Lisel Mueller – Românticos

Românticos

Johannes Brahms e Clara Schumann

Os biógrafos modernos se preocupam
em “o quão longe” foi sua terna amizade.
Eles se perguntam o que exatamente significa
quando ele escreve que pensa nela constantemente,
seu anjo da guarda, amada amiga.
Os biógrafos modernos fazem a
rude e irrelevante indagação
de nossa era como se o evento
de dois corpos entrelaçados
estabelecesse a medida do amor,
esquecendo o quão suavemente Eros caminhava
no século dezenove, e como uma mão
estendida por muito tempo ou um olhar ancorado
nos olhos de alguém podia desalojar um coração,
e as nuances de expressões não conhecidas
por nossa linguagem igualitária
podiam fazer o redolente ar
tremer e brilhar com o calor
da possibilidade. Toda vez que eu ouço
os Interlúdios, tristes
e pródigos em sua ternura,
imagino os dois
sentados em um jardim
entre rosas tardias
e escuras cascatas de folhas,
deixando a paisagem falar por eles,
não nos deixando nada para ouvir.

Trad.: Nelson Santander

Romantics

Johannes Brahms and Clara Schumann

The modern biographers worry
“how far it went,” their tender friendship.
They wonder just what it means
when he writes he thinks of her constantly,
his guardian angel, beloved friend.
The modern biographers ask
the rude, irrelevant question
of our age, as if the event
of two bodies meshing together
establishes the degree of love,
forgetting how softly Eros walked
in the nineteenth-century, how a hand
held overlong or a gaze anchored
in someone’s eyes could unseat a heart,
and nuances of address not known
in our egalitarian language
could make the redolent air
tremble and shimmer with the heat
of possibility. Each time I hear
the Intermezzi, sad
and lavish in their tenderness,
I imagine the two of them
sitting in a garden
among late-blooming roses
and dark cascades of leaves,
letting the landscape speak for them,
leaving us nothing to overhear.

Patricia Hampl – É assim que a memória funciona

Você está desembarcando de um trem.
Uma noite úmida e vazia, o cheiro de cinzas.
Uma rajada de vapor vinda da locomotiva rodopia
ao redor da bainha do seu sobretudo, ao redor
da mão que segura a valise de couro marrom,
a mão que, há pouco, penteou para trás
o cabelo e em seguida ajeitou o fedora
defronte a um espelho com as bordas
bisotadas na cabine de cerejeira.

A garota parada na plataforma
em um vestido dos anos quarenta
tem os cabelos ondulados, ela usa
meias de náilon — não, meias de seda ainda.
Seus ombros são comoventemente militares,
moldados por aquelas ombreiras
e uma encantadora fé nos Aliados.
Ela está esperando por você.
Ela pode estar de chapéu, se você quiser.

Você a vê primeiro.
Isso é parte da beleza:
você flagra o semblante puro e ansioso,
o lírico vestido, a surpresa.
Você pode dispor do vapor,
da estação lotada, do casaco de pelo de camelo,
do couro verdadeiro e dos fechos de bronze na valise;
você pode fazer as luzes brilharem com
um estranho significado, e os pretos vagões
que passam por você são antigos, mas comuns.

A garota é sua,
o vestido florido, a caminhada
até o bonde, um sanduíche de ovo frito
e uma piada sobre Mussolini.
Você pode dispor disso tudo:
você está nesse mundo, da única maneira
de lá estar agora, contratado
por seu silencioso martelo, para pregar quadros
nas paredes desta mansão
feita do mais fino ar.

Trad.: Nelson Santander

This is how memory works

You are stepping off a train.
A wet blank night, the smell of cinders.
A gust of steam from the engine swirls
around the hem of your topcoat, around
the hand holding the brown leather valise,
the hand that, a moment ago, slicked back
the hair and then put on the fedora
in front of the mirror with the beveled
edges in the cherrywood compartment.

The girl standing on the platform
in the Forties dress
has curled her hair, she has
nylon stockings—no, silk stockings still.
Her shoulders are touchingly military,
squared by those shoulder pads
and a sweet faith in the Allies.
She is waiting for you.
She can be wearing a hat, if you like.

You see her first.
That’s part of the beauty:
you get the pure, eager face,
the lyrical dress, the surprise.
You can have the steam,
the crowded depot, the camel’s-hair coat,
real leather and brass clasps on the suitcase;
you can make the lights glow with
strange significance, and the black cars
that pass you are historical yet ordinary.

