Jane Hirshfield – Hoje, outro universo

O arborista determinou:
senescência         pragas        cancro
acelerado pela seca
|                                    mas, em qualquer caso,
não podável       não tratável       não passível de escoras.

E assim.

O ramo de onde gritam o gavião-miúdo e sua companheira.

O tronco onde a formiga.

O playground de vinte e cinco metros dos esquilos vermelhos.

A casca    as camadas    a seiva-do-pinheiro    o aglomerado de formigueiros.

Os padrões japoneses        a teia-tatuada.

As manchas de determinados peixes.

Hoje, para alguns, um universo desaparecerá.
Primeiro, ruidosamente,
depois, apenas mais um silêncio.

O silêncio do depois, de quando o teatro se esvazia.

Da perplexidade após a Era Glacial,
a espécie, a estrela.

Outra coisa, na escala das coisas velozes,
irá substituí-la,

este vazio de luz na luz, os pássaros confusos desviando-se dele.

Trad.: Nelson Santander

 

Today, another universe

The arborist has determined:
senescence         beetles        canker
quickened by drought
|                                    but in any case
not prunable       not treatable       not to be propped.

And so.

The branch from which the sharp-shinned hawks and their mate-cries.

The trunk where the ant.

The red squirrels’ eighty-foot playground.

The bark    cambium    pine-sap    cluster of needles.

The Japanese patterns        the ink-net.

The dapple on certain fish.

Today, for some, a universe will vanish.
First noisily,
then just another silence.

The silence of after, once the theater has emptied.

Of bewilderment after the glacier,
the species, the star.

Something else, in the scale of quickening things,
will replace it,

this hole of light in the light, the puzzled birds swerving around it.

Galway Kinnell – Aquela noite silenciosa

Eu voltarei àquela noite silenciosa
em que nos deitamos juntos e conversamos em vozes baixas, silenciosas,
enquanto do lado de fora caíam lentos fragmentos de neve
suave, silenciando ao se aproximar do solo,
com um incêndio no quarto, onde séculos
de árvores evolaram-se em contínuas almas-ausentando-se,
sem um estalido, até a luz da manhã.
Só dormimos quando o que se apressava mais lento se tornou.
Quando chegamos em casa, nos viramos e olhamos para trás,
para nossos entrelaçados rastros fora da floresta,
onde os ramos em que roçamos deixavam cair
porções de neve cintilante, rapidamente, em silêncio,
como beijos roubados, e onde o tuim tuim tuim
entre as árvores, que é o som que morre
no interior das fagulhas da cunha quando a marreta
atinge-a fora do centro dizendo que tudo dentro
dela é lume, pulou para um galho escuro, orgulhoso
mas sem braços e, por isso, para os nossos olhos solitários,
e ainda assim – como poderíamos sabe-lo? – feliz!
na forma de um chapim. Deitados ainda na neve,
nenhuma vontade férrea, como trilhos de ferrovia dispostos
a não se encontrar até o céu, mas aqui e ali
fazendo paradas para molhados beijos no campo,
nossas rastros agitam na neve seu longo rabisco.
Tudo o que aqui acontece é realmente pouco mais,
se assim for, do que um rabisco, igualmente. As palavras, em nossas bocas,
estão quase prontas, já, para envolver aquele
a quem os tuim tuim tuim, que significam se como quando
podemos perder um ao outro, riscam riscam riscam
de um momento para o outro. Então eu voltarei
àquela noite silenciosa, em que o passado simplesmente logrou
sobrepor-se ao futuro, ainda que apenas por um triz,
e em que a luz redobra e reluz
na escuridão a cintilação que elevou aos céus a terra.

Trad.: Nelson Santander

That Silent Evening

I will go back to that silent evening
when we lay together and talked in low, silent voices,
while outside slow lumps of soft snow
fell, hushing as they got near the ground,
with a fire in the room, in which centuries
of tree went up in continuous ghost-giving-up,
without a crackle, into morning light.
Not until what hastens went slower did we sleep.
When we got home we turned and looked back
at our tracks twining out of the woods,
where the branches we brushed against let fall
puffs of sparkling snow, quickly, in silence,
like stolen kisses, and where the scritch scritch scritch
among the trees, which is the sound that dies
inside the sparks from the wedge when the sledge
hits it off center telling everything inside
it is fire, jumped to a black branch, puffed up
but without arms and so to our eyes lonesome,
and yet also – how could we know this? – happy!
in shape of chickadee. Lying still in snow,
not iron-willed, like railroad tracks, willing
not to meet until heaven, but here and there
making slubby kissing stops in the field,
our tracks wobble across the snow their long scratch.
Everything that happens here is really little more,
if even that, than a scratch, too. Words, in our mouths,
are almost ready, already, to bandage the one
whom the scritch scritch scritch, meaning if how when
we might lose each other, scratches scratches scratches
from this moment to that. Then I will go back
to that silent evening, when the past just managed
to overlap the future, if only by a trace,
and the light doubles and shines
through the dark the sparkling that heavens the earth.

