Roger Wolfe – A Última Noite da terra

O melro de todos os anos voltou a visitar minha casa
E, no entanto, ainda estou aqui.
Sua melodia não muda, já o disse antes.
Mas meu trabalho é constatar o óbvio,
e é isso que o melro me faz lembrar.
O tempo passa, as pessoas envelhecem e morrem
por sua própria mão ou com ajuda.
As palavras escorrem pelo ralo
do que já foi chamado de “história secreta”.
Tudo flui e se perde, os rios no mar,
o mar na imensidão inconcebível do cosmos,
o cosmos no nada do qual não deveria ter saído.
Enquanto isso, digitamos.
Um surdo tamborilar contra séculos de morte programada
e um futuro de indefinição certeira.
Um batalhão de patéticos escribas do esquecimento
implorando por duas camisas para o caminho até o patíbulo.
No entanto, não é o frio o problema, mas o medo.
E é o melro, em sua ignorância, quem conhece a verdade.
Executa sem hesitação
o ritual imposto pela biologia.
E depois morrerá. Sem epitáfios, como este,
que desaparecerão num esgar de indiferença
entre as chamas da última noite da terra,
quando nada mais fará sentido,
se é que algo já fez sentido alguma vez.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado no blog originalmente em 16/05/2018

Roger Wolfe – La última noche de la tierra

El mirlo de todos los años ha vuelto a visitar mi casa
y todavía sigo aquí.
Su música no cambia y eso ya lo he escrito.
Pero mi trabajo es constatar lo obvio
y eso es lo que el mirlo me viene a recordar.
El tiempo pasa, la gente se hace vieja, se muere,
por su propia mano o con ayuda.
Las palabras van bajando por el desagüe
de lo que alguien ha llamado la intrahistoria.
Todo fluye y se pierde, los ríos en el mar,
el mar en la inmensidad inabarcable del cosmos,
el cosmos en la nada de la que no debió salir.
Mientras tanto tecleamos.
Un sordo tamborileo contra siglos de muerte programada
y un futuro de certera incertidumbre.
Un batallón de patéticos amanuenses del olvido
exigiendo dos camisas para el camino hacia el patíbulo.
Pero no es el frío el problema, sino el miedo.
Y es el mirlo, en su ignorancia, el que sabe la verdad.
Cumple sin la más mínima estridencia
el ritual que le ha impuesto la biología.
Luego morirá. Sin epitafios, como éste,
que se deshagan con una mueca indiferente
entre las llamas de la última noche de la Tierra,
cuando nadie entienda ya ningún significado,
si es que algo tuvo sentido alguna vez.

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