The girl is yours,
the flowery dress, the walk
to the streetcar, a fried egg sandwich
and a joke about Mussolini.
You can have it all:
you’re in that world, the only way
you’ll ever be there now, hired
for your silent hammer, to nail pictures
to the walls of this mansion
made of thinnest air.

Howard Nemerov – Figuras de pensamento

Colocar a espiral logarítmica na
Concha e no papel, e vê-las se encaixar,
Observar a mesma ideia funcionar
Na subida do piloto de caça, ajustando a mira
Em seu alvo, preparando a matança,
E no voo de certos insetos estrábicos
Que não conseguem ver que voam para a morte
Mas têm que lançar nela seu olhar de esguelha
E dirigir-se, mas girando, para a chama da vela —

Quão secreto isso é, e quão privilegiados
Nos sentimos ao encontrar a mesma necessidade
Cifrada em formas diversas e, além disso,
Sem parentesco — esta é a beleza
Na natureza como na arte, não óbvia,
Não inacessível, mas entre ambas.

Pode diminuir um pouco nosso estéril deleite
Imaginar se tudo o que somos e fazemos
Está sujeito a alguma pequena lei como esta;
Oculta na natureza, mas não tão profundamente.

Trad.: Nelson Santander

FIGURES OF THOUGHT

To lay the logarithmic spiral on
Sea-shell and leaf alike, and see it fit,
To watch the same idea work itself out
In the fighter pilot’s steepening, tightening turn
Onto his target, setting up the kill,
And in the flight of certain wall-eyed bugs
Who cannot see to fly straight into death
But have to cast their sidelong glance at it
And come but cranking to the candle’s flame —

How secret that is, and how privileged
One feels to find the same necessity
Ciphered in forms diverse and otherwise
Without kinship — that is the beautiful
In Nature as in art, not obvious,
Not inaccessible, but just between.

It may diminish some our dry delight
To wonder if everything we are and do
Lies subject to some little law like that;
Hidden in nature, but not deeply so.

Javier Salvago – Nada, nada importa

Se os anos ensinam alguma coisa
é a pouca importância
que tudo tem.
Tudo,
cedo ou tarde, passa.
O amor, que vai
como veio. A vaga
juventude, com seus sonhos,
suas grandes esperanças.
Dias de vinho e de rosas,
tempos de abundância
do coração. O brilho.
A beleza. A vontade
de levar a vida
adiante. As presunçosas
ilusões
— estrelas
que subitamente se apagam
e nos deixam em uma
noite escura da alma —.
A dor que julgavas
infinita. A ânsia
de obter aquilo
que, obtido, não é nada.
A vaidade, suas pompas:
glória, fortuna, fama,
ela mesma, suas obras,
sombras de um sonho, geada,
orvalho de uma noite
que o sol de outra manhã
derrete, vaidades,
miragens, fantasmas…

Se os anos ensinam alguma coisa
é que tudo acaba.
Que nada, neste jogo,
dura, nada importa.

Mayo, 1997

Trad.: Nelson Santander

 

Nada importa nada

Si algo enseñan los años
es la poca importancia
que tiene todo.
Todo,
tarde o temprano, pasa.
El amor, que se va
como viene. La vaga
juventud, con sus sueños,
sus grandes esperanzas.
Días de vino y rosas,
épocas de abundancia
del corazón. El brillo.
La belleza. Las ganas
de llevarse a la vida
por delante. Las fatuas
ilusiones
— estrellas
que de pronto se apagan
y nos dejan en una
noche oscura del alma—.
El dolor que creías
interminable. El ansia
por conseguir aquello
que, conseguido, es nada.
La vanidad, sus pompas:
gloria, fortuna, fama,
uno mismo, sus obras,
sombras de un sueño, escarcha,
rocío de una noche
que el sol de otra mañana
derrite, vanidades,
espejismos, fantasmas…

Si algo enseñan los años
es que todo se acaba.
Que nada, en este juego,
dura ni importa nada.