Barbara Crooker – No meio

de uma vida que é tão complicada quanto a de todo mundo,
batalhando por equilíbrio, equilibrando o tempo.
O relógio de lareira que foi do meu avô
parou às 9:20; não tivemos tempo
de conserta-lo. O pêndulo de bronze está imóvel,
os sinos não soam. Um dia eu olho pela janela,
verde verão, no outro, as folhas já caíram
e um céu cinza baixa no horizonte. Nossos filhos quase crescidos,
nossos pais se foram, aconteceu tão rápido. Diariamente, devemos aprender
novamente como amar, entre o célere café da manhã
e o demorado regresso da noite. Sobe o vapor de uma panela de sopa,
mesclando-se ao cheiro fermentado de pão de forno. Nossos corpos
se enroscam, e o grande cão preto pressiona sua grande cabeça entre eles;
sua cauda, um metrônomo, compasso ternário. Nós nunca chegaremos lá,
o Tempo está sempre à nossa frente, correndo pela praia, impelindo-
nos a ir mais rápido, mais rápido, mas, às vezes, despimo-nos de nossos relógios,
às vezes deitamos na rede, aprisionados entre a malha
de corda e a rede de estrelas, suspensos, enredados
no amor, esgotando o tempo.

Trad.: Nelson Santander

In the Middle

of a life that’s as complicated as everyone else’s,
struggling for balance, juggling time.
The mantle clock that was my grandfather’s
has stopped at 9:20; we haven’t had time
to get it repaired. The brass pendulum is still,
the chimes don’t ring. One day I look out the window,
green summer, the next, the leaves have already fallen,
and a grey sky lowers the horizon. Our children almost grown,
our parents gone, it happened so fast. Each day, we must learn
again how to love, between morning’s quick coffee
and evening’s slow return. Steam from a pot of soup rises,
mixing with the yeasty smell of baking bread. Our bodies
twine, and the big black dog pushes his great head between;
his tail, a metronome, 3/4 time. We’ll never get there,
Time is always ahead of us, running down the beach, urging
us on faster, faster, but sometimes we take off our watches,
sometimes we lie in the hammock, caught between the mesh
of rope and the net of stars, suspended, tangled up
in love, running out of time.

Juan Vicente Piqueras – O testemunho do gajeiro

Para falar a verdade, 
pareceu-me outro gesto de presunção,
muito dele,
aquela urgência com que nos pediu
que o amarrássemos ao mastro
para escapar do canto das sereias.

As sereias estavam cantando, isso é verdade,
mas não exatamente para seduzi-lo.

E por que não a qualquer um de nós?
Por que elas deveriam tentar seduzir alguém?
Quem pode garantir que não estavam simplesmente cantando?
Ou que guardavam silêncio e cada um ouvia
seu próprio canto de sereia interior?

Era ele quem lutava contra sua vocação de perdedor.
Era ele quem acreditava que as sereias o amavam.
Era ele quem, sob qualquer pretexto,
nos colocava sob suas ordens.
Era ele quem não sabia mais o que inventar
para atrasar nosso retorno a Ítaca.

Eu queria regressar à minha pátria, abraçar minha esposa,
cuidar dos meus pais, já idosos,
ver meus filhos crescerem.

Ele determinou e nós o amarramos.
Se dependesse de mim, o teríamos abandonado em alto mar,
seguido para Ítaca e ali ele teria ficado,
atado ao mastro, sozinho, novamente à deriva.

E teria morrido assim, atado à sua insensatez,
enquanto as sereias continuavam, continuarão,
cantando para ninguém, como sempre.

Trad.: Nelson Santander

Testimonio del gaviero

Si he de decir la verdad, 
me pareció otro gesto de presunción,
muy suyo,
aquella urgencia con que nos pidió
que lo atásemos al mástil
para escapar al canto de las sirenas.

Las sirenas cantaban, eso es cierto,
pero no precisamente para seducirlo a él.

¿Y por qué no a cualquiera de nosotros?
¿Por qué tendrían que pretender seducir a alguien?
¿Quién puede asegurar que no cantaban simplemente?
¿O que guardaban silencio y cada uno oía
su propio canto de sirenas dentro?

