Joan Margarit – Manhã no cemitério de Montjuïc

Fui à colina dos túmulos:
lá cheguei cruzando o ermo
da Can Tunis, coberto de seringas
e de plásticos pardacentos, onde tremem, errantes,
as estátuas de trapo dos drogados.
Corre o boato de que a Prefeitura
irá destruí-lo, cobrindo de concreto
os terrenos com mato em frente à enorme grade
do cemitério, erguida de frente para o mar.
Que má companhia será para os mortos:
os defuntos, seu muro e sua quietude
harmonizam melhor com esses drogados
que, soldados sem forças e perdidos,
deambulam depois da derrota.
À medida que subimos pela velha estrada do porto,
os barcos e os guindastes ficam menores,
enquanto o mar fica mais largo. Aqui, no alto,
estás a salvo das dores do mundo.

Trad.: Nelson Santander

N. do T. em 18/02/2021: a publicação da tradução que fiz deste poema já estava agendada há mais de 2 meses. O poema narra uma visita que o poeta faz ao túmulo de um ente querido – presumivelmente, o de sua filha, Joana, falecida em 2001, vítima do câncer. Há dois dias, depois de uma breve batalha contra o câncer (sempre ele), faleceu também o poeta. Não sei se ele foi enterrado no mesmo cemitério Montjuïc, onde repousa a amada filha. Mas me anima pensar que, onde quer que esteja neste momento, também ele tenha ficado a salvo das dores do mundo.

Mañana en el cementerio de Montjuïc

He ido a la montaña de las tumbas:
he llegado hasta allí cruzando el yermo
de Can Tunis, nevado de jeringas
y de plásticos grises, donde tiemblan, errantes,
las estatuas de trapo de los yonquis.
Corre el rumor de que el Ayuntamiento
lo arrasará, cubriendo de hormigón
los campos de hierbajos ante la enorme reja
del cementerio, alzado frente al mar.
Qué mala compañía será para los muertos:
los difuntos, su muro y su quietud
armonizan mejor con esos yonquis
que, soldados sin fuerzas y perdidos,
deambulan después de la derrota.
Al subir por el viejo camino frente al puerto
los barcos y las grúas van empequeñeciéndose,
mientras se ensancha el mar. Aquí, en lo alto,
estás salvada del dolor del mundo.

Louis MacNeice – A luz do sol no jardim

A luz do sol no jardim
Endurece e esmorece,
Não podemos enjaular o minuto
Em suas malhas de ouro;
Quando tudo é proclamado
Não podemos implorar por perdão.

Nossa liberdade, como soldados a soldo,
Avança em direção ao seu fim;
A mundo compele, nele
Baixam sonetos e pássaros;
E em breve, meu amigo,
Não teremos tempo para danças.

O céu estava bom para voar,
Desafiar os sinos da igreja
E todas as sereias malignas
De ferro e o que elas dizem:
A terra compele,
Estamos morrendo, Egito, morrendo

E sem esperar por perdão,
Outra vez endurecidos de coração,
Mas felizes por termos estado debaixo de
Chuvas e trovoadas com você,
E gratos também
Pela luz do sol no jardim.

Trad.: Nelson Santander

The sunlight on the garden

The sunlight on the garden
Hardens and grows cold,
We cannot cage the minute
Within its nets of gold;
When all is told
We cannot beg for pardon.

Our freedom as free lances
Advances towards its end;
The earth compels, upon it
Sonnets and birds descend;
And soon, my friend,
We shall have no time for dances.

The sky was good for flying
Defying the church bells
And every evil iron
Siren and what it tells:
The earth compels,
We are dying, Egypt, dying

And not expecting pardon,
Hardened in heart anew,
But glad to have sat under
Thunder and rain with you,
And grateful too
For sunlight on the garden.

Mary Oliver – Os usos da tristeza

(enquanto dormia, sonhei este poema)

Alguém que amei uma vez me deu
uma caixa cheia de escuridão.

Levei anos para entender
que isto, também, foi uma dádiva.

Trad.: Nelson Santander

The uses of sorrow

(In my sleep I dreamed this poem)

Someone I loved once gave me
a box full of darkness.

It took me years to understand
that this, too, was a gift.

Jane Hirshfield – Jasmim

Quase o século vinte e um —
quão rapidamente o pensamento ficará datado,
até mesmo pitoresco?

Nossas esperanças, nosso futuro,
passarão como as esperanças e futuros dos outros.