Mayo, 1997

Joan Margarit – Noturno em Solivella

Vens da visita que fizeste ao vinhedo, à noite.
Detiveste o trator entre as cercas de arame
onde se embalam, verdes e densas, as videiras,
e escutaste a terra à tua volta.
O restaurante te dá dinheiro,
mas de madrugada, com ele já fechado,
fazendo um café para ti no balcão,
pensas o quanto gostas de, à noite, visitar
sozinho os arames do vinhedo.
Este local sem ninguém te lembra
quando era um bar de aldeia, com os velhos
que perto do fogão jogavam cartas.
Na penumbra, ocultava-se um Deus
encurralado como as garrafas
de anis que ninguém mais pedia,
ou como os retratos dos mortos
do refeitório, o oleado, como uma bandeira
cobrindo um caixão, sobre a mesa.
Alguns deles transportavam vinho
– voltando com carvão – para os Pirineus.
Talvez seja a solidão que te atrai
ao vinhedo à noite. Houve um outro
apostador que acabou no curral
pendurado pelas rédeas em uma viga.
Talvez tenha apostado a vida dele na tua.
E aquela bisavó fuzilada
ao pé do cemitério: legou-te
a fúria de existir. São negros melros
que a mão da morte deteve em pleno voo.
Haver vivido um dia é uma centelha
brilhante em uma escura eternidade
sem qualquer retorno ou ressurreição.
Era isto o que telegrafavam as fileiras
de arames através do vinhedo, à noite.

Trad.: Nelson Santander

Nocturno en Solivella

Vienes de recorrer las viñas en la noche.
Detuviste el tractor entre las alambradas
donde se emparran verdes y tupidas las cepas,
y escuchaste la tierra a tu alrededor.
Te va dando dinero el restaurante,
pero de madrugada, ya cerrado,
haciéndote un café en el mostrador,
piensas cuánto te gusta a solas recorrer,
de noche, los alambres de las viñas.
Este local sin nadie te recuerda
cuando era un bar de pueblo, con los viejos
que cerca de la estufa jugaban a las cartas.
En la penumbra se ocultaba un Dios
arrinconado como las botellas
de anís que nadie ya solicitaba,
o como los retratos de los muertos
del comedor, el hule, igual que una bandera
cubriendo un ataúd, sobre la mesa.
Alguno de ellos transportaba vino
– volviendo con carbón – al Pirineo.
Quizá es su soledad la que te atrae
de noche hasta las viñas. Otro fue
un jugador y terminó en la cuadra
colgado con las riendas de una viga.
Quizá apostó su vida por la tuya.
Y aquella bisabuela fusilada
al pie del cementerio: te legó
la furia de existir. Son negros mirlos
que paró en pleno vuelo la mano de la muerte.
Haber vivido un día es una chispa
brillante en una oscura eternidad
sin vuelta alguna ni resurrección.
Esto telegrafían las hileras
de alambres por las viñas en la noche.

Linda Pastan – Chove sobre a casa de Anne Frank

Chove sobre a casa
de Anne Frank
e sobre os turistas
amontoados sob a sombra
de seus guarda-chuvas,
sobre os perfeitamente silenciosos
turistas que prefeririam estar
em outro lugar
mas que aqui esperam em escadas
tão íngremes pelas quais devem subir
para alguma ocasião
no sótão vazio,
no banheiro pitoresco,
no esqueleto
de uma cozinha
ou no mapa —
cada uma de suas setas
uma farpa de arame —
com todas as datas, as expulsões,
os contornos proibitivos
dos continentes.
E por toda Amsterdam está chovendo
no Museu Van Gogh
aonde iremos apressados depois
para ver como outra pessoa
foi capaz de encontrar o puro
centro de luz
dentro do círculo escuro
de seus demônios.

Trad.: Nelson Santander

It is raining on the house of Anne Frank

It is raining on the house
of Anne Frank
and on the tourists
herded together under the shadow
of their umbrellas,
on the perfectly silent
tourists who would rather be
somewhere else
but who wait here on stairs
so steep they must rise
to some occasion
high in the empty loft,
in the quaint toilet,
in the skeleton
of a kitchen
or on the map—
each of its arrows
a barb of wire—
with all the dates, the expulsions,
the forbidding shapes
of continents.
And across Amsterdam it is raining
on the Van Gogh Museum
where we will hurry next
to see how someone else
could find the pure
center of light
within the dark circle
of his demons.

