Dan Gerber – Cinema Paradiso

No final de novembro
palavras apareceram na ponta da minha caneta
como a resposta a uma pergunta que
eu ainda não havia feito.
Uma tornou-se um condor; outra,
uma nuvem,
enquanto uma terceira palavra, espinhosidade,
ganhou vida no sonho de um cardo.
O que é mais real,
a neve ou a bola de neve,
a palavra ou as letras que a
compõe?
Eu empacotei a neve, uma galáxia de minúsculas
estrelas brancas entre as palmas das mãos.
É assim que surge um buraco negro?
Não, um buraco negro é um eixo
repleto de luz.
Com o tempo,
que nem vem nem vai,
o próprio universo pode
se tornar um buraco negro;
nesse caso ainda estaremos todos juntos,
na escuridão,
esperando o início do espetáculo.

Trad.: Nelson Santander
Cinema Paradiso

On a morning in November
words appeared at the end of my pen
like the answer to a question
I hadn’t yet asked.
One became a condor, another
a cloud,
while a third word, spinosity,
came to life in the dream of a thistle.
Which is more real,
the snow or the snowball,
the word or the letters of which
it’s composed?
I packed the snow, a galaxy of tiny
white stars between my palms.
Is this how a black hole begins?
No, a black hole is an axis
chock-full of light.
In time,
which neither comes nor goes on,
the universe itself may
become a black hole,
in which case we’ll all still be together,
in the dark,
waiting for the show to begin.

Billy Collins – O desfile

Que emocionante foi marchar
ao longo das grandes avenidas
debaixo do clarão das trombetas
e sob todas as bandeiras tremulantes —
a bandeira da ambição, a bandeira do amor.

Tantos de nós fluindo ao longo do caminho —
toda a humanidade, na verdade —
movendo-se em perfeita sintonia,
mas cada qual perdido no quarto de um sonho particular.

Como é estimulante a paisagem do mundo,
as fileiras de árvores à beira da estrada,
a enorme cortina do céu.

Quão interminável parecia até que nos desviássemos
da grande estrada
para um pasto de grama alta,
em direção aos vertiginosos penhascos da mortalidade.

Geração após geração,
continuamos avançando
até pularmos da borda para o espaço.

E eu não deveria ter que lembra-lo
de que neste lugar pouco tempo é dado
para descansar em um banco à beira do caminho,
para parar e curvar-se para as flores silvestres,
ou para estudar um pássaro em um galho —

não quando os jovens
estão sempre nos empurrando por trás,
não quando os velhos continuam nos puxando para frente,
puxando nossos braços com toda sua débil força.

Trad.: Nelson Santander

The Parade

How exhilarating it was to march
along the great boulevards
in the sunflash of trumpets
and under all the waving flags—
the flag of ambition, the flag of love.

So many of us streaming along—
all of humanity, really—
moving in perfect step,
yet each lost in the room of a private dream.

How stimulating the scenery of the world,
the rows of roadside trees,
the huge curtain of the sky.

How endless it seemed until we veered
off the broad turnpike
into a pasture of high grass,
headed toward the dizzying cliffs of mortality.

Generation after generation,
we keep shouldering forward
until we step off the lip into space.

And I should not have to remind you
that little time is given here
to rest on a wayside bench,
to stop and bend to the wildflowers,
or to study a bird on a branch—

not when the young
are always shoving from behind,
not when the old keep tugging us forward,
pulling on our arms with all their feeble strength.

Carolyn Creedon – Mulher, minada

Na seção de cosméticos da Lord & Taylor
eles a levarão para um lugar bem exposto,
claro como o dia, e a fotografarão com uma câmera ultravioleta,
mostrando-lhe o que você fez com sua pele apenas
por viver, seu rosto subitamente exposto, como aquilo que
realmente está acontecendo sob uma tora levantada, a verdadeira você
que você é, capturada e fixada como uma mariposa,
como uma ladra, como uma mulher sobre uma mesa

e a senhora no impecável jaleco branco sacudirá
habilmente o instantâneo na sua frente, disposto
como um mapa de países conquistados, codificado por cores,
os lugares roxos e marrons que você abandonou
sem cuidados aos vinte e poucos anos, para as noitadas e
espreguiçadeiras e homens junto a piscinas, todos os homens
que você tocou, aqueles que a marcaram, cujos sinais
você carrega, e agora você pode ver a arqueologia
das lágrimas, seus rastros de ácido branco, e a senhora
dirá, severamente, Veja o que você fez

