Linda Pastan – Por que seus poemas são tão sombrios?

Por que seus poemas são tão sombrios?

Não é a lua também sombria,
na maior parte do tempo?

E a página em branco
não parece inacabada

sem a mancha escura
das letras?

Quando Deus demandou a luz,
Ele não baniu a escuridão.

Em vez disso, Ele criou
o ébano e os corvos

e aquela pequena pinta
no lado esquerdo do seu rosto.

Ou você quis perguntar
“Por que você está triste com tanta frequência?”

Pergunte à lua.
Pergunte o que ela testemunhou.

Trad.: Nelson Santander

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Why Are Your Poems so Dark?

Isn’t the moon dark too,
most of the time?

And doesn’t the white page
seem unfinished

without the dark stain
of alphabets?

When God demanded light,
he didn’t banish darkness.

Instead he invented
ebony and crows

and that small mole
on your left cheekbone.

Or did you mean to ask
“Why are you sad so often?”

Ask the moon.
Ask what it has witnessed.

Manuel António Pina – Depois

Primeiro sabem-se as respostas.
As perguntas chegam depois,
como aves voltando a casa ao fim da tarde
e pousando, uma a uma, no coração
quando o coração já se recolheu
de perguntas e de respostas.

Que coração, no entanto, pode repousar
com o restolhar de asas no telhado?
A dúvida agita
os cortinados
e nos sítios mais íntimos da vida
acorda o passado.
Porquê, tão tardo, o passado?

Se ficou por saldar algo
com Deus ou com o Diabo
e se é o coração o saldo
porquê agora, Cobrança,
quando medo e esperança

se recolheram também sob
lembranças extenuadas?
Enche-se de novo o silêncio de vozes despertas,
e de poços, e de portas entreabertas,
e sonham no escuro
as coisas acabadas.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 31/03/2018

Jorge Valdés Díaz-Vélez – Xochiquetzal

Xochiquetzal1

(Homenagem a Chuang-Tzu2)

Ontem sonhei contigo. Vestias uma
gabardine de pele, e por baixo nada.
Era outono e estavas ensopada
pela chuva; caminhavas em alguma

gare de Madrid indo para lugar
nenhum. Estancavas ocasionalmente
teus passos para sentires transluzente
tua pele resplandecer ao luar

de um espelho invisível em que havia
um homem que sonhava com uma mulher
e uma mulher seminua e bonita,

molhada de orvalho. Mas eu, todavia,
ainda pareço olhar-te suster
o fixo olhar daquela borboleta.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.:

1. Segundo este site, Xochiquetzal “é a representação do arquétipo da mulher jovem em pleno vigor sexual. É a divinização da amante, uma deusa essencialmente feminina e seu âmbito é o amor, a volúpia, a sensualidade, o desejo sexual e o prazer em geral.” Mas Xochiquetzal é também uma espécie de borboleta, a Mariposa Cometa Xochiquetzal (Pterourus multicaudata), nativa da América do Norte, muito bonita por seu tamanho e coloração amarela tigrada. No poema, o substantivo próprio pode ser compreendido em ambas as acepções.

2. O poema homenageia o grande mestre taoísta Chuang-Tzu que teria formulado o famoso argumento do sonho, que pode ser assim resumido: depois de caminhar muito durante o dia, Chuang-Tzu adormeceu debaixo de uma amoreira e, em um sono profundo, sonhou ser uma borboleta que passeava pelos lugares que ele acabara de percorrer. Quando acordou, todavia, propôs para si o seguinte dilema filosófico: “Quem sou eu? Sou Chuang-Tzu que sonhou ser uma borboleta ou sou uma borboleta sonhando que se transformou em Chuang-Tzu?” O texto é interpretado, em termos filosóficos, como uma parábola para o seguinte questionamento: o que é realidade e o que é ilusão?

Xochiquetzal

(Homenaje a Chuang-Tzu)

Anoche te soñé. Llevabas una
gabardina de piel, y abajo nada.
Era otoño y estabas empapada
de lluvia; caminabas en alguna

estación de Madrid hacia ninguna
parte. Detenías tus pasos cada
tanto para sentir azafranada
tu piel resplandecer ante la luna

de un espejo invisible donde había
un hombre que soñaba una mujer
y una mujer semidesnuda, hermosa,

mojada en el orvallo. Todavía
me parece mirarte sostener
la mirada de aquella mariposa.

