Ellen Bass – Ode à repetição

Gosto de fazer a mesma caminhada
pela vasta extensão da Woodrow* até o oceano
e na maioria das vezes viro à esquerda em direção ao farol.
O mar é sempre diferente. Em alguns dias oníricos,
ondas que mal ondulam, apenas uma extensa ondulação
sem nenhuma pressa de chegar. Em outros, a rebentação está bêbada,
colidindo contra os rochedos como um acidente de carro.
E quando chego em casa, gosto
dos mesmos pratos empilhados na mesma despensa
e depois desempilhados e empilhados novamente.
E do rododendro, primavera após primavera,
florescendo em seu róseo ritual.
Eu poderia habitar o reino de Coltrane,
a fricção do ar através de sua palheta
enquanto ele dá forma a cada fraseado de Lush Life,
vezes sem conta até eu morrer. Uma vez tive medo
disso, de abrir as cortinas todas as manhãs
apenas para fecha-las novamente a cada noite.
Você pode se desesperar na imutável vila de sua própria vida.
Mas quando acordo para urinar fico grata
pelo banheiro estar em seu lugar de costume, a pia com sua dádiva de água.
Eu olho para a rua, para os halos dos postes de luz
no nevoeiro ou para a lua banhando os carros estacionados.
Quando volto para cama, encontro
a mulher que dorme lá
todas as noites há trinta anos, só que ela não é
a mesma, seu corpo mais nu
em seu envelhecimento, em sua desordem. Embora eu ainda
vá até ela como um pedinte. Uma manhã,
uma de nós se levantará aturdida
sem a outra e abrirá as cortinas.
Lá estará a mesma desordenada sequoia
no quintal do vizinho e as estrelas irrepreensíveis
apagando-se uma a uma ao longo do dia.

Trad.: Nelson Santander

* Woodrow Avenue, uma das vias da cidade de Santa Cruz, Califórnia, onde a poeta reside atualmente.

Ode to Repetition

I like to take the same walk
down the wide expanse of Woodrow to the ocean
and most days I turn left toward the lighthouse.
The sea is always different. Some days dreamy,
waves hardly waves, just a broad undulation
in no hurry to arrive. Other days the surf’s drunk,
crashing into the cliffs like a car wreck.
And when I get home I like
the same dishes stacked in the same cupboards
and then unstacked and then stacked again.
And the rhododendron, spring after spring,
blossoming its pink ceremony.
I could dwell in the kingdom of Coltrane,
the friction of air through his horn
as he forms each syllable of Lush Life
over and over until I die. Once I was afraid
of this, opening the curtains every morning,
only to close them again each night.
You could despair in the fixed town of your own life.
But when I wake up to pee, I’m grateful
the toilet’s in its usual place, the sink with its gift of water.
I look out at the street, the halos of lampposts
in the fog or the moon rinsing the parked cars.
When I get back in bed I find
the woman who’s been sleeping there
each night for thirty years, only she’s not
the same, her body more naked
in its aging, its disorder. Though I still
come to her like a beggar. One morning
one of us will rise bewildered
without the other and open the curtains.
There will be the same shaggy redwood
in the neighbor’s yard and the faultless stars
going out one by one into the day.

Marie Howe – O que os vivos fazem

Johnny, a pia da cozinha está entupida há dias, algum utensílio provavelmente caiu lá embaixo. E o Drano não está resolvendo mas cheira perigosamente, e a louça incrustada se amontoou

esperando pelo encanador que eu ainda não chamei. Este é o dia a dia de que falávamos. Estamos no inverno de novo: o céu é de um profundo e vigoroso azul, e a luz do sol flui através

das janelas abertas da sala porque o calor está excessivo por aqui e não posso desliga-lo. Por semanas, dirigindo, ou deixando cair e rasgar-se uma sacola com compras na rua,

estive pensando: isso é o que os vivos fazem. E ontem, andando apressada sobre aqueles ladrilhos instáveis da calçada de Cambridge, derramando meu café no pulso e na manga,

pensei de novo, e de novo mais tarde, quando comprava uma escova de cabelo: é isso. Estacionar. Bater a porta do carro no frio. O que você chamou de esse anseio.

Aquilo de que você finalmente desistiu. Queremos que a primavera chegue e o inverno passe. Queremos de quem quer que ligue ou não ligue uma carta, um beijo — queremos mais e mais e depois mais ainda.

Mas há momentos, caminhando, em que vislumbro minha imagem no vidro da vitrine, digamos, da vitrine da videolocadora, e sou dominada por um carinho tão profundo por meu próprio cabelo esvoaçante, rosto rachado e casaco desabotoado que fico sem palavras: eu estou vivendo. Eu me lembro de você.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: Johnny era o irmão mais novo de Marie Howe, do qual ela era muito próxima. Ele morreu em 1989 por complicações decorrentes da AIDS, o que previsivelmente a deixou devastada:

“Depois que John morreu, o mundo ficou muito claro – como se uma janela tivesse se partido – o mundo se tornou ele próprio muito caro. Era o lugar onde John tinha vivido e, enquanto eu ainda andasse por aí, poderia ter alguns vislumbres dele. Mais do que isso, porém, quando John morreu, senti como se finalmente tivesse entrado na comunidade mais ampla dos humanos. Agora eu conhecia uma dor insuportável e era como outras pessoas neste mundo que também haviam conhecido essa dor.”

