Noël Coward – Nada se perde

No fundo do nosso subconsciente, nos é dito,
Repousam todas as nossas memórias, todas as notas
De toda música que já ouvimos,
E o que disseram os que amamos, cada frase pronunciada,
Tristezas e perdas que desde então o tempo tem consolado,
Piadas de família, caquéticas anedotas
Cada souvenir sentimental e cada
Símbolo de tudo o que já vimos e vivemos,
Cada palavra que nos foi dirigida na infância, antes
Antes que pudéssemos sequer conhecer ou compreender
As implicações de nosso mundo mágico.
Ali estão todas elas, as míticas fabulações
As surpresas de aniversário, as visões, os sons,
As lágrimas, fragmentos esquecidos de anos perdidos
À espera de serem lembrados, prontos para emergir
Antes que o nosso mundo se dissolva diante dos nossos olhos
À espera de alguma pequena, íntima recordação,
Uma palavra, uma melodia, um familiar aroma corrente
Um eco do passado quando, inocentes
Olhávamos o presente com deleite
E não duvidávamos que o futuro seria mais generoso
E nunca experimentávamos a noite e sua solidão.

Trad.: Nelson Santander

Nothing is Lost

Deep in our sub-conscious, we are told
Lie all our memories, lie all the notes
Of all the music we have ever heard
And all the phrases those we loved have spoken,
Sorrows and losses time has since consoled,
Family jokes, out-moded anecdotes
Each sentimental souvenir and token
Everything seen, experienced, each word
Addressed to us in infancy, before
Before we could even know or understand
The implications of our wonderland.
There they all are, the legendary lies
The birthday treats, the sights, the sounds, the tears
Forgotten debris of forgotten years
Waiting to be recalled, waiting to rise
Before our world dissolves before our eyes
Waiting for some small, intimate reminder,
A word, a tune, a known familiar scent
An echo from the past when, innocent
We looked upon the present with delight
And doubted not the future would be kinder
And never knew the loneliness of night.

Claudia Rankine – Intempérie

Em um pedaço do papel no arquivo está escrito
esqueci minha sombrinha. Acontece que
em uma pandemia todos, não só o filósofo,
estamos sem uma. Nós batalhamos na seca de informações
retidas por investidores privilegiados. Gota a gota. Protegendo
o rosto? Sim. Distanciamento social? Sete palmos
sob a terra por condições subjacentes. Pretos.
Apenas nós e os azuis ajoelhados em um pescoço
com todo o peso do corpo de um homem de azul.
Oito minutos e quarenta e seis segundos.
In extremis, eu não consigo respirar cede lugar
à asfixia, à renúncia a este mundo,
e então mamãe, clamando, um chamado
para o protesto, fogo, vidro, digam seus nomes, digam
seus nomes, silêncio branco é igual a violência,
a violência de novo, uma força policial
militarizada lançando gás lacrimogêneo, balas ricocheteando,
e os distúrbios civis derrubando-a, queimando-a. Quaisquer que sejam
os contratos que nos mantêm sociais, eles nos compelem agora
a desordenar a desordem. Paz. Estamos aqui
para reparar o futuro. Há uma sombrinha
perto da porta, não para ontem mas para a intempérie
que está fazendo. Eu digo intempérie mas me refiro
a uma forma de governar que distribui mortes
e lhes dá nomes de vida. Eu digo intempérie mas me refiro a
um novembro que não será adiado. Desta vez
nada nem ninguém se esqueceu. Estamos aqui para a tempestade
que a tudo assola porque o que está acontecendo é importante.

Trad.: Nelson Santander

Weather

On a scrap of paper in the archive is written
I have forgotten my umbrella. Turns out
in a pandemic everyone, not just the philosopher,
is without. We scramble in the drought of information
held back by inside traders. Drop by drop. Face
covering? No, yes. Social distancing? Six feet
under for underlying conditions. Black.
Just us and the blues kneeling on a neck
with the full weight of a man in blue.
Eight minutes and forty-six seconds.
In extremis, I can’t breathe gives way
to asphyxiation, to giving up this world,
and then mama, called to, a call
to protest, fire, glass, say their names, say
their names, white silence equals violence,
the violence of again, a militarized police
force teargassing, bullets ricochet, and civil
unrest taking it, burning it down. Whatever
contracts keep us social compel us now
to disorder the disorder. Peace. We’re out
to repair the future. There’s an umbrella
by the door, not for yesterday but for the weather
that’s here. I say weather but I mean
a form of governing that deals out death
and names it living. I say weather but I mean
a November that won’t be held off. This time
nothing, no one forgotten. We are here for the storm
that’s storming because what’s taken matters.

