Jane Hirshfield – Sopesagem

As razões do coração
vistas com clareza,
inclusive as mais duras,
carregarão
suas marcas de chicote e tristezas
e devem ser perdoadas.

Como a elande faminta
pela seca que perdoa
o leão faminto pela seca
que finalmente a arrebata,
e entra em seguida de bom grado
na vida que ela não pode recusar,
e torna-se leão, está alimentada,
e não se lembra da anterior.

Tão poucos grãos de felicidade
mensurados contra toda a escuridão
e mesmo assim as escalas se nivelam.

O mundo só quer de nós
a força que temos e damos.
Então ele pede mais, e nós damos.

Trad.: Nelson Santander

The Weighing

The heart’s reasons
seen clearly,
even the hardest
will carry
its whip-marks and sadness
and must be forgiven.

As the drought-starved
eland forgives
the drought-starved lion
who finally takes her,
enters willingly then
the life she cannot refuse,
and is lion, is fed,
and does not remember the other.

So few grains of happiness
measured against all the dark
and still the scales balance.

The world asks of us
only the strength we have and we give it.
Then it asks more, and we give it.

Marilyn Nelson – Mais rápido que a luz

Eu não queria pagar para estacionar meu carro,
por isso peguei um táxi para a estação ferroviária.
New London fica a uma hora de carro,
mas aquela foi a melhor solução que pude encontrar.
Depois de mais ou menos dez milhas de conversa fiada
em que acabei confessando meu ofício,
o motorista disse que ele era um físico —
Como hobby, ele acrescentou: dirigir era sua ocupação.
Ainda lutando para prender meu cinto de segurança,
pedi sua opinião sobre um artigo
que eu tinha lido no fim de semana no New York Times,
sobre alguém que pesquisa viagens no tempo.

Ele fez aquele pffft que taxistas parisienses fazem
no início de agosto, quando americanos
tentam parlez avec eles na hora do rush.
Ele me deu uma boa olhada por cima dos ombros,
apertou o volante e pisou no acelerador.
E respondeu, Ele está errado. A única coisa que poderia funcionar
seria voar mais rápido do que a velocidade da luz,
através de um buraco de minhoca. O campo gravitacional
está cheio de buracos: você só precisa achar
um e ser puxado pela força metagravitacional.

Para obter energia, você poderia usar som compactado…
(ou algo parecido. Minha memória

não é o que era há dez minutos).
Ele dirigia com os dez nós dos dedos brancos no volante,
seu olho direito azul apertado olhando para mim,
enquanto fazíamos as curvas sobre dois pneus cantantes.
Viagens mais rápidas que a luz, esse é o segredo.
O governo está nisso há anos.
Existem outros planetas esperando para serem explorados.
O nosso já está quase esgotado; está na hora de partir.
Não aceitaremos pessoas que não estejam à altura,
os intelectualmente inferiores a nós.
Deixe-os herdar a terra; nós conquistaremos os céus.
(eu ainda não descobrira a trava do cinto de segurança.) 

A população pobre e ignorante aumenta
tão rapidamente… O quê? Negar o direito à vida?

Há uma porra de um holocausto de nascituros!
Só que algumas raças e culturas carecem do dom
do conhecimento científico. É o desperdício
de sua estupidez que nos oprime e nos
refreia. Viagens mais rápidas que a luz!

Viagens mais rápidas que a luz. O único jeito!
Nós descemos a rodovia, passando por caminhões,
mais rápidos que a luz! e carros cheios de pessoas
dirigindo, doidos para chegarem pontualmente ao trabalho.
Viagens mais rápidas que a luz, esse é o caminho!

Finalmente, paramos na estação de trem.
(eu desistira de afivelar meu cinto de segurança —
estúpida engenhoca — confiando no
universo para me conceder um pouco mais de sorte).
Desci aos tropeços. Despedimo-nos amistosamente
(minha gorjeta foi generosa, se o posso dizer).
Mais rápido que a luz, ele berrou, atrasado para sua próxima
corrida, saindo em disparada, falando ao telefone.
(minha caneca estava repleta do Salmo vinte e três.
A flutuabilidade às vezes é mais poderosa do que a gravidade).
Conduzi minha bagagem através do trem lotado,
encontrei um assento e abri minha revista.