Alguns anos depois, Marie Howe escreveu-lhe este poema em forma de carta, como forma de exorcizar-se de sua perda e achar um sentido para a vida vivida além desta perda. O resultado é essa magnífica elegia.

What the Living Do

Johnny, the kitchen sink has been clogged for days, some utensil probably fell down there. And the Drano won’t work but smells dangerous, and the crusty dishes have piled up

waiting for the plumber I still haven’t called. This is the everyday we spoke of. It’s winter again: the sky’s a deep, headstrong blue, and the sunlight pours through

the open living-room windows because the heat’s on too high in here and I can’t turn it off. For weeks now, driving, or dropping a bag of groceries in the street, the bag breaking,

I’ve been thinking: This is what the living do. And yesterday, hurrying along those wobbly bricks in the Cambridge sidewalk, spilling my coffee down my wrist and sleeve,

I thought it again, and again later, when buying a hairbrush: This is it. Parking. Slamming the car door shut in the cold. What you called that yearning.

What you finally gave up. We want the spring to come and the winter to pass. We want whoever to call or not call, a letter, a kiss — we want more and more and then more of it.

But there are moments, walking, when I catch a glimpse of myself in the window glass, say, the window of the corner video store, and I’m gripped by a cherishing so deep for my own blowing hair, chapped face, and unbuttoned coat that I’m speechless: I am living. I remember you.

Ted Kooser – Voo noturno

Sobre nós, estrelas. Sob nós, constelações.
A cinco bilhões de milhas de distância, uma galáxia morre
como um floco de neve desfazendo-se na água. Abaixo de nós,
algum fazendeiro, sentindo o calafrio dessa morte distante,
acende suas luzes de quintal, deslocando seu celeiro e galpão
de volta para o pequeno sistema sob seus cuidados.
Por toda a noite, as cidades, como novas cintilantes,
atraem com ruas luminosas luzes isoladas como as dele.

Trad.: Nelson Santander

Flying at Night

Above us, stars. Beneath us, constellations.
Five billion miles away, a galaxy dies
like a snowflake falling on water. Below us,
some farmer, feeling the chill of that distant death,
snaps on his yard light, drawing his sheds and barn
back into the little system of his care.
All night, the cities, like shimmering novas,
tug with bright streets at lonely lights like his.

Linda Pastan – Considere o espaço entre as estrelas

Considere o espaço branco
entre as palavras em uma página, não só
as margens ao redor delas.
Ou o espaço entre pensamentos:
instantes em que a mente está inventando
exatamente o que pensa
e a boca espera
para ser preenchida com linguagem.
Considere o espaço
entre os amantes após uma discussão,
o lençol branco uma fria metáfora
entre eles.
Agora imagine o breve espaço
antes que a morte entre, chapéu na mão:
estes anos evanescentes, repletos de luz.

Trad.: Nelson Santander

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Consider the Space Between Stars

Consider the white space
between words on a page, not just
the margins around them.
Or the space between thoughts:
instants when the mind is inventing
exactly what it thinks
and the mouth waits
to be filled with language.
Consider the space
between lovers after a quarrel,
the white sheet a cold metaphor
between them.
Now picture the brief space
before death enters, hat in hand:
these vanishing years, filled with light.

Nicholas Christopher – Terminus

Terminus

Eis uma leitura obrigatória
no final do nosso século
o final de um milênio que começou com as cruzadas

A transcrição de uma entrevista
entre um médico da Cruz Vermelha
e uma menina muçulmana de doze anos
na Bósnia
que descreveu os estupros que sofreu nas mãos de homens
que se autodenominavam soldados
diferentes homens todas as noites um após o outro
seis sete oito deles
por uma semana
enquanto ela estava acorrentada pelo pescoço
a uma cama em sua antiga escola
onde ela viu seus pais e seus irmãos
terem suas gargantas cortadas e línguas arrancadas
onde sua cunhada de
dezenove anos de idade e amamentando um bebê
também foi estuprada noite após noite
até que ela ousou implorar por água
porque seu leite havia secado
momento em que um dos homens
arrancou a criança de seus braços
e como se estivesse “debulhando uma espiga de milho”
(palavras da menina)
decepou a cabeça da criança
com uma faca de caça
jogou-a no colo da mãe
e estuprou a menina novamente
estapeando-a no rosto
manchando-a com o sangue do sobrinho
e depois alvejou a mãe
que havia começado a gritar
com a cabeça de olhos arregalados em seu colo
enfiando a arma em sua boca
e atirando duas vezes

