Keisha Cassel – As nove Sinfonias de Beethoven: um estudo de caso

I

E se eu dissesse que nenhuma guerra acontece dramaticamente?

Nem as guerras em sua casa
nem as guerras em seu corpo
todos somos capazes da violência

de destruir todos em nosso caminho por puro prazer
de desmantelar nossos corpos membro por membro até que sejam menos infames
uma vasilha que alguém esteja disposto a segurar

A brutalidade destrói lentamente, auxiliada pela proximidade,
nenhuma guerra acontece dramaticamente.

II

As línguas são pesadas
e a minha fica tropeçando no idioma de estar viva

esta é a parte em que mordo minha língua
até ela cair da minha boca

III Eroica

O Estado cantava suas canções de guerra
e em seu ventre jazia uma ária
que ressoava
como um Tec pelo ar
deixando a praça da cidade
banhada no sangue de seus inimigos.
O que você esperava?

IV

Não fale mal / dos mortos não/ havia ide/ologia a/ rejeitar/ memórias/para reprimir/
sempre o/ sol e nun/ca a lua/ só as pessoas / feriam/ as pessoas Não/ fale mal dos /
mortos.

V Transformação Transfigurativa

Eu sou uma declaração de desprezo satisfeito com feiura
Eu sou um lugar de perdas
Eu sou um lugar de abundância
Eu sou um estudo de como as instituições causam estragos
Eu estou estagnada
Eu sou do Estado

VI Anti-Pastoral

Você quer que eu seja gentil
ao pegar esses homens pelos colarinhos
arrastando-os pela lama, até que
eles sejam algo que valha a pena olhar
fale mais baixo
use amarelo
atraia-os com um sorriso
deixe-os comer em sua mão

VII

3 homens me disseram que era difícil me amar,
a guerra é calcular a vitimização.
No dia de nossa reconciliação, abandonei meu corpo 6 vezes na esperança de esquecer,
a guerra é calcular a vitimização.
“Envie ajuda” rabiscado 10 vezes no verso de um recibo,
a guerra é calcular a vitimização.
10 anos e 5 terapeutas depois ainda me sinto doente,
a guerra está quantificando a vitimização.

VIII

Deus perdoa. Eu não. Meu corpo não é um templo.

IV Ode à Alegria

Oh, que época para estar viva!
Depois de anos esperando ser puxada para o núcleo da terra
enquanto bebia água envenenada por chumbo
Você imaginou que se sentiria tão radiante?
que o sol a beijaria
em vez de acender o fósforo?
O futuro é brilhante! porque você finalmente se comprometeu com o processo de viver
que você sinta mais; que você chore
você encontrará uma vida extraordinariamente comum
você agora tem permissão para correr por aquele campo de flores.

Trad.: Nelson Santander

A Case Study of Beethoven’s Nine Symphonies

I
What if I told you not a single war happens dramatically.

Not the wars in your home
nor the wars on your body
we’re all capable of violence

of destroying everyone in our path for pure pleasure
of dismantling our bodies limb by limb until they’re less shameful
a vessel someone would be willing to hold

Brutality ravages slowly, it is aided by proximity,
not a single war happens dramatically.

II
Tongues are heavy
and mine keeps tripping over the language of being alive

this is the part where I gnaw on my tongue
until it falls from my mouth

III Eroica
The state sang her war songs
and lying dormant in her belly was an aria
that rang out
like a Tec through the air
leaving the town square
bathed in the blood of her enemies.
What did you expect?

IV
Don’t speak ill/ of the dead there/ were no ide/ologies to/ reject no/ memories/to repress/
always the/ sun and nev/er the moon/ only hurt/ people, hurt/ people Don’t/ speak ill of / the
dead.

V Transfigurative Transformation
I am a statement of contempt content with ugliness
I am a site of loss
I am a site of abundance
I am a study of how institutions wreak havoc
I am stagnant
I am of the state

VI Anti-Pastoral
You want me to be gentle
to grab these men by the collar
dragging them through the mud, until
they’re something worth looking at
speak softer
wear yellows
lure them with a smile
let them eat from your hand

VII
3 men told me I was hard to love,
war is quantifying victimhood.
On the day of our reconciliation I left my body 6 times in hopes of forgetting,
war is quantifying victimhood.
“Send help” scribbled 10 times on the back of a receipt,
war is quantifying victimhood.
10 years 5 therapist, I still feel sick,
war is quantifying victimhood.

