Gregory Fraser – Depois do fogo

Ouvi dizer que você estava indo para a Itália, ele disse1. Você ouviu certo, ela respondeu.
Você finalmente conseguiu, disse ele, estou feliz por você. Estou feliz por mim mesma, ela falou.
Uma das sonatas de Scarlatti jorrou através das amplas portas francesas
e um brinde foi feito aos anfitriões, que anunciaram terem sido
convocados pelos espíritos para dar aquele pequeno sarau.

Algumas vezes, ele disse, eu me sinto assim, não sei — vazio — quando penso em nós,
como uma luva, ele disse, em uma mão sem dedos. Engraçado, ela disse,
às vezes eu me sinto como a mão. O vento se moveu como uma memória
através de um bosque de pinheiros, e então, como se um grande guarda-chuva
se abrisse, fez-se noite. Ele olhou distraidamente para além da varanda

e pensou nos dias que se seguiram à partida dela, longos,
uniformes e vazios, como lajes de pavimentação. Você sente a minha falta? perguntou.
Você sente a minha falta? ela respondeu. Sinto falta de quem eu era com você, ele disse.
Seu rosto era uma carta rasgada em pedaços e colada com fita adesiva. Ela tremeu
como o filamento dentro de uma lâmpada. Você se lembra, ela falou,

quando me disse que a poesia é para aqueles que caminham durante o sono?
Você se lembra, ele disse, de quando chamou um autorretrato de uma tela
em que você se pinta de fora? Ela deixou escapar uma risada e
em seguida se calou. Estava ficando tarde. Logo os convidados encontrariam
e sumiriam dentro de seus casacos. Esta vida é apenas o soar de um sino, ele disse.

E a morte o seu eterno eco, respondeu ela, concluindo o pensamento como se tivessem ensaiado.
Eles ficaram quietos então pelo que pareceu ser um longo tempo. Veneza?
ele perguntou, por fim. Florença? Roma? Nenhuma dessas, ela respondeu. Estou indo
para um pequeno burgo nas colinas da Úmbria chamado Postignano. Ele semicerrou os olhos
por um instante. Depois do fogo2, ele disse. Assim dizia a brochura, ela falou.

Trad.: Nelson Santander

NOTAS

1. Um dos recursos poéticos mais evidentes desse poema é o uso intensivo da anáfora mediante a repetição das expressões “he said” (9 vezes) e “she said” (8 vezes). Vejo nisso ecos da canção She Said She Said, que faz parte do “Álbum Branco”, dos Beatles. Isso porque, além do uso reiterativo da expressão she said, o tema do poema se assemelha bastante ao da canção. Na língua original, o uso desse recurso não soa desarmonioso ou redundante, e parece uma boa opção o uso de uma técnica que, pela recorrência ad nauseam que revela o quão diferentemente pensam as personagens do poema, ajuda a expressar a ideia de irreconciliabilidade contida no texto. Julguei que, em língua portuguesa, o uso reiterado da expressão resultaria em algo maçante, parecido com má literatura. Assim, na busca de um efeito estético que resultasse em versos mais elegantes e menos cansativos, optei por diversificar as expressões, usando com parcimônia o “ele disse” e o “ela disse” e substituindo-os algures por outras expressões correlatas no curso do texto (“ela respondeu”, “ele falou”, “perguntou”, etc.). Espero que, apesar disso, o resultado da tradução não resulte na perda da ideia central da incompatibilidade encoberta do casal do poema.

2. Esta frase parece se referir à passagem bíblica do Livro dos Reis que narra as desventuras de Elias, o profeta, que, ameaçado de morte pela princesa Jezabel, esposa de Acabe, Rei de Israel, foge daquele reino para uma caverna em Horebe, onde recebe a visita de Deus, que fala com ele: “E eis que passava o Senhor, com também um grande e forte vento que fendia os montes e quebravas as penhas diante da face do Senhor; porém, o Senhor não estava no vento; e depois do vento, um terremoto; também o Senhor não estava no terremoto; E depois do terremoto, um fogo; porém também o Senhor não estava no fogo; e depois do fogo, uma voz mansa e delicada.” (Reis, 1:19:11 e 12). A passagem é mais uma daquelas mensagens que abundam na bíblia de que, mesmo diante das adversidades, é preciso prosseguir, pois depois da devastação sempre há algo de bom. No poema, a expressão ‘After the fire’ (‘Depois do fogo’) é proclamada pela personagem masculina do poema, de forma aparentemente surpresa, mas resignada, em resposta à informação de que sua ex-amada se mudaria de país. E não para um grande centro, mas para um pequeno lugarejo na Itália – como se estivesse fugindo, como Elias. Percebemos que a mulher já conhece a expressão porque, primeiro, a frase é grafada em itálico, o que indica que o homem está dizendo uma expressão familiar a ambos, e também porque ela responde ao homem de pronto com um (irônico?) ‘So the brochure said’ (‘Assim dizia a brochura’), aparentemente se referindo a um encadernado mais simples e barato de bíblia.

After the Fire

I heard you were going to Italy, he said. You heard correct, she said.
You finally did it, he said, I’m happy for you. I’m happy for myself, she said.
One of Scarlatti’s sonatas poured through the wide French doors
and a toast went up to the hosts, who announced they had been
summoned by the spirits to throw the “little soirée.”

Sometimes, he said, I feel so, I don’t know—droopy—when I think of us,
like a glove, he said, on a hand without fingers. Funny, she said,
I sometimes feel like the hand. Wind moved like memory
through a stand of pines, and then, as though a great umbrella
sprang open, it was night. He looked absently off the veranda

and thought of days that followed her exit, stretched on end,
uniform and blank, like pavement slabs. Do you miss me? he said.
Do you miss me? she said. I miss the self I was with you, he said.
His face was a letter torn to pieces and taped together. She trembled
like the wire inside a light bulb. Do you remember, she said,

when you told me poetry is for those who walk in their sleep?
Do you remember, he said, when you called a self-portrait a canvas
you paint yourself out of? She let slip a trickle of laughter
then shut the tap. It was getting late. Soon the guests would find
and vanish into their coats. This life is just the clang of a bell, he said.

And death its eternal echo, she said, finishing the thought as if they’d rehearsed.
They kept quiet then for what seemed like a very long while. Venice?
he asked, at last. Florence? Rome? None of these, she said. I’m off
to a tiny borgo in the Umbrian hills called Postignano. He squinted
for a moment. After the fire, he said. So the brochure said, she said.

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