Galway Kinnell – Aquela noite silenciosa

Eu voltarei àquela noite silenciosa
em que nos deitamos juntos e conversamos em vozes baixas, silenciosas,
enquanto do lado de fora caíam lentos fragmentos de neve
suave, silenciando ao se aproximar do solo,
com um incêndio no quarto, onde séculos
de árvores evolaram-se em contínuas almas-ausentando-se,
sem um estalido, até a luz da manhã.
Só dormimos quando o que se apressava mais lento se tornou.
Quando chegamos em casa, nos viramos e olhamos para trás,
para nossos entrelaçados rastros fora da floresta,
onde os ramos em que roçamos deixavam cair
porções de neve cintilante, rapidamente, em silêncio,
como beijos roubados, e onde o tuim tuim tuim
entre as árvores, que é o som que morre
no interior das fagulhas da cunha quando a marreta
atinge-a fora do centro dizendo que tudo dentro
dela é lume, pulou para um galho escuro, orgulhoso
mas sem braços e, por isso, para os nossos olhos solitários,
e ainda assim – como poderíamos sabe-lo? – feliz!
na forma de um chapim. Deitados ainda na neve,
nenhuma vontade férrea, como trilhos de ferrovia dispostos
a não se encontrar até o céu, mas aqui e ali
fazendo paradas para molhados beijos no campo,
nossas rastros agitam na neve seu longo rabisco.
Tudo o que aqui acontece é realmente pouco mais,
se assim for, do que um rabisco, igualmente. As palavras, em nossas bocas,
estão quase prontas, já, para envolver aquele
a quem os tuim tuim tuim, que significam se como quando
podemos perder um ao outro, riscam riscam riscam
de um momento para o outro. Então eu voltarei
àquela noite silenciosa, em que o passado simplesmente logrou
sobrepor-se ao futuro, ainda que apenas por um triz,
e em que a luz redobra e reluz
na escuridão a cintilação que elevou aos céus a terra.

Trad.: Nelson Santander

That Silent Evening

I will go back to that silent evening
when we lay together and talked in low, silent voices,
while outside slow lumps of soft snow
fell, hushing as they got near the ground,
with a fire in the room, in which centuries
of tree went up in continuous ghost-giving-up,
without a crackle, into morning light.
Not until what hastens went slower did we sleep.
When we got home we turned and looked back
at our tracks twining out of the woods,
where the branches we brushed against let fall
puffs of sparkling snow, quickly, in silence,
like stolen kisses, and where the scritch scritch scritch
among the trees, which is the sound that dies
inside the sparks from the wedge when the sledge
hits it off center telling everything inside
it is fire, jumped to a black branch, puffed up
but without arms and so to our eyes lonesome,
and yet also – how could we know this? – happy!
in shape of chickadee. Lying still in snow,
not iron-willed, like railroad tracks, willing
not to meet until heaven, but here and there
making slubby kissing stops in the field,
our tracks wobble across the snow their long scratch.
Everything that happens here is really little more,
if even that, than a scratch, too. Words, in our mouths,
are almost ready, already, to bandage the one
whom the scritch scritch scritch, meaning if how when
we might lose each other, scratches scratches scratches
from this moment to that. Then I will go back
to that silent evening, when the past just managed
to overlap the future, if only by a trace,
and the light doubles and shines
through the dark the sparkling that heavens the earth.

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