Steve Kowit – Algumas nuvens

Agora que desliguei o telefone,
ninguém poderá me encontrar –
Ao menos por esta tarde
eles terão que passar sem meus conselhos
e opiniões.
Agora ninguém mais vai ligar
& perguntar com uma voz vacilante
se eu ainda não ouvi que ela está morta,
a mulher que eu amei uma vez –
nada além de cinzas espalhadas por uma cidade
que já quase não existe mais.
Sim, obrigado, eu ouvi.
Tinha sido uma manhã muito agradável.
Isso por si só deveria ter-me alertado.
O sol iluminava as tangerinas
& fazia arder as poinsétias
como um punhado de velas.
Por uma tarde eles terão que me perdoar.
Estou ocupado vendo acontecer novamente coisas
que aconteceram há muito tempo.
enquanto me reclino na espreguiçadeira de Josephine
sob um céu de um azul inacreditável,
interrompido – se essa é a palavra para isso –
por algumas nuvens esvoaçantes
todas brancas & indescritivelmente adoráveis,
vagueando de um nada para outro.

Trad.: Nelson Santander

Some Clouds

Now that I’ve unplugged the phone,
no one can reach me –
At least for this one afternoon
they will have to get by without my advice
or opinion.
Now nobody else is going to call
& ask in a tentative voice
if I haven’t yet heard that she’s dead,
that woman I once loved –
nothing but ashes scattered over a city
that barely itself any longer exists.
Yes, thank you, I’ve heard.
It had been too lovely a morning.
That in itself should have warned me.
The sun lit up the tangerines
& the blazing poinsettias
like so many candles.
For one afternoon they will have to forgive me.
I am busy watching things happen again
that happened a long time ago.
as I lean back in Josephine’s lawnchair
under a sky of incredible blue,
broken – if that is the word for it –
by a few billowing clouds,
all white & unspeakably lovely,
drifting out of one nothingness into another.

Juan Vicente Piqueras – Wuang Shi, pirata aposentado, fala em sua festa de aniversário no hospital de Ching Pei para seus amigos e convidados imaginários

Wuang Shi, pirata aposentado, fala em sua festa de aniversário no hospital de Ching Pei para seus amigos e convidados imaginários

          para Rafa Rodríguez

Perdeu-se a honra.
Como se fosse o tempo,
a vida, o rumo ou a paciência
perdeu-se a honra. E aqui estamos.

Todos sabeis quem sou e não direi
meu nome nem minha linhagem,
pois isso vos ofenderia.

Nasci em uma praia de um mar morto
e passei minha vida
vendendo escravos e comprando amor.
Olhai-me bem, olhai-me e escutai-me em silêncio!
Olhai-me aqui e vamos! Evitai o pranto!
Odeio a compaixão. Amo o mar e a morte.
Odeio a compaixão como odeio o medo,
os museus marítimos, as lágrimas.

Cresci em um porto com a cor dos sonhos
entre o odor de viagens e de sangue dos traidores.
Minha escola foi a sede. E com o mar aprendi
uma brutal lição de transparência.

Mal sei ler
e meu único verso verdadeiro
é a linha infinita do horizonte.

A que devo essas caras?
Olhai as cicatrizes que há na minha?
Meus olhos estão tristes e nunca choraram
mas meu peito tem a força da tempestade.
Não me olheis assim como juízes piedosos!
Por que fingir tristeza? Odeio a compaixão.

Perdeu-se a honra. Como se perde tudo.

Se já não vendo escravos nem me vendem amor,
se hoje escuto meu nome e vejo um navio afundar,
se não sei por que vos falo nem se estais me ouvindo,
se o mar me despojou de tudo quanto me deu um dia,
e apenas sobrevivo e já pareço
uma estrela-do-mar que na baixa da maré
ficou na areia, sob o sol, rascunhando
sua agonia em estranhos rabiscos,
a quem importa, o que podeis fazer?

Hoje faço mais um ano. Nem lembro quantos.
Tenho uma idade estúpida, idônea para nada.
Não há motivos para júbilo. Tampouco para tristeza.
Perdoai o desconforto e as cinzas
destas palavras, desta velha voz.
Simplesmente bebamos, e em silêncio,
tentando esquecer que estamos mortos.

