Eugenio Montale – O lago de Annecy

Não sei por que minhas memórias te relacionam
ao lago de Annecy
que visitei alguns anos antes de tua morte.
Mas na época eu não pensava em ti, era jovem
e julgava ser o senhor do meu destino.
Por que uma memória tão enterrada é capaz de
aflorar eu não sei; tu mesma
certamente me enterraste e nem percebeste.
Agora ressurges viva, embora já não estejas. Eu poderia
ter perguntado então sobre teu pensionato,
ter assistido as meninas saindo em fila,
ter encontrado um pensamento teu de quando ainda estavas
viva. Mas não pensei em nada disso. Agora que é inútil,
a fotografia do lago me é suficiente.

6 de junho de 1971

Trad.: Nelson Santander

Il Lago di Annecy

Non so perché il mio ricordo ti lega
al lago di Annecy
che visitai qualche anno prima della tua morte.
Ma allora non ti ricordai, ero giovane
e mi credevo padrone della mia sorte.
Perché può scattar fuori una memoria
così insabbiata non lo so; tu stessa
m’hai certo seppellito e non l’hai saputo.
Ora risorgi viva e non ci sei. Potevo
chiedere allora del tuo pensionato,
vedere uscirne le fanciulle in fila,
trovare un tuo pensiero di quando eri
viva e non l’ho pensato. Ora ch’è inutile
mi basta la fotografia del lago.

6 giugno 1971

José Infante – [A morte é definitivamente o fim]

A morte é definitivamente o fim, por mais
que nos tentem enganar com cânticos,
com hinos, com orações e salmos.
A morte é o fim e é justo
que seja assim. Que não haja
recompensas nem punições. Somente
que nos deixem perdermo-nos no nada,
de onde viemos sem ter sido
previamente convidados.

Trad.: Nelson Santander

[La muerte sí es el final]

La muerte sí es el final por mucho
que intenten engañarnos con canciones,
con himnos, con plegarias y salmos.
Es la muerte el final y es justo
que así sea. Que no existan
ni premios ni castigos. Solamente
que nos dejen perdernos en la nada,
desde donde vinimos sin haber sido
previamente invitados.

Danusha Laméris – Nada quer sofrer

Nada quer sofrer

após LInda Hogan

Nada quer sofrer. Nem o vento
que arranha contra a encosta. Nem o penhasco

sendo devorado, lentamente, pelo mar. A terra não quer
sofrer o pisoteio bruto de quem a ignora.

As árvores não querem sofrer o machado, nem ver
suas irmãs derrubadas pela podridão, pelo mofo e oxidação de suas raízes. 

O coiote em seu covil. O puma perseguindo sua presa.
Estes também desejam tranquilidade e um tenro animal na boca

para aliviar a fome. Uma oferenda, espera-se, 
preparada rapidamente, e sem muito sofrimento.

A cadeira lamenta um ocupante irritado. A lâmpada, uma mariposa queimada.
Uma mesa, o peso de anos de discussões.

Sabemos disso, embora o esqueçamos.

Não o tubarão, nem o tigre, tão cheios de presas.
Nem o verme, satisfeito em seu mundo sem janela feito

de poeira e pedra. Nem a pedra, repousando em seu leito de rio.
O leito de rio, observando as estrelas.

E nem mesmo as estrelas, envoltas em seu dossel,
olhando lá de cima para todos nós — seus descendentes —

espalhados além do seu alcance.

Trad.: Nelson Santander

Nothing wants to suffer

after LInda Hogan

Nothing wants to suffer. Not the wind
as it scrapes itself against the cliff. Not the cliff

being eaten, slowly, by the sea. The earth does not want
to suffer the rough tread of those who do not notice it.

The trees do not want to suffer the axe, nor see
their sisters felled by root rot, mildew, rust. 

The coyote in its den. The puma stalking its prey.
These, too, want ease and a tender animal in the mouth

to take their hunger. An offering, one hopes, 
made quickly, and without much suffering.

The chair mourns an angry sitter. The lamp, a scalded moth.
A table, the weight of years of argument.

We know this, though we forget.

Not the shark nor the tiger, fanged as they are.
Nor the worm, content in its windowless world

of soil and stone. Not the stone, resting in its riverbed.
The riverbed, gazing up at the stars.

