Natalie Diaz – Meu irmão às 3 da manhã

Ele se sentou de pernas cruzadas, chorando nos degraus,
quando mamãe destrancou e abriu a porta da frente.
        Meu Deus, ele disse. Meu Deus.
                Ele quer me matar, mamãe.

Quando mamãe destrancou e abriu a porta da frente,
às 3 da manhã, ela estava de camisola, e papai dormia.
        Ele quer me matar, ele disse,
                olhando por cima do ombro.

Às 3 da manhã e de camisola, e papai dormia,
O que está acontecendo? ela perguntou. Quem quer te matar?
        Ele olhou por cima do ombro.
                O diabo. Olhe para ele, ali.

Ela perguntou, O que você usou? Quem quer te matar?
O céu não era preto nem azul, mas o verde de uma noite moribunda.
        O diabo, olhe para ele, ali.
                Ele apontou para a casa da esquina.

O céu não era preto nem azul, mas o verde moribundo da noite.
As estrelas haviam fechado seus olhos ou embainhado suas facas.
        Meu irmão apontou para a casa da esquina.
                Seus lábios feridos tremiam.

As estrelas haviam fechado seus olhos ou embainhado suas facas.
Meu Deus, eu posso ver o rabo, ele disse. Meu Deus, veja.
        Mamãe estremeceu ao ver as feridas nos lábios dele.
                Está saindo de trás da casa.

Meu Deus, veja o rabo, ele disse. Veja o maldito rabo.
Ele se sentou de pernas cruzadas, chorando nos degraus da frente.
        Mamãe finalmente viu, uma visão infernal, meu irmão.
                Meu Deus, meu Deus, ela disse.

Trad.: Nelson Santander

My Brother at 3 A.M.

He sat cross-legged, weeping on the steps
when Mom unlocked and opened the front door.
        O God, he said. O God.
                He wants to kill me, Mom.

When Mom unlocked and opened the front door
at 3 a.m., she was in her nightgown, Dad was asleep.
        He wants to kill me, he told her,
                looking over his shoulder.

3 a.m. and in her nightgown, Dad asleep,
What’s going on? she asked. Who wants to kill you?
        He looked over his shoulder.
                The devil does. Look at him, over there.

She asked, What are you on? Who wants to kill you?
The sky wasn’t black or blue but the green of a dying night.
        The devil, look at him, over there.
                He pointed to the corner house.

The sky wasn’t black or blue but the dying green of night.
Stars had closed their eyes or sheathed their knives.
        My brother pointed to the corner house.
                His lips flickered with sores.

Stars had closed their eyes or sheathed their knives.
O God, I can see the tail, he said. O God, look.
        Mom winced at the sores on his lips.
                It’s sticking out from behind the house.

O God, see the tail, he said. Look at the goddamned tail.
He sat cross-legged, weeping on the front steps.
        Mom finally saw it, a hellish vision, my brother.
                O God,O God, she said.

Louise Glück – Aubade

Hoje, acima do canto da gaivota,
ouvi você me acordar novamente
para ver aquela ave, voando
tão estranhamente sobre a cidade,
não querendo
parar, desejando
a desolação azul do mar —

Agora ela contorna o subúrbio;
contra si, a luz violenta do meio-dia:

Eu sinto a fome dela
como sua mão dentro de mim,

um grito
tão comum, desafinado —

O nosso não era
diferente. Eles surgiram
da necessidade
inesgotável do corpo

concretizando um desejo de voltar:
o pálido amanhecer, nossas roupas
não separadas para a partida.

Trad.: Nelson Santander

Aubade

Today above the gull’s call
I heard you waking me again
to see that bird, flying
so strangely over the city,
not wanting
to stop, wanting
the blue waste of the sea—

Now it skirts the suburb,
the noon light violent against it:

I feel its hunger
as your hand inside me,

a cry
so common, unmusical—

Ours were not
different. They rose
from the unexhausted
need of the body

fixing a wish to return:
the ashen dawn, our clothes
not sorted for departure.

Javier Salvago – Outra idade

Já passou a idade de ser poeta
porque tudo passa, é a lei da vida;
embora eu continue, por dependência ou vício,

falando a um pedaço de papel, a poesia
já não é mais minha pátria, nem meu território.
Só regresso às vezes, de visita,

como quem volta para onde foi feliz.

Trad.: Nelson Santander

Otra edad

Se me pasó la edad de ser poeta
porque todo se pasa, es ley de vida;
aunque siga, por vicio o por querencia,

hablándole a un papel, la poesía
ya no es mi patria, ni mi territorio.
Sólo regreso a veces, de visita,

como quien vuelve a donde fue dichoso.

