César Vallejo – Paris, Outubro de 1936

De tudo isto eu sou o único que parte.
Deste banco eu me vou, de meus calções,
de minha grande situação, de minhas ações,
de meu número dividido de lado a lado,
de tudo isto eu sou o único que parte.

Dos Campos Elísios ou ao dar a volta
à estranha viela de la Luna,
minha morte se aparta, vai-se minha cuna,
e, rodeada de gente, só, solta,
minha aparência humana se volta
e despacha suas sombras uma a uma.

E me afasto de tudo, porque tudo
permaneceu para criar uma fachada:
meu sapato, seu ilhó, e também seu lodo
e até o vinco agudo
da manga de minha camisa abotoada.

Trad.: Nelson Santander

César Vallejo – París, octubre 1936

De todo esto yo soy el único que parte.
De este banco me voy, de mis calzones,
de mi gran situación, de mis acciones,
de mi número hendido parte a parte,
de todo esto yo soy el único que parte.

De los Campos Elíseos o al dar vuelta
la extraña callejuela de la Luna,
mi defunción se va, parte mi cuna,
y, rodeada de gente, sola, suelta,
mi semejanza humana dase vuelta
y despacha sus sombras una a una.

Y me alejo de todo, porque todo
se queda para hacer la coartada:
mi zapato, su ojal, también su lodo
y hasta el doblez del codo
de mi propia camisa abotonada.

Roger Wolfe – O amor, suponho

Tenho andado a pensar em escrever
um poema de amor
dedicado à minha mulher,
a verdade é que não sei
por que mas fico
incrivelmente triste e os poemas
de amor não me têm saído
suficientemente bem – ou talvez eu nunca
me tenha esforçado de forma séria -;
suponho que o amor
deve ser
como esses raríssimos instantes
de felicidade
se por um momento
os vives
eu diria
que não é conveniente
andar a perder tempo
com poemas.

Trad.: Luiz Filipe Parrado

Francisco Brines – Os Verões

        A Carmen Marí

Foram longos e ardentes os verões!
Ficamos nus juntos ao mar,
e o mar ainda mais nu. Com os olhos,
e em corpos ágeis, praticamos
a mais prazerosa posse do mundo.

Soavam para nós as vozes iluminadas de lua,
e era a vida abrasadora e violenta,
ingratos com o sonho, fluíamos.
O ritmo sombrio das ondas
nos abrasava eternamente, e éramos apenas tempo.
Apagavam-se as estrelas ao amanhecer
e, com a luz que fria regressava,
furioso e delicado se iniciava o amor.

Hoje parece um engano que fôssemos felizes
ao modo imerecido dos deuses.
Que estranha e breve foi a juventude!

Trad.: Nelson Santander

Los Veranos

¡Fueron largos y ardientes los veranos!
Estábamos desnudos junto al mar,
y el mar aún más desnudo. Con los ojos,
y en unos cuerpos ágiles, hacíamos
la más dichosa posesión del mundo.

Nos sonaban las voces encendidas de luna,
y era la vida cálida y violenta,
ingratos con el sueño transcurríamos.
El ritmo tan oscuro de las olas
nos abrasaba eternos, y éramos solo tiempo.
Se borraban los astros en el amanecer
y, con la luz que fría regresaba,
furioso y delicado se iniciaba el amor.

Hoy parece un engaño que fuésemos felices
al modo inmerecido de los dioses.
¡Qué extraña y breve fue la juventud!

Javier Salvago – Ano Novo

Como as coisas não podiam
ficar pior
– escreveu Kafka,
em seu Diário – melhoraram.

Como eu gostaria, ante este negro
e inóspito horizonte que se abre,
diante de mim – como mais um ano,
ou como menos um ano -,
de poder dizer o mesmo.
Mas sinto
que ainda não cheguei ao fundo,
que há mais miséria, mais dor, mais tédio
mais adiante, que as coisas
podem piorar.
Que o pior, por assim dizer,
ainda está por vir.

Trad.: Nelson Santander

Javier Salvago – Año Nuevo

Como las cosas no podían
ir a peor
— escribió Kafka,
en su Diario —, mejoraron.

Cómo me gustaría, ante este negro
e inhóspito horizonte que se abre,
ante mí — como un año más,
o como un año menos —,
poder decir lo mismo.
Pero siento
que no he tocado fondo,
que hay más miseria, más dolor, más tedio
más adelante, que las cosas
pueden empeorar.
Que lo peor, como quien dice,
aún está por llegar.