Leio que alguma interferência está afetando uma sonda
espacial, o que deixa os cientistas perplexos. Ela
reescreverá as leis da física e da astronomia
quando os cientistas entenderem e nomearem essa força.
O plano era que a Pioneer 10 chegasse,
daqui a alguns milhões de anos, em algum lugar distante.
Em caso de contato alienígena, há uma placa
de um casal humano e um mapa celeste
mostrando a Terra com uma lança apontada para sua cabeça.
Trinta anos depois do seu lançamento, já passou Plutão,
o planeta mais distante orbitando nosso sol,
no espaço vazio a 7 bilhões de milhas da Terra.

O artigo diz que as teorias atuais não podem explicar
o que está causando a diminuição da velocidade da Pioneer.
É quase imperceptível, meros
6 MPH por século: mas a Pioneer 10
está sendo puxada de volta para o sol. Eu fecho meus olhos.
Vários milhões de anos a partir de agora. Como se
uma espécie prestes a se extinguir
dissesse a uma espécie futura: Lembra-se de mim?
A espécie que aperfeiçoou o genocídio?
Algum dia a ciência descobrirá a humildade?
Certo, sua tola. Você quer dizer en garde para a ciência?
Por que parar por aí? Por que não ataca o Conhecimento,

enquanto faz isso? E quanto ao Progresso?
Não é um pouco ambiciosa, Srta. William Blake?
Que voz foi essa? Ouça, Marilyn, ouça:
como os santos uma vez ouviram (e, claro, os loucos).
Olhei em volta: os outros passageiros
estavam ocupados com seus laptops, cafés da manhã, livros.
E do que me acusam? Ambição?
Ora, eu superei todas as fantasias que um dia tive.
Devo presumir que eu deveria falar mal de nossas tentativas
de enganar a morte? Meus poemas: um punhado de pó
tentando regressar à supernova.
Como todo anseio, como tudo que vive.

Mas a ambição quer a imortalidade
de um clube Valhalla apenas para associados,
uma eterna reunião de cúpula de grandes nomes.
Milhões de anos-luz no futuro,
esta ambição de imortalidade cruza
com o acaso: o que isso significará?
Nossa poesia, nossos livros, nossa língua: pó
de palavras, nunca mais pronunciadas.
Eu me pergunto o que durará milhões de anos:
Uma rocha? Um local de eliminação de resíduos nucleares?
Irá o Homo sapiens evoluir, ou morrer?
Seres mais sábios povoarão nossa Terra?

Estamos nos extinguindo mais rápido que a velocidade da luz,
nossa fama, olvidável. Irão desaparecer, também,
as boas ações, como exaladas moléculas de ar,
para serem recicladas pelo universo?
Garota, volte para a jangada. Quando você tenta pensar
a brisa entre suas orelhas quase me derruba
.
Minha musa outra vez. Lá se foi a minha revista.
Eu fecho suas páginas e começo a divagar.
Como se você não divagasse o tempo todo.
Se você tivesse o bom senso que Deus incentiva com uma cenoura,
saberia que o que dura é o silêncio do espaço:
o sibilar da órbita e o sussurro das estrelas.

Se pudesse lançar uma sonda espacial, me perguntei,
eu aceitaria meu nome gravado em ouro?
Meus insignificantes pensamentos? Minhas esperanças para o futuro?
E se soubesse que seria anônimo,
eu publicaria? Eu escreveria poemas
(durante a contagem regressiva do Anônimo,
você estaria tentando riscar suas iniciais no casco)?
Bem, Musa da Poesia Descartável,
pelo menos eu não estou produzindo lixo tóxico!
Mas poetas que buscam a imortalidade,
poetas que são ambiciosos: é errado
querer a vida, depois de nossas mortes, para nossas canções?

Deixe a imortalidade para as células cancerígenas.
Elas não sabem quando parar. Quando chegam

ao ponto de não retorno, o corpo morre,
e o câncer é devolvido à gênese.
Os genes são programados para se reproduzir e morrer;
e a poesia, para aderir a uma sinapse,

afortunada por ser uma linha mal lembrada.
Seu trabalho, projetado para o futuro,
é puxado de volta para a terra pela energia escura,
a cola que aglutina o cosmos…

Depois de Stamford eu não viajei mais sozinha;
meu colega de assento falava rapidamente em seu celular.