Dan Gerber – Frequentemente, imagino a terra

Frequentemente, imagino a terra
com o olhar dos átomos de que somos feitos —
átomos, peculiares
átomos por toda parte —
sem eu, sem você, sem opiniões,
sem princípio, sem meio, sem fim,
planando juntos como aqueles
antigos pássaros chineses
nascidos milagrosamente com apenas uma asa,
ajudando uns aos outros a voar para casa.

Trad.: Nelson Santander

Often I Imagine the Earth

Often I imagine the earth
through the eyes of the atoms we’re made of—
atoms, peculiar
atoms everywhere—
no me, no you, no opinions,
no beginning, no middle, no end,
soaring together like those
ancient Chinese birds
hatched miraculously with only one wing,
helping each other fly home.

Dorianne Laux – Histórias de família

Tive um namorado que me contava histórias sobre sua família,
como a de certa vez em que uma discussão terminou quando seu pai
agarrou um pedaço aceso de um bolo de aniversário com ambas as mãos
e o arremessou pela janela do segundo andar. Isso,
eu pensava, era como uma família normal era: raiva
enviada através do peitoril, aterrissando como uma dádiva
para decorar a calçada abaixo. Na minha
eram punhos e golpes diretos no plexo solar,
e ninguém jamais perdoou ninguém. Mas eu acreditava
que, em suas histórias, as pessoas realmente se amavam,
mesmo quando gritavam e enfiavam seus pés
através das portas do armário ou empunhavam uma cadeira como uma garrafa
de champanhe barata, batizando a parede,
os estribos explodindo de seus orifícios.
Eu disse que soavam inofensivos, a pompa e a fúria
dos apaixonados. Ele respondeu que era uma maldição
ter nascido italiano e católico e que quando
olhava daquela janela o que via era o instante
rudemente destroçado. Mas tudo o que eu conseguia ver era um deslumbrante
bolo de três camadas deslizando como um navio avariado
pela calçada, as velas fumegantes quebradas, enraizadas
profundamente na cobertura, algumas ainda acesas.

Trad.: Nelson Santander

 

Family Stories

I had a boyfriend who told me stories about his family,
how an argument once ended when his father
seized a lit birthday cake in both hands
and hurled it out a second-story window. That,
I thought, was what a normal family was like: anger
sent out across the sill, landing like a gift
to decorate the sidewalk below. In mine
it was fists and direct hits to the solar plexus,
and nobody ever forgave anyone. But I believed
the people in his stories really loved one another,
even when they yelled and shoved their feet
through cabinet doors or held a chair like a bottle
of cheap champagne, christening the wall,
rungs exploding from their holes.
I said it sounded harmless, the pomp and fury
of the passionate. He said it was a curse
being born Italian and Catholic and when he
looked from that window what he saw was the moment
rudely crushed. But all I could see was a gorgeous
three-layer cake gliding like a battered ship
down the sidewalk, the smoking candles broken, sunk
deep in the icing, a few still burning.

Sara Teasdale – Chuvas suaves chegarão

(Tempos de Guerra)

Chuvas suaves chegarão e o cheiro de chão,
E andorinhas revoando, seus rútilos sons;

E sapos nos brejos cantarolando na noite,
E ameixeiras silvestres em seu branco oscilante,

Tordos trajarão incandescentes ornamentos
Trinando seus caprichos em baixos tapamentos;

E ninguém então saberá da guerra, ninguém
Se importará quando ela terminar enfim.

Ninguém se importaria, nem árvore nem ave,
Se os homens morressem em sua totalidade;

E a própria primavera, ao acordar na aurora,
Sequer perceberia se fôssemos embora.

Trad.: Nelson Santander

There will come soft rains

(War Time)

There will come soft rains and the smell of the ground,
And swallows circling with their shimmering sound;

And frogs in the pools singing at night,
And wild plum trees in tremulous white,

Robins will wear their feathery fire
Whistling their whims on a low fence-wire;

And not one will know of the war, not one
Will care at last when it is done.

Not one would mind, neither bird nor tree
If mankind perished utterly;

And Spring herself, when she woke at dawn,
Would scarcely know that we were gone.

Linda Pastan – Elegia

Nosso último corniso se inclina
sobre o solo da floresta

oferecendo frutos
aos pássaros, aos esquilos.

É uma relíquia
dos dias em que os cornisos

floresciam — renda natada em abril,
leite derramado em maio —

sua beleza delicada
mas comum.

Quando eu dava como certo
que o mundo permaneceria

como era, e eu
permaneceria com ele.

Trad.: Nelson Santander

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Elegy

Our final dogwood leans
over the forest floor

offering berries
to the birds, the squirrels.