Tudo isso relatado ao médico
num tom monótono
quase sussurrado em uma tenda
ao lado de um álgido rio
onde a menina apareceu enregelada
vestindo apenas uma combinação suja
seus cabelos arrancados
seus dentes quebrados

Toda história que você já leu
conta que é isso o que homens fazem
que isso é apenas uma réstia do reflexo
da besta
que é um elemento fixo da história humana
e os lugares de que você ouviu falar quando era garoto
que foram os últimos campos de perseguição
Auschwitz Dachau Treblinka
e os nomes de seus mortos
e seus inúmeros mortos cujos nomes desapareciam
todos os dias agora descobrem suas listas cheias
de almas gêmeas
novos nomes novos números
de cidades e aldeias
que foram queimadas do mapa

1993 pode muito bem ser 1943
e deve estar claro agora
que a besta em seus muitos disfarces
as bandeiras e paramentos
nos quais ela se enrola
e as rebuscadas denominações que ela assume
nunca pode ser superada
….

Como aquela garota com os dentes quebrados
carregada em uma ambulância
amarrada a uma maca
para não arranhar o próprio rosto
nunca conseguirá fugir dela
não importa para onde vá
solitária ou perdida na multidão
a linha que ela segue
por mais reta ou torta que seja
sempre a levará de volta para aquela sala
como a câmara nas profundezas
do inferno no Alcorão
onde cresce a árvore Zakum
regada por chuvas escaldantes
“que dá frutos que são como cabeças de demônios”

Ao não registrar o nome dela
alguém anotou no fim
da transcrição que a própria menina
não poderia ou não se lembraria dele
e então a descreve como uma sobrevivente

Que claro vem do latim
e significa continuar a viver
para além dos outros

Eu não teria usado essa palavra

(1993)

Trad.: Nelson Santander

Terminus

Here is a piece of required reading
at the end of our century
the end of a millennium that began with the crusades

The transcript of an interview
between a Red Cross doctor
and a Muslim girl in Bosnia
twelve years old
who described her rape by men
calling themselves soldiers
different men every night one after the other
six seven eight of them
for a week
while she was chained by the neck
to a bed in her former schoolhouse
where she saw her parents and her brothers
have their throats slit and tongues cut out
where her sister-in-law
nineteen years old and nursing her baby
was also raped night after night
until she dared to beg for water
because her milk had run dry
at which point one of the men
tore the child from her arms
and as if he were “cutting an ear of corn”
(the girl’s words)
lopped off the child’s head
with a hunting knife
tossed it into the mother’s lap
and raped the girl again
slapping her face
smearing it with her nephew’s blood
and then shot the mother
who had begun to shriek
with the head wide-eyed in her lap
shoving his gun into her mouth
and firing twice

All of this recounted to the doctor
in a monotone
a near whisper in a tent
beside an icy river
where the girl had turned up frostbitten
wearing only a soiled slip
her hair yanked out
her teeth broken

All the history you’ve ever read
tells you this is what men do
this is only a sliver of the reflection
of the beast
who is a fixture of human history
and the places you heard of as a boy
that were his latest stalking grounds
Auschwitz Dachau Treblinka
and the names of their dead
and their numberless dead whose names have vanished
each day now find their rolls swelled
with kindred souls
new names new numbers
from towns and villages
that have been scorched from the map

1993 may as well be 1943
and it should be clear now
that the beast in his many guises
the flags and vestments
in which he wraps himself
and the elaborate titles he assumed
can never be outrun
….

As that girl with the broken teeth
loaded into an ambulance
strapped down on a stretcher
so she wouldn’t claw her own face
will never outrun him
no matter where she goes
solitary or lost in a crowd
the line she follows
however straight or crooked
will always lead her back to that room
like the chamber at the bottom
of Hell in the Koran
where the Zaqqum tree grows
watered by scalding rains
“bearing fruit like devils’ heads”

In not giving her name
someone has noted at the end
of the transcript that the girl herself
could not or would not recall it
and then describes her as a survivor

Which of course is from the Latin
meaning to live on
to outlive others

I would not have used that word

Stanley Kunitz – O retrato

Minha mãe nunca perdoou meu pai
por ter-se suicidado,
especialmente em um momento tão estranho
e em um parque público,
naquela primavera
quando eu estava esperando para nascer.
Ela encarcerou o nome dele
em seu armário mais profundo
e não o deixou mais sair,
embora eu pudesse ouvi-lo batendo.
Quando desci do sótão, trazendo
na mão o retrato em tons pastéis
de um estranho de lábios compridos,
bigode valente
e profundos olhos castanhos,
ela o rasgou em pedaços
sem uma única palavra
e estapeou-me com força.
Aos sessenta e quatro anos,
posso sentir minha face
ainda queimando.

Trad.: Nelson Santander

The Portrait

My mother never forgave my father
for killing himself,
especially at such an awkward time
and in a public park,
that spring
when I was waiting to be born.
She locked his name
in her deepest cabinet
and would not let him out,
though I could hear him thumping.
When I came down from the attic
with the pastel portrait in my hand
of a long-lipped stranger
with a brave moustache
and deep brown level eyes,
she ripped it into shreds
without a single word
and slapped me hard.
In my sixty-fourth year
I can feel my cheek
still burning.