R S Thomas – Charneca

É bela e calma;
                o ar rarefeito
como o interior de uma catedral

esperando uma presença. É também onde
                 ocorre o tartaranhão,
materializando-se do nada, neve-

suave, mas com garras de fogo,
                  esquartejando a terra nua
pela presa que lhe escapa;

pairando sobre o guincho
                  incipiente, aqui por um momento, depois
não mais, como minha crença em Deus.

Trad.: Nelson Santander

Moorland

It is beautiful and still;
                the air rarefied
as the interior of a cathedral

expecting a presence. It is where, also,
                 the harrier occurs,
materialising from nothing, snow-

soft, but with claws of fire, 
                  quartering the bare earth
for the prey that escapes it;

hovering over the incipient 
                  scream, here a moment, then
not here, like my belief in God.

Jane Hirshfield – Hoje, outro universo

O arborista determinou:
senescência         pragas        cancro
acelerado pela seca
|                                    mas, em qualquer caso,
não podável       não tratável       não passível de escoras.

E assim.

O ramo de onde gritam o gavião-miúdo e sua companheira.

O tronco onde a formiga.

O playground de vinte e cinco metros dos esquilos vermelhos.

A casca    as camadas    a seiva-do-pinheiro    o aglomerado de formigueiros.

Os padrões japoneses        a teia-tatuada.

As manchas de determinados peixes.

Hoje, para alguns, um universo desaparecerá.
Primeiro, ruidosamente,
depois, apenas mais um silêncio.

O silêncio do depois, de quando o teatro se esvazia.

Da perplexidade após a Era Glacial,
a espécie, a estrela.

Outra coisa, na escala das coisas velozes,
irá substituí-la,

este vazio de luz na luz, os pássaros confusos desviando-se dele.

Trad.: Nelson Santander

 

Today, another universe

The arborist has determined:
senescence         beetles        canker
quickened by drought
|                                    but in any case
not prunable       not treatable       not to be propped.

And so.

The branch from which the sharp-shinned hawks and their mate-cries.

The trunk where the ant.

The red squirrels’ eighty-foot playground.

The bark    cambium    pine-sap    cluster of needles.

The Japanese patterns        the ink-net.

The dapple on certain fish.

Today, for some, a universe will vanish.
First noisily,
then just another silence.

The silence of after, once the theater has emptied.

Of bewilderment after the glacier,
the species, the star.

Something else, in the scale of quickening things,
will replace it,

this hole of light in the light, the puzzled birds swerving around it.

Galway Kinnell – Aquela noite silenciosa

Eu voltarei àquela noite silenciosa
em que nos deitamos juntos e conversamos em vozes baixas, silenciosas,
enquanto do lado de fora caíam lentos fragmentos de neve
suave, silenciando ao se aproximar do solo,
com um incêndio no quarto, onde séculos
de árvores evolaram-se em contínuas almas-ausentando-se,
sem um estalido, até a luz da manhã.
Só dormimos quando o que se apressava mais lento se tornou.
Quando chegamos em casa, nos viramos e olhamos para trás,
para nossos entrelaçados rastros fora da floresta,
onde os ramos em que roçamos deixavam cair
porções de neve cintilante, rapidamente, em silêncio,
como beijos roubados, e onde o tuim tuim tuim
entre as árvores, que é o som que morre
no interior das fagulhas da cunha quando a marreta
atinge-a fora do centro dizendo que tudo dentro
dela é lume, pulou para um galho escuro, orgulhoso
mas sem braços e, por isso, para os nossos olhos solitários,
e ainda assim – como poderíamos sabe-lo? – feliz!
na forma de um chapim. Deitados ainda na neve,
nenhuma vontade férrea, como trilhos de ferrovia dispostos
a não se encontrar até o céu, mas aqui e ali
fazendo paradas para molhados beijos no campo,
nossas rastros agitam na neve seu longo rabisco.
Tudo o que aqui acontece é realmente pouco mais,
se assim for, do que um rabisco, igualmente. As palavras, em nossas bocas,
estão quase prontas, já, para envolver aquele
a quem os tuim tuim tuim, que significam se como quando
podemos perder um ao outro, riscam riscam riscam
de um momento para o outro. Então eu voltarei
àquela noite silenciosa, em que o passado simplesmente logrou
sobrepor-se ao futuro, ainda que apenas por um triz,
e em que a luz redobra e reluz
na escuridão a cintilação que elevou aos céus a terra.