Trad.: Nelson Santander

Faster Than Light

I didn’t want to pay to park my car,
so I took a taxi to the train station.
New London is an hour’s drive away,
but it was the best solution I could find.
After ten miles or so of idle chat
in which my occupation was confessed,
the driver said he was a physicist—
As a hobby, he said: Driving was his trade.
Still struggling to connect my seat-belt clasp,
I asked his opinion of an article
I’d skimmed last weekend in the New York Times,
about a man who researches time travel.

He made that pffft Parisian cabbies make
in early August, when Americans
try to parlez avec them at rush hour.
He gave me a long over-the-shoulder glare,
squeezed the steering wheel, and hit the gas.
He said, He’s wrong. The one thing that would work
 is to fly faster than the speed of light,
through a wormhole. The gravitational field
is full of holes: You only have to find
one and be pulled by metagravitational force.
For energy you could use compressed song…
(or words to that effect. My memory

isn’t what it was ten minutes ago.)
He drove with ten white knuckles on the wheel,
his pinched blue right eye looking back at me,
as we took the curves on two screaming tires.
Faster than light travel, that’s the secret.
The government’s been onto this for years.
There are other planets waiting to be explored.
This one’s almost used up; it’s time to move.
We won’t take people who don’t measure up,
our intellectual inferiors.
Let them inherit the earth; we’ll take the skies.
(I still couldn’t figure out the seat-belt catch.) 

The poor and ignorant population grows
 so quickly… What? Deny the right to life?
There’s a fuckin’ holocaust of the unborn!
But some races and cultures lack the gift
of scientific knowledge. It’s the dross
 of their stupidity which weighs us down
and holds us back. Faster than light travel!
Faster than light travel. The only way!
We hurtled down the turnpike, passing trucks
Faster than light! and cars full of people
driving hell-bent to get to work on time.
Faster than light travel, that’s the ticket!

Finally, we pulled up at the train station.
(I’d given up on fastening my seatbelt—
stupid contraption—trusting to
the universe to grant me more good luck.)
I scrambled out. We wished each other well.
(My tip was generous, if I do say so myself.)
Faster than light, he yelled, late for his next
pickup, zooming off, talking to his phone.
(My cup brimmed over with Psalm Twenty-Three.
Buoyancy’s sometimes stronger than gravity.)
I wheeled my luggage down the crowded train,
then found a seat and opened my magazine.

Some influence is affecting a space probe,
I read, which baffles scientists. It will
rewrite the laws of physics and astronomy
when scientists understand and name that force.
The plan was for Pioneer 10 to arrive
some million years from now, at some far place.
In case of alien contact, there’s a plaque
of a human couple, and a celestial map
showing Earth with a spear held to her head.
Thirty years beyond its launch, it’s past Pluto,
the farthest planet orbiting our sun,
in empty space 7 billion miles from Earth.

The article said current theories can’t explain
what’s causing the decrease in Pioneer’s speed.
It’s almost imperceptible, a mere
6 mph per century: But Pioneer 10
is being pulled back to the sun. I closed my eyes.
Several million years from now. As if
a species on the brink of extinguishing itself
said to a future species, Remember me?
The species which perfected genocide?
Will science ever discover humility?
Right, fool. You want to say en garde to science?
Why stop there? Why don’t you attack Knowledge,

while you’re at it? And how about Progress?
Ain’t that a bit ambitious, Miss William Blake?
What was that voice? Listen, Marilyn, listen:
as saints once listened (and, of course, the mad).
I looked around: The other passengers
were busy with laptops, breakfasts, books.
And where does it get off accusing me? Ambition?
Why, I’ve surpassed every fantasy I had.
Would I presume to bad-mouth our attempt
to cheat death? My poems: a handful of dust
trying to get back to supernova.
Like every longing, everything alive.

But ambition wants the immortality
of a members-only country club Valhalla,
an eternal summit meeting of great names.
Millions of lightyears into the future,
that immortality ambition breeds
with serendipity: what will it mean?
Our poetry, our books, our language: dust
of words, never again to be spoken.
I wonder what will last millions of years:
A stone? A nuclear waste disposal site?
Will Homo sapiens evolve, or die?
Will wiser beings populate our Earth?