It’s a relic
of the days when dogwoods

flourished—creamy lace in April,
spilled milk in May—

their beauty delicate
but commonplace.

When I took for granted
that the world would remain

as it was, and I
would remain with it.

Kirsten Dierking – Afortunada

Todo esse tempo,
a vida que você
deveria viver
tem-se erguido ao seu redor
como as paredes de uma casa
projetada com aconchegantes
linhas harmoniosas.

Como se você realmente tivesse
planejado desta forma.

Como se você tivesse
empilhado tijolos
ao acaso,
e criado por engano
uma estrela da sorte.

Trad.: Nelson Santander

Lucky

All this time,
the life you were
supposed to live
has been rising around you
like the walls of a house
designed with warm
harmonious lines.

As if you had actually
planned it that way.

As if you had
stacked up bricks
at random,
and built by mistake
a lucky star.

Denise Levertov – Conversando com a dor

Ah, dor, eu não deveria trata-la
como um cão vira-latas
que vem à porta dos fundos
por uma migalha, por um osso descarnado.
Eu deveria confiar em você.

Eu deveria persuadi-la
a entrar em casa e dar-lhe
o seu próprio canto,
um tapete usado para se deitar,
sua própria tigela de água.

Você pensa que eu não sei que você está morando
embaixo do meu alpendre.
Você anseia que o seu verdadeiro lugar esteja preparado
antes que chegue o inverno. Você precisa
do seu nome,
da uma coleira e um identificador. Você precisa
do direito de alertar os intrusos,
de considerar minha a sua casa
e a mim sua dona
e você mesma
minha próprio cadela.

Trad.: Nelson Santander

Talking to Grief

Ah, grief, I should not treat you
like a homeless dog
who comes to the back door
for a crust, for a meatless bone.
I should trust you.

I should coax you
into the house and give you
your own corner,
a worn mat to lie on,
your own water dish.

You think I don’t know you’ve been living
under my porch.
You long for your real place to be readied
before winter comes. You need
your name,
your collar and tag. You need
the right to warn off intruders,
to consider my house your own
and me your person
and yourself
my own dog.

Juan Vicente Piqueras – A praga de Tebas

A praga de Tebas

E o que quer que eu faça
se torna para sempre o que eu fiz.
Wisława Szymborska

Quando a tragédia começou
o crime já havia sido cometido.
A tragédia era, agora, descobrir o delito
e o culpado.

Eu teria preferido a ignorância.
Tu optaste por indagar contra ti.

O passado é mais forte
que Deus. Ninguém, nem Deus,
pode muda-lo. Somente a memória.

Vais envelhecendo e recordando
tudo aquilo que nunca aconteceu.

Pior que o medo do que vai acontecer
é o terror consciente
do que pode ter acontecido.

Bem-aventurados os que ignoram! Tudo o
que descobrires será um espinho a mais,
uma papoula a menos.
Espera-te o teu passado
como no fruto espera a semente
e na semente um sol que ninguém conhece.

Queres saber a causa da praga de Tebas?
Queres saber quem és? No dia em que souberes
cegar-te-á sabe-lo. Nada de novo.
Nada de novo acontece. Pouco a pouco
vais chegando ao final, vais descobrindo
o que aconteceu no início, ou talvez não.

Nada mais te separa de tua vida.
Nada mais te reserva
tantas surpresas como o teu passado.

Trad. Nelson Santander

La peste de Tebas

Y haga lo que haga
se convierte para siempre en lo que he hecho.
Wisława Szymborska

Cuando empezó la tragedia
el crimen ya había sido cometido.
La tragedia era, ahora, descubrir el delito
y el culpado.

Yo habría preferido la ignorancia.
Tú habías elegido indagar en tu contra.

El pasado es más fuerte
que Dios. Nadie, ni Dios,
puede cambiarlo. Sólo la memoria.

Vas haciéndote viejo y recordando
todo aquello que no ocurrió jamás.

Peor que el miedo a lo que va a ocurrir
é o terror atento
a lo que puede ser que haya ocurrido.

¡Dichosos los que ignoran! Cada cosa
que descubras será una espina más,
una amapola menos.
Te espera tu pasado
como en el fruto espera la semilla
y en la semilla un sol que nadie sabe.

¿Quieres saber la causa de la peste de Tebas?
¿Quieres saber quién eres? El día que lo sepas
te cegará saberlo. Nada nuevo.
Sem ocurre nada novo. Pouco a pouco
vas llegando al final, vas descubriendo
lo que ocurrió al principio, o tal vez no.

Ya nada te separa de tua vida.
Ya nada te depara
tantas sorpresas como tu pasado.