Trad.: Nelson Santander

That Silent Evening

I will go back to that silent evening
when we lay together and talked in low, silent voices,
while outside slow lumps of soft snow
fell, hushing as they got near the ground,
with a fire in the room, in which centuries
of tree went up in continuous ghost-giving-up,
without a crackle, into morning light.
Not until what hastens went slower did we sleep.
When we got home we turned and looked back
at our tracks twining out of the woods,
where the branches we brushed against let fall
puffs of sparkling snow, quickly, in silence,
like stolen kisses, and where the scritch scritch scritch
among the trees, which is the sound that dies
inside the sparks from the wedge when the sledge
hits it off center telling everything inside
it is fire, jumped to a black branch, puffed up
but without arms and so to our eyes lonesome,
and yet also – how could we know this? – happy!
in shape of chickadee. Lying still in snow,
not iron-willed, like railroad tracks, willing
not to meet until heaven, but here and there
making slubby kissing stops in the field,
our tracks wobble across the snow their long scratch.
Everything that happens here is really little more,
if even that, than a scratch, too. Words, in our mouths,
are almost ready, already, to bandage the one
whom the scritch scritch scritch, meaning if how when
we might lose each other, scratches scratches scratches
from this moment to that. Then I will go back
to that silent evening, when the past just managed
to overlap the future, if only by a trace,
and the light doubles and shines
through the dark the sparkling that heavens the earth.

Barbara Crooker – No meio

de uma vida que é tão complicada quanto a de todo mundo,
batalhando por equilíbrio, equilibrando o tempo.
O relógio de lareira que foi do meu avô
parou às 9:20; não tivemos tempo
de conserta-lo. O pêndulo de bronze está imóvel,
os sinos não soam. Um dia eu olho pela janela,
verde verão, no outro, as folhas já caíram
e um céu cinza baixa no horizonte. Nossos filhos quase crescidos,
nossos pais se foram, aconteceu tão rápido. Diariamente, devemos aprender
novamente como amar, entre o célere café da manhã
e o demorado regresso da noite. Sobe o vapor de uma panela de sopa,
mesclando-se ao cheiro fermentado de pão de forno. Nossos corpos
se enroscam, e o grande cão preto pressiona sua grande cabeça entre eles;
sua cauda, um metrônomo, compasso ternário. Nós nunca chegaremos lá,
o Tempo está sempre à nossa frente, correndo pela praia, impelindo-
nos a ir mais rápido, mais rápido, mas, às vezes, despimo-nos de nossos relógios,
às vezes deitamos na rede, aprisionados entre a malha
de corda e a rede de estrelas, suspensos, enredados
no amor, esgotando o tempo.

Trad.: Nelson Santander

In the Middle

of a life that’s as complicated as everyone else’s,
struggling for balance, juggling time.
The mantle clock that was my grandfather’s
has stopped at 9:20; we haven’t had time
to get it repaired. The brass pendulum is still,
the chimes don’t ring. One day I look out the window,
green summer, the next, the leaves have already fallen,
and a grey sky lowers the horizon. Our children almost grown,
our parents gone, it happened so fast. Each day, we must learn
again how to love, between morning’s quick coffee
and evening’s slow return. Steam from a pot of soup rises,
mixing with the yeasty smell of baking bread. Our bodies
twine, and the big black dog pushes his great head between;
his tail, a metronome, 3/4 time. We’ll never get there,
Time is always ahead of us, running down the beach, urging
us on faster, faster, but sometimes we take off our watches,
sometimes we lie in the hammock, caught between the mesh
of rope and the net of stars, suspended, tangled up
in love, running out of time.

Juan Vicente Piqueras – O testemunho do gajeiro

Para falar a verdade, 
pareceu-me outro gesto de presunção,
muito dele,
aquela urgência com que nos pediu
que o amarrássemos ao mastro
para escapar do canto das sereias.

As sereias estavam cantando, isso é verdade,
mas não exatamente para seduzi-lo.

E por que não a qualquer um de nós?
Por que elas deveriam tentar seduzir alguém?
Quem pode garantir que não estavam simplesmente cantando?
Ou que guardavam silêncio e cada um ouvia
seu próprio canto de sereia interior?

Era ele quem lutava contra sua vocação de perdedor.
Era ele quem acreditava que as sereias o amavam.
Era ele quem, sob qualquer pretexto,
nos colocava sob suas ordens.
Era ele quem não sabia mais o que inventar
para atrasar nosso retorno a Ítaca.

Eu queria regressar à minha pátria, abraçar minha esposa,
cuidar dos meus pais, já idosos,
ver meus filhos crescerem.

Ele determinou e nós o amarramos.
Se dependesse de mim, o teríamos abandonado em alto mar,
seguido para Ítaca e ali ele teria ficado,
atado ao mastro, sozinho, novamente à deriva.

E teria morrido assim, atado à sua insensatez,
enquanto as sereias continuavam, continuarão,
cantando para ninguém, como sempre.

Trad.: Nelson Santander

Testimonio del gaviero

Si he de decir la verdad, 
me pareció otro gesto de presunción,
muy suyo,
aquella urgencia con que nos pidió
que lo atásemos al mástil
para escapar al canto de las sirenas.