E todas as nossas ansiedades e terrores,
noites de insônia,
pesares,
se apresentarão então como realmente são —

Abelhas delirantes e trôpegas pelo aroma do chá de jasmim.

In “The lives of the heart (1994-1997)

Trad.: Nelson Santander

Jasmine

Almost the twenty-first century —
how quickly the thought will grow dated,
even quaint.

Our hopes, our future,
will pass like the hopes and futures of others.

And all our anxieties and terrors,
nights of sleeplessness,
griefs,
will appear then as they truly are —

Stumbling, delirious bees in the tea scent of jasmine.

Seán Hewitt – Fantasma

i.

Despertando, quase de manhã, mas ainda
de um escuro metálico, fechado, no quarto:
um som dentro do meu sonho, apenas um lamento
no início, que depois se torna humano, um uivo
que se eleva na rua do lado de fora, fica sem resposta
e então se eleva novamente. De cueca, tremendo
junto à janela de uma só vidraça, mas não vendo ninguém
entre as sombras escuras dos carros estacionados
ou dos arbustos, eu saio seminu: mãos tremendo,
a porta da frente destrancada e depois aberta,
e junto à pilastra do alpendre, sob um cone
de luz laranja, um rapaz caído,
bêbado, soluçando como se sua vida inteira
estivesse se desatando em som.

 
ii.

E agora, eu me lembro de uma tarde,
voltando da escola, meu pai escavando
a raiz de uma conífera no jardim – eu o vi
olhar para cima, subitamente alerta, sair pelo portão do fundo
em direção ao beco atrás dos terraços, e voltar
em pânico com um menino nos braços. Eu o reconheci,
mais ou menos da minha idade, da escola, por seus dreadlocks,
suas mechas turquesas; mas agora pendendo
sob o próprio peso, seus pulsos escorrendo
sobre o jeans enlameado do meu pai e o azulejo do pátio.
Eu conhecia, mesmo então, os rumores sobre ele;
fiquei pensando, enquanto enrolávamos e atávamos lençóis rasgados
em torno de suas veias abertas, em como poderíamos compartilhar,
uma vez que a verdade fosse revelada, um vínculo, um sangue eletivo.

 
iii.

Noites mais tarde, dormi apenas pela metade, esperando
a qualquer momento ouvir de novo alguém do lado de fora,
como se o tempo pudesse ser apanhado em uma espiral,
o mesmo menino percorrendo a rota mapeada
pelas ruas escuras na mesma hora
até a minha porta. De novo, abri a janela,
e fiquei esperando para vê-lo chegar, descalço, talvez,
pelo caminho. Todas as noites, e nenhum sinal, até eu pensar
que talvez fosse só eu, ou um sonho meu,
pedindo, noite após noite, para ser recebido na soleira
e autorizado a retornar para o quarto frio de minha vida.
Mas então, para cada um de nós, uma ferida deve ser dada
ou produzida – há sempre a alma esperando
na porta do corpo, pedindo para ser solta.

Trad.: Nelson Santander

Ghost

i.

Waking, close to morning but still
a shuttered, metal dark in the room:
a sound inside my dream, only a whimper
at first, then becoming human, a howl
raised in the street outside, left unanswered
then raised again. In my boxers, shivering
by the single-paned window, but seeing no one
among the black shapes of the parked cars
or hedges, I went out half-dressed: hands shaking,
front door unlocked then pushed open,
and by the column of the porch, under a cone
of orange light, a young man slumped,
drunk, sobbing like his whole life
was unfurling into sound.

 
ii.

And now, I am reminded of one afternoon,
home from school, my father digging out
the root of a conifer in the garden – I saw him
look up, suddenly alert, leave by the back gate
into the alley behind the terraces, and return
panicked with a boy in his arms. I recognised him,
about my age, from school, by his dreadlocks,
his turquoise streak of hair; but now lolling
under his own weight, his wrists draining
over my father’s mudded jeans and the patio tiles.
I knew, even then, the rumours about him;
thought as we wrapped and pinned torn sheets
around his opened veins, how we might share,
once the truth was out, a bond, an elective blood.

 
iii.

Nights later, I only half-slept, expecting
at any moment to hear someone again outside,
as though time might be caught in a loop,
the same boy walking the mapped route
along the dark streets at the same hour
to my door. Again, I unshuttered the window,
stood waiting to see him come, barefoot, maybe,
down the path. Each night, no sign, until I thought,
perhaps, it was only me, or a dream of myself,
asking nightly to be greeted at the threshold,
allowed back into the cold room of my life.
But then, in each of us, a wound must be made
or given – there is always the soul waiting
at the door of the body, asking to be let out.