Jorge Valdés Díaz-Vélez – Polaroide

Polaroide

para Eugenio Montejo

São sete contra a parede, em pé, e um sentado.
Mal conservam os traços desbotados
pelos anos. Os rostos resistem ao desgaste,
embora já não possuam as cores vivas
que ontem os distinguiram. Entre livros e taças,
os olhares sorridentes, as mãos dadas
celebrando a vida na prata e gelatina*
se apagam na sépia de sua jovem promessa.
No verso da foto estão escritos a data,
os nomes e o local desse encontro. Fomos
ao lançamento do livro de um dos amigos
que aparece na polaroide olhando para o vazio.
Depois houve a festa e mais tarde o acidente
nos levou ao cemitério. Dissemos em voz alta
os seus poemas. Os sete contra a parede, em pé,
um lia. Todos ainda nos lembramos dele
e quase que por hábito visito-o levando
girassóis. Todos envelhecemos,
menos ele, ali de olhos fixos. Ele nos olha
de seus 20 anos, que são os anos de sua ausência,
com olhos infinitos voltados para a câmera,
um verão após o outro, embora comece
a degradar seu tom alaranjado no duro
papel-cartão da fotografia.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: neste verso, o poema parece apresentar um interessante jogo de palavras. O poema descreve a torrente de sensações e lembranças que acomete o eu-lírico do poeta diante de uma velha fotografia. Ora, o filme fotográfico “utilizado em fotografia, é constituído por uma base plástica, (…) sobre a qual é depositada uma emulsão fotográfica. Esta é formada por uma fina camada de gelatina que contém cristais de sais de prata sensíveis à luz que chega a ela através da lente da câmera” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Filme_fotogr%C3%A1fico). Por outro lado, o substantivo “plata” significa também moedas de prata e, por extensão, dinheiro. Assim, o verso tanto pode estar-se referindo à fotografia em si quanto ao conteúdo dela: um grupo de jovens amigos bem sucedidos e bem alimentados celebrando a vida em um passado indeterminado.

Polaroid

para Eugenio Montejo

Son siete contra el muro, de pie, y uno sentado.
Apenas si conservan los rasgos desleídos
por los años. Las caras resisten su desgaste,
aunque ya no posean los nítidos colores
que ayer las distinguieron. Entre libros y copas,
las miradas sonrientes, las manos enlazadas
celebrando la vida de plata y gelatina
se borran en el sepia de su joven promesa.
Por detrás de la foto están escritos la fecha,
los nombres y el lugar de aquel encuentro. Fuimos
a presentar el libro de uno de los amigos
que aparece en la polaroid viendo hacia el vacío.
Después se hizo la fiesta y más tarde el accidente
nos llevó al cementerio. Dijimos en voz alta
sus poemas. Los siete contra el muro, de pie,
uno leía. Todos aún lo recordamos
y casi por costumbre le voy a visitar
con girasoles. Todos hemos envejecido
menos él, ahí en la vista fija. Nos mira
desde sus 20 años, que son los de su ausencia,
con ojos infinitos de frente hacia la cámara,
llevándose un verano tras otro, aunque comience
a degradar su tono naranja sobre el duro
cartón de la fotografía.

Robinson Jeffers – Pecado original

O símio-terrestre com seu cérebro e mãos de homem, fisicamente
O mais repulsivo de todos os animais de sangue quente
Da terra até então: eles cavaram uma armadilha
E capturaram um mamute, mas como poderiam seus paus e pedras
Atingir a vida naquela tocaia? Eles dançaram ao redor do poço, guinchando
Com excitação de macaco, arremessando pedras afiadas em vão, e o fedor de seus corpos
Maculava o ar branco da aurora; mas logo um deles
Se lembrou do dançarino amarelo, o fogo come-lenha
Que guarda a entrada da caverna: ele correu até lá e o trouxe, e os outros
Juntaram gravetos nos limites da floresta; eles fizeram uma fogueira
E a empurraram para dentro do poço, e eles a alimentaram, aumentando-a, ao redor dos lados atolados
De sua enorme presa. Eles observaram a longa tromba peluda
Oscilar sobre a ressoante e sufocante dor,
E ficaram felizes.

Enquanto isso, a intensa cor e nobreza da aurora,
Rosa e dourado e âmbar, jorravam céu acima. Rochas úmidas brilhavam, um vento ligeiro
Balançava as folhas da floresta e as íris selvagens do pântano; o vale aprazível entre as colinas baixas
Tornava-se tão belo quanto o céu; ao passo que, no meio disso tudo, hora após hora, os felizes caçadores
Assavam sua carne viva lentamente até a morte.