Robert Morgan – Outono branco

Ela sempre gostou de ler, inclusive
na infância, durante a Guerra da Secessão,
e depois desenvolveu o hábito de ficar acordada
junto ao lampião perto da lareira depois que,
concluída a faxina, o marido e os filhos iam dormir.
Ela alimentou o vício nos anos duros
da Reconstrução e mesmo depois que
o seu marido morreu e ela foi forçada
a prover e a ser a única encarregada do lugar.
Enquanto seu filho único lutava na França,
foi esta segunda vida, diante da janela aberta
nos meses quentes, quando os pinheiros nas colinas
pareciam conversar com o córrego, e as esperanças
harmonizavam seus hinos nas árvores além do celeiro,
ou diante do familiar fogo no inverno,
que a susteve. Mais tarde, ela e as filhas
esqueceram a hora e o dia exato,
se é que houve um dia assim, em que ela tomou a decisão.
Mas depois que as crianças puderam cozinhar
e jardinar e ordenhar e levar um pouco
de limpeza pra os ricos de Flat Rock,
e o filho retornou do exterior
ferido, mas ainda capaz e se casou com uma viúva de guerra,
e quando ela encontrou a cadeira certa,
uma cadeira de balanço montada por um homem para além de Willow,
de nogueira polida, com assento e encosto de vime,
e braços largos o suficiente para apoiar sua eterna xícara
de café, ou um livro pesado,
ela soube que havia chegado em casa e que nela ficaria.
E a partir daquele dia, se foi um momento e não
um reconhecimento gradual, ela nunca mais cruzou uma soleira
ou se aventurou para além daquele lugar especial de retidão,
presença e prazer, exceto para ser levada para a cama
algumas horas antes do amanhecer para uma pequena soneca.
Aquela cadeira – todo natal alguém lhe dava uma almofada
brilhante para amaciar – era o lugar em que ela se banhava
em um aconchegante rio de livros e de café preto,
e variedades de doces e bolos guardados em um armário baixo
próximo. Os gatos passavam pelo seu colo e pernas
e pela travessa de reforço de sua cadeira. As toneladas
de lenhas chegaram geladas e se foram como luz, fumaça, cinzas.
Ela cavalgava aquele berço vertical para dormir
e por muitas longas visitas com camadas de família,
beijando os bebês como diferentes tipos de frutas.
Sempre escondendo o cachimbo de barro em seu armário
quando aparecia visita. Ela presidiu decisões
para manter a terra e recusou o próprio bem-estar.
Naquele trono rangente, ela governou um minúsculo reino
em meio à guerra e morte de parentes. Até a noite em que ela
parou de respirar, perto dos cem, ninguém soube
exatamente quando, mas encontraram a lâmpada ainda acesa,
o romance aberto para um novo capítulo,
e o sol apenas brilhando em seu cotovelo.

Trad.: Nelson Santander

White Autumn

She had always loved to read, even
in childhood during the Confederate War,
and built the habit later of staying up
by the oil lamp near the fireplace after
husband and children slept, the scrub-work done.
She fed the addiction in the hard years
of Reconstruction and even after
her husband died and she was forced
to provide and be sole foreman of the place.
While her only son fought in France
it was this second life, by the open window
in warm months when the pines on the hill
seemed to talk to the creek, or katydids
lined-out their hymns in the trees beyond the barn,
or by the familiar of fire in winter,
that sustained her. She and her daughters
later forgot the time, the exact date,
if there was such a day, when she made her decision.
But after the children could cook
and garden and milk and bring in a little
by housecleaning for the rich in Flat Rock,
and the son returned from overseas
wounded but still able and married a war widow,
and when she had found just the right chair,
a rocker joined by a man over on Willow
from rubbed hickory, with cane seat and back,
and arms wide enough to rest her everlasting cup
of coffee on, or a heavy book,
she knew she had come to her place and would stay.
And from that day, if it was one time and not
a gradual recognition, she never crossed a threshold
or ventured from that special seat of rightness,
of presence and pleasure, except to be helped to bed
in the hours before dawn for a little nap.
That chair-every Christmas someone gave her a bright
cushion to break in-was the site on which she bathed
in a warm river of books and black coffee,
varieties of candy and cakes kept in a low cupboard
at hand. The cats passed through her lap and legs
and through the rungs of her seat. The tons
of firewood came in cold and left as light, smoke, ash.
She rode that upright cradle to sleep
and through many long visits with tiers of family,
kissing the babies like different kinds of fruit.
Always hiding the clay pipe in her cabinet
when company appeared. She chaired decisions
to keep the land and refused welfare.
On that creaking throne she ruled a tiny kingdom
through war, death of kin. Even on the night she did
stop breathing, near a hundred, no one knew
exactly when, but found the lamp still on,
the romance open to a new chapter,
and the sun just appearing at her elbow.

Mary Oliver – Quando estou entre as árvores

Quando estou entre as árvores,
especialmente entre os salgueiros e os espinheiros-da-virgínia,
mas também entre as faias, os carvalhos e os pinheiros,
elas emitem tantos sinais de alegria.
Eu quase diria que elas me salvam, e diariamente.
Estou tão distante de minhas expectativas sobre mim mesma,
nas quais eu reúno bondade, e discernimento,
e nunca me apresso no mundo,
mas caminho lentamente, e com frequência me curvo.
À minha volta, as árvores agitam suas folhas
e bradam: “Fique mais um pouco.”
A luz flui de seus ramos.
E elas convidam novamente: “É simples,” elas dizem,
“e você também veio
ao mundo para isso, para ir devagar, para ser preenchida
com luz, e para brilhar.”

