from Red Bank carrying
a coffee as big as your arm, a bag with two
computers swinging in it unwieldily at your
side. I remember we broke into laughter
when we saw each other. What was between
us wasn’t a fragile thing to be coddled, cooed
over. It came out fully formed, ready to run.

Linda Gregg – Ardendo e distante

Você retorna quando quer,
como a chuva. E é terno como a chuva,
tem a ternura inepta da chuva.
Uma paixão tão universal que poderia acontecer em qualquer lugar.
Você me carrega para o ar úmido.
Você me deita sobre as folhas
e o mais marcante não é o sexo
e sim acordar sozinha depois sob as árvores.

Trad.: Nelson Santander

Kept burning and distant

You return when you feel like it,
like rain. And like rain you are tender,
with the rain’s inept tenderness.
A passion so general I could be anywhere.
You carry me out into the wet air.
You lay me down on the leaves
and the strong thing is not the sex
but waking up alone under trees after.