We’re dying faster than the speed of light,
our fame forgettable. Will good deeds, too,
vanish, like molecules of exhaled breath,
to be recycled by the universe?
Girl, get on back to the raft. When you try to think
the breeze between your ears nearly blows me away.
My Muse again. So much for my magazine.
I closed its pages and began to drift.
As if you wasn’t drifting all along.
If you had the good sense God promised the carrot,
you’d know that what lasts is the hush of space:
the hiss of orbit, and the hum of stars.

If you could launch a space probe, I wondered,
would you take up my name engraved in gold?
My puny thoughts? My hopes for the future?
And, if I knew I’d be anonymous,
would I publish? Would I write poems at all?
(During the countdown of The Anonymous,
you’d be trying to scratch your initials on the hull.)
Well, Muse of Disposable Poetry,
at least I’m not producing toxic waste!
But poets who want immortality,
poets who are ambitious: Is it wrong
to want life after our deaths for our songs?

Leave immortality to cancer cells:
They don’t know when to stop. Just when they reach
the point of no return, the body dies,
and the cancer is returned to genesis.
Genes are programmed to reproduce and die;
and poetry, to stick on a synapse,
ucky to be a line remembered wrong.
Your work, projected into the future,
is pulled back to earth by dark energy,
the glue which binds the cosmos together…
From Stamford I no longer traveled alone;
my seatmate fast-talked into his cellphone.

Jorge Valdés Díaz-Vélez – A última vez de Casanova

Giacomo se envolve no crepúsculo do Florian

Perguntas-me, Lesbia, quantos dos teus beijos
seriam suficientes para me satisfazer.
Catulo

Enquanto beijo tua boca, doce
donzela na conquista, mordo
as comissuras de tua mãe
e os lábios que tuas irmãs
cedem ao peso do desejo;
beijo as próximas mulheres
distantes e ainda desconhecidas
por minha cobiça, aquelas
que um dia serão tu em outra
tu, que agora pressionas meus lábios
contra tua máscara de névoa,
e abres o negro veludo
onde minha angústia deposita,
com um grito úmido e abafado,
o rubi do meu coração
fumegante ao pé de teu reflexo.

Trad.: Nelson Santander

La última vez de Casanova

Giacomo se envuelve en el crepúsculo del Florian

Me preguntas cuántos besos tuyos, Lesbia,
me bastarían para estar satisfecho.
Cátulo

Mientras beso tu boca, dulce
doncella en la conquista, muerdo
las comisuras de tu madre
y los labios que tus hermanas
ceden al peso del deseo;
beso a las próximas mujeres
lejanas y desconocidas
aún por mi codicia, aquellas
que algún día serán tú en otra
tú, que ahora oprimes mis labios
contra tu máscara de niebla,
y abres el negro terciopelo
donde mi angustia deposita,
con un grito húmedo y sordo,
el rubí de mi corazón
humeante al pie de tu reflejo.

Natalie Diaz – Meu irmão às 3 da manhã

Ele se sentou de pernas cruzadas, chorando nos degraus,
quando mamãe destrancou e abriu a porta da frente.
        Meu Deus, ele disse. Meu Deus.
                Ele quer me matar, mamãe.

Quando mamãe destrancou e abriu a porta da frente,
às 3 da manhã, ela estava de camisola, e papai dormia.
        Ele quer me matar, ele disse,
                olhando por cima do ombro.

Às 3 da manhã e de camisola, e papai dormia,
O que está acontecendo? ela perguntou. Quem quer te matar?
        Ele olhou por cima do ombro.
                O diabo. Olhe para ele, ali.

Ela perguntou, O que você usou? Quem quer te matar?
O céu não era preto nem azul, mas o verde de uma noite moribunda.
        O diabo, olhe para ele, ali.
                Ele apontou para a casa da esquina.

O céu não era preto nem azul, mas o verde moribundo da noite.
As estrelas haviam fechado seus olhos ou embainhado suas facas.
        Meu irmão apontou para a casa da esquina.
                Seus lábios feridos tremiam.