Edward Field – Máscara mortuária

Máscara mortuária

           “A velhice é a mais inesperada
            de todas as coisas que acontecem a um homem.“
            –Leon Trotsky.

            “Não me falem
            Da sabedoria dos velhos, mas antes de seu
            delírio,
            De seu medo…”
            –“East Coker,” by T.S. Eliot


                  1

No espelho, agora,
      o que vejo
me lembra
      que eu não estarei aqui para sempre.

Não me sinto nada
      como aquela cara.
Por dentro, protesto,
      eu sou completamente diferente.

É o avô de alguém,
      não eu.

De quem é esse avô?
      Eu vivo bem sem ele.

                  2

Ah, memória, memória…

É terrível

estar perdendo

as palavras.

                  3

Como se vai daqui até lá –
quero dizer, de onde estou
até o lar dos idosos?
Num estalar de dedos,
num piscar de olhos.

Como disse minha mãe,
enquanto era colocada
na ambulância,
Foi tão rápido.

                  4

A vida
          é um preguiçoso tumulto,
então
          a rápida picada.

Um longo suspiro interior,
          então
a súbita
          exalação.

Trad.: Nelson Santander

Death Mask

           “Old age is the most unexpected
            of all the things that happen to a man.“
            –Leon Trotsky.

            “Do not let me hear
            Of the wisdom of old men, but rather of their
            folly,
            Their fear…”
            –“East Coker,” by T.S. Eliot


                  1

In the mirror now,
      what I see
reminds me
      I won’t be here forever.

I don’t feel like
      that face at all.
Inside it, I protest,
      I’m quite different.

It’s somebody’s grandfather,
      not me.

Whose grandfather is that?
      I don’t want him.

                  2

Ah, memory, memory….

terrible,

to be losing

the words.

                  3

How do you get from here to there-
I mean, from where I am
to the nursing home?
In a snap of the fingers,
the blink of an eye.

Like my mother said,
as she was being loaded
into the ambulance,
It went so fast.

                  4

Life
          a lazy buzz,
then
          the quick sting.

A long inward breath,
          then
the sudden
          exhaling.

David Whyte – Algumas vezes

Algumas vezes,
se você se mover cuidadosamente
pela floresta,
respirando
como os
das velhas histórias,
que podiam atravessar
um resplandescente leito de folhas
sem um som,
você chega a um lugar
cuja única missão
é incomoda-lo
com ínfimas
mas assustadoras exigências,
concebidas do nada
mas neste lugar
que começa a leva-lo para todos os lugares.
Exigências para que você pare
o que está fazendo agora,
e
pare o que você
está se tornando
enquanto o faz,
indagações
que podem criar
ou destruir
uma vida,
indagações
que pacientemente
esperam por você,
indagações
que não tem o direito
de partir.

Trad.: Nelson Santander

Sometimes

Sometimes
if you move carefully
through the forest,
breathing
like the ones
in the old stories,
who could cross
a shimmering bed of leaves
without a sound,
you come to a place
whose only task
is to trouble you
with tiny
but frightening requests,
conceived out of nowhere
but in this place
beginning to lead everywhere.
Requests to stop what
you are doing right now,
and
to stop what you
are becoming
while you do it,
questions
that can make
or unmake
a life,
questions
that have patiently
waited for you,
questions
that have no right
to go away.

Paul Tran – A caverna

Alguém que estava na abertura teve
a ideia de entrar. Ir além do ponto onde

a luz ou a linguagem poderiam
ir. À medida que ele seguia
a ideia, luz e linguagem o acompanhavam

como dois lobos — ofegantes, ouvindo o próprio
resfolegar. Um aroma informe
no ar úmido…

Prossiga, disse a ideia.

Alguém prosseguiu. Cada vez mais fundo, eles viram
que outros tinha estado lá. Outros haviam deixado

objetos que não poderiam ter encontrado o caminho
para aquele lugar sozinhos. Conchas ocre-manchadas. Ossos de pássaros. Hematita
enraizada. Nas paredes,

como se entrasse na história, alguém vislumbrou
o seu propósito: vacas. Touros. Bisontes. Veados. Equinos —
alguns prenhes, outros abatidos.

A vida
selvagem parecia selvagem e viva, movendo-se

quando alguém se movia, lançando suas sombras
nas sombras que se estendiam
em todas as direções. Prossiga,

a ideia disse novamente. Continue…

Alguém continuou. Eles seguiram a ideia tão longe para dentro que
fora era outra ideia.

