James Tate – Uma batida na porta

Eles me perguntam se eu já pensei
sobre o fim do mundo,
e eu respondo, “Entrem, entrem,
deixe-me dar-lhes algo para comer, por favor.”
Depois de algumas mordidas, eles querem falar
sobre a vida após a morte. “Ui!,” eu digo,
“vocês já viram aquela Greapleaf skeletonizer?”1
Depois eles começam a falar sobre redenção
e dos poucos escolhidos para sentar ao lado Dele.
“Fazendo o quê?” eu pergunto. “Só sentados?”
Estou cercado por zumbis carbonizados.
“Vamos comer uma torta de limão
que comprei ontem na 3 Dog Bakery.”
Mas eles querem falar sobre a minha alma.
Estou ficando sonolento e vejo borboletas
por toda parte. “Os cavalheiros
gostariam de tirar uma soneca, eu sei que eu gostaria.”
Eles se levantam e se afastam de mim,
saindo pela porta, caminhando em direção aos meus vizinhos,
uma nuvem negra sobre suas cabeças,
sem enxergar nada que não tenha um fim.

Trad.: Nelson Santander

1. A Grapeleaf skeletonizer (Harrisina americana) – esqueletizadora de folha de uva, em tradução livre – é uma mariposa da família Zygaenidae muito difundida na metade oriental dos EUA. Essa espécie leva esse nome pela capacidade que suas larvas têm de desfolhar videiras inteiras em hortas caseiras.

A Knock On The Door

They ask me if I’ve ever thought
about the end of the world,
and I say, “Come in, come in,
let me give you some lunch, for God’s sake.”
After a few bites it’s the afterlife
they want to talk about. “Ouch,” I say,
“did you see that grape leaf skeletonizer?”
Then they’re talking about redemption
and the chosen few sitting right by His side.
“Doing what?” I ask. “Just sitting?”
I am surrounded by burned-up zombies.
“Let’s have some lemon chiffon pie
I bought yesterday at the 3 Dog Bakery.”
But they want to talk about my soul.
I’m getting drowsy and see butterflies
everywhere. “Would you gentlemen
like to take a nap, I know I would.”
They stand and back away from me,
out the door, walking toward my neighbors,
a black cloud over their heads
and they see nothing without end.

Juan Luis Panero – Epitáfio diante de um Espelho

Dura há de ser a vida para ti,
que tuas crenças sacrificastes a uma estranha honradez,
para ti, cuja única certeza é tua memória
e, portanto, teu sepulcro mais infausto.
Dura há de ser a vida, quando os anos passarem
e por fim destruírem a ilusória pátria da tua adolescência,
quando vires, como hoje, este fantasma
que tempos atrás te consolou com sua beleza.
Quando o amor, como um vestido esfarrapado,
não pode proteger tua tristeza
e um motivo de zombaria, piedade ou assombro,
para os olhos mais puros, apenas seja.
Duro há de ser para o teu corpo ver morrer o desejo,
a juventude, tudo o que foste,
e buscar sem paixão o teu repouso
na surda ternura do que é frágil,
na cinza destruição que outrora amaste.
“É a lei da vida”, dizem velhos estéreis,
“e nada além de Deus pode mudá-la”, repetem,
à luz da noite, lentas sombras inúteis.
Dura há de ser a vida, tu que amaste o mundo,
que com um olhar ou uma suave carícia sonhaste em possuí-lo,
quando a absurda farsa que tão bem conheces
já não estiver adornada com o efêmero e o belo.
Dura há de ser a vida até o instante
em que velares tua memória neste espelho:
teus frios lábios já não terão refúgio
e em tuas mãos vazias abraçarás a morte.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO (com ligeiras correções na tradução): poema publicado no blog originalmente em 23/02/2018

Juan Luis Panero – Epitafio Frente a un Espejo

Dura ha de ser la vida para ti,
que a una extraña honradez sacrificaste tus creencias,
para ti, cuya única certidumbre es tu recuerdo
y por ello, tu más aciaga tumba.
Dura ha de ser la vida, cuando los años pasen
y destruyan al fin la ilusa patria de tu adolescencia,
cuando veas, igual que hoy, este fantasma
que tiempo atrás te consoló con su belleza.
Cuando el amor como un vestido ajado
no pueda proteger tu tristeza
y motivo de burla, de piedad o de asombro,
a los ojos más puros sólo sea.
Duro ha de ser para tu cuerpo ver morir el deseo,
la juventud, todo aquello que fuiste,
y buscar sin pasión tu reposo
en la sorda ternura de lo débil,
en la gris destrucción que alguna vez amaste.
«Es la ley de la vida», dicen viejos estériles,
«y nada sino Dios puede cambiarlo», repiten,
a la luz de la noche, lentas sombras inútiles.
Dura ha de ser la vida, tú que amaste el mundo,
que con una mirada o una suave caricia soñaste poseerlo,
cuando la absurda farsa que tú tanto conoces
no esté más adornada con lo efímero y bello.
Dura ha de ser la vida hasta el instante
en que veles tu memoria en este espejo:
tus labios fríos no tendrán ya refugio
y en tus manos vacías abrazarás la muerte.