Laia Noguera Clofent – [Amo a vida simples]

Amo a vida simples,
sentar-me à entrada
para ver o ir e vir das pessoas,
como se move um pardal,
como se inclina a tarde
nas casas do corpo.

Bem sei que morrerei
muito antes de morrerem
as árvores que amo.

Mas isso não me preocupa,
porque no instante
em que se me romper o último fio
serei apenas aquela mulher
que se sentava à entrada
para simplesmente olhar
e ser folha e raiz.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO (com pequenas modificações na tradução): poema publicado no blog originalmente em 29/03/2018

[Amo la vida pequeña]

Amo la vida pequeña,
sentarse en la entrada
para ver cómo pasa la gente,
cómo se mueve un gorrión,
cómo se inclina la tarde
en las casas del cuerpo.

Ya sé que moriré
mucho antes de que hayan muerto
los árboles que quiero.

Pero no me preocupa nada,
porque en el instante
en que se me rompa el último hilo
seré sólo aquella mujer
que se sentaba en la entrada
para mirar simplemente
y ser hoja y raíz.

Nisha Atalie – Fazer/Não fazer

Eu cheiro o Lírio Tigre em flor,
duas línguas saltando
de uma boca.

Eu enveneno o rio involuntariamente.
Marcho nos caminho demarcados.

Eu corto a montanha, seu corpo e sua boca escancarados.
Recolho a água da chuva em um carrinho de mão.

Eu forro o ventre da baleia com presentes até
que eles dilacerem seu estômago.
Eu rego os morangos.

Novamente eu encho meu tanque com coisas mortas,
gerações girando juntas até brilhar.
Alimento os patos com alface fresca.

Eu manejo o esquilo morto
na estrada, marcando o momento
em que a criatura se torna carne.

Aceito que meu amor é uma
flor venenosa, rotineiramente fatal.

Eu calculo a força do
amor em cada morte reluzente.

O tempo todo nesta terra, nas
florestas profundas, os verdes elétricos e
a lama ainda úmida se contorcem com vida.

A lagoa borbulha e murmura.
Todos aqui sabem tremer
quando me vêem chegando.

As mangas chegam intactas
ao supermercado.
Os lobos devem começar a correr.

Trad.: Nelson Santander

Aqui: Do/Do Not

Sobre o poema: “Eu escrevi “Fazer/Não Fazer” como parte da luta contra a impotência que muitas vezes sinto ao viver em um momento de devastação e perdas. Não importa o quanto mudemos nossos comportamentos individuais, permanecemos presos e inseridos em um sistema que trata a vida humana e não-humana como descartável. Embora eu acredite que um mundo construído com base na prosperidade mútua de todos os seres vivos seja possível, ele parece distante na vida cotidiana, onde os cuidados e a proteção estão muitas vezes entrelaçados com a exploração e a dominação. Nestas condições, o impulso de amar e nutrir é tão insuficiente quanto absolutamente necessário”.Nisha Atalie

Do/Do Not

I sniff the blooming tiger lily,
two tongues sprung open
from one mouth.

I poison the river unintentionally.
I walk on the designated paths.

I splice the mountain, its body and mouth gaping.
I collect rainwater in a wheelbarrow.

I line the whale’s belly with gifts until
they rupture its stomach.
I water the strawberries.

Again I fill my gas tank with dead things,
generations spun together until shiny.
I feed the ducks fresh lettuce.

I maneuver the dead squirrel
on the road, mark the moment
when creature becomes meat.

I accept that my love is a
poisonous flower, routinely fatal.

I calculate the force of
loving in each glittering death.

All day on this land, in the
deep forest, the electric greens and
still-wet mud writhe with life.

The pond gurgles and whispers.
Everyone here knows to shudder
when they see me coming.

The mangos arrive unbruised
at the grocery store.
The wolves should start running.

Ana Martins Marques – História

Tenho 39 anos.
Meus dentes têm cerca de 7 anos a menos.
Meus seios têm cerca de 12 anos a menos.
Bem mais recentes são meus cabelos
e minhas unhas.
Pela manhã como um pão.
Ele tem uma história de 2 dias.
Ao sair do meu apartamento,
que tem cerca de 40 anos,
vestindo uma calça jeans de 40 anos
e uma camiseta de não mais do que 3,
troco com meu vizinho
palavras
de cerca de 800 anos
e piso sem querer numa poça
com 2 horas de história
desfazendo
uma imagem
que viveu
alguns segundos.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 19/03/2018

Vievee Francis – Estive pensando de novo no amor

Estive pensando de novo no amor

Naqueles que vivem para recebê-lo e
nos que vivem para dá-lo.

