George Bilgere – Tudo bem

Eu me sento aqui na calçada da cafeteria,
emitindo a amarela fumaça doentia da senescência
enquanto as pessoas passam fingindo
não notar, olhando para longe
ou para os seus telefones,
fazendo o melhor por comoção ou cortesia
para me ignorar sentado aqui envelhecendo,
e eu não os culpo, é mesmo difícil de assistir.

E agora a garçonete em sua beleza abrasadora,
em sua feminilidade incandescente e brilhante,
caminha até mim em uma radiante nuvem de juventude
e pergunta se quero outro latte macchiato gelado.

Mas estou envelhecendo tão rápido, estou correndo tão rapidamente
através do tempo que mal posso ouvi-la, e ademais
sei que o que realmente ela quer dizer é:
seu envelhecimento é meio nojento, é meio que brochante,
talvez você possa fazer isso em outro lugar
onde não assuste os clientes, e além disso,
não há nada que eu possa fazer a respeito.

E enquanto eu me sento aqui com minha pele descamando
e amassando como papel higiênico
e meu cabelo caindo sobre a mesa
e meus dentes apodrecendo e meus ossos
tornando-se frágeis como vidro e todos os meus órgãos se afogando
no lodo da idade, eu murmuro para ela
enquanto ela flutua no oásis fresco e cremoso
de sua luminosa juventude, eu consigo murmurar, sim,
outro latte macchiato gelado seria ótimo.

E do outro lado do universo,
da bela abundante abrasadora galáxia
do final da adolescência, ela responde para a acelerada podridão,
talvez começando a cheirar mal, prestes a ser
coberta de moscas, a velha carcaça coriácea em que estou me transformando:
Tudo bem

Exceto que, na verdade, não está
tudo bem.

Trad.: Nelson Santander

No Problem

I sit here aging at the streetside café,
giving off the sickly yellow smoke of decay
while people walk by pretending
not to notice, glancing away
into the distance or down at their phones,
doing their best out of politeness or shock
to ignore me sitting here aging,
and I don’t blame them, it’s hard to watch.

And now the waitress in her burning beauty,
her lustrous incandescent womanhood,
walks up to me in a radiant cloud of youth
and asks if I want another iced latte macchiato.

But I’m aging so fast, I’m racing so quickly
through time I can barely hear her, and furthermore
I know what she really wants to say is,
your aging is kind of gross, kind of a turn off,
maybe you could go do it somewhere else
where it doesn’t frighten the customers, and besides,
it’s not like there’s anything I can do about it.

And as I sit here with my skin peeling off
and crumpling up like toilet paper
and my hair falling out on the table
and my teeth rotting and my bones
turning to glass and all my organs drowning
in the sludge of age, I croak to her
as she floats in the cool creamy oasis
of her youthful lustrousness, I do manage to croak, yeah,
another iced latte macchiato would be great.

And from the far side of the universe,
from the beautiful bountiful burning galaxy
of her late teens she says to the fast-decaying,
maybe starting to smell bad, just about to be
covered with flies old leathery carcass I’m becoming,
No problem.

Except that there is, actually,
a problem.

Ernesto Pérez Vallejo – Perdão, falava em voz alta

Queres mesmo que eu seja sincero?

Se não esperas nada de ninguém
Nunca poderão desapontá-la.
A esperança é aquele relógio
que sempre marca a hora errada.

Se não escolheres o caminho errado algumas vezes
como diabos saberás qual deles era o certo?

Nos momentos felizes, não sabemos ao certo se estamos tristes.
Mas, quando tristes, todos sabemos quando estávamos felizes.

E o amor, bem, como fazer-te entender
que não é mais do que a desculpa de amar
a si próprio através de outra pessoa
sem parecer egocêntrico?

É mais fácil mirar-te nos olhos de outrem,
o espelho nunca disse uma mentira.