Jack Gilbert – Um sumário para a defesa

Tristeza por toda parte. Massacres por toda parte. Se bebês
não estão passando fome em algum lugar, estão passando
fome em outro. Com moscas em suas narinas.
Mas apreciamos nossas vidas porque é isso que Deus quer.
Do contrário, as manhãs antes da alvorada de verão não
seriam tão belas. O tigre de Bengala não seria
tão milagrosamente bem moldado. As mulheres pobres
na fonte estão rindo juntas entre
o sofrimento que conheceram e o horror
em seu futuro, rindo e sorrindo enquanto alguém
na aldeia está muito doente. Há risos
todos os dias nas terríveis ruas de Calcutá,
e mulheres riem nas jaulas de Bombaim.
Se negamos nossa felicidade e resistimos à nossa satisfação
nós diminuímos a importância de sua privação.
Devemos arriscar o deleite. Podemos prescindir da vontade,
mas não do contentamento. Não da satisfação. Devemos conservar
a obstinação de aceitar nossa alegria na implacável
fornalha deste mundo. Fazer da injustiça a única
medida de nossa atenção é louvar o Diabo.
Se a locomotiva do Senhor nos atropelar,
devemos dar graças pela magnitude do fim.
Devemos reconhecer que haverá música, apesar de tudo.
Estamos uma vez mais na proa de uma pequena embarcação
ancorada tarde da noite em um minúsculo porto
observando a ilha adormecida: a orla marítima
tem três cafés fechados e uma luz nua acesa.
Ouvir o som fraco dos remos no silêncio enquanto um bote
sai lentamente e depois retorna vale realmente
todos os anos de tristeza que estão por vir.

Trad.: Nelson Santander

A Brief For The Defense
Sorrow everywhere. Slaughter everywhere. If babies
are not starving someplace, they are starving
somewhere else. With flies in their nostrils.
But we enjoy our lives because that’s what God wants.
Otherwise the mornings before summer dawn would not
be made so fine. The Bengal tiger would not
be fashioned so miraculously well. The poor women
at the fountain are laughing together between
the suffering they have known and the awfulness
in their future, smiling and laughing while somebody
in the village is very sick. There is laughter
every day in the terrible streets of Calcutta,
and the women laugh in the cages of Bombay.
If we deny our happiness, resist our satisfaction,
we lessen the importance of their deprivation.
We must risk delight. We can do without pleasure,
but not delight. Not enjoyment. We must have
the stubbornness to accept our gladness in the ruthless
furnace of this world. To make injustice the only
measure of our attention is to praise the Devil.
If the locomotive of the Lord runs us down,
we should give thanks that the end had magnitude.
We must admit there will be music despite everything.
We stand at the prow again of a small ship
anchored late at night in the tiny port
looking over to the sleeping island: the waterfront
is three shuttered cafés and one naked light burning.
To hear the faint sound of oars in the silence as a rowboat
comes slowly out and then goes back is truly worth
all the years of sorrow that are to come.

Juan Vicente Piqueras – Nomes Apagados

A mente não é um lápis para tomar notas,
É uma borracha.

Marko Vesovič

Meu pai foi pouco a pouco esquecendo a linguagem.
E começou pelos nomes. O que
seu cérebro primeiro esqueceu não foram os advérbios
e pronomes, nem os adjetivos,
como seria plausível acreditar,
nem os resíduos das preposições,
mas os substantivos.

A maçã deixou de ser uma maçã,
o copo passou a ser isso,
e aqueles que se aproximavam deixaram de ter nomes.

A morte começou seu trabalho minucioso
roubando-lhe os nomes,
apagando-os, colocando
em seu lugar um isto ou um aquilo,
um me dá, um balbucio, um aceno de mão.

O que se perde por último são os verbos,
os verbos que se movem como peixes
no sangue até que o mundo se acabe,
até que o corpo já não possa com sua alma.

Os adjetivos são afetuosos,
vestem de amor aquilo que avistam
e por isso sobrevivem.

Mas os nomes se esfumam.
E a substância dos substantivos
É nonada, névoa, colunas de fumaça.