Estas são as pessoas.
Este é o alvorecer da humanidade. Quanto a mim, eu preferia

Ser um verme em uma maçã silvestre do que um filho do homem.
Mas nós somos o que somos, e devemos nos lembrar de
Não odiar ninguém, pois todos são perversos;
E não nos surpreender com nenhum mal, tudo é merecido;
E não temer a morte; ela é a única forma de sermos purificados.

Trad.: Nelson Santander

Original Sin

The man-brained and man-handed ground-ape, physically
The most repulsive of all hot-blooded animals
Up to that time of the world: they had dug a pitfall
And caught a mammoth, but how could their sticks and stones
Reach the life in that hide? They danced around the pit, shrieking
With ape excitement, flinging sharp flints in vain, and the stench of their bodies
Stained the white air of dawn; but presently one of them
Remembered the yellow dancer, wood-eating fire
That guards the cave-mouth: he ran and fetched him, and others
Gathered sticks at the wood’s edge; they made a blaze
And pushed it into the pit, and they fed it high, around the mired sides
Of their huge prey. They watched the long hairy trunk
Waver over the stifle trumpeting pain,
And they were happy.

Meanwhile the intense color and nobility of sunrise,
Rose and gold and amber, flowed up the sky. Wet rocks were shining, a little wind
Stirred the leaves of the forest and the marsh flag-flowers; the soft valley between the low hills
Became as beautiful as the sky; while in its midst, hour after hour, the happy hunters
Roasted their living meat slowly to death.

These are the people.
This is the human dawn. As for me, I would rather

Be a worm in a wild apple than a son of man.
But we are what we are, and we might remember
Not to hate any person, for all are vicious;
And not be astonished at any evil, all are deserved;
And not fear death; it is the only way to be cleansed.

Algernon Charles Swinburne – O Jardim de Proserpina

Cá, em que a terra é calma;
Cá, em que o drama é como
Ar morto e exaustas almas,
Dúbios sonhos assomo;
Eu vejo o campo a medrar
Para a ceifa e o plantar,
A colheita e o roçar,
Mundo fluido de sono.

Farto de dor e riso,
E de quem chora e ri;
Do que vem sem aviso
Aos que colhem aqui:
Dos dias e das horas,
Secos brotos da flora,
Gana, sonhos, pletora,
Tudo, menos dormir.

Aqui, mortes espreitam,
E onde não há olhares
Brisas tênues escoltam
Débeis almas e naves;
São párias à deriva,
Nus de expectativa;
Mas aqui não há brisa,
Nem voejam tais aves.

Nada cresce no charco,
Nada de vinha ou flora,
Só um florescer parco,
Verdes uvas de Cora,
Camas de juncos móveis
Prenhes de folhas débeis
Que ela esmaga e fere.
Homens em sua hora.

Gris, e sem marca ou nome,
Em tal terra de sal,
Eles deitam e dormem,
Da noite ao arrebol;
E como alma tardia
Cindida na porfia,
Bruma por companhia,
Da treva irrompe o sol.

Até mesmo o mais forte
É da morte um amigo,
No céu, não rir da sorte,
Nem, no chão, do castigo;
Mesmo o que há de belo
Tem seu fim, seu flagelo;
Mesmo a paz e o desvelo
São, no fim, desabrigo.

Gris, além dos portais,
Com folhas coroada,
Une coisas mortais,
Mãos eternas, geladas;
Seus lábios são macios
Assombram os gentios
Que a buscam, erradios,
Pelas eras e plagas.

Por eles ela vela,
Por todos ela espera;
Esquece a terra bela,
A vida pura e vera;
Primavera, grãos, ave,
Vá, em seu vôo suave,
Aonde o som soa grave,
E calcada é a hera.

Lá vão amores murchos,
De asas gastas, cansados;
Anos tais ramos mochos,
E entes consternados;
Sonhos mortos e breves,
Grãos cobertos por neve,
Folhas (que o vento as leve):
Abris despedaçados.

Não sei se sofreremos,
E o gozo é incerto;
Amanhã morreremos;
O tempo é sem dileto.
O amor é fraco, aflito,
Tem lábios, mas contrito,
Ais, e olhos de olvido,
Choro que afasta o afeto.

Por muito amor à vida,
Do medo e fé libertos,
Damos graças devidas
A uns deuses incertos:
Que as vidas se extingam,
Que os mortos não se ergam;
Que os rios que serpenteiam,
Ao mar cheguem decerto.

Nem o sol, nem estrela,
Então, despertarão:
Nem água que encapela,
Nem um sinal ou som:
Nem folhas de outono;
Nem dias de abandono,
Só um eterno sono,
E eterna escuridão.

Trad.: Nelson Santander

Republicação: poema originalmente publicado no blog em 23/02/2016

 
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NOTAS SOBRE A TRADUÇÃO:

Li uma estrofe deste poema, há muito tempo, no blog do poeta e filósofo Antônio Cicero, “Acontecimentos” (o meu site de poemas favorito). A estrofe em questão foi citada pelo filósofo Richard Rorty em seu último artigo, chamado “O Fogo da Vida” que, bem a propósito, trata justamente do descobrimento da importância da poesia no momento em que o autor está diante de um diagnóstico de um câncer incurável. A estrofe em questão (a mais famosa do poema) foi assim traduzida pelo próprio Antonio Cicero:

Agradecemos brevemente
A todos os deuses que há
Por não se viver para sempre;
Por jamais os mortos se erguerem;
Por chegar, por mais que volteie,
O rio sem dúvida ao mar.