Obrigado pela visita, meus amigos.
Perdeu-se a honra. E nada mais.

Trad.: Nelson Santander

Wuang Shi, pirata retirado, habla en su fiesta de cumpleanos en el hospital de Ching Pei a sus amigos e invitados imaginarios
               
          a Rafa Rodríguez

Se ha perdido el honor.
Como si fuera el tiempo
o la vida o el rumbo o la paciencia
se ha perdido el honor. Allá nosotros.

Todos sabéis quién soy y no diré
mi nombre ni mi estirpe
pues sería ofenderos.

Yo nací en una playa de un mar muerto
y he pasado mi vida
vendiendo esclavos y comprando amor.
¡Miradme bien, miradme y esuchadme en silencio!
¡Miradme aquí y sí! ¡Evitad el llanto!
Odio la compasion. Amo el mar y la muerte.
Odio la compasión como odio el miedo,
los museos marítimos, las lágrimas.

Crecí en un puerto de color soñado
entre un olor a viajes y a sangre de traidores.
Mi escuela fue la sed. Y del mar aprendí
una brutal lección de transparencia.

Apenas sé leer
y mi único verso verdadero
es la linea sin fin del horizonte.

¿A qué debo esas caras?
¿Miráis las cicatrices de la mía?
Mis ojos están tristes y no han llorado nunca
pero mi pecho tiene talante de tormenta.
¡No me miréis así como jueces piadosos!
¿Por que fingir tristeza? Odio la compasión.

Se ha perdido el honor. Como se pierde todo.

Si ya no vendo esclavos ni me venden amor,
si hoy escucho mi nombre y veo un barco hundirse,
si no sé por qué os hablo ni si me estáis oyendo,
si el mar me ha despojado de cuanto me dio un día
y sólo sobrevivo y ya parezco
una estrella de mar que al bajar la marea
ha quedado en la arena, bajo el sol, dibujando
su agonía en extraños garabatos,
a quién le importa, qué podéis hacer.

Hoy cumplo un año más. Ni los recuerdo.
Tengo una edad estúpida, idónea para nada.
No hay motivos de júbilo. Tampoco de tristeza.
Perdonad la molestia y la ceniza
de estas palabras, de esta vieja voz.
Bebamos simplemente y en silencio,
intentando olvidar que estamos muertos.

Gracias por la visita, amigos míos.
Se ha perdido el honor. Y nada más.

Connie Wanek – Depois de nós

Depois de nós

     Não sei se estamos no início ou na fase final.

       Tomas Tranströmer

A chuva está caindo através do telhado.
E tudo o que prosperou debaixo do sol,
os livros que se abriram de manhã
e se fecharam à noite, e o dia inteiro
viraram suas páginas para a luz;

os esboços de barcos e de fortes antebraços
e rostos inteligentes, e de campos
e celeiros, e de uma bandeja de ovos,
e a haste prateada de uma flauta
repousando sobre o piano; todas as coisas

inventadas e imaginadas,
todas as coisas suspiradas e cantadas,
tudo foi silenciado pela chuva fria.

O céu está da cor das lápides.
A chuva tem gosto de sal e se eleva
nas ruas como uma maré ruinosa.
Falamos de milhões, de bilhões de anos.
Nós conversamos e conversamos.

Então uma gota de chuva caiu
dentro da boca do violão, e outra
em cima da cama desfeita. E depois de nós,
a chuva cessará ou continuará caindo,
até sobre si mesma.

Trad.: Nelson Santander

After Us

     I don’t know if we’re in the beginning or in the final stage.

       Tomas Tranströmer

Rain is falling through the roof.
And all that prospered under the sun,
the books that opened in the morning
and closed at night, and all day
turned their pages to the light;

the sketches of boats and strong forearms
and clever faces, and of fields
and barns, and of a bowl of eggs,
and lying across the piano
the silver stick of a flute; everything

invented and imagined,
everything whispered and sung,
all silenced by cold rain.

The sky is the color of gravestones.
The rain tastes like salt, and rises
in the streets like a ruinous tide.
We spoke of millions, of billions of years.
We talked and talked.

