Mario Benedetti – Angelus

Quem imaginaria que este seria o destino?

Vejo a chuva através de letras invertidas
Uma parede com manchas que parecem dignitários
Os tetos dos ônibus brilhantes como peixes
E essa melancolia que impregna as buzinas

Aqui não há céu,
Aqui não há horizonte.

Há uma mesa grande para todos os braços
E uma cadeira que gira quando quero fugir.
Outro dia que se vai e a isto ele estava destinado.

É raro ter tempo para sentir-se triste:
Há sempre uma encomenda, um telefonema, uma campanhia tocando
E claro, é proibido chorar sobre os livros
Porque não pega bem manchar a tinta.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado no blog originalmente em 24/01/2018

Mario Benedetti – Angelus

Quién me iba a decir que el destino era esto

Ver la lluvia a través de letras invertidas,
Un paredón con manchas que parecen prohombres,
El techo de los ómnibus brillantes como peces
Y esa melancolía que impregna las bocinas.

Aquí no hay cielo,
Aquí no hay horizonte.

Hay una mesa grande para todos los brazos
Y una silla que gira cuando quiero escaparme.
Otro día se acaba y el destino era esto.

Es raro que uno tenga tiempo de verse triste:
Siempre suena una orden, un teléfono, un timbre,
Y claro, está prohibido llorar sobre los libros
Porque no queda bien que la tinta se corra.

Kwame Opoku-Duku – Eles irão lhe perguntar onde dói mais

Bendita seja a amargura
em sua essência, aquela luz calma
que fica cada vez mais calma,
como o murmúrio abafado que escapa
de seus lábios enquanto você dorme.
Eles irão lhe perguntar, criança,
o que você sabe sobre o sofrimento.
Eles irão lhe perguntar onde dói
mais quando a dor se transforma,
como o comprimento de onda da luz
no céu noturno, quando os gritos
de seus ancestrais ressoam para você
do oceano, e quando suas palavras
vibram em seu diafragma
como um apático enxame sem rainha.
Você pode, criança, sentir-se
para sempre de uma certa maneira, mas
deve levantar-se todas as manhãs e ver
o sol nascer do oceano.
Lembre-se de amar a sua amada,
lembre-se da bondade e
e retidão do vermelho intenso
contra a sua pele, da cor do oceano
em suas unhas dos pés. Lembre-se dos ancestrais
que louvaram os deuses ao avistarem a terra.
Um dia, criança, você se juntará
a eles, em uma praia de Accra,
onde ofertará libações
por aqueles que ainda não chegaram.
Até lá, fique com seus braços
levantados para o céu. E embora
os cupins possam devora-lo por dentro,
ore para se transformar em uma árvore sábia e velha,
pela dignidade de venerar apenas
o sol e as chuvas. Ore para se tornar
um jardim, para saber distinguir o que nos nutre
daquilo que nos mantém vivos.

Trad.: Nelson Santander

They’ll Ask You Where It Hurts the Most

Blessed be the bitterness
at your core, that quiet light
growing quieter still,
like the dull moan that escapes
your lips while you dream.
They’ll ask you, child,
what you know of suffering.
They’ll ask you where it hurts
the most, when the pain changes
like wavelengths of light
in the evening sky, when the cries
of the ancestors ring out to you
from the ocean, when their words
vibrate in your diaphragm
like a listless, queenless hive.
You may forever, child,
feel a type of way, but you
must get up every morning and watch
the sun rise from the ocean.
Remember to love your lover,
remember the goodness
and righteousness of deep red
against her skin, the color of the ocean
on her toenails. Remember the ancestors
who praised the gods at the sight of land.
One day, child, you will join
them, on a beach in Accra,
where you will pour out libations
for those who have yet to come.
Until then, stand with your arms
stretched toward the sky. And though
termites may eat you from within,
pray to grow into a wise, old tree,
for the dignity to praise alone
the sun and rains. Pray to become
a garden, to distinguish what nourishes
us from what is keeping us alive.

Les Murray – Criação contínua

Não trazemos nada para este mundo
exceto nossa capacidade gradual
de criá-lo, dentre tudo o que desaparece
e tudo o que viverá mais que nós.

Trad.: Nelson Santander

Continuous Creation

We bring nothing into this world
except our gradual ability
to create it, out of all that vanishes
and all that will outlast us.

Ursula K. Le Guin – Parentesco

Ardendo muito lentamente, a grande árvore da floresta
se ergue da sutil cavidade de neve
derretida ao seu redor pelo brando e duradouro
calor de seu ser e de sua vontade de ser
raiz, tronco, ramo, folha, e de conhecer a
terra escura, a luz do sol, o toque do vento, o canto do pássaro.

Desenraizados, desassossegados e de sangue quente, nós
ardemos em labaredas que nos cegam para este lento,
elevado e fraterno fogo da vida, tão forte
agora quanto na brotação, dois séculos atrás.