E, a propósito, sejamos realistas,
Ninguém morreu por ninguém ainda.
O amor não mata, embora sempre morra.
Porque ele morre,
mesmo que agora teus olhos estejam brilhando
e sintas cócegas no estômago
e vejas rinocerontes azuis se te apraz
e digas frases eternas
que soam como um eco no ouvido alheio,
um dia, sem saberes como,
o um mais um torna-se dois
e dois é sempre muito.
E três é o próximo número.

A amizade, bem, se tiveres sorte,
Ninguém irá desapontá-lo de todo.
Há também pessoas que ganham na loteria de vez em quando.
Normalmente, teus melhores amigos, se pudessem,
Transariam com tua namorada.
E tua namorada faria o mesmo com eles.
Às vezes a vida se reduz a uma simples xoxota.

A verdade, dizes?
Fidelidade é o poder absoluto
de seres infiel a ti mesmo.

A ignorância faz o sorriso.
Sorriso é o que causa inveja.
Inveja que gera ódio.

Se tens medo da solidão
é porque nem mesmo tu
és capaz de suportar-te.

Jamais conseguirás esquecer aquilo de que precisas te livrar.
No entanto, um dia precisarás te lembrar de certas coisas
e só encontrarás o esquecimento.
É mais fácil lembrar quando dói.

E todos aqueles momentos que parecem para sempre,
têm um limite,
todas as promessas, um prazo de validade,
todas as pessoas, um rótulo com seu preço.

(Eu só valho alguns beijos)

E digas agora tudo o que tens a dizer
porque amanhã é sempre muito tarde,
na verdade, às vezes nem mesmo há um amanhã.
E não há nada mais foda do que o silêncio
quando uma única palavra seria suficiente
para foder os planos da morte.

A realidade é que existe apenas uma coisa sincera
que é impossível de camuflar mesmo com teu melhor esgar:
o desejo.
E agora desejo que esqueças tudo isso que escrevi
e venhas dormir comigo.

Ou ainda queres que eu continue sendo sincero?

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO (com alterações na tradução): poema publicado no blog originalmente em 10/03/2018

Ernesto Pérez Vallejo – Perdona, Hablaba en Voz Alta

En serio te apetece que sea sincero?

Si no esperas nada de nadie
nunca podrán defraudarte.
La esperanza es ese reloj
que siempre marca la hora inexacta.

¿Si no escoges el camino equivocado alguna vez
como coño vas a saber cual era el correcto?

Dentro de la felicidad uno no sabe con certeza si está triste.
Pero dentro de la tristeza todos sabemos cuando éramos felices.

Y el amor, bueno, como decirte para que lo entiendas,
que no es más que la excusa de quererse
a través de otra persona
y que así no parezca egocentrismo.

Es más fácil si te miras a sus ojos,
el espejo nunca dijo una mentira.

Y seamos realistas ya de paso,
nadie se ha muerto por nadie todavía.
El amor no mata aunque siempre muera.
Porque muere,
aunque ahora te estén brillando los ojos
y tengas cosquillas dentro del estómago
y veas rinocerontes azules si te place
o digas frases eternas
que suenen como eco en el oído ajeno,
un día sin saber como
el uno más uno se hace dos
y dos es siempre demasiado.
Y tres es el número siguiente.

La amistad bueno, si tienes suerte
nadie te defraudará del todo.
También hay gente a la que le toca de vez en cuando la lotería.
Por lo general tus mejores amigos si pudieran
se follarían a tu novia.
Y tú novia a tus mejores amigos.
A veces la vida se reduce a un simple coño.

¿La verdad dices?
La fidelidad es el poder absoluto
de serte infiel a ti mismo.

La ignorancia hace la sonrisa.
La sonrisa es la que consigue la envidia.
La envidia la que crea el odio.

Si le temes a la soledad
es porque ni siquiera tú
eres capaz de soportarte.

No conseguirás jamás olvidar aquello que necesitas quitarte de encima.
Sin embargo un día necessitarás recordar ciertas cosas
y solo hallarás el olvido.
Es más fácil hacer memoria si te duele.

Y todas esas veces que parecen para siempre,
tienen un límite,
todas las promesas una fecha de caducidad,
todas las personas una etiqueta con su precio.