Then a drop of rain fell
into the sound hole of the guitar, another
onto the unmade bed. And after us,
the rain will cease or it will go on falling,
even upon itself.

Jane Kenyon – A tigela azul

Como primitivos, enterramos o gato
com seu prato. Com as mãos nuas
raspamos areia e cascalho
de volta para o buraco.
               Caíram com um silvo
e um baque ao lado dele,
em seu longo pelo vermelho, o branco pelame
entre seus dedos, e seu
longo, para não dizer aquilino, nariz.

Nós nos levantamos e nos afastamos um do outro.
Existem dores mais agudas do que esta.

Em silêncio o resto do dia, nós trabalhamos,
comemos, contemplamos, e dormimos. Choveu forte
a noite toda; agora clareou, e um tordo
gorjeia de um arbusto gotejante
como um vizinho que tem boas intenções
mas sempre diz a coisa errada.

Trad.: Nelson Santander

The Blue Bowl

Like primitives we buried the cat
with his bowl. Bare-handed
we scraped sand and gravel
back into the hole.
               They fell with a hiss
and thud on his side,
on his long red fur, the white feathers
between his toes, and his
long, not to say aquiline, nose.

We stood and brushed each other off.
There are sorrows keener than these.

Silent the rest of the day, we worked,
ate, stared, and slept. It stormed
all night; now it clears, and a robin
burbles from a dripping bush
like the neighbor who means well
but always says the wrong thing.

Forrest Hamer – Lição

Foi no verão de 63 ou 64,
e meu pai estava transportando nossa família
de Ft. Hood para a Carolina do Norte em nosso Buick 56.
Tínhamos ouvido falar dos ataques da Klan, e sabíamos que

no Mississippi estava mais perigoso do que o habitual.
A escuridão pendurava-se às arvores como musgo,
e sempre que a luz gemia contra os vidros
naquela noite, meu pai saía da estrada para dormir.

Ruídos
que normalmente me faziam acordar com medo de monstros
também mantinham meu pai desperto naquela noite,
e eu permanecia em silêncio observando-o ouvir, aprendendo
que ele nem sempre poderia ser capaz de nos proteger

de tudo e, além disso, das criaturas;
talvez nem mesmo da fúria que subitamente
percorreu meu corpo por sua viagem do Texas
para nos instalar em casa antes de partir

para um lugar sem lugar no mundo
que ele chamou de Viet Nam. Um menino precisa de um pai
com ele, eu fiquei pensando, fixado naquele ruído
da escuridão.

Trad.: Nelson Santander

Lesson

It was 1963 or 4, summer,
and my father was driving our family
from Ft. Hood to North Carolina in our 56 Buick.
We’d been hearing about Klan attacks, and we knew

Mississippi to be more dangerous than usual.
Dark lay hanging from the trees the way moss did,
and when it moaned light against the windows
that night, my father pulled off the road to sleep.

Noises
that usually woke me from rest afraid of monsters
kept my father awake that night, too,
and I lay in the quiet noticing him listen, learning
that he might not be able always to protect us

from everything and the creatures besides;
perhaps not even from the fury suddenly loud
through my body about his trip from Texas
to settle us home before he would go away

to a place no place in the world
he named Viet Nam. A boy needs a father
with him, I kept thinking, fixed against noise
from the dark.

Brian Turner – Quão brilhante é abril

E o ar, seco,
Como as espáduas de um búfalo-d’água.

Gafanhotos arranham a terra,
roçam as asas com pernas finas,
irrompendo à frente dos soldados
em voos rasantes em arco, as asas um borrão.

Os soldados já não percebem,
veem apenas os escombros das ruas,
corpos cobertos por lençóis, e o sol,
quão brilhante é, quão duro e plano e branco.

Serão necessários muitos pregos dos fabricantes de caixões
para bloquear essa luz, que reflete em tudo:
nos pés calejados dos mortos, em suas mãos ossudas,
em suas pálidas frontes – tão frias, tão brilhantes ao sol.

Trad.: Nelson Santander

How Bright It Is April

And the air dry
As the shoulders of a water buffalo.