A maçã deixa de ser maçã.
Eu deixo de ter um nome.
A palavra dor não significa nada.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 23/02/2018

Nombres Borrados

La mente no es un lápiz para tomar apuntes,
es una goma de borrar.

Marko Vesovič

Mi padre fue perdiendo poco a poco el lenguaje.
Y empezó por los nombres. Lo primero
que olvidó su cerebro no fueron los adverbios
ni los pronombres no los adjetivos,
como uno estaría tentado de creer,
ni las motas de polvo de las preposiciones,
sino los sustantivos.

La manzana dejó de ser manzana,
el vaso pasó a ser eso,
y quienes se acercaban dejaban de llamarse.

La muerte comenzó su labor minuciosa
robándole los nombres,
borrándolos, poniendo
en su lugar un esto o unaquello,
un dame, un balbuceo, un gesto de la mano.

Lo último que se pierde son los verbos,
los verbos que se mueven en la sangre
como peces hasta que acaba el mundo,
hasta que ya no puede el cuerpo con su alma.

Los adjetivos son afectuosos,
visten de amor lo que miran
y por eso perviven.

Pero los nombres se esfuman.
Y la sustancia de los sustantivos
es agua de borrajas, niebla, torres de humo.

La manzana deja de ser manzana.
Yo dejo de llamarme.
La palabra dolor no significa nada.

Nikita Gill – 93 por cento de poeira estelar

93 por cento de poeira estelar
(depois de Carl Sagan, que me deu esperança quando criança)

Temos cálcio em nossos ossos,
ferro em nossas veias,
carbono em nossas almas,
e nitrogênio em nossos cérebros.

93 por cento de poeira estelar,
com almas feitas de chamas,
somos todos apenas estrelas
que têm nomes de pessoas.

Trad.: Nelson Santander

93 Percent Stardust
(after Carl Sagan, who gave me hope as a child)

We have calcium in our bones,
iron in our veins,
carbon in our souls,
and nitrogen in our brains.

93 percent stardust,
with souls made of flames,
we are all just stars
that have people names.

Diego Moraes – Já se passaram dez anos

Já se passaram dez anos
Acabou a bateria do relógio que você me presenteou no natal que
seu tio ficou bêbado de vinho Dom Bosco e disse na frente dos filhos
e da esposa que era gay e viveria com um travesti búlgaro
em Londres
Já se passaram dez anos
Os poemas que escrevi quando gozava nos teus peitos de atriz da
nouvelle vague incorporada de pomba-gira amarelaram como sífilis
na fruteira
Já se passaram dez anos
A dona Gerusa que te vendia maconha morreu de AIDS na
penitenciária e o cachorro sem nome que adotamos morreu
atropelado por um táxi
Já se passaram dez anos
Hebe morreu. Michael Jackson Morreu. Roberto Piva morreu.
James Gandolfini morreu. Manoel de Barros morreu.
Já se passaram dez anos
Mas o cheiro da sua boceta ainda está impregnado no quarto, no
guarda-roupa, na cozinha, na varanda, nas estrelas.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 22/02/2018

Mary Oliver – Garças

Onde o caminho
    se encerrava,
        por entre folhas matizadas,
            galhos caídos,
através de nodosas salsaparrilhas,
    eu continuei. Por fim,
        não pude
            salvar meus braços
                dos espinhos; logo
os mosquitos
    sentiram meu cheiro, quente
        e ferido, e vieram
            girando e gemendo.
                E foi assim que cheguei
na beira do lago:
    escuro e vazio
        exceto por um fuso
            de juncos esbranquiçados
na margem oposta
    que, quando olhei,
        se enrugou subitamente
            em três garças —
uma ducha
    de fogo branco!
        Mesmo meio adormecidas, elas tinham
            tanta fé no mundo
que as tinha feito —
    que se inclinavam sobre a água,
        serenas, sem dúvida,
            pelas leis
de suas fés, não pela lógica,
    elas abriram suas asas
        suavemente e passaram
            por cima de todas as coisas escuras.

Trad.: Nelson Santander
Egrets

Where the path closed
    down and over,
        through the scumbled leaves,
            fallen branches,
through the knotted catbrier,
    I kept going. Finally
        I could not
            save my arms
                from thorns; soon
the mosquitoes
    smelled me, hot
        and wounded, and came
            wheeling and whining.
                And that's how I came
to the edge of the pond:
    black and empty
        except for a spindle
            of bleached reeds
at the far shore
    which, as I looked,
        wrinkled suddenly
            into three egrets —
a shower
    of white fire!
        Even half-asleep they had
            such faith in the world
that had made them —
    tilting through the water,
        unruffled, sure,
            by the laws
of their faith not logic,
    they opened their wings
        softly and stepped
            over every dark thing.