VIII
God forgives. I don’t. My body is not a temple.

IV Ode to Joy
Oh, what a time to be alive!
After years of waiting to be pulled to earth’s core
while drinking water laced with lead
Did you ever imagine you’d feel so bright?
that the sun would kiss you
instead of igniting the match.
The future is bright! because you’re finally committed to the process of living
may you feel more; may you cry
you will find a life that is extraordinarily ordinary
you now have permission to run through that field of flowers.

Charlotte Mew – Quartos

Lembro-me de quartos que tiveram relação
     Com o constante esgotamento do coração.
O quarto em Paris, o quarto em Genebra,
O quarto pequeno e úmido com cheiro de algas
E aquele som da maré, enlouquecedor e perenal —
     Quartos onde as coisas morriam — para o bem ou para o mal.
Mas há um quarto onde nós (duas) mortas jazemos,
Embora a cada manhã pareça que despertamos e pareça que de novo repousamos
     como o faremos algures no outro catre mais silencioso e poeirento
     lá fora, ao sol - ao relento.

Trad.: Nelson Santander
Rooms 

I remember rooms that have had their part
In the steady slowing down of the heart.
The room in Paris, the room at Geneva,
The little damp room with the seaweed smell,
And that ceaseless maddening sound of the tide—
Rooms where for good or ill—things died.
But there is the room where we two lie dead,
Though every morning we seem to wake and might just as well seem to sleep again
as we shall somewhere in the other quieter, dustier bed
out there in the sun—in the rain.

Ted Kooser – Fazenda Abandonada

Ele era um homem grande, diz o tamanho
dos seus sapatos sobre uma pilha de pratos quebrados junto à casa;
um homem alto também, diz o comprimento da cama
no quarto do andar de cima; e um homem bom e temente a Deus,
diz a Bíblia com a contracapa arruinada
no chão abaixo da janela, empoeirada de sol;
mas não um fazendeiro, dizem os campos
cobertos por pedregulhos e o celeiro com goteiras.

Uma mulher vivia com ele, dizem as paredes do quarto
forradas com lilases e as prateleiras da cozinha
cobertas com oleado, e eles tinham uma criança,
diz a caixa de areia feita de pneu de trator.
O dinheiro era escasso, dizem os frascos de geleia de ameixa
e de tomates em conserva lacrados no buraco do porão.
E os invernos, gelados, dizem os trapos nos caixilhos das janelas.
Era solitário aqui, diz a estreita estrada rural.

Algo deu errado, diz a casa desabitada
no quintal sufocado por ervas daninhas. Pedras nos campos
dizem que ele não era um fazendeiro; os frascos ainda fechados
no porão dizem que ela partiu precipitadamente.
E a criança? Os brinquedos dela estão espalhados pelo quintal
como ramos depois de uma tempestade — uma vaca de borracha,
um trator enferrujado com um arado quebrado,
um boneco de macacão. Algo deu errado, eles dizem.

Trad.: Nelson Santander

Abandoned Farmhouse

He was a big man, says the size of his shoes
on a pile of broken dishes by the house;
a tall man too, says the length of the bed
in an upstairs room; and a good, God-fearing man,
says the Bible with a broken back
on the floor below the window, dusty with sun;
but not a man for farming, say the fields
cluttered with boulders and the leaky barn.

A woman lived with him, says the bedroom wall
papered with lilacs and the kitchen shelves
covered with oilcloth, and they had a child,
says the sandbox made from a tractor tire.
Money was scarce, say the jars of plum preserves
and canned tomatoes sealed in the cellar hole.
And the winters cold, say the rags in the window frames.
It was lonely here, says the narrow country road.

Something went wrong, says the empty house
in the weed-choked yard. Stones in the fields
say he was not a farmer; the still-sealed jars
in the cellar say she left in a nervous haste.
And the child? Its toys are strewn in the yard
like branches after a storm—a rubber cow,
a rusty tractor with a broken plow,
a doll in overalls. Something went wrong, they say.

Peter Sirr – Uma cartilha saxônica

Uma cartilha saxônica

Para além deste afã e deste verso, aguarda-me inesgotável o universo. – Borges

Penso então em Borges ficando cego,
e no que ele disse sobre a alma.
Ele tentava entender por que
um homem que perde o mundo
busca espadas e monstros
e saxões com vozes rudes no Salão de Hidromel1.