Trad.: Nelson Santander

Kinship

Very slowly burning, the big forest tree
stands in the slight hollow of the snow
melted around it by the mild, long
heat of its being and its will to be
root, trunk, branch, leaf, and know
earth dark, sun light, wind touch, bird song.

Rootless and restless and warmblooded, we
blaze in the flare that blinds us to that slow,
tall, fraternal fire of life as strong
now as in the seedling two centuries ago.

Maria Mazziotti Gillan – Foi uma semana

Foi uma semana

… de olhar para cima, para dentro, abaixo da superfície e para o passado.”
—New York Times, D3, May 5, 2013

Este ano foi assim para mim, você, morto já
há três anos e transposto para aquele outro lugar onde eu não posso
toca-lo, e que deixei para trás olhando para cima, para aquele lugar
que eu imaginava ser o céu e onde espero que você possa sentir
minha falta. A NASA anunciou seus planos de trazer uma amostra de Marte
para a Terra. Gostaria de imaginar que eu poderia trazer de volta alguma
recordação sua, embora meu amigo me diga que tenho que
deixa-lo ir. Li sobre um inseto de 23 milhões de anos,
de uma espécie até então desconhecida encontrada na Europa,
tão perfeitamente preservado em âmbar que cada pequeno segmento
do bicho de 1,8 polegada de comprimento é claramente visível,
com todo seu tecido mole intacto. Sentada em minha poltrona agora,
à noite, em nossa sala de estar, minhas pernas levantadas,
meus olhos fixos firmemente na tela da TV, em que assisto
programas britânicos de mistério, subitamente vislumbro uma imagem
de mim mesma preservada em âmbar, lágrimas no rosto,
o controle remoto da TV ainda firmemente posicionado em minha mão.
O que os cientistas do futuro fariam comigo?
Esta mulher rechonchuda sozinha em sua casa silenciosa, meio adormecida
em um sofá que a sustém como uma imensa mão marrom.
Eles olhariam detidamente, mas como poderiam entender
toda a tristeza e saudade que estariam pulsando
abaixo da superfície de sua pele
e nas câmaras do seu coração?

Trad.: Nelson Santander

It’s Been A Week

… of looking upward, inward, below the surface and back in time.”
—New York Times, D3, May 5, 2013

This year has been a year like that for me, you, already three
years dead and crossed over to that other place where I cannot
touch you, and I left behind looking upward to that place
where I imagined heaven is and where I hope you can feel me
missing you. NASA announces its plans to bring a piece of Mars
back to earth. I’d like to imagine I could bring back some
memento of you, though my friend tells me I have
to let you go. I read about a 23-million-year-old insect
of a previously unknown species found in Europe,
so perfectly preserved in amber that each tiny digit
of the 1.8-inch-long animal is clearly visible,
all its soft tissue intact. Sitting in my recliner now,
in our family room in the evenings, my legs elevated,
my eyes fixed firmly on the TV screen, where I watch
British mysteries, I suddenly have an image
of myself preserved in amber, tears on my cheeks,
the TV remote still solidly positioned in my hand.
What would the scientists of the future make of me?
This chubby woman alone in her silent house, half asleep
in a chair that holds her like a huge brown hand.
They would stare and stare, but how could they know
all the grief and longing that pulsed
below the surface of her skin
and in the chambers of her heart?

Mary Oliver – Flores brancas

Ontem à noite
no campo
eu me deitei no escuro
para pensar na morte,
mas em vez disso adormeci,
como se estivesse em um quarto vasto e inclinado
repleto daquelas flores brancas
que se abrem todo verão,
viscosas e desordenadas,
nos tépidos campos.
Quando despertei
a luz da manhã deslizava
perante as estrelas,
e eu estava coberta
de flores.
Não sei
como aconteceu —
não sei
se meu corpo mergulhou
para baixo das adocicadas videiras
em algum tipo de afinidade sonoafiada
com as profundezas, ou se
aquela energia verde
ergueu-se como uma onda
e se enroscou em mim, reivindicando-me
em seus braços rudes.
Eu a afastei, mas não me levantei.
Nunca em minha vida me sentira tão suave,
ou tão escorregadia,
ou tão resplandecentemente vazia.
Nunca em minha vida
me sentira tão perto
daquela linha porosa
onde meu próprio corpo terminava
e as raízes e os caules e as flores
começavam.

Trad.: Nelson Santander

White Flowers

Last night
in the fields
I lay down in the darkness
to think about death,
but instead I fell asleep,
as if in a vast and sloping room
filled with those white flowers
that open all summer,
sticky and untidy,
in the warm fields.
When I woke
the morning light was just slipping
in front of the stars,
and I was covered
with blossoms.
I don’t know
how it happened—
I don’t know
if my body went diving down
under the sugary vines
in some sleep-sharpened affinity
with the depths, or whether
that green energy
rose like a wave
and curled over me, claiming me
in its husky arms.
I pushed them away, but I didn’t rise.
Never in my life had I felt so plush,
or so slippery,
or so resplendently empty.
Never in my life
had I felt myself so near
that porous line
where my own body was done with
and the roots and the stems and the flowers
began.