e você verá o estrago que fez, e você
verá as vezes em que foi descuidadamente para a cama
com alguém sem o hidratante adequado, quando você
amamentou aquele homem como a um bebê, e quando você se movia
com outro como uma menina sobre uma cadeira de balanço até cair
e perde-lo, e quando finalmente escolheu um outro, como a melhor de todas as
flores, e o manteve, chorou com ele, fez-lhe sanduíches,
fez-lhe um bebê, e você envergará o seu rosto
com seu âmbar merecido, sua ametista, seu entalhe
de diamante lanhado, e dirá: Eu sou lapidada assim.

Trad.: Nelson Santander

Woman, Mined

In the cosmetics department of Lord & Taylor
they’ll take you right there, right out in the open,
plain as day, and snap you with an ultraviolet camera,
show you what you’ve done to your skin just
by living, your face exposed suddenly like what’s
really going on under a lifted-up log, the real you
you are, caught and pinned like a moth,
like a shoplifter, like a woman on a table

and the lady in the crisp white smock will expertly
flick the snapshot in front of you, laid out
like a color-coded map of conquered countries,
the purples and browns places you gave up
without a care in your twenties, to late nights
and poolside deck chairs and men, all the men
you touched, the ones who marked you, whose traces
you bear, and now you can see the archaeology
of tears, their white-acid trails, and the lady
will say, sternly, Look what you did

and you will see the mess of it you made, and you
will see the times when you carelessly went to bed
with someone without the proper moisturizer, when you
suckled that man like a baby, and when you moved
with another like a girl on a rocker until you fell off
and lost him, and finally picked another, like the best-of-all
flower, and kept him, cried on him, made him sandwiches,
made him a baby, and you’ll wear your face
with its amber earned, its amethyst, its intaglio tear-
etched diamond, and say, I am cut that way.

Ellen Bass – Pinheiros de Ponary

Pinheiros de Ponary

Cem mil pessoas foram assassinadas pelos nazistas em Ponary, dez quilômetros a sudoeste de Vilnius, onde minha avó nasceu.

Hoje está cinzento, garoa,
mas não o suficiente para que as gotas se acumulem
nas pontas das agulhas de prata
ou para encharcar as cascas dos pinheiros de Ponary –
alguns deles com mais de um século.
Eles estavam aqui quando
os trens circulavam sobre os trilhos
dormentes. E antes de adentrar
três metros na floresta, eu ouço o som.
Claro. Tinha que existir um trem.
Mas eu não esperava que ainda funcionasse
assim, as pessoas
entrando e saindo com seus pacotes.
Eu não havia pensado no cheiro de resina se espalhando na tarde fria. As árvores
avançam até a borda
dos fossos onde os judeus eram abatidos
de forma que seus corpos caíssem
com eficiência. Seus ramos não puderam salvar
ninguém. Suas agulhas ofereceram oxigênio
às vítimas e aos verdugos, da mesma forma.

Trad.: Nelson Santander

Pines at Ponary

One hundred thousand people were murdered by the Nazis at Ponary, ten kilometers southwest of Vilnius, where my grandmother was born.

Today is gray, drizzling,
but not enough for drops to pool
on the tips of the silver needles
or soak the bark of the pines at Ponary –
some of them more than a century old.
They were here when
the trains wheeled on numb
rails. And before I have gone
ten feet into the forest, I hear the sound.
Of course. There would have to be a train.
But I hadn’t expected it still to run
like this, people
getting off and on with their packages.
I hadn’t thought of the scent of resin spilling into the cold afternoon. The trees
step to the rim
of the pits where Jews were shot
so the bodies fell in
efficiently. Their branches could save
no one. Their needles offered oxygen
to victims and executioners, the same.