É que a alma sabe-se imortal,
diz ele, e seu faminto círculo espiralado
tudo alcança, realiza o que é possível.
Há um tipo de conhecimento secreto
que nos abraça, atinge tudo o que fazemos ou então
tudo o que fazemos é conhecimento e alma.

Além de tudo isso, a gramática suada,
o esforço de conhecer uma coisa após outra,
do outro lado do poema o universo aguarda,
paciente e inesgotável. Repetidamente,
a luz vai desvanecendo de tudo quanto amamos
embora a ela nos voltemos sempre, cantando

para mitigar a escuridão e recolher a luz de volta.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.:

  1. Um salão de festas na antiga Escandinávia e na Europa germânica, que servia também de residência de um senhor e de seus servos. Na mitologia nórdica, a mead hall era o salão onde eventualmente os mortos aportavam assim que deixavam a vida. P. e., o Valhalla.

A Saxon Primer

Más allá de este afán y de este verso me aguarda inagotable el universo. – Borges

Then I think of Borges going blind,
of what he said about the soul.
He was trying to understand
why a man who was losing the world
would seek out swords and monsters,
blunt-voiced Saxons in the mead hall.

It’s that the soul must know it’s immortal,
he said, and its hungry turning circle
takes everything in, achieves all that’s possible.
There’s a kind of secret knowledge
enfolds us, reaches everything we do
or else all we do is the knowledge and the soul.

Beyond all this, the sweated grammar,
the effort to know one thing after another,
on the other side of the poem the universe is waiting,
patient and inexhaustible. Time and again
the light keeps fading from what we love
though we turn and turn to it, singing

to blunt the darkness, to fold the light back in.

Mario Benedetti – Tempo sem Tempo

Preciso de tempo, necessito desse tempo
que os outros deixam de lado
porque lhes sobra ou já não sabem
o que fazer com ele
tempo
em branco
em rubro
em verde
mesmo em castanho escuro
não me importa a cor
cândido tempo
que eu não posso abrir
e fechar
como uma porta

tempo para olhar uma árvore, um farol
para caminhar à beira do descanso
para pensar que bom que hoje seja inverno
para morrer um pouco
e nascer em seguida
e dar-me conta
e dar-me corda
preciso do tempo necessário para
chapinhar algumas horas na vida
e investigar por que estou triste
e me habituar ao meu velho esqueleto

tempo para esconder-me
no canto de um galo
e para reaparecer
em um relincho
e para estar em dia
para estar à noite
tempo sem recato e sem relógio

quer dizer, preciso
ou seja, necessito
digamos que me faz falta
tempo sem tempo.

trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado no blog originalmente em 19/05/2018

Mario Benedetti – Tiempo sin Tiempo

Preciso tiempo necesito ese tiempo
que otros dejan abandonado
porque les sobra o ya no saben
que hacer con él
tiempo
en blanco
en rojo
en verde
hasta en castaño oscuro
no me importa el color
cándido tiempo
que yo no puedo abrir
y cerrar
como una puerta

tiempo para mirar un árbol un farol
para andar por el filo del descanso
para pensar qué bien hoy es invierno
para morir un poco
y nacer enseguida
y para darme cuenta
y para darme cuerda
preciso tiempo el necesario para
chapotear unas horas en la vida
y para investigar por qué estoy triste
y acostumbrarme a mi esqueleto antiguo

tiempo para esconderme
en el canto de un gallo
y para reaparecer
en un relincho
y para estar al día
para estar a la noche
tiempo sin recato y sin reloj

vale decir preciso
o sea necesito
digamos me hace falta
tiempo sin tiempo.