As estrelas haviam fechado seus olhos ou embainhado suas facas.
Meu Deus, eu posso ver o rabo, ele disse. Meu Deus, veja.
        Mamãe estremeceu ao ver as feridas nos lábios dele.
                Está saindo de trás da casa.

Meu Deus, veja o rabo, ele disse. Veja o maldito rabo.
Ele se sentou de pernas cruzadas, chorando nos degraus da frente.
        Mamãe finalmente viu, uma visão infernal, meu irmão.
                Meu Deus, meu Deus, ela disse.

Trad.: Nelson Santander

My Brother at 3 A.M.

He sat cross-legged, weeping on the steps
when Mom unlocked and opened the front door.
        O God, he said. O God.
                He wants to kill me, Mom.

When Mom unlocked and opened the front door
at 3 a.m., she was in her nightgown, Dad was asleep.
        He wants to kill me, he told her,
                looking over his shoulder.

3 a.m. and in her nightgown, Dad asleep,
What’s going on? she asked. Who wants to kill you?
        He looked over his shoulder.
                The devil does. Look at him, over there.

She asked, What are you on? Who wants to kill you?
The sky wasn’t black or blue but the green of a dying night.
        The devil, look at him, over there.
                He pointed to the corner house.

The sky wasn’t black or blue but the dying green of night.
Stars had closed their eyes or sheathed their knives.
        My brother pointed to the corner house.
                His lips flickered with sores.

Stars had closed their eyes or sheathed their knives.
O God, I can see the tail, he said. O God, look.
        Mom winced at the sores on his lips.
                It’s sticking out from behind the house.

O God, see the tail, he said. Look at the goddamned tail.
He sat cross-legged, weeping on the front steps.
        Mom finally saw it, a hellish vision, my brother.
                O God,O God, she said.

Louise Glück – Aubade

Hoje, acima do canto da gaivota,
ouvi você me acordar novamente
para ver aquela ave, voando
tão estranhamente sobre a cidade,
não querendo
parar, desejando
a desolação azul do mar —

Agora ela contorna o subúrbio;
contra si, a luz violenta do meio-dia:

Eu sinto a fome dela
como sua mão dentro de mim,

um grito
tão comum, desafinado —

O nosso não era
diferente. Eles surgiram
da necessidade
inesgotável do corpo

concretizando um desejo de voltar:
o pálido amanhecer, nossas roupas
não separadas para a partida.

Trad.: Nelson Santander

Aubade

Today above the gull’s call
I heard you waking me again
to see that bird, flying
so strangely over the city,
not wanting
to stop, wanting
the blue waste of the sea—

Now it skirts the suburb,
the noon light violent against it:

I feel its hunger
as your hand inside me,

a cry
so common, unmusical—

Ours were not
different. They rose
from the unexhausted
need of the body

fixing a wish to return:
the ashen dawn, our clothes
not sorted for departure.

Dan Gerber – Frequentemente, imagino a terra

Frequentemente, imagino a terra
com o olhar dos átomos de que somos feitos —
átomos, peculiares
átomos por toda parte —
sem eu, sem você, sem opiniões,
sem princípio, sem meio, sem fim,
planando juntos como aqueles
antigos pássaros chineses
nascidos milagrosamente com apenas uma asa,
ajudando uns aos outros a voar para casa.

Trad.: Nelson Santander

Often I Imagine the Earth

Often I imagine the earth
through the eyes of the atoms we’re made of—
atoms, peculiar
atoms everywhere—
no me, no you, no opinions,
no beginning, no middle, no end,
soaring together like those
ancient Chinese birds
hatched miraculously with only one wing,
helping each other fly home.