(Yo alguna vez solo he valido un par de besos)

Y di ahora todo aquello que tienes que decir
porque mañana siempre es tarde,
de hecho a veces ni siquiera hay un mañana.
Y no hay nada más jodido que el silencio
cuando una sola palabra bastaría
para joderle los planes a la muerte.

La realidad es que solo hay una cosa sincera del todo
imposible de camuflar ni con tu mejor mueca
y es el deseo.
Y ahora deseo que olvides todo esto que he escrito
y te vengas a dormir conmigo.

¿ O todavía quieres que siga siendo sincero?

Elizabeth Jennings – Uma só carne

Cada qual em sua cama, deitados separados agora,
Ele com um livro, uma luz acesa até hora incerta,
Ela, como uma menina, sonhando com sua aurora,
Todos os homens em outros lugares – é como se certa
Nova ocorrência esperassem: o livro que ele detém
Mas não lê, os olhos dela pregados nas sombras além.

Lançados acima como destroços de antiga paixão,
Como são bons em mentir. Quase nunca se tocam, os dois,
Ou se o fazem, é como se fosse uma confissão
De terem poucos sentimentos – ou sentimentos demais.
A castidade os confronta, um destino para o qual
A vida inteira deles dois foi uma preparação.

Estranhamente separados, mas inexplicavelmente
Ligados, o silêncio entre eles é como um fio que
Prende mas não enreda. E o tempo, uma pena levemente
Tocando-os. Será que eles têm a consciência de
Que estão velhos, ambos, meu pai e minha progenitora,
E que o fogo do qual eu procedi arrefeceu agora?

Trad.: Nelson Santander

One Flesh

Lying apart now, each in a separate bed,
He with a book, keeping the light on late,
She like a girl dreaming of childhood,
All men elsewhere – it is as if they wait
Some new event: the book he holds unread,
Her eyes fixed on the shadows overhead.

Tossed up like flotsam from a former passion,
How cool they lie. They hardly ever touch,
Or if they do, it is like a confession
Of having little feeling – or too much.
Chastity faces them, a destination
For which their whole lives were a preparation.

Strangely apart, yet strangely close together,
Silence between them like a thread to hold
And not wind in. And time itself’s a feather
Touching them gently. Do they know they’re old,
These two who are my father and my mother
Whose fire from which I came, has now grown cold?

Javier Salvago – Fim de Festa

Enfim sós, vida. A festa acabou
e não resta ninguém para nos obrigar
a sorrir, ou a inventar desagradáveis
mentiras inofensivas. Todos se foram.

Despe-te sem medo. Conheço
as velhas rugas de tua triste carne.
Acariciei-as. Sei o que teu rosto
oculta por baixo da maquiagem.

Enfim sós, vida. A casa em silêncio
e tu e eu nus, calados e ausentes,
– juntos pela rotina, mais que pelo desejo –
como dois amantes cansados de se ver.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO (com alterações na tradução): poema publicado no blog originalmente em 09/03/2018

Javier Salvago – Fin de Fiesta

Al fin solos, vida. Terminó la fiesta
y no queda nadie que pueda obligarnos
a forzar sonrisas, ni a inventar molestas
mentiras piadosas. Todos se han marchado.

Vete desnudando sin miedo. Conozco
las viejas arrugas de tu triste carne.
Las he acariciado. Sé lo que tu rostro
oculta debajo de ese maquillaje.

Al fin solos, vida. La casa en silencio
y tú y yo desnudos, callados y ausentes
— juntos por rutina, más que por deseo —
como dos amantes cansados de verse.

James Crews – Kintsugi

Qualquer um que ama outra pessoa
já tem o coração partido.
É a lei: se quer que aquela luz
inunde seu corpo, você deve
expor as cicatrizes através das quais
ela jorra, pois elas são a fonte
de sua beleza e de sua força.
Pense nos japoneses que preenchem
as fissuras de uma vasilha de cerâmica
com ouro puro, não apenas exibindo
estas chamadas falhas, mas também
tornando cada uma delas uma veia inestimável
pelo qual a luz agora flui.