We thank with brief thanksgiving
Whatever gods may be
That no life lives for ever;
That dead men rise up never;
That even the weariest river
Winds somewhere safe to sea.

A leitura desta única e poderosa estrofe despertou a minha curiosidade a respeito do resto do poema. No entanto, embora eu tenha vasculhado a internet, não consegui achar nenhuma tradução decente do poema. Achei, sim, alguns trechos, cujo sentido do texto era mais ou menos fiel ao original, sem que, todavia, o ritmo, a métrica e/ou a rima fossem observados.

No blog Ácido Carbolítico (http://resbruscato.wordpress.com/2009/10/23/o-jardim-de-proserpina/), por exemplo, a primeira estrofe foi assim traduzida:

Aqui, onde o mundo é quieto,
Aqui onde todos os problemas são
Tumultos de ondas e vento morto
Em duvidosos sonhos e ilusão;
Eu vejo o verde campo crescer
Para o povo plantar e colher,
Para o tempo de ceifar e moer,
Em sonolento mundo de tufão.

Embora a tradução observe aproximadamente o sentido do texto original e as rimas interpoladas, nota-se que a métrica foi sumariamente desprezada, transformando o hexassílabo original em verso livre. Por outro lado, a tradução de parte da penúltima estrofe proposta pelo Antonio Cicero, acima transcrita, observa a métrica (tendo ele optado por versos octossilábicos), mas descuida das rimas interpoladas, mantendo-as apenas na quarta com a oitava rimas.
Assim, como não conseguia encontrar nenhuma tradução razoavelmente satisfatória do poema, resolvi eu mesmo abraçar a tarefa.

O poema The Garden of Proserpine, do poeta vitoriano Algernon Charles Swinburne, foi escrito em 1866. Proserpina (Prosérpina) ou Cora é a grafia latina da deusa Perséfone ou Koré, casada com Hades, o deus do submundo. Segundo a lenda, ela era filha de Zeus e da deusa Deméter, da agricultura. Era muito bela, o que levou sua mãe a escondê-la longe da vista dos deuses. Quando, porém, os sinais de sua grande beleza começaram a surgir, em sua adolescência, o deus Hades por ela se apaixonou perdidamente, e a pediu em casamento diretamente a Zeus que, sem consultar Deméter, concordou com o pedido. Hades, no entanto, impaciente pela demora no casamento, a raptou enquanto ela colhia flores com as ninfas, levando-a para seus domínios (o mundo subterrâneo). Uma vez lá, desposou-a e fez dela a rainha do submundo. Deméter ficou inconsolável, e acabou se descuidando de suas tarefas. Por isso, as terras ficaram estéreis e houve escassez de alimentos. Deméter procurou por sua filha em toda parte e, por fim, descobriu, por intermédio de Hécate e Helios, que a jovem deusa havia sido levada para o mundo dos mortos. Para lá então rumou, junto com Hermes, para resgatá-la. Como, no entanto, Proserpina havia comido uma semente de romã ofertado por Hades, Zeus entendeu que ela não poderia abandonar seu marido. Em razão disso, costurou-se um acordo, segundo o qual ela passaria metade do ano com seus pais e a outra metade com Hades. Este mito é a explicação do ciclo anual das colheitas.

O melancólico poema de Swinburne se vale do mito de Proserpina para expressar um estado de espírito ligado ao desejo de paz e descanso, diante do cansaço e saciedade da vida. No poema, a morte está personificada no mito da deusa Proserpina. E o jardim de Proserpina – “seco”, melancólico, devastado pela morte e pela infertilidade – é o oposto do jardim do Éden, onde a vida viceja com frutos e vegetação exuberante. O jardim de Proserpina, morto embora, não é de todo estéril. Em vários trechos do poema fica claro que ele gerou uma colheita; mas uma colheita feita de “grãos cobertos por neve”, “secos brotos”, “folhas débeis”. No poema, a natureza não é boa e acolhedora; é, antes, indiferente. E o jardim de Proserpina é o lugar para o qual vão os “amores murchos (…), cansados”; um lugar de “sonhos mortos e breves” e de primaveras arruinadas (“abris despedaçados”).