Dorianne Laux – Histórias de família

Tive um namorado que me contava histórias sobre sua família,
como a de certa vez em que uma discussão terminou quando seu pai
agarrou um pedaço aceso de um bolo de aniversário com ambas as mãos
e o arremessou pela janela do segundo andar. Isso,
eu pensava, era como uma família normal era: raiva
enviada através do peitoril, aterrissando como uma dádiva
para decorar a calçada abaixo. Na minha
eram punhos e golpes diretos no plexo solar,
e ninguém jamais perdoou ninguém. Mas eu acreditava
que, em suas histórias, as pessoas realmente se amavam,
mesmo quando gritavam e enfiavam seus pés
através das portas do armário ou empunhavam uma cadeira como uma garrafa
de champanhe barata, batizando a parede,
os estribos explodindo de seus orifícios.
Eu disse que soavam inofensivos, a pompa e a fúria
dos apaixonados. Ele respondeu que era uma maldição
ter nascido italiano e católico e que quando
olhava daquela janela o que via era o instante
rudemente destroçado. Mas tudo o que eu conseguia ver era um deslumbrante
bolo de três camadas deslizando como um navio avariado
pela calçada, as velas fumegantes quebradas, enraizadas
profundamente na cobertura, algumas ainda acesas.

Trad.: Nelson Santander

 

Family Stories

I had a boyfriend who told me stories about his family,
how an argument once ended when his father
seized a lit birthday cake in both hands
and hurled it out a second-story window. That,
I thought, was what a normal family was like: anger
sent out across the sill, landing like a gift
to decorate the sidewalk below. In mine
it was fists and direct hits to the solar plexus,
and nobody ever forgave anyone. But I believed
the people in his stories really loved one another,
even when they yelled and shoved their feet
through cabinet doors or held a chair like a bottle
of cheap champagne, christening the wall,
rungs exploding from their holes.
I said it sounded harmless, the pomp and fury
of the passionate. He said it was a curse
being born Italian and Catholic and when he
looked from that window what he saw was the moment
rudely crushed. But all I could see was a gorgeous
three-layer cake gliding like a battered ship
down the sidewalk, the smoking candles broken, sunk
deep in the icing, a few still burning.

Sara Teasdale – Chuvas suaves chegarão

(Tempos de Guerra)

Chuvas suaves chegarão e o cheiro de chão,
E andorinhas revoando, seus rútilos sons;

E sapos nos brejos cantarolando na noite,
E ameixeiras silvestres em seu branco oscilante,

Tordos trajarão incandescentes ornamentos
Trinando seus caprichos em baixos tapamentos;

E ninguém então saberá da guerra, ninguém
Se importará quando ela terminar enfim.

Ninguém se importaria, nem árvore nem ave,
Se os homens morressem em sua totalidade;

E a própria primavera, ao acordar na aurora,
Sequer perceberia se fôssemos embora.

Trad.: Nelson Santander

There will come soft rains

(War Time)

There will come soft rains and the smell of the ground,
And swallows circling with their shimmering sound;

And frogs in the pools singing at night,
And wild plum trees in tremulous white,

Robins will wear their feathery fire
Whistling their whims on a low fence-wire;

And not one will know of the war, not one
Will care at last when it is done.

Not one would mind, neither bird nor tree
If mankind perished utterly;

And Spring herself, when she woke at dawn,
Would scarcely know that we were gone.

Linda Pastan – Elegia

Nosso último corniso se inclina
sobre o solo da floresta

oferecendo frutos
aos pássaros, aos esquilos.

É uma relíquia
dos dias em que os cornisos

floresciam — renda natada em abril,
leite derramado em maio —

sua beleza delicada
mas comum.

Quando eu dava como certo
que o mundo permaneceria

como era, e eu
permaneceria com ele.

Trad.: Nelson Santander

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Elegy

Our final dogwood leans
over the forest floor

offering berries
to the birds, the squirrels.

It’s a relic
of the days when dogwoods

flourished—creamy lace in April,
spilled milk in May—

their beauty delicate
but commonplace.

When I took for granted
that the world would remain

as it was, and I
would remain with it.

Kirsten Dierking – Afortunada

Todo esse tempo,
a vida que você
deveria viver
tem-se erguido ao seu redor
como as paredes de uma casa
projetada com aconchegantes
linhas harmoniosas.

Como se você realmente tivesse
planejado desta forma.

Como se você tivesse
empilhado tijolos
ao acaso,
e criado por engano
uma estrela da sorte.

Trad.: Nelson Santander

Lucky

All this time,
the life you were
supposed to live
has been rising around you
like the walls of a house
designed with warm
harmonious lines.

As if you had actually
planned it that way.

As if you had
stacked up bricks
at random,
and built by mistake
a lucky star.