Roger Wolfe – A Última Noite da terra

O melro de todos os anos voltou a visitar minha casa
E, no entanto, ainda estou aqui.
Sua melodia não muda, já o disse antes.
Mas meu trabalho é constatar o óbvio,
e é isso que o melro me faz lembrar.
O tempo passa, as pessoas envelhecem e morrem
por sua própria mão ou com ajuda.
As palavras escorrem pelo ralo
do que já foi chamado de “história secreta”.
Tudo flui e se perde, os rios no mar,
o mar na imensidão inconcebível do cosmos,
o cosmos no nada do qual não deveria ter saído.
Enquanto isso, digitamos.
Um surdo tamborilar contra séculos de morte programada
e um futuro de indefinição certeira.
Um batalhão de patéticos escribas do esquecimento
implorando por duas camisas para o caminho até o patíbulo.
No entanto, não é o frio o problema, mas o medo.
E é o melro, em sua ignorância, quem conhece a verdade.
Executa sem hesitação
o ritual imposto pela biologia.
E depois morrerá. Sem epitáfios, como este,
que desaparecerão num esgar de indiferença
entre as chamas da última noite da terra,
quando nada mais fará sentido,
se é que algo já fez sentido alguma vez.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado no blog originalmente em 16/05/2018

Roger Wolfe – La última noche de la tierra

El mirlo de todos los años ha vuelto a visitar mi casa
y todavía sigo aquí.
Su música no cambia y eso ya lo he escrito.
Pero mi trabajo es constatar lo obvio
y eso es lo que el mirlo me viene a recordar.
El tiempo pasa, la gente se hace vieja, se muere,
por su propia mano o con ayuda.
Las palabras van bajando por el desagüe
de lo que alguien ha llamado la intrahistoria.
Todo fluye y se pierde, los ríos en el mar,
el mar en la inmensidad inabarcable del cosmos,
el cosmos en la nada de la que no debió salir.
Mientras tanto tecleamos.
Un sordo tamborileo contra siglos de muerte programada
y un futuro de certera incertidumbre.
Un batallón de patéticos amanuenses del olvido
exigiendo dos camisas para el camino hacia el patíbulo.
Pero no es el frío el problema, sino el miedo.
Y es el mirlo, en su ignorancia, el que sabe la verdad.
Cumple sin la más mínima estridencia
el ritual que le ha impuesto la biología.
Luego morirá. Sin epitafios, como éste,
que se deshagan con una mueca indiferente
entre las llamas de la última noche de la Tierra,
cuando nadie entienda ya ningún significado,
si es que algo tuvo sentido alguna vez.

Rosanna Warren – Lago

Você estava com água até as coxas e a luz verde refletia
nas cavidades dos seus quadris e no estômago, que é onde a chama piloto
ardia nas antigas estátuas de Dionísio,
e por um momento, enquanto você caminhava mais em direção ao fundo, parecia que
aquela água poderia lavar o peso
de suas próprias estações e de doenças que não eram as suas: era uma carícia
fria e infiel, que envolvia sua cintura,
que a tomava em seus braços e você a ela se entregava, um pouco,
só um pouco, sabendo com que rapidez e leveza aquele toque seria retirado,
e quão rapidamente você estaria de pé novamente sobre a teia de raízes da margem, secando, restaurada
aos pesos e medidas, pulsos, dores e cicatrizes que você conhece bem,
ombro debilitado, câimbras nos tendões do tornozelo, joelhos ruins, sonhos ruins
que você reconheceria no escuro, em qualquer lugar, como seus;
e você também sabia que aqueles que você não podia curar permaneceriam sem cura
embora você os alcançasse, os beijasse na testa, e eles olhassem de volta para fora da deriva;
e sabia que as montanhas continuariam seu lento e degradante deslocamento para o mar
até que as placas continentais se movimentassem em seu sono, e todo este lago fosse engolido
pelos estertores da terra, pelo bocejo do oceano.

Trad.: Nelson Santander

Lake

You stood thigh-deep in water and green light glanced
off your hip hollows and stomach which is where the pilot light
flickers in ancient statues of Dionysus,
and for a moment as you strode deeper it seemed as if
this water might rinse away the heaviness
of your own seasons and of illnesses not your own: it was a caress
cool and faithless, it lapped against your waist,
it took you in its arms and you gave yourself, a little,
only a little, knowing how soon and how lightly that touch would be withdrawn,
how soon you would be standing again on the rootwebbed shore, drying, restored
to the weights and measures, pulses, aches and scars you know by heart,
the cranky shoulder, cramping heel tendons, bad knees, bad dreams
you would recognize in the dark, anywhere, as your own;
and you knew, too, how those you cannot heal would remain unhealed
though you reach for them, kiss them on the forehead, and they stare back out of the drift;
and you knew the mountains would continue their slow, degrading shuffle to the sea
until continental plates shifted in their sleep, and this whole lake was swallowed
in earth’s gasp, ocean’s yawn.