Segue abaixo uma ótima revisão do poema, escrita por Bhaskar Banerjee.
Sobre a tradução em si cumpre fazer algumas pequenas observações. O poema original de Swinburne é construído em versos hexassílabos, e, para ficar o mais fiel possível ao original, resolvi manter, na tradução, a mesma métrica. O que demonstrou ser uma péssima ideia. A língua inglesa tem uma infinidade de palavras monossilábicas que, quando vertidas para o português, tornam-se dissílabas ou trissílabas (“man”- “homem”; “watch”- “vejo”; “dreams”-“sonhos”; “green”-“verde”; “tears”- “lágrimas”; etc.). O poema de Swinburne tem um número enorme destas palavras. Veja-se, por exemplo, o primeiro e famoso verso do poema:
Here/, where/ the/ world/ is/ quiet
Em tradução livre, este verso ficaria assim:
A/qui/, on/de o/ mun/do é/ cal/mo
Melhor seria, assim, ter optado pela redondilha maior. No entanto, tomei a dificuldade como um desafio e resolvi manter a métrica original do poema.

Mantive, também, de forma bem rigorosa o esquema de rimas interpoladas (ou intercaladas) do poema. O poema de Swinburne é composto de doze estrofes, cada qual contendo uniformemente oito versos. Nele, os versos pares iniciais rimam se interpondo entre os ímpares, seguidos por três também rimados, mas de forma diferente, no rígido esquema ABABCCCB, o que procurei manter na tradução.

O original, finalmente, é repleto de figuras de sintaxe, as quais servem para reforçar a melancolia que perpassa todo o poema por força de uma repetição quase que monótona. Algumas dessas figuras de sintaxe – como as anáforas – são relativamente fáceis de recuperar na tradução. Por exemplo:

That no life lives for ever ;
That dead men rise up never ;
That even the weariest river
Winds somewhere safe to sea

Que as vidas se extingam,
Que os mortos não se ergam;
Que os rios que serpenteiam,
Ao mar cheguem decerto.

Já as inúmeras aliterações e assonâncias espalhadas pelo texto foram muito difíceis de reproduzir com a colocação das vogais e consoantes, em minha tradução, nos pontos exatos dos versos onde ocorrem no texto original. Ainda assim, procurei inserir aliterações e assonâncias ao longo da tradução, como, por exemplo, nessas estrofes e versos:

Cá, em que a terra é calma;
Cá, em que o drama é como
Ar morto e exaustas almas,
Dúbios sonhos assomo;

Por eles ela vela,
Por todos ela espera;
Esquece a terra bela,
A vida pura e vera;
Primavera, grãos, ave,
Vá, em seu vôo suave,
Aonde o som soa grave
E calcada é a hera.

O tradutor.

UMA REVISÃO DO POEMA “O JARDIM DE PROSERPINA”
Bhaskar Banerjee

Na mitologia grega, Prosérpina é a filha de Ceres e da esposa de Plutão. Ela é, portanto, a deusa do Hades (isto é, o reino dos mortos), e seu Jardim fica na fronteira de Hades. Swinburne usa esse mito para expressar um estado de espírito. Em “O Jardim de Proserpina” o Jardim torna-se um símbolo da morte e da extinção. O poema exprime sentimentos de cansaço e saciedade para fazer da inevitabilidade da morte algo a ser aceito e até desejado.

Não a morte em si, mas sim o desejo de morte, é o tema do poema. Prosérpina é vista como a deusa, não da morte apenas, mas de todos os fins, de todas as ‘pequenas mortes’ – do dia, do amor, das estações do ano – que tornam a vida dolorosa, mas sem as quais a vida seria insuportável. É, paradoxalmente, o “muito amor à vida”, que produziu este hino em honra da morte.
O tema de Swinburne deriva muito de sua capacidade de se valer de outros aspectos do mito. Por exemplo, ele compara a Prosérpina mortífera e estéril com a Prosérpina cujo periódico retorno à terra significa o renascimento da Primavera. Prosérpina é, portanto, representada como uma ‘belle dame sans merci “, ameaçadora, mesmo repugnante, mas sedutora e irresistível.

O poema começa por estabelecer o contraste entre a quietude do Jardim e do mundo do homem atarefado; migra então para uma descrição do próprio Jardim, de Prosérpina, e de seu poder sobre o mundo, e termina com uma expressão de alívio na cessação definitiva de todas as coisas.
Os motivos e as imagens são repetidas, e o sucesso do poema depende dessas repetições. Swinburne usa os recursos da linguagem – musical, imagética, emotiva – para evocar um estado de espírito. O soporífero, mesmo hipnótico, efeito das repetições combina perfeitamente com o humor. Há, por exemplo, as imagens repetidas de flores, folhas, frutas e milho, que caracterizam a vida tanto do homem na terra e do Jardim em si. As repetições geram contrastes: as áreas de terra são verdes e crescem, enquanto os campos Proserpina são ‘inúteis’ e ‘nada cresce no charco”. Mas as repetições servem também para estabelecer paralelos: se brotos e folhas de Proserpina são “de um florescer parco”, a terra também produz “secos brotos da flora”.
A repetição é também utilizada para gerar efeitos de linguagem em dispositivos tais como anáfora, assonância e, acima de tudo, aliteração. Nas últimos três estrofes, o som e o sentido combinam para dar uma impressão exata da impermanência das coisas que torna a vida, em última análise, tão estéril como a morte.

http://voices.yahoo.com/a-review-poem-garden-proserpine-517330.html

The Garden Of Proserpine

Here, where the world is quiet;
Here, where all trouble seems
Dead winds’ and spent waves’ riot
In doubtful dreams of dreams;
I watch the green field growing
For reaping folk and sowing,
For harvest-time and mowing,
A sleepy world of streams.