Claro que existem aqueles para quem ambos são aplicáveis,
mas nunca na mesma medida.

Aqueles que o têm para dar são
como cardeais na neve. Tão fáceis
e lindamente iluminados. Alguns
são como coelhos. Difíceis de ver
exceto para aqueles que os caçariam:
toda aquela suavidade e tremor e sangue.

Aqueles que o querem
não podem ser saciados. Com olhos de águia e essas garras,
qualquer criatura peluda serve. É tão fácil
arrancar um coração quando ele está pulsando tão forte.

Eu vagueio durante o inverno.
Eu sei o que sou.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: Na mesma chave – mas com outro olhar – leia também a tradução que fiz de The More Loving One (Aquele que Ama Mais), de W. H. Auden.

I’ve Been Thinking about Love Again

Those who live to have it and
those who live to give it.

Of course there are those for whom both are true,
but never in the same measure.

Those who have it to give are
like cardinals in the snow. So easy
and beautifully lit. Some
are rabbits. Hard to see
except for those who would prey upon them:
all that softness and quaking and blood.

Those who want it
cannot be satisfied. Eagle-eyed and such talons,
any furred thing will do. So easy
to rip out a heart when it is throbbing so hard.

I wander out into the winter.
I know what I am.

Marcia Vinci – Mãe Solteira

dadeira
parideira
nutriz
criadeira
toda mãe
é sozinha
toda mãe
é solteira

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 12/03/2018

Raymond Carver – Chuva

Despertei esta manhã com a urgência
terrível de permanecer na cama o dia inteiro
e ler. Lutei contra isso por um minuto.

Depois olhei a chuva pela janela.
e me rendi. Coloquei-me inteiramente
nas mãos dessa manhã chuvosa.

Viveria minha vida novamente?
Cometeria os mesmos erros imperdoáveis?
Sim, se tivesse a mínima chance. Sim.

Trad.: José Antônio Cavalcanti

Rain

Woke up this morning with
a terrific urge to lie in bed all day
and read. Fought against it for a minute.

Then looked out the window at the rain.
And gave over. Put myself entirely
in the keep of this rainy morning.

Would I live my life over again?
Make the same unforgiveable mistakes?
Yes, given half a chance. Yes.

Vicente Gaos – Testamento

Eu, Vicente Gaos, natural de lugar nenhum, mil séculos de idade, estado civil
solitário, instável
domiciliado/refugiado em um canto do cosmos,
profissão náufrago na sombra,
sem carteira de identidade, sem títulos, condecorações ou diplomas de qualquer tipo,
sem nenhuma marca particular visível no peito ou em qualquer outra parte do corpo,
sem mais cicatriz além de uma necrose miocárdica,
uma velha ferida auto-infligida,
quero dizer, causada por séculos de sofrimento,
de amor escondido, de ternura encoberta por um falso orgulho,
o de não sentir inveja de nada e de ninguém,
o de ter acreditado que sempre havia tempo de sobra,
o de me alegrar verdadeiramente com a felicidade alheia,
o de não nunca sentir pena de mim mesmo,
o de chorar por dentro o dano causado ao próximo,
o orgulho ou a confusão de ter-me sentido vítima, sendo o carrasco,
já que todos os homens somos simultaneamente ambas as coisas,
e não é fácil o discernimento neste momento…

Eu, Vicente Gaos (Vicente Gaos?), agora,
quando começo a sentir na boca o gosto amargo das cinzas
derradeiras, quando recordo dos últimos dias em meio à tormenta final,
porque eu pequei e pequei,
e apesar disso, nada me devolve à inocência infantil,
à proteção filial, à remota fé sincera de não sei que outrora,
de não sei que antesséculo…

Eu, natural do nada,
habitante do nada,
destinado a nada, anônimo,
me aproximo do Notário Supremo,
do Decano universal – nihil prius fide
e entrego-lhe esse testamento escrito à mão
no qual disponho
– se acaso não é certo que quem dispõe é Ele e o homem apenas propõe –
disponho, suplico,
que quando meu velho coração, meu ferido coração der sua última batida,
piedosamente incinerem esta carne que gozou e sofreu,
esses ossos que já estremeceram ora de alegria, ora de horror,
que me despojem de tudo, aliás de nada, pois sempre fui um despojado
(é verdade, não sinto pena de mim mesmo),
e que joguem minhas cinzas ao vento, à água, ao espaço sideral, ao vazio cósmico de onde vim, ao cósmico vazio a que hei de voltar, espero que sem retorno,
pois que ninguém retorna da última margem.