Trad.: Nelson Santander

N. do. T.: Kintsugi é uma técnica artesanal japonesa centenária utilizada para reparar cerâmicas quebradas. Essa técnica consiste em unir os cacos da cerâmica com um verniz misturado com ouro, que destaca as cicatrizes e torna-as visíveis. Embora a forma original da peça seja restaurada, as cicatrizes douradas evocam a passagem do tempo, a mutabilidade da identidade e a valorização da imperfeição. Essa técnica deixa uma mensagem importante: em vez de esconder as cicatrizes, devemos mostrá-las e torná-las uma parte valiosa e estética da história da peça.

Kintsugi

Anyone who loves someone else
already has a broken heart.
It’s the law: If you want that light
to flood your body, you must
expose the scars through which
it pours, for they are the source
of your beauty and your strength.
Think of the Japanese who fill
the cracks in a ceramic bowl
with pure gold, not only flaunting
those so-called flaws, but also
making each one a priceless vein
through which light now moves.

Luis Alberto de Cuenca – Insônia

A vida é muito curta.
Não há tempo para fazer nada. Não há meios
de reunir dias suficientes
para aprender alguma coisa. Tu te levantas,
abraças tua namorada, tomas teu café da manhã,
trabalhas, comes, dormes, vais ao cinema,
e sequer tens um momento
para ler Sêneca e acreditar
que tudo neste mundo tem conserto.
A vida é um instante. Não entendo
por que esta noite nunca termina.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO (com ligeiras alterações na tradução): poema publicado no blog originalmente em 07/03/2018

Luis Alberto de Cuenca – Insomnia

La vida dura demasiado poco.
No da tiempo a hacer nada. No hay manera
de reunir los suficientes días
para enterarte de algo. Te levantas,
abrazas a tu novia, desayunas,
trabajas, comes, duermes, vas al cine,
y ni siquiera tienes un momento
para leer a Séneca y creerte
que todo tiene arreglo en este mundo.
La vida es un instante. No me explico
por qué esta noche no se acaba nunca.

Joyce Sutphen – Vivendo no corpo

Corpo é uma coisa de que você precisa para permanecer
neste planeta e só dispõe de um.
E não importa qual você tenha obtido, ele não
será satisfatório. Não será bonito
o suficiente, não será rápido o suficiente,
não durará por vários dias seguidos, mas
o arrastará para um pântano sonolento e
exigirá maçãs e cafés e bolos de chocolate.

Corpo é uma coisa que você precisa carregar
de um dia para o outro. Sempre as
mesmas sobrancelhas sobre os mesmos olhos na mesma
pele quando você olha no espelho, e o
mesmo joelho rangendo quando você se levanta do
chão e o mesmo pulso sob a pulseira.
As mudanças que você pode fazer são pequenas e
dispendiosas — melhor deixar como está.

Corpo é uma coisa que, eventualmente, você tem
que abandonar. Você sabe disso porque já viu
outros fazerem o mesmo, outros que já foram como você,
vivendo no interior de seus montes de carne e
ossos, sorrindo para você, amando-o,
apoiando-se na porta, conversando com você
por horas até que um dia eles se vão.
Sem deixar o novo endereço de correspondência.

Trad.: Nelson Santander

Living in the Body

Body is something you need in order to stay
on this planet and you only get one.
And no matter which one you get, it will not
be satisfactory. It will not be beautiful
enough, it will not be fast enough, it will
not keep on for days at a time, but will
pull you down into a sleepy swamp and
demand apples and coffee and chocolate cake.

Body is a thing you have to carry
from one day into the next. Always the
same eyebrows over the same eyes in the same
skin when you look in the mirror, and the
same creaky knee when you get up from the
floor and the same wrist under the watchband.
The changes you can make are small and
costly—better to leave it as it is.

Body is a thing that you have to leave
eventually. You know that because you have
seen others do it, others who were once like you,
living inside their pile of bones and
flesh, smiling at you, loving you,
leaning in the doorway, talking to you
for hours and then one day they
are gone. No forwarding address.