Era él quien luchaba contra su vocación de perdidizo.
Era él quien creía que las sirenas lo amaban.
Era él quien, con cualquier pretexto,
nos ponía a sus órdenes.
Era él quien no sabía qué inventarse
con tal de demorar nuestro regreso a Ítaca.

Yo quería volver a mi patria, abrazar a mi esposa,
cuidar de mis padres ya ancianos,
ver crecer a mis hijos.

Nos lo ordenó y lo atamos.
Si hubiera sido por mí lo habríamos dejado en alta mar,
hubiésemos puesto rumbo a Ítaca y allí se habría quedado,
atado al mástil, solo, de nuevo a la deriva.

Y habría muerto así, atado a su extravío,
mientras que las sirenas seguían, seguirán,
cantando para nadie, como siempre.

Denver Butson – Meu irmão

Para escapar das dores de cabeça e aos medos de uma esposa infiel
meu irmão em perpétua reabilitação usuário de drogas
maquinista encrenqueiro preso aos 14 por incêndio premeditado
e encarcerado por algumas semanas
pai de um filho e de um feto abortado
jogador de boliche ocasional e fã de heavy metal
apreciador de ketchup batata chips stromboli
e cheesesteak usuário de jeans desbotados
camisas de flanela desbotadas camisetas de bolso
tênis de cano alto desamarrados ou botas de trabalho
camisetas de bandas bonés de pintor e
casaco militar sofredor de solidão
de paranoia e medo insone e falador
de outra língua durante o sono
especialista em arrotos e atirador experiente, inveterado mas péssimo mentiroso
bebedor moderado de cerveja barata violento impulsivo
demolidor de lâmpadas elétricas ventiladores telefones
mulherengo de olhos azuis pai irmão e filho
tímido mulherengo ruborizado mulherengo magricela de
olhos azuis meteu a extremidade final de uma Magnum .357
em sua narina direita com a outra extremidade
em suas mãos calejadas e sujas
e soprou suas dores de cabeça e sua cabeça
deste mundo para o outro
em uma noite como esta.

Trad.: Nelson Santander

My Brother

To escape headaches and fears of an unfaithful wife
my brother perpetually reforming drug user
machinist scrapper arrested at 14 for arson
and incarcerated for a few weeks
father of one son and one aborted fetus
occasional bowler heavy metal fan
connoisseur of ketchup potato chips stromboli
and cheesesteak wearer of faded jeans
faded flannel shirts pocket-tee shirts
unlaced hightops or workboots
concert tee shirts painters’ hats and
army coat sufferer of aloneness
of paranoia and fear insomniac and talker
of another language in his sleep
expert belcher and marksman constant but lousy liar
moderate drinker of cheap beer violent rampager
demolisher of lamps electric fans telephones
blue-eyed ladies’ man father brother and son
shy blushing ladies’ man skinny-legged blue-eyed
ladies’ man stuck the open end of a .357 Magnum
in his right nostril with the other end
in his calloused and stained hands
and blew his headaches and his head
from this world into the next
one night just like that.

Ursula K. Le Guin – Como me parece

No vasto abismo antes do tempo, o eu
não existe, e a alma se mistura
com a névoa, a rocha e a luz. No tempo certo,
a alma atrai o nebuloso eu para o ser.
Então, lentamente, o tempo petrifica o eu
enquanto ilumina a alma,
até que a alma perde o controle do eu
e ambos se libertam e podem retornar
à vastidão e dissolver-se em luz,
a duradoura luz depois do tempo.

Trad.: Nelson Santander

How it seems to me

In the vast abyss before time, self
is not, and soul commingles
with mist, and rock, and light. In time,
soul brings the misty self to be.
Then slow time hardens self to stone
while ever lightening the soul,
till soul can loose its hold of self
and both are free and can return
to vastness and dissolve in light,
the long light after time.

Mary Oliver – O véu

Há momentos em que o véu parece
quase se levantar, e compreendemos o que
a terra significa para nós — as
árvores em sua docilidade, as colinas em
sua paciência, as flores e as
videiras em sua selvagem, doce vitalidade.
A Palavra, então, está em nós, e o
Livro, posto de lado.

Trad.: Nelson Santander

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The veil

There are moments when the veil seems 
almost to lift, and we understand what
the earth is meant to mean to us—the
trees in their docility, the hills in
their patience, the flowers and the
vines in their wild, sweet vitality.
Then the Word is within us, and the
Book is put away.