Trad.: Nelson Santander

The Cave

Someone standing at the mouth had
the idea to enter. To go further

than light or language could
go. As they followed
the idea, light and language followed

like two wolves—panting, hearing themselves
panting. A shapeless scent
in the damp air …

Keep going, the idea said.

Someone kept going. Deeper and deeper, they saw
others had been there. Others had left

objects that couldn’t have found their way
there alone. Ocher-stained shells. Bird bones. Grounded
hematite. On the walls,

as if stepping into history, someone saw
their purpose: cows. Bulls. Bison. Deer. Horses—
some pregnant, some slaughtered.

The wild-
life seemed wild and alive, moving

when someone moved, casting their shadows
on the shadows stretching
in every direction. Keep going,

the idea said again. Go …

Someone continued. They followed the idea so far inside that
outside was another idea.

Maya Angelou – Uma verdade corajosa e surpreendente

Nós, este povo, em um pequeno e solitário planeta
Viajando através do espaço acidental
Passando por estrelas distantes, cruzando o caminho de indiferentes sóis
Para um destino onde todos os sinais nos advertem que
É possível e imperativo que aprendamos
Uma verdade corajosa e surpreendente

E quando chegarmos a isso,
Ao dia da pacificação
Quando libertarmos nossos dedos
Dos punhos da hostilidade
E permitirmos que o ar puro refresque nossas mãos

Quando chegarmos a isso
Quando cair o pano sobre o espetáculo grotesco de ódio
E forem lavados os rostos manchados pelo desdém
Quando os campos de batalha e o coliseu
Não mais varrerem nossos únicos e especiais filhos e filhas
Com a grama machucada e ensaguentada
Deitando-os em túmulos idênticos em solo estrangeiro

Quando a voraz invasão das igrejas
E a gritaria estrepitosa nos templos houver cessado
Quando as flâmulas estiverem se agitando alegremente
E os estandartes do mundo se agitarem
Com vigor na brisa boa e limpa

Quando chegarmos a isso
Quando deixarmos cair os rifles de nossos ombros
E as crianças vestirem suas bonecas com bandeiras de trégua
Quando as minas terrestres da morte tiverem sido removidas
E os idosos puderem caminhar em noites de paz
Quando o ritual religioso não estiver perfumado
Pelo incenso da carne queimada
E os sonhos de infância não forem despertados
Pelo pesadelo dos abusos

Quando chegarmos a isso
Então estaremos prontos para admitir que nem as Pirâmides
Com suas pedras assentadas em misteriosa perfeição
Nem os Jardins da Babilônia
Suspensos em eterna beleza
Em nossa memória coletiva
Nem o Grande Canyon
Iluminado por deliciosas cores
No pôr-de-sol ocidental

Nem o Danúbio, fluindo sua alma azul na Europa
Nem o pico sagrado do Monte Fuji
Se estendendo até o Sol Nascente
Nem o Pai Amazonas nem a Mãe Mississípi que, sem favorecimentos,
Nutrem todas as criaturas nas profundezas e nas margens
Estas não são as únicas maravilhas do mundo

Quando chegarmos a isso
Nós, este povo, neste minúsculo e desalojado globo
Que alcança diariamente a bomba, a lâmina e a adaga,
Nós que pedimos no escuro por sinais de paz
Nós, este povo neste fragmento de matéria
Em cujas bocas habitam palavras corrompidas
Que desafiam nossa própria existência
Mas das quais também
Nascem canções de doçura tão rara
Que o coração vacila em seu labor
E o corpo se acalma em reverência

Nós, este povo, neste pequeno planeta à deriva,
Cujas mãos podem golpear com tal abandono
Que, num piscar de olhos, a vida é ceifada dos vivos,
Mãos que podem também tocar com uma irresistível e curativa ternura tal
Que o altivo pescoço fica feliz em se curvar
E o dorso orgulhoso contente em retirar-se
De tal caos, de tal contradição
Aprendemos que não somos nem demônios nem divinos

Quando chegarmos a isso
Nós, este povo, neste organismo flutuante e instável
Criado nesta terra, desta terra
Teremos o poder de modelar para esta terra
Um ambiente onde todo homem e toda mulher
Poderá viver livremente sem a hipócrita piedade
Sem o medo incapacitante

Quando chegarmos a isso
Teremos o dever de admitir que nós somos a possível,
A miraculosa, a verdadeira maravilha deste mundo
E é então, e só então
Que chegaremos a isso.