Anne Sexton – Para um amigo que alcançou o sucesso no trabalho

Considere Ícaro, colando aquelas asas viscosas,
experimentando aquele estranho puxão em suas omoplatas,
e pense naquele primeiro impecável momento sobre o gramado
do labirinto. Pense em como isso fez diferença!
Lá embaixo encontram-se as árvores, tão desajeitadas quanto os camelos;
e aqui, os estupefatos estorninhos que passam
e pensam que o inocente Ícaro está indo muito bem:
maior do que uma vela mestra, sobre a névoa e as explosões
do aveludado oceano, ele vai. Admire suas asas!
Sinta o fogo em sua nuca e observe como ele casualmente
olha para cima e é capturado e maravilhosamente perfurado
por aquele olho escaldante. Quem se importa que ele caiu no mar?
Veja-o aclamando o sol e mergulhando
enquanto seu sensato pai vai direto para a cidade.

Trad.: Nelson Santander

To a Friend Whose Work Has Come to Triumph

Consider Icarus, pasting those sticky wings on,
testing that strange little tug at his shoulder blade,
and think of that first flawless moment over the lawn
of the labyrinth. Think of the difference it made!
There below are the trees, as awkward as camels;
and here are the shocked starlings pumping past
and think of innocent Icarus who is doing quite well:
larger than a sail, over the fog and the blast
of the plushy ocean, he goes. Admire his wings!
Feel the fire at his neck and see how casually
he glances up and is caught, wondrously tunneling
into that hot eye. Who cares that he fell back to the sea?
See him acclaiming the sun and come plunging down
while his sensible daddy goes straight into town.

Miller Williams – Um poema para Emily

Fatos e dedos pequenos e o mais distante de minha vez
na terra, a um palmo e duas gerações de mim afastada,
neste ainda presente eu tenho cinquenta e três.
Você, nem vinte e quatro horas completadas.

Quando eu tiver sessenta e três, e você, dez completos,
e você não estiver nem longe nem perto de mim
seus braços se encherão de saberes, de afetos,
e da aritmética que fazemos e somos, enfim.

Quando, por sangue e sorte, eu tiver mais de oitenta
e você trinta e três e em um outro abrigo
acreditando em sexo, política e água-benta
com filhos que não se parecem nada comigo,

sei que, em alguma momento, você irá ler
essas linhas para que eles saibam que já
os amo, e que amo a mãe deles. Filhos, o que
quer que seja é sempre ou nunca foi. Que há

alguns anos, um dia, observando-a um pouco, ao lado
de sua cama, rascunhei essas palavras, algo que pudesse
ser guardado por um tempo, para dizer-lhe o que eu teria falado
quando você se tornasse sabe-se lá o que e eu estivesse
morto, ou seja, ali fiquei, a amei e seu sono velei com cuidado.

Trad.: Nelson Santander

A poem for Emily

Small fact and fingers and farthest one from me,
a hand’s width and two generations away,
in this still present I am fifty-three.
You are not yet a full day.

When I am sixty-three, when you are ten,
and you are neither closer nor as far,
your arms will fill with what you know by then,
the arithmetic and love we do and are.

When I by blood and luck am eighty-six
and you are someplace else and thirty-three
believing in sex and God and politics
with children who look not at all like me,

sometime I know you will have read them this
so they will know I love them and say so
and love their mother. Child, whatever is
is always or never was. Long ago

a day I watched awhile beside your bed,
I wrote this down, a thing that might be kept
awhile, to tell you what I would have said
when you were who knows what and I was dead
which is I stood and loved you while you slept.

Dan Gerber – Para Deneb


Tão impossivelmente distante,
dizem os eruditos astrônomos,
mais remota
do que qualquer outra Coisa que
eu já tenha visto,
calorosa companheira de uma noite de verão,
um quarto de milhão de vezes
a luz do nosso sol,
obliterando os quatrilhões
de milhas da escuridão à sua volta,
ainda assim tão familiar,
tão em casa com as estrelas do nosso bairro,
aqui na cauda do Cisne,
tão serena em seu ménage com a Águia
e a ainda resplandecente Lyra.

Trad.: Nelson Santander

To Deneb

So impossibly distant,
the learned astronomers tell me,
more remote
than any one Thing
I’ve ever seen,
fond companion of a summer night,
a quarter-million times
the light of our sun,
obliterating the darkness
quadrillions of miles around you,
yet so familiar,
so at home with our neighborhood stars,
here in the tail of the Swan,
so serene in your ménage with the Eagle
and the still-shining Lyre.