I am tired of tears and laughter,
And men that laugh and weep ;
Of what may come hereafter
For men that sow to reap :
I am weary of days and hours,
Blown buds of barren flowers,
Desires and dreams and powers
And everything but sleep.

Here life has death for neighbour,
And far from eye or ear
Wan waves and wet winds labour,
Weak ships and spirits steer ;
They drive adrift, and whither
They wot not who make thither ;
But no such winds blow hither,
And no such things grow here.

No growth of moor or coppice,
No heather-flower or vine,
But bloomless buds of poppies,
Green grapes of Proserpine,
Pale beds of blowing rushes
Where no leaf blooms or blushes
Save this whereout she crushes
For dead men deadly wine

Pale, without name or number,
In fruitless fields of corn,
They bow themselves and slumber
All night till light is born ;
And like a soul belated,
In hell and heaven unmated,
By cloud and mist abated
Comes out of darkness morn.

Though one were strong as seven,
He too with death shall dwell,
Nor wake with wings in heaven,
Nor weep for pains in hell ;
Though one were fair as roses,
His beauty clouds and closes ;
And well though love reposes,
In the end it is not well.

Pale, beyond porch and portal,
Crowned with calm leaves, she stands
Who gathers all things mortal
With cold immortal hands ;
Her languid lips are sweeter
Than love’s who fears to greet her
To men that mix and meet her
From many times and lands.

She waits for each and other,
She waits for all men born ;
Forgets the earth her mother,
The life of fruits and corn ;
And spring and seed and swallow
Take wing for her and follow
Where summer song rings hollow
And flowers are put to scorn.

There go the loves that wither,
The old loves with wearier wings ;
And all dead years draw thither,
And all disastrous things ;
Dead dreams of days forsaken,
Blind buds that snows have shaken,
Wild leaves that winds have taken,
Red strays of ruined springs.

We are not sure of sorrow,
And joy was never sure;
To-day will die to-morrow;
Time stoops to no man’s lure;
And love, grown faint and fretful,
With lips but half regretful
Sighs, and with eyes forgetful
Weeps that no loves endure.

From too much love of living,
From hope and fear set free,
We thank with brief thanksgiving
Whatever gods may be
That no life lives for ever ;
That dead men rise up never ;
That even the weariest river
Winds somewhere safe to sea

Then star nor sun shall waken,
Nor any change of light:
Nor sound of waters shaken,
Nor any sound or sight:
Nor wintry leaves nor vernal,
Nor days nor things diurnal;
Only the sleep eternal
In an eternal night.

Reginald Gibbons – O que remanesce

Sim, o pão está envenenado. E não há sequer um gole de ar.
Como é difícil curar a ferida da vida.
O próprio José, vendido ao Egito como escravo,
não poderia ter ficado mais profundamente magoado.

Então, sob o enxame de estrelas do céu, chegam os Beduínos.
Eles acalmam seus cavalos. Então, por turnos, com olhos fechados,
cada um inventa algum fragmento cantado de seu dia que nada
teve de épico, que só lhes trouxe tédio,

pois entre tais cavaleiros, pouco é necessário para inspirar —
nas dunas, um homem perdeu uma aljava de flechas,
outros trocaram alguns castrados por uma égua — os eventos são
apenas uma névoa que rareia e desaparece.

Mas se — apenas se — tais canções forem cantadas até o fim
com todo o coração, com toda respiração dos pulmões,
quase tudo desaparece… E o que remanesce
é a vastidão do deserto, as estrelas, e aquele que canta.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: “What Remains” é uma versão do poeta, romancista, tradutor e crítico literário americano Reginald Gibons para o poema “Отравлен хлеб, и воздух выпит…” (“O ar foi todo bebido e o pão, corrompido…”), de Óssip Mandelstam, que traduzi e publiquei neste blog no último sábado (Aqui).

Aqui você pode ler uma (ótima) revisão deste poema.

What Remains

Yes, bread that’s poisoned. And not even one sip of air.
How hard it is for the wound of life to be cured.
Joseph himself, sold to Egypt as a slave,
could not have been more heavily grieved.

Then under the sky-swarm of stars, Bedouins come.
They quiet their horses. Then in turn, with eyes closed,
each invents some chanted fragment of their day
of epic nothing, that only brought them boredom,

for among such riders, little’s needed to inspire—
in the dunes, one man lost a quiver of arrows,
others traded some geldings for a mare—events are
only a mist that thins and disappears.

But if—if—such songs are sung out to the end
with all the heart, with all the breath in the lungs,
almost everything vanishes . . . And what remains
is the desert vastness, the stars, the one who sings.