Manuel António Pina – Sétimo Dia

Ao Manuel Hermínio

Voltamos, um a um, da tua morte
para a nossa vida como quem regressa a casa
de uma longa viagem. Para trás ficaram recordações, países,
e agora é como se te tivéssemos sonhado.
A voz que, diante da escuridão, suspendemos
quando se desmoronou o mundo para o fundo de ti
erguemo-la de novo para os afazeres diurnos
e para as horas comuns.
Ainda ontem estávamos sozinhos diante do Horror
e já somos reais outra vez.
A própria dor adormeceu no nosso colo
como um animal de companhia.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 05/03/2018

Malena Mörling – Do trem

Pouco antes do sol desaparecer
atrás de uma fileira de armazéns
e antes que ele voltasse à tona
para lavar nossas roupas
das sombras, eu notei algo —
Era apenas um pedaço de papel,
mas estava pendurado em uma das paredes expostas
de um dos prédios parcialmente demolidos
que passavam flutuando.
Notei também o contorno
de uma velha escada
e o desgastado papel de parede verde florido
subindo pelo menos três lances
até onde o papel pendia logo
abaixo da alta curva estriada
do céu à luz do sol quase
horizontal do crepúsculo.
E pensei como quem
um dia viveu naquele espaço
deve ter escrito algo nele.
Algo importante.
E o pregou na parede.
E mais tarde à esquerda.
E o modo como todos nós vamos
partir de onde estamos agora.
E então imaginei que até
pudesse ser um poema que
só o vento estava lendo.
E pensei como no final
tudo o que resta é o espaço.
Porque não podemos destruí-lo.
E talvez uns poucos poemas
em certos lugares insuspeitos
que estão lá porque estão.

Trad.: Nelson Santander

From the Train

Just before the sun vanished
behind a row of warehouses
and before it came flooding
back to rinse the shadows
off our clothes I noticed something—
It was only a scrap of paper,
but it hung on the exposed wall
of one of the partially demolished buildings
that floated past.
I also noticed the outline
of an old stairway
and worn florid green wallpaper
going up at least three flights
to where the paper hung
below the high streaked curve
of the sky in the almost horizontal
sunlight of the evening.
And I thought how whoever
once lived in that space
must have written something on it.
Something important.
And nailed it up on the wall.
And later on left.
The way we all will leave
where we are now.
And then I imagined
it was even a poem
only the wind was reading.
And I thought how in the end
all that will be left is space.
Because we can’t destroy it.
And perhaps a few poems
in certain unsuspected
places that are there because they are.

Joaquín Benito de Lucas – Elegia

Quando agora retorno
à minha cidade, não posso conter
a emoção de saber que não sou esperado.
Não me espera meu pai, que desceu rio abaixo
muito lentamente entre os juncos, sob pontes enevoadas.

Não me espera meu irmão,
que me esperava sempre ao lado de um balcão
qualquer, em uma rua qualquer
brindando ao meu último
livro ou por sua desgraça
ou por outro motivo interessante.
Tampouco me espera
o outro irmão, o que acabou de partir,
deixando-me a sina
de seus sapatos e suas vestes,
que lustro e passo a ferro
e visto e volto a vestir
sem saber o que me sobra ou o que me falta.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO (com ligeiras alterações na tradução): poema publicado no blog originalmente em 02/03/2018


Joaquín Benito de Lucas – Elegía

Cuando regreso ahora
a mi ciudad, no puedo contener
la emoción de saber que no me esperan.
No me espera mi padre, que se marchó río abajo
muy despacio entre juncos, bajo puentes de niebla. 

No me espera mi hermano,
que me esperaba siempre al pie de un mostrador
cualquiera, en cualquier calle
brindando por mi último
libro o por su desgracia
o por otro motivo interesante.
Ni tampoco me espera
el otro hermano que recién se ha ido,
dejándome la sombra
de sus zapatos y sus trajes,
que cepillo y que plancho
y me pruebo y me pruebo
sin saber qué me sobra o qué me falta.