Joan Margarit – Ser velho

Entre as sombras dos galos
e dos cachorros dos pátios e currais
de Sanaüja, abre-se um buraco
que se enche de tempo perdido e chuva suja
enquanto as crianças caminham para a morte.
Ser velho é uma espécie de pós-guerra.
Sentados à mesa da cozinha,
limpando as lentilhas
ao anoitecer do braseiro,
vejo os que me amaram.
Tão pobres que no fim daquela guerra
tiveram que vender o miserável
vinhedo e aquele frio casarão.
Ser velho significa que a guerra acabou.
É saber onde estão os abrigos, hoje inúteis.

Trad.: Nelson Santander

Ser viejo

Entre las sombras de los gallos
y los perros de patios y corrales
de Sanaüja, se abre un agujero
que se llena con tiempo perdido y lluvia sucia
cuando los niños van hacia la muerte.
Ser viejo es una especie de posguerra.
Sentados a la mesa en la cocina,
limpiando las lentejas
en los anocheceres de brasero,
veo a los que me amaron.
Tan pobres que al final de aquella guerra
tuvieron que vender el miserable
viñedo y aquel frío caserón.
Ser viejo es que la guerra ha terminado.
Es saber dónde están los refugios, hoy inútiles.

Jane Hirshfield – Otimismo

Tenho admirado a resiliência cada vez mais.
Não a simples resistência de um travesseiro, cuja espuma
sempre volta ao mesmo formato, mas a sinuosa
tenacidade de uma árvore: ao encontrar a luz recém-bloqueada em um dos lados,
ela se volta para o outro. Uma inteligência cega, é verdade.
Mas de tal persistência surgiram tartarugas, rios,
mitocôndrias, figos — todo este resinoso e irrevogável planeta.

Trad.: Nelson Santander

Optimism

More and more I have come to admire resilience.
Not the simple resistance of a pillow, whose foam
returns over and over to the same shape, but the sinuous
tenacity of a tree: finding the light newly blocked on one side,
it turns in another. A blind intelligence, true.
But out of such persistence arose turtles, rivers,
mitochondria, figs — all this resinous, unretractable earth.

Moya Cannon – Mãos

Mãos

para Eamonn and Kathleen

Estava em algum lugar sobre a costa nordeste do Brasil,
sobre Fortaleza, uma cidade da qual nada sei,
exceto que é cheia de pessoas —
a vida de cada uma delas um mistério
maior do que a Amazônia —
foi lá, enquanto o avião de brinquedo no monitor de voo
sobrevoava a linha do equador
e se voltava para o leste, em direção a Marrakech,
que comecei a pensar novamente em mãos,
em como é estranho que nossas vidas –
a vida da garota francesa ruiva à minha esquerda,
a vida do rapaz argentino à minha direita,
minha vida, e as vidas de todos os passageiros adormecidos,
que estão sendo transportados velozmente pela escuridão
sobre o escuro Atlântico –
todas essas vidas estejam agora
nas mãos do piloto,
na consciência do piloto,
e a pensar em outras mãos que podem sustentar as nossas vidas,
as mãos do cirurgião
que encontrarei novamente quando voltar para casa,
as mãos da enfermeira de cabelos negros
que desenrolou o cordão umbilical do meu pescoço,
as mãos macias de minha mãe,
as mãos daqueles
que me amaram,
até parecer que a isso
se resume uma vida humana:
ser passada de mão em mão,
ser conduzida, de maneira improvável, sobre um oceano.

Trad.: Nelson Santander

Hands

for Eamonn and Kathleen

It was somewhere over the north-eastern coast of Brazil,
over Fortaleza, a city of which I know nothing,
except that it is full of people –
the life of each one a mystery
greater than the Amazon —
it was there, as the toy plane on the flight monitor
nudged over the equator
and veered east towards Marrakech,
that I started to think again of hands,
of how strange it is that our lives –
the life of the red-haired French girl to my left,
the life of the Argentinian boy to my right,
my life, and the lives of all the dozing passengers,
who are being carried fast in the dark
over the darkened Atlantic –
all of these lives are now being held
in the hands of the pilot,
in the consciousness of the pilot,
and I think of other hands which can hold our lives,
the hands of the surgeon
whom I will meet again when I return home,
the hands of the black-haired nurse
who unwound the birth-cord from my neck,
the soft hands of my mother,
the hands of those others
who have loved me,
until it seems almost
as though this is what a human life is:
to be passed from hand to hand,
to be borne up, improbably, over an ocean.