Solmaz Sharif – Treinamento de habilidades sociais

Estudos sugerem que Como posso ajuda-lo, policial? é a coisa mais desarmante a dizer, e não Qual é o problema? Estudos sugerem que a melhor resposta a um pedido de ajuda é Com prazer e não Sem problema. Estudos sugerem que é melhor não mencionar problema diante do poder, mesmo para dizer que não há nenhum. Gloria Steinem diz que as mulheres perdem poder à medida que envelhecem e, no entanto, a voz mais alta na minha cabeça é a da minha mãe. Estudos mostram que a mãe que temos em mente não é a mãe existente. A minha diz: Por que diabos você está chorando? Estudos mostram que o macaquinho escolhe a falsa macaca de pelo falso em vez da macaca de arame sem pelo com leite, incontestavelmente. Estudos mostram que negar algo é pensar nisto da mesma forma. Eu não estou triste. Eu não estou triste. Estudos recomendam regulares manifestações de gratidão e check-ins interiores. Basta, diz a mãe de arame. A história é uma espécie de investigação. A história diz que nós perdoamos o carrasco. Antes de limparmos o sangue, perguntamos: Senhor Juiz, eu o executei corretamente? Estudos sugerem que sim. Por que diabos você está chorando, policial? a mãe de arame me ensina a dizer, enquanto os estudos sugerem Solmaz, você já agradeceu o seu carrasco hoje?

Trad.: Nelson Santander

 

Social skills training

Studies suggest How may I help you officer? is the single most disarming thing to say and not What’s the problem? Studies suggest it’s best the help reply My pleasure and not No problem. Studies suggest it’s best not to mention problem in front of power even to say there is none. Gloria Steinem says women lose power as they age and yet the loudest voice in my head is my mother. Studies show the mother we have in mind isn’t the mother that exists. Mine says: What the fuck are you crying for? Studies show the baby monkey will pick the fake monkey with fake fur over the furless wire monkey with milk, without contest. Studies show to negate something is to think it anyway. I’m not sad. I’m not sad. Studies recommend regular expressions of gratitude and internal check-ins. Enough, the wire mother says. History is a kind of study. History says we forgave the executioner. Before we mopped the blood we asked: Lord Judge, have I executed well? Studies suggest yes. What the fuck are you crying for, officer? the wire mother teaches me to say, while studies suggest Solmaz, have you thanked your executioner today?  

Louise Glück – Santas

Em nossa família, havia duas santas,
minha tia e minha avó.
Mas suas vidas foram diferentes.

Minha avó era tranquila, mesmo no final.
Ela parecia uma pessoa caminhando em águas calmas;
por alguma razão
o mar não conseguiu feri-la.
Quando minha tia enveredou pelo mesmo caminho,
as ondas quebraram sobre ela, atacaram-na,
que é como as Fiandeiras do Destino respondem
a uma verdadeira natureza espiritual.

Minha avó era cautelosa, conservadora:
por isso escapou do sofrimento.
Minha tia não escapou de nada;
cada vez que o mar recua, alguém a quem ela ama é levado embora.

Ainda assim, ela não vivenciará
o mar como um mal. Para ela, ele é o que é:
onde toca a terra, ele tem que recorrer à violência.

Trad.: Nelson Santander

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Saints

In our family, there were two saints,
my aunt and my grandmother.
But their lives were different.

My grandmother’s was tranquil, even at the end.
She was like a person walking in calm water;
for some reason
the sea couldn’t bring itself to hurt her.
When my aunt took the same path,
the waves broke over her, they attacked her,
which is how the Fates respond
to a true spiritual nature.

My grandmother was cautious, conservative:
that’s why she escaped suffering.
My aunt’s escaped nothing;
each time the sea retreats, someone she loves is taken away.

Still she won’t experience
the sea as evil. To her, it is what it is:
where it touches land, it must turn to violence.

Mary Oliver – Canção dos construtores

Em uma manhã de verão
sentei-me
em uma encosta
para pensar em Deus—

um nobre passatempo.
Perto de mim, vi
um grilo solitário;
estava movendo os grãos da encosta

de um lado para o outro.
Quão grande era sua energia,
quão humilde o seu esforço.
Esperemos que

seja sempre assim,
cada um de nós avançando
por nossos inexplicáveis caminhos
construindo o universo.

Trad.: Nelson Santander

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Song of the Builders

On a summer morning
I sat down
on a hillside
to think about God—

a worthy pastime.
Near me, I saw
a single cricket;
it was moving the grains of the hillside

this way and that way.
How great was its energy,
how humble its effort.
Let us hope

it will always be like this,
each of us going on
in our inexplicable ways
building the universe.