Grasshoppers scratch at the dirt,
rub their wings with thin legs
flaring out in front of the soldiers
in low arcing flights, wings a blur.

The soldiers don’t notice anymore,
seeing only the wreckage of the streets,
bodies draped with sheets, and the sun,
how bright it is, how hard and flat and white.

It will take many nails from the coffinmakers
to shut out this light, which reflects off everything:
the calloused feet of the dead, their bony hands,
their pale foreheads so cold, brilliant in the sun.

David Ignatow – Para a minha filha

Quando eu morrer, escolhe uma estrela
e dá-lhe o meu nome
para que saibas que
não te abandonei
nem te esqueci.
Foste para mim uma estrela,
guiando-me pelo teu nascimento
e infância, minha mão
na tua mão.

Quando eu morrer,
escolhe uma estrela e dá-lhe
o meu nome para que eu possa brilhar
sobre ti, até que te juntes a mim
na escuridão e no silêncio
juntos.

Trad.: Nelson Santander

For My Daughter

When I die choose a star
and name it after me
that you may know
I have not abandoned
or forgotten you.
You were such a star to me,
following you through birth
and childhood, my hand
in your hand.

When I die
choose a star and name it
after me so that I may shine
down on you, until you join
me in darkness and silence
together.

Robinson Jeffers – Falcão ferido

Falcão Ferido

I

O pilar quebrado da asa se projeta da espádua coagulada,
A asa arrasta-se como um estandarte no fracasso,
Não mais para usar o céu, apenas para viver com fome
E dor por uns poucos dias: nem gato nem coiote
Abreviarão a semana de espera pela morte: há caça sem garras.
Ele permanece sob o carvalho e espera
Os pés capengas da salvação; à noite, lembra-se da liberdade
E voa em sonho – que a aurora arruína.
Ele é forte e a dor e a impotência são piores para os fortes.
Os cães vadios do dia vêm atormentá-lo
À distância; ninguém além da morte redentora humilhará aquela cabeça,
A prontidão intrépida, os olhos terríveis.
O Deus selvagem do mundo às vezes é clemente com os
Que pedem clemência – raramente com os arrogantes.
Vocês não O conhecem, povo comunal, ou já se esqueceram Dele;
Intemperante e feroz, o falcão se lembra;
Belos e selvagens, os falcões – e os moribundos – se lembram.

II

Não fosse a punição, eu preferiria matar um homem a um falcão; mas o grande cauda-vermelha
Nada mais tinha além da miséria impotente
De ossos estilhaçados para além da cura, a asa que se arrastava sob suas garras
Quando ele se movia.
Nós o alimentamos por seis semanas, eu lhe dei liberdade,
Ele vagueou sobre o promontório da colina e voltou ao entardecer, pedindo a morte,
Não como um mendigo – nos olhos ainda a velha
E implacável arrogância. Ao crepúsculo, dei-lhe a dádiva de chumbo almejada. O que caiu estava relaxado,
Macio como coruja, suaves penas femininas. Mas o que

Alçou voo: o ímpeto feroz: as garças-reais junto ao rio alagado gritaram de medo ao vê-lo erguer-se
Antes mesmo de estar completamente desembainhado da realidade.

Trad.: Nelson Santander

Hurt Hawks

I

The broken pillar of the wing jags from the clotted shoulder,
The wing trails like a banner in defeat,
No more to use the sky forever but live with famine
And pain a few days: cat nor coyote
Will shorten the week of waiting for death, there is game without talons.
He stands under the oak-bush and waits
The lame feet of salvation; at night he remembers freedom
And flies in a dream, the dawns ruin it.
He is strong and pain is worse to the strong, incapacity is worse.
The curs of the day come and torment him
At distance, no one but death the redeemer will humble that head,
The intrepid readiness, the terrible eyes.
The wild God of the world is sometimes merciful to those
That ask mercy, not often to the arrogant.
You do not know him, you communal people, or you have forgotten him;
Intemperate and savage, the hawk remembers him;
Beautiful and wild, the hawks, and men that are dying, remember him.