Luis Alberto de Cuenca – Abre todas as Portas

Abre todas as portas, a que conduz ao ouro,
a que leva ao poder, a que esconde o mistério
do amor; a que oculta o segredo insondável
da felicidade, a que a vida te oferta
para sempre no gozo de uma visão sublime.
Abre todas as portas, sem te mostrares curioso,
nem dar importância às manchas de sangue
que salpicam as paredes das salas
proibidas, nem às jóias que revestem os tetos,
nem aos lábios que na sombra buscam os teus,
nem à palavra sagrada que intimida dos umbrais.
Desesperadamente, civilizadamente,
contendo o riso, secando as lágrimas,
nas bordas do mundo, no final da jornada,
não hesites, meu irmão: abre todas as portas.
Embora nada haja dentro.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 21/02/2018

Luis Alberto de Cuenca – Abre todas las puertas

Abre todas las puertas: la que conduce al oro,
la que lleva al poder, la que esconde el misterio
del amor; la que oculta el secreto insondable
de la felicidad, la que te da la vida
para siempre en el gozo de una visión sublime.
Abre todas las puertas sin mostrarte curioso
ni prestar importancia a las manchas de sangre
que salpican los muros de las habitaciones
prohibidas, ni a las joyas que revisten los techos,
ni a los labios que buscan los tuyos en la sombra,
ni a la palabra santa que acecha en los umbrales.
Desesperadamente, civilizadamente,
conteniendo la risa, secándote las lágrimas,
en el borde del mundo, al final del camino,
oyendo cómo cantan los ruiseñores,
no lo dudes, hermano: abre todas las puertas.
Aunque nada haya dentro.

Matthew Sweeney – As mariposas

As mariposas

Ou o poema que começa com um verso de Diane Di Prima

Na neve, as mariposas caminham rigidamente,
elas nem ao menos tentam voar.
Suas pegadas são cobertas à medida que são feitas,
enquanto elas seguem umas às outras para casa
pelas frias colunas dos postes de iluminação
para esperar lá a chegada da luz.
A cada crepúsculo há menos delas,
e todas mais cansadas do que antes,
contudo, elas ainda elevam suas vozes
para saudar o filamento incandescente –
primeiro laranja, depois amarelo
como os olhos delas. E a neve
se acumula em suas asas dobradas,
tornando-as pesadas, fazendo com que algumas
caiam para serem esmagadas sob botas,
ou comidas por um cachorro que passa,
enquanto atrás delas outras caminham rigidamente,
seguindo as mortas para casa.

Trad.: Nelson Santander

The moths

Or poem beginning with a line by Diane Di Prima

In the snow the moths walk stiffly,
they don’t even try to fly.
Their footprints fill in as they make them,
as they follow one another home
up the cold poles of streetlamps
to wait there for the light.
Each dusk there’s less of them,
and all more tired than before
but still they raise their voices
to greet the glowing filament –
first orange, then yellow
like their eyes. And the snow
gathers on their folded wings,
making them heavy, making some
fall to be crunched under boots,
or eaten by a passing dog,
while behind them, more walk stiffly
following the dead ones home.

César Cantoni – O Tempo Irreparável

Quem teria pensado nisso, então?
O certo é que meu pai está morto
como se nunca tivesse existido.
Um dia congelaram suas mãos e os pés,
e a casa se encheu de parentes,
e minha mãe chorou, de joelhos, junto ao leito.
Ainda me lembro.

Meu pai está morto ou já não existe,
e não basta agora saber que ele era feliz.
Neste silencioso amanhecer de outono,
enquanto a água borbulha na chaleira,
e o rádio informa as últimas catástrofes,
e eu cumpro o rito habitual de me barbear,
só uma coisa é real: sua ausência, que não cessa.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado no blog originalmente em 17/02/2018

César Cantoni – El Tiempo Irreparable

Quién iba, entonces, a pensarlo.
Lo cierto es que mi padre está muerto
como si nunca hubiese estado vivo.
Un día se le helaron las manos y los pies,
y la casa se llenó de parientes,
y mi madre lloró, de rodillas, junto al lecho.
Todavía lo recuerdo.

Mi padre está muerto o ya no está,
y no es suficiente ahora saber que fue feliz.
En este callado amanecer de otoño,
mientras el agua burbujea en la pava,
y la radio reporta las últimas catástrofes,
y yo cumplo con el rito habitual de afeitarme,
sólo una cosa es real: su ausencia, que no cesa.