Least of all, the stars, ensconced in their canopy,
looking down at all of us— their offspring—

scattered so far beyond reach.

Brad Aaron Modlin – O que você perdeu no dia em que não foi à aula

A Sra. Nelson explicou como ficar imóvel e ouvir
o vento, como encontrar sentido em encher o tanque,

como descascar batatas pode ser uma forma de oração. Ela respondeu
a perguntas sobre como não se sentir perdido no escuro.

Depois do recreio, ela distribuiu folhas de exercícios
que abordavam maneiras de como lembrar as vozes de nossos

avôs. Em seguida, a turma discutiu sobre adormecer
sem sentir que você esqueceu de fazer mais alguma coisa —

algo importante — e como se convencer de que
a casa em que você despertou é seu lar. Isso levou

a Sra. Nelson a desenhar um diagrama na lousa, explicando
como entoar os Salmos durante os intervalos para fumar,

e como não se contorcer por um som quando seus próprios pensamentos
são tudo o que você ouve; e também que você se basta.

Na aula de gramática aprendemos que eu sou
é uma sentença completa.

E pouco antes do sinal da tarde, ela fez a equação matemática
parecer fácil. O que prova que centenas de perguntas,

e sentir frio, e todas aquelas noites procurando
o que quer que você tenha perdido, e uma pessoa

resultam em algo.

Trad.: Nelson Santander

What You Missed That Day You Were Absent From Fourth Grade

Mrs. Nelson explained how to stand still and listen
to the wind, how to find meaning in pumping gas,

how peeling potatoes can be a form of prayer. She took
questions on how not to feel lost in the dark.

After lunch she distributed worksheets
that covered ways to remember your grandfather’s

voice. Then the class discussed falling asleep
without feeling you had forgotten to do something else—

something important—and how to believe
the house you wake in is your home. This prompted

Mrs. Nelson to draw a chalkboard diagram detailing
how to chant the Psalms during cigarette breaks,

and how not to squirm for sound when your own thoughts
are all you hear; also, that you have enough.

The English lesson was that I am
is a complete sentence.

And just before the afternoon bell, she made the math equation
look easy. The one that proves that hundreds of questions,

and feeling cold, and all those nights spent looking
for whatever it was you lost, and one person

add up to something.

Wendy Cope – Em um trem

O livro que estou lendo
repousa em meu joelho. Você dorme.

Lá fora é tão bonito —
campos, pequenos lagos e árvores de inverno
sob o sol de fevereiro,
cada estacionamento um brilhante mosaico.

Longos e radiantes minutos,
sua mão na minha mão,
ainda quente, ainda quente.

Trad.: Nelson Santander

On a Train

The book I’ve been reading
rests on my knee. You sleep.

It’s beautiful out there-
fields, little lakes and winter trees
in February sunlight,
every car park a shining mosaic.

Long radiant minutes,
your hand in my hand,
still warm, still warm.

José Alcaraz – Volta para Casa

Atravessa as ruas
absorto nos ecos das pessoas,
distante até de seus pensamentos.
Não chove, não abre o seu guarda-chuva,
no entanto, como sempre, molham-se
não só seus sapatos
como a vida também, porque às vezes
esquece que o mundo o reclama.
Caminha como quem não sabe para onde,
em cada passo crê estar sozinho,
mais distante das outras pessoas,
por isso demora a encontrar as palavras,
e quando as pronuncia já não há ninguém
esperando. Depois,
novamente, o caminho de volta,
as ruas, a tristeza. E nada mais,
além de sua casa, e ele,
diante de um espelho,
olhando-me nos olhos.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO (com alterações na tradução): poema publicado no blog originalmente em 04/05/2018

Vuelta a Casa

Atraviesa las calles
ensimismado en ecos de la gente,
distante incluso de sus pensamientos.
No llueve, no despliega su paraguas,
pero a él, como siempre, se le mojan
no solo los zapatos
sino también la vida porque a veces
no recuerda que el mundo lo reclama.
Camina como quien no sabe adónde,
a cada paso cree que está solo
y más lejos del resto de personas,
así que llega tarde a sus palabras
y cuando las pronuncia ya no hay nadie
esperando. Después
nuevamente el camino de regreso,
las calles, la tristeza. Y nada más,
salvo su casa, y él,
delante de un espejo,
mirándome a los ojos.