II

I’d sooner, except the penalties, kill a man than a hawk; but the great redtail
Had nothing left but unable misery
From the bones too shattered for mending, the wing that trailed under his talons when he moved.
We had fed him six weeks, I gave him freedom,
He wandered over the foreland hill and returned in the evening, asking for death,
Not like a beggar, still eyed with the old
Implacable arrogance. I gave him the lead gift in the twilight. What fell was relaxed,
Owl-downy, soft feminine feathers; but what
Soared: the fierce rush: the night-herons by the flooded river cried fear at its rising
Before it was quite unsheathed from reality.

Joan Margarit – A senha

Sozinho entre dois infernos
— o da liberdade e o da idade —,
já não consigo abrir nosso cofre.
A porta com seus dígitos giratórios
é a roleta na qual já não aposto.
Desde o primeiro suspiro conservei
a blindada clareza
daquela rosa.
Agora, nu em nosso quarto,
a janela aberta e a luz apagada,
ouço o rumor urbano da noite,
enquanto a leve brisa me acaricia.
Aquela garota e aquele garoto
permanecem tão perto, estão dentro de mim:
um cheiro familiar, uma canção,
podem fazê-los voltar, mas se tento lhes falar,
já desapareceram. Vivemos à mercê
do que ignorávamos sobre nós mesmos.
É como se, entre todos os direitos
que a vida pudesse ter,
houvesse um misterioso direito à ignorância.
O ninho metálico custodia nossos sonhos.
Estou chorando: a senha
era a data de tua morte.

Trad.: Nelson Santander

La combinación

Sola entre dos infiernos
—el de la libertad y el de la edad—,
ya no puedo abrir nuestra caja fuerte.
La puerta con sus cifras giratorias
es la ruleta en la que ya no apuesto.
Desde el primer suspiro conservé,
la acorazada claridad
de aquella rosa.
Ahora, desnuda en nuestro dormitorio,
con la ventana abierta y la luz apagada,
oigo el rumor urbano de la noche
mientras la leve brisa me acaricia.
Aquella chica y aquel chico
permanecen muy cerca, están dentro de mí:
un olor familiar, una canción,
pueden hacer que vuelvan, pero si quiero hablarles
ya han desaparecido. Vivimos a merced
de lo que de nosotros ignorábamos
Es como si entre todos los derechos
que tuviese la vida,
hubiera un misterioso derecho a no saber.
El metálico nido custodia nuestros sueños.
Estoy llorando: la combinación
era la fecha de tu muerte.

Mary Oliver – O dia de verão

Quem criou o mundo?
Quem fez o cisne e o urso-negro?
Quem fez o gafanhoto?
Digo, aquele gafanhoto –
aquele que saltou da grama,
aquele que agora come açúcar na minha mão,
aquele que move as mandíbulas para frente e para trás, não de cima para baixo –
aquele que olha ao redor com seus olhos enormes e complexos.
Agora ele ergue os pálidos antebraços e lava a cara com cuidado.
Agora ele abre as asas e levanta voo.
Eu não sei ao certo o que é uma oração.
Eu sei como prestar atenção, como me prostrar
no chão, ajoelhar-me na grama,
como ser ociosa e abençoada, como caminhar pelos campos,
que é o que tenho feito o dia todo.
Diga-me, o que mais eu deveria ter feito?
No fim, tudo não morre – e muito cedo?
Diga-me, o que você planeja fazer
Com sua única selvagem e preciosa vida?

Trad.: Nelson Santander

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The Summer Day

Who made the world?
Who made the swan, and the black bear?
Who made the grasshopper?
This grasshopper, I mean –
the one who has flung herself out of the grass,
the one who is eating sugar out of my hand,
who is moving her jaws back and forth instead of up and down –
who is gazing around with her enormous and complicated eyes.
Now she lifts her pale forearms and thoroughly washes her face.
Now she snaps her wings open, and floats away.
I don’t know exactly what a prayer is.
I do know how to pay attention, how to fall down
into the grass, how to kneel in the grass,
how to be idle and blessed, how to stroll through the fields
which is what I have been doing all day.
Tell me, what else should I have done?
Doesn’t everything die at last, and too soon?
Tell me, what is it you plan to do
With your one wild and precious life?