Andrea Cohen – Barganha

Pagamos-lhe quase
nada — menos do que o pouco
que ele pedira — para nos levar

ao anoitecer das pirâmides
em camelos deserto adentro.
Estipêndio tão escasso

para nos levar, sem
reclamar, para tão longe —
até aqui, sem uma estrela.

Estávamos no meio
do nada, ou em sua borda.
Amigos, perguntou ele, de

dentro daquela escuridão,
quanto vocês me pagarão
para leva-los de volta?

Trad.: Nelson Santander

Bargain

We paid him next
to nothing—less than the little
he’d asked for—to lead us

at dusk from the pyramids
on camels into the desert.
Such slim wages

to take us, without
complaint, all that way—
so far, without a star.

We were in the middle
of nowhere, or at its edge.
Friends, he asked, from

inside that blackness,
what will you pay me
to take you back?

Dan Albergotti – Coisas para fazer no ventre da baleia

Meça as paredes. Conte as costelas. Registre os longos dias.
Olhe para o céu azul por entre os esguichos. Faça pequenas fogueiras
com os cascos partidos dos barcos de pesca. Pratique sinais de fumaça.
Ligue para os velhos amigos e escute os ecos de vozes distantes.
Organize sua agenda. Sonhe com a praia. Busque por toda jornada
pelo pálido brilho da luz. Trabalhe em seus relatórios. Recapitule
cada uma das dez milhões de escolhas de sua vida. Suporte os momentos
de autoaversão. Encontre as evidências dos que aqui estiveram antes de você.
Destrua-as. Tente ficar muito tranquilo e ouça o som das
engrenagens e da água em movimento. Ouça o som do seu coração.
Seja grato por estar aqui, engolido com todas as esperanças,
onde você pode descansar e esperar. Seja nostálgico. Pense em todas
as coisas que você fez e as que poderia ter feito. Lembre-se de
boiar pedalando no centro do tranquilo mar noturno, os dedos dos pés
apontando vezes sem conta para baixo, para as negras profundezas.

Things to Do in the Belly of the Whale

Measure the walls. Count the ribs. Notch the long days.
Look up for blue sky through the spout. Make small fires
with the broken hulls of fishing boats. Practice smoke signals.
Call old friends, and listen for echoes of distant voices.
Organize your calendar. Dream of the beach. Look each way
for the dim glow of light. Work on your reports. Review
each of your life’s ten million choices. Endure moments
of self-loathing. Find the evidence of those before you.
Destroy it. Try to be very quiet, and listen for the sound
of gears and moving water. Listen for the sound of your heart.
Be thankful that you are here, swallowed with all hope,
where you can rest and wait. Be nostalgic. Think of all
the things you did and could have done. Remember
treading water in the center of the still night sea, your toes
pointing again and again down, down into the black depths.

Judith Hemschemeyer — Naquele verão

Naquele verão
depois que você se enforcou
sem perguntar
a ninguém que o amava
se eles podiam suportar

dei por mim arrastando mangueiras
regando cada centímetro
desse imenso gramado
dia após dia
perfeito

obcecada
incapaz de deixar mais alguma coisa
uma única folha de grama
morrer.

Trad.: Nelson Santander

That Summer

That summer
after you hanged yourself
without asking
anyone who loved you
if they could bear it

I found myself dragging hoses
watering every inch
of this huge lawn
over and over
day after perfect day

obsessed
unable to let one more thing
one single blade of grass
die.

Matthew Olzmann – Carta à pessoa que gravou suas iniciais no mais antigo pinheiro de folha longa da América do Norte

Southern Pines, Carolina do Norte

Diga-me como é viver sem
curiosidade, sem sentir admiração. Navegar
em águas cristalinas, desviando os olhos
dos recifes de algas que ondulam
abaixo de você, ignorando o cintilar
das escamas de sereias no nevoeiro,
olhando para o mundo e sentindo
apenas tédio. Estar
à beira do precipício de algum vale selvagem,
as águias circulando, um rebanho de caribus
trovejando lá embaixo, e bocejar
com indiferença. Descobrir
algo primordial e sagrado.
Sentir o cheiro da terra
acolhendo-o por toda parte.
Absorver tudo isso e, então,
empunhar sua faca.

Trad.: Nelson Santander

Letter to the Person Who Carved His Initials into the Oldest Living Longleaf Pine in North America

Southern Pines, NC

Tell me what it’s like to live without
curiosity, without awe. To sail
on clear water, rolling your eyes
at the kelp reefs swaying
beneath you, ignoring the flicker
of mermaid scales in the mist,
looking at the world and feeling
only boredom. To stand
on the precipice of some wild valley,
the eagles circling, a herd of caribou
booming below, and to yawn
with indifference. To discover
something primordial and holy.
To have the smell of the earth
welcome you to everywhere.
To take it all in, and then,
to reach for your knife.