Trad.: Nelson Santander

A brave and startling truth

We, this people, on a small and lonely planet
Traveling through casual space
Past aloof stars, across the way of indifferent suns
To a destination where all signs tell us
It is possible and imperative that we learn
A brave and startling truth

And when we come to it
To the day of peacemaking
When we release our fingers
From fists of hostility
And allow the pure air to cool our palms

When we come to it
When the curtain falls on the minstrel show of hate
And faces sooted with scorn are scrubbed clean
When battlefields and coliseum
No longer rake our unique and particular sons and daughters
Up with the bruised and bloody grass
To lie in identical plots in foreign soil

When the rapacious storming of the churches
The screaming racket in the temples have ceased
When the pennants are waving gaily
When the banners of the world tremble
Stoutly in the good, clean breeze

When we come to it
When we let the rifles fall from our shoulders
And children dress their dolls in flags of truce
When land mines of death have been removed
And the aged can walk into evenings of peace
When religious ritual is not perfumed
By the incense of burning flesh
And childhood dreams are not kicked awake
By nightmares of abuse

When we come to it
Then we will confess that not the Pyramids
With their stones set in mysterious perfection
Nor the Gardens of Babylon
Hanging as eternal beauty
In our collective memory
Not the Grand Canyon
Kindled into delicious color
By Western sunsets

Nor the Danube, flowing its blue soul into Europe
Not the sacred peak of Mount Fuji
Stretching to the Rising Sun
Neither Father Amazon nor Mother Mississippi who, without favor,
Nurture all creatures in the depths and on the shores
These are not the only wonders of the world

When we come to it
We, this people, on this minuscule and kithless globe
Who reach daily for the bomb, the blade and the dagger
Yet who petition in the dark for tokens of peace
We, this people on this mote of matter
In whose mouths abide cankerous words
Which challenge our very existence
Yet out of those same mouths
Come songs of such exquisite sweetness
That the heart falters in its labor
And the body is quieted into awe

We, this people, on this small and drifting planet
Whose hands can strike with such abandon
That in a twinkling, life is sapped from the living
Yet those same hands can touch with such healing, irresistible tenderness
That the haughty neck is happy to bow
And the proud back is glad to bend
Out of such chaos, of such contradiction
We learn that we are neither devils nor divines

When we come to it
We, this people, on this wayward, floating body
Created on this earth, of this earth
Have the power to fashion for this earth
A climate where every man and every woman
Can live freely without sanctimonious piety
Without crippling fear

When we come to it
We must confess that we are the possible
We are the miraculous, the true wonder of this world
That is when, and only when
We come to it.

Eavan Boland – O barógrafo

Encontrei-o no cais,
um retângulo de madeira,
um barógrafo, a pena de sua haste rabiscando o papel.

Eu o trouxe para casa para ser
um registro dos ventos,
da pressão crescente,

apto a escrever a sina barométrica
do nosso cotidiano
em um mundo onde

carrinhos de livros levados pelo vento junto ao rio
prometiam palavras selvagens
mas obedeciam ao censor.

Os Bancos em College Green
registravam as Libras nos livros-caixa,
e os centavos à margem.

Enquanto isso, caminhávamos
por estradas velhas,
os olmos morrendo sobre nós. Então,

um outro tempo chegou: nossas telas
se encheram de ceias fúnebres
que assistimos em silêncio,

cada um de nós sentindo
que o que foi mudado
foi mudado para sempre. Ainda assim,

todos os dias a página era riscada,
a pena sempre pronta para ser
o que sempre foi:

escriba de nosso clima irlandês,
sem conhecer sofrimentos, apenas
o tempo que abria, fechava,

abria. Incapaz de compreender os eventos,
apenas o clima
em que eles se desenrolavam.

Trad.: Nelson Santander

The Barograph

I found it on the quays,
a rectangle of wood,
a barograph, its pen arm inking paper.

I brought it home to be
a register of winds,
of rising pressure,

able to write the barometric fate
of our dailyness
back in a world where

windblown book carts by the river
promised wild words
but obeyed the censor.

Banks in College Green
recorded pounds in ledgers,
pennies in the margin.

Meanwhile we were walking
the old roads,
the elms dying over us. Then

another time came: our screens
filled with supper funerals
we watched in silence,

each of us thinking
what was changed
was changed forever. Yet

every day the page was inked,
the pen still ready to be
what it had always been:

scribe of our Irish climate,
knowing no suffering, just
the hours as they opened, closed,

opened. Unable to understand events,
only the weather
in which they happened.