Las sirenas cantaban, eso es cierto,
pero no precisamente para seducirlo a él.

¿Y por qué no a cualquiera de nosotros?
¿Por qué tendrían que pretender seducir a alguien?
¿Quién puede asegurar que no cantaban simplemente?
¿O que guardaban silencio y cada uno oía
su propio canto de sirenas dentro?

Era él quien luchaba contra su vocación de perdidizo.
Era él quien creía que las sirenas lo amaban.
Era él quien, con cualquier pretexto,
nos ponía a sus órdenes.
Era él quien no sabía qué inventarse
con tal de demorar nuestro regreso a Ítaca.

Yo quería volver a mi patria, abrazar a mi esposa,
cuidar de mis padres ya ancianos,
ver crecer a mis hijos.

Nos lo ordenó y lo atamos.
Si hubiera sido por mí lo habríamos dejado en alta mar,
hubiésemos puesto rumbo a Ítaca y allí se habría quedado,
atado al mástil, solo, de nuevo a la deriva.

Y habría muerto así, atado a su extravío,
mientras que las sirenas seguían, seguirán,
cantando para nadie, como siempre.

Denver Butson – Meu irmão

Para escapar das dores de cabeça e aos medos de uma esposa infiel
meu irmão em perpétua reabilitação usuário de drogas
maquinista encrenqueiro preso aos 14 por incêndio premeditado
e encarcerado por algumas semanas
pai de um filho e de um feto abortado
jogador de boliche ocasional e fã de heavy metal
apreciador de ketchup batata chips stromboli
e cheesesteak usuário de jeans desbotados
camisas de flanela desbotadas camisetas de bolso
tênis de cano alto desamarrados ou botas de trabalho
camisetas de bandas bonés de pintor e
casaco militar sofredor de solidão
de paranoia e medo insone e falador
de outra língua durante o sono
especialista em arrotos e atirador experiente, inveterado mas péssimo mentiroso
bebedor moderado de cerveja barata violento impulsivo
demolidor de lâmpadas elétricas ventiladores telefones
mulherengo de olhos azuis pai irmão e filho
tímido mulherengo ruborizado mulherengo magricela de
olhos azuis meteu a extremidade final de uma Magnum .357
em sua narina direita com a outra extremidade
em suas mãos calejadas e sujas
e soprou suas dores de cabeça e sua cabeça
deste mundo para o outro
em uma noite como esta.

Trad.: Nelson Santander

My Brother

To escape headaches and fears of an unfaithful wife
my brother perpetually reforming drug user
machinist scrapper arrested at 14 for arson
and incarcerated for a few weeks
father of one son and one aborted fetus
occasional bowler heavy metal fan
connoisseur of ketchup potato chips stromboli
and cheesesteak wearer of faded jeans
faded flannel shirts pocket-tee shirts
unlaced hightops or workboots
concert tee shirts painters’ hats and
army coat sufferer of aloneness
of paranoia and fear insomniac and talker
of another language in his sleep
expert belcher and marksman constant but lousy liar
moderate drinker of cheap beer violent rampager
demolisher of lamps electric fans telephones
blue-eyed ladies’ man father brother and son
shy blushing ladies’ man skinny-legged blue-eyed
ladies’ man stuck the open end of a .357 Magnum
in his right nostril with the other end
in his calloused and stained hands
and blew his headaches and his head
from this world into the next
one night just like that.

Ursula K. Le Guin – Como me parece

No vasto abismo antes do tempo, o eu
não existe, e a alma se mistura
com a névoa, a rocha e a luz. No tempo certo,
a alma atrai o nebuloso eu para o ser.
Então, lentamente, o tempo petrifica o eu
enquanto ilumina a alma,
até que a alma perde o controle do eu
e ambos se libertam e podem retornar
à vastidão e dissolver-se em luz,
a duradoura luz depois do tempo.

Trad.: Nelson Santander

How it seems to me

In the vast abyss before time, self
is not, and soul commingles
with mist, and rock, and light. In time,
soul brings the misty self to be.
Then slow time hardens self to stone
while ever lightening the soul,
till soul can loose its hold of self
and both are free and can return
to vastness and dissolve in light,
the long light after time.

Mary Oliver – O véu

Há momentos em que o véu parece
quase se levantar, e compreendemos o que
a terra significa para nós — as
árvores em sua docilidade, as colinas em
sua paciência, as flores e as
videiras em sua selvagem, doce vitalidade.
A Palavra, então, está em nós, e o
Livro, posto de lado.

Trad.: Nelson Santander

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The veil

There are moments when the veil seems 
almost to lift, and we understand what
the earth is meant to mean to us—the
trees in their docility, the hills in
their patience, the flowers and the
vines in their wild, sweet vitality.
Then the Word is within us, and the
Book is put away.