Trad.: Nelson Santander

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When I am among the trees

When I am among the trees,
especially the willows and the honey locust,
equally the beech, the oaks and the pines,
they give off such hints of gladness.
I would almost say that they save me, and daily.
I am so distant from the hope of myself,
in which I have goodness, and discernment,
and never hurry through the world
but walk slowly, and bow often.
Around me the trees stir in their leaves
and call out, “Stay awhile.”
The light flows from their branches.
And they call again, “It’s simple,” they say,
“and you too have come
into the world to do this, to go easy, to be filled
with light, and to shine.”

Jorge Valdés Díaz-Vélez – Formas migratórias

Formas Migratórias

para Katia Alemann

Aprendemos a amar a conta-gotas
essas pequenas pausas de que se veste
o temporal para inundar a solidão
do lado de fora, o ramo entre violeta
e ocre das tardes, o murmúrio
semântico do céu. Nesta ordem,
temos esmaecido a distância,
a longitude sem proporção, as linhas
que se relacionam com as coisas. Curtas
lacunas de ar, esses segundos quebram
o ambíguo conceito de equilíbrio
que na água subjaz e se sustenta
como outra voz dentro do fogo.
Quando clareia e a tarde se harmoniza
em sua límpida explosão em camadas,
aprendemos os mínimos rumores
de onde irrompem cinzas desmemórias.
Com eles, construímos este quarto
saturado de música e de vítreos
aromas de jasmim ou desconhecidos.
Conceitos e raízes que se aglomeram
e edificam uma oval sonora,
um ponto de chegada, outro pretexto
condenado a apalpar nossa garganta
para ouvir-nos dizer: amo esta chuva
quando ela cessa e podemos ouvi-la
abrigar um país debaixo da terra.

Trad.: Nelson Santander

Formas migratorias

para Katia Alemann

Aprendimos a amar a cuentagotas
esas pequeñas pausas que el chubasco
viste para inundar puertas afuera
la soledad, la rama entre violeta
y ocre de las tardes, el murmullo
semántico del cielo. En este orden
hemos desdibujado la distancia,
la longitud sin proporción, las líneas
que relacionan a las cosas. Breves
lagunas de aire, esos segundos quiebran
el ambiguo concepto de equilibrio
que en el agua subyace y se sostiene
al igual que otra voz dentro del fuego.
Cuando escampa y la tarde se armoniza
en su limpia explosión de veladuras,
aprendemos los mínimos rumores
donde irrumpen cenizas desmemorias.
Con ellos construimos este cuarto
que está lleno de música y de vítreos
aromas de jazmín o extranjería.
Nociones y raigambres que se agolpan
y edifican un óvalo sonoro,
un punto de llegada, otro pretexto
condenado a palpar nuestra garganta
para oírnos decir: amo esta lluvia
cuando cesa y podemos escucharla
recoger un país bajo la tierra.

Leonard Nathan – Brinde

Houve uma mulher em Ithaca
que chorou baixinho a noite toda
no quarto ao lado e desamparado
me apaixonei por ela sob o manto
de neve que se depositou em todos os telhados
da cidade, preenchendo
cada escura depressão.

Na manhã seguinte
no café do motel
estudei todas as mulheres de rostos
maquiados. Teria sido a loira de meia idade
que brincou com a garçonete
ou a jovem morena que levantava
sua xícara como em um brinde?

Amor, seja você quem for,
sua coragem foi minha companheira
em muitas cidades frias
após a traição em Ithaca,
e quando peço um café
em um lugar estranho, ainda
digo, levantando, isto é pra você.

Trad.: Nelson Santander

Toast

There was a woman in Ithaca
who cried softly all night
in the next room and helpless
I fell in love with her under the blanket
of snow that settled on all the roofs
of the town, filling up
every dark depression.

Next morning
in the motel coffee shop
I studied all the made-up faces
of women.  Was it the middle-aged blonde
who kidded the waitress
or the young brunette lifting
her cup like a toast?

Love, whoever you are,
your courage was my companion
for many cold towns
after the betrayal of Ithaca,
and when I order coffee
in a strange place, still
I say, lifting, this is for you.