Finn Butler – Marinho

Todos os que o amedrontam são sessenta e cinco por cento água.
E todos os que você ama são feitos de poeira estelar, e eu sei que
às vezes
você nem consegue respirar profundamente,
o céu noturno não é seu lar e
você já chorou sozinho até dormir tantas vezes
que chegou aos seus últimos dois por cento, mas

nada é infinito,
nem mesmo a perda.

Você é feito do mar e das estrelas, e um dia
vai se encontrar novamente.

Trad.: Nelson Santander

Saltwater

Everyone who terrifies you is sixty-five percent water.
And everyone you love is made of stardust, and I know
sometimes
you cannot even breathe deeply, and
the night sky no home, and
you have cried yourself to sleep enough times
that you are down to your last two percent, but

nothing is infinite,
not even loss.

You are made of the sea and the stars, and one day
you are going to find yourself again.

Maya C. Popa – Vida querida

Não posso desfazer tudo o que fiz a mim mesma,
o que permiti que um apetite por amor me fizesse.

Eu quis o mundo todo, suas maravilhas
e suas mazelas; alguns dias
acho que já houve castigo suficiente.

Com frequência, recebi mais do que pedi,

que é como isso funciona — você pesca em mar aberto
pronta para ser ferida pelo que fisgar.

Joga-lo de volta era um pesadelo.
Joga-lo de volta e ver minha própria face

enquanto ela desaparecia na água escura.

Fisgar de repente minha língua no metal,
cuspindo o anzol na palma da minha mão aberta.

Vida querida: hoje sinto esse anzol mais profundamente.

Você afrouxaria a linha? — você me ouvirá

caso eu lhe pergunte

se você é do tipo de vida que eu acho que é?

Trad.: Nelson Santander

Dear Life

I can’t undo all I have done unto myself,
what I have let an appetite for love do to me.

I have wanted all the world, its beauties
and its injuries; some days,
I think that is punishment enough.

Often, I received more than I’d asked,

which is how this works—you fish in open water
ready to be wounded on what you reel in.

Throwing it back was a nightmare.
Throwing it back and seeing my own face

as it disappeared into the dark water.

Catching my tongue suddenly on metal,
spitting the hook into my open palm.

Dear life: I feel that hook today most keenly.

Would you loosen the line—you’ll listen

if   I ask you,

if   you are the sort of  life I think you are.

Hans Magnus Enzensberger – Discurso pós-jantar em um noivado

Este eu, um invólucro que,
contanto que ninguém o abra,
parece compacto, regular
como um Kinder ovo,
quase apetitoso. Só por dentro
é escuro. Quem sabe
o que estará esperando por você lá.
Obsessões, sem dúvida,
hábitos enferrujados,
medos incompreensíveis,
truques de segunda mão,
desejos infantis.
Que você deseje tê-la,
esta caixa de presente,
beira o milagre.

Trad.: Nelson Santander (a partir de tradução do alemão para o inglês feita por Martin Chalmers e Esther Kinsky, in A History of Clouds. 99 Meditations by Hans Magnus Enzensberger)

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 29/04/2018

After-Dinner Speech at an Engagement

This self, a container, which,
as long as no one opens it,
appears compact, smooth
as a Kinder egg,
almost appetizing. Only inside,
there it’s dark. Who knows
what’s waiting for you there.
Obsession no doubt,
rusty habits,
incomprehensible fears,
second-hand tricks,
childish desires.
That you want to have it,
this gift box,
borders on a miracle.

Amalia Bautista – No final

No final, muito poucas são as palavras
que realmente nos magoam, e muito poucas
as que conseguem alegrar a alma.
E são também muito poucas as pessoas
que tocam nossos corações, e ainda
menos as que o fazem por muito tempo.
No final, são pouquíssimas as coisas
que realmente importam na vida:
ser capaz de amar alguém, ser amado
e não morrer antes de nossos filhos.

Trad.: Nelson Santander

Al Cabo

Al cabo, son muy pocas las palabras
que de verdad nos duelen, y muy pocas
las que consiguen alegrar el alma.
Y son también muy pocas las personas
que mueven nuestro corazon, y menos
aún las que lo mueven mucho tiempo.
Al cabo, son poquíssimas las cosas
que de verdad importan en la vida:
poder querer a alguien, que nos quieran
y no morri después que nuestros hijos.