Abdellatif Laâbi – Duas horas em um trem

Em uma viagem de trem de duas horas
Eu revejo o filme da minha vida
Cerca de dois minutos por ano
Meia hora para a minha infância
outra para o meu tempo na prisão
Enquanto o amor, livros e viagens
compartilham o resto
A mão de minha parceira gradualmente
se funde à minha e sua cabeça,
que repousa em meu ombro,
parece leve como uma pomba
Quando chegarmos
estarei com cinquenta e poucos anos
e terei pouco mais de uma hora
de vida

Trad.: Nelson Santander

Two Hours on a Train

On a two-hour train ride
I replay the film of my life
Roughly two minutes per year
A half hour for my childhood
another for my time in prison
While love, books and travels
share the rest
My partner’s hand gradually
fuses into my own and her head,
which rests on my shoulder
feels as light as a dove
By the time we’ll arrive
I’ll have reached my fifties
and I’ll have little over an hour
left to live

Alex Dimitrov – Os anos

Todas as festas que você frequentou
observando o salão
de uma sacada
onde alguém se juntou a você
para fumar e depois voltou.
E acontece que ninguém
teve a infância que desejou,
e eles lhe diziam isso
um pouco bêbados, ligeiramente inclinados,
em menos tempo que leva
para fumar um cigarro,
porque coisas tristes
não podem ser explicadas.
Atrás da vidraça e lá dentro
todos os seus amigos conversavam.
Você podia sentir o timbre
das vozes deles. Você poderia
dizer pelos olhos deles que todos estavam
em algum outro lugar. 1999
ou 2008 ou em junho passado.
Claro, é importante
ir a festas. Fazer da
vida um vestido ou uma bebida
ou sapatos de camurça usados na chuva
por alguém. A caminho de casa,
no carro de volta, o céu noturno
executava seus velhos truques. As estrelas
se organizavam silenciosamente.
A pessoa em quem você pensou dirigia
sob elas. Longe da festa
(assim como você), rumo aos anos.

Trad.: Nelson Santander

The Years

All the parties you spent
watching the room
from a balcony
where someone joined you
to smoke then returned.
And how it turns out no one
had the childhood they wanted,
and how they’d tell you this
a little drunk, a little slant
in less time than it took
to finish a cigarette
because sad things
can’t be explained.
Behind the glass and inside,
all your friends buzzed.
You could feel the shape
of their voices. You could
tell from their eyes they were
in some other place. 1999
or 2008 or last June.
Of course, it’s important
to go to parties. To make
life a dress or a drink
or suede shoes someone wears
in the rain. On the way home,
in the car back, the night sky
played its old tricks. The stars
arranged themselves quietly.
The person you thought of drove
under them. Away from the party,
(just like you) into the years.

Charles Simic – Na Biblioteca

Para Octavio

Há um livro chamado
“Um Dicionário dos Anjos”.
Ninguém o abre há cinquenta anos,
Eu sei, porque quando o fiz
As capas rangeram, as páginas
desmancham-se. Nele descobri
Que os anjos eram tão abundantes
Quanto moscas. Ao entardecer, o céu
Costumava ficar repleto deles.
Você precisava agitar os dois braços
Apenas para mante-los à distância.
Agora o sol brilha
Através de altas janelas.
A biblioteca é um lugar tranquilo.
Anjos e deuses amontoados
em sombrios tomos fechados.
O grande segredo está
Em alguma estante pela qual
Miss Jones passa em sua ronda diária.
Ela é muito alta, então mantém
A cabeça inclinada como se estivesse escutando.
Os livros estão sussurrando.
Eu não ouço nada, mas ela sim.

Trad.: Nelson Santander

Republicação com alterações na tradução: poema publicado no blog originalmente em 14/05/2018

Charles Simic – In Library

There’s a book called
“A Dictionary of Angels.”
No one has opened it in fifty years,
I know, because when I did,
The covers creaked, the pages
Crumbled. There I discovered
The angels were once as plentiful
As species of flies. The sky at dusk
Used to be thick with them.
You had to wave both arms
Just to keep them away.
Now the sun is shining
Through the tall windows.
The library is a quiet place.
Angels and gods huddled
In dark unopened books.
The great secret lies
On some shelf Miss Jones
Passes every day on her rounds.
She’s very tall, so she keeps
Her head tipped as if listening.
The books are whispering.
I hear nothing, but she does.