Moya Cannon – Mãos

Mãos

para Eamonn and Kathleen

Estava em algum lugar sobre a costa nordeste do Brasil,
sobre Fortaleza, uma cidade da qual nada sei,
exceto que é cheia de pessoas —
a vida de cada uma delas um mistério
maior do que a Amazônia —
foi lá, enquanto o avião de brinquedo no monitor de voo
sobrevoava a linha do equador
e se voltava para o leste, em direção a Marrakech,
que comecei a pensar novamente em mãos,
em como é estranho que nossas vidas –
a vida da garota francesa ruiva à minha esquerda,
a vida do rapaz argentino à minha direita,
minha vida, e as vidas de todos os passageiros adormecidos,
que estão sendo transportados velozmente pela escuridão
sobre o escuro Atlântico –
todas essas vidas estejam agora
nas mãos do piloto,
na consciência do piloto,
e a pensar em outras mãos que podem sustentar as nossas vidas,
as mãos do cirurgião
que encontrarei novamente quando voltar para casa,
as mãos da enfermeira de cabelos negros
que desenrolou o cordão umbilical do meu pescoço,
as mãos macias de minha mãe,
as mãos daqueles
que me amaram,
até parecer que a isso
se resume uma vida humana:
ser passada de mão em mão,
ser conduzida, de maneira improvável, sobre um oceano.

Trad.: Nelson Santander

Hands

for Eamonn and Kathleen

It was somewhere over the north-eastern coast of Brazil,
over Fortaleza, a city of which I know nothing,
except that it is full of people –
the life of each one a mystery
greater than the Amazon —
it was there, as the toy plane on the flight monitor
nudged over the equator
and veered east towards Marrakech,
that I started to think again of hands,
of how strange it is that our lives –
the life of the red-haired French girl to my left,
the life of the Argentinian boy to my right,
my life, and the lives of all the dozing passengers,
who are being carried fast in the dark
over the darkened Atlantic –
all of these lives are now being held
in the hands of the pilot,
in the consciousness of the pilot,
and I think of other hands which can hold our lives,
the hands of the surgeon
whom I will meet again when I return home,
the hands of the black-haired nurse
who unwound the birth-cord from my neck,
the soft hands of my mother,
the hands of those others
who have loved me,
until it seems almost
as though this is what a human life is:
to be passed from hand to hand,
to be borne up, improbably, over an ocean.

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