E perto já da maior consolação, da extrema esperança,
confio que Ninguém mais me ameace com outra existência.

E este é o testamento ilusório que outorgo em plena posse de minhas faculdades mentais,
posse de quem só possui dor, ignorância, morte,
e um coração cujo único desejo é o de que cesse já sua pulsação trêmula, suas batidas amorosas,
embora (porque) a vida seja, afinal, e no início, bela, ela é,
e continue renovada, sempre igual, felizmente monótona,
como no primeiro paraíso,
como no éden fúnebre que nunca termina, que nunca terminará,
nunca.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO (com alterações na tradução): poema publicado no blog originalmente em 11/03/2018

Vicente Gaos – Testamento

Yo, Vicente Gaos, natural de la nada, de mil siglos de edad, de estado civil
solitario, inestable,
domiciliado, refugiado en un rincón del cosmos,
de profesión náufrago en la sombra,
sin documento nacional de identidad, sin títulos, condecoraciones ni diplomas de clase alguna,
sin señal particular visible en el pecho ni en ninguna otra parte del cuerpo,
sin más cicatriz que una necrosis de miocardio,
una vieja herida que me produje yo mismo,
quiero decir, que me causaron siglos de sufrimiento,
de amor oculto, de ternura encubierta por un falso orgullo,
el de no sentir envidia de nada y de nadie,
el de haber creído que siempre había tiempo de sobra,
el de alegrarme seriamente del bien ajeno,
el de no autocompadecerme jamás,
el de llorar hacia dentro por el daño hecho al prójimo,
el orgullo o la confusión de haberme figurado que era yo la víctima, siendo el verdugo,
ya que todos los hombres somos simultáneamente lo uno y lo otro,
y no es fácil en este punto el discernimiento…

Yo, Vicente Gaos (¿Vicente Gaos?), ahora,
cuando empiezo a sentir ya en la boca el amargo gusto de la ceniza
postrera, cuando recuerdo en medio de la tormenta final las postrimerías,
porque he pecado, he pecado,
y a pesar de ello ninguna de las cuatro me devuelve a la inocencia pueril,
al amparo filial, a la remota fe cándida de no sé qué antaño,
de no sé qué antesiglo…

Yo, natural de la nada,
habitante de la nada,
destinado a la nada, anónimo,
me acerco ya al encuentro del supremo Notario,
del Decano universal – nihil prius fide –
y le hago entrega de este testamento ológrafo
donde dispongo
– si acaso no es cierto que quien dispone es Él y el hombre sólo propone –
dispongo, suplico,
que cuando mi añoso corazón, mi lastimado corazón haya dado ya su último latido,
incineren piadosamente esta carne que gozó y sufrió,
estos huesos que se estremecieron ya de júbilo, ya de horror,
que me despojen de todo, de nada, pues siempre fui un despojado
(es la verdad, no me autocompadezco),
y que arrojen mis cenizas al viento, al agua, al espacio estelar, al vacío cósmico de donde vine, al cósmico vacío al que he de volver, espero volver sin retorno,
pues nadie regresa de la última orilla.

Y cerca ya del máximo consuelo, de la extrema esperanza,
confío en que Nadie me amenace más con otra existencia.

Y este es el testamento ilusorio que otorgo en plena posesión de mis facultades mentales,
posesión de quien sólo posee dolor, ignorancia, muerte,
y un corazón cuyo único deseo es el de cesar ya en su trémulo palpito, en su amoroso latido,
aunque (porque) la vida sea al fin y al cabo, y al principio, hermosa, lo es,
y prosiga renovada, siempre igual, afortunadamente monótona,
como en el paraíso primero,
como en el edén funeral que nunca termina, que jamás terminará,
jamás.