Nota do tradutor: 1º de janeiro de 2019: o dia em que Jair Messias Bolsonaro tomou posse como o 38º Presidente da República Federativa do Brasil. Ano novo?

Joan Margarit – Canção de Ninar

Dorme, Joana.
E que este Loverman obscuro e trágico
do sax de teu irmão em Montjuïc
possa acompanhar-te
toda a eternidade pelos caminhos
que são bem conhecidos pela música.
Dorme, Joana, dorme.
E de preferência não esqueças
de teus anos no ninho
que dentro de nós tu deixaste.
Enquanto envelhecemos,
conservaremos todas as cores
que brilharam em teus olhos.
Dorme, Joana. Esta é nossa casa,
e tudo ilumina teu sorriso.
Um tranquilo silêncio: aqui esperamos
arredondar estas pedras de dor
para que o quanto foste seja música,
a música que preenche o nosso inverno.

Trad.: Nelson Santander

Canción de Cuna

Duerme, Joana.
Y que este Loverman oscuro y trágico
del saxo de tu hermano en Montjuïc
te pueda acompañar
toda la eternidad por los caminos
que son bien conocidos por la música.
Duerme, Joana, duerme.
Y a poder ser no olvides
tus años en el nido
que dentro de nosotros has dejado.
Mientras envejecemos,
conservaremos todos los colores
que han brillado en tus ojos.
Duerme, Joana. Esta es nuestra casa,
y todo lo ilumina tu sonrisa.
Un tranquilo silencio: aquí esperamos
redondear estas piedras del dolor
para que cuanto fuiste sea música,
la música que llene nuestro invierno.

José Mateos – Canção 10

Canção 10

(Ruínas de Bolonha)

Disse o sol do entardecer,
aqui, defronte ao mar:
Morrer
é começar a voltar.

Trad.: Nelson Santander

José Mateos – Canción 10

(Ruinas de Bolonia)

Aquí, frente al mar, lo dice
el sol del atardecer:
Morir
es empezar a volver.

Luis Alberto de Cuenca – Quando Penso nos Velhos Amigos

Quando penso nos velhos amigos que saíram
de minha vida, unindo-se a más mulheres
que alimentam seu medo e os enchem de filhos
para tê-los por perto, controlados e inermes.

Quando penso nos velhos amigos que se foram
para o país da morte, sem passagem de volta,
só porque procuraram o deleite nos corpos
e o olvido nas drogas que abrandam a tristeza.

Quando penso nos velhos amigos que, no fundo
das águas da memória, me ofertaram um dia
a estranha sensação de não me sentir só
e a cumplicidade de um sorriso sincero…

Trad.: Nelson Santander
 

Luis Alberto de Cuenca – Cuando pienso en los viejos amigos

Cuando pienso en los viejos amigos que se han ido
de mi vida, pactando con terribles mujeres
que alimentan su miedo y los cubren de hijos
para tenerlos cerca, controlados e inermes.

Cuando pienso en los viejos amigos que se fueron
al país de la muerte, sin billete de vuelta,
sólo porque buscaron el placer en los cuerpos
y el olvido en las drogas que alivian la tristeza.

Cuando pienso en los viejos amigos que, en el fondo
del mar de la memoria, me ofrecieron un día
la extraña sensación de no sentirme solo
y la complicidad de una franca sonrisa…

Amalia Bautista – Nu de Mulher

Para ti nunca passei de um bloco
de mármore. Esculpiste nele o meu corpo,
um corpo de mulher branco e formoso,
em que não viste nada a não ser pedra
e o orgulho, isso sim, do teu trabalho.
Nunca imaginaste que eu te amava
e que tremia quando, docemente,
me modelavas os seios e os ombros,
ou alisavas as coxas e o ventre.
Hoje, estou num jardim, onde suporto
os rigores do frio pelo Inverno,
e no Verão aqueço de tal modo
que nem sequer os pardalitos vêm
pousar nas minhas mãos pois estas queimam.
Mas, de tudo isto, o que mais me dói
é baixar a cabeça e ver a placa:
”Nu de mulher”, como há tantas outras.
Nem te lembraste de me dar um nome.

Trad.: Inês Dias

Luz del medio día

Amalia Bautista – Desnudo de Mujer

Para ti nunca fui más que un pedazo
de mármol. Esculpiste en él mi cuerpo,
un cuerpo de mujer blanco y hermoso,
en el que nunca viste más que piedra
y el orgullo, eso sí, de tu trabajo.
Jamás imaginaste que te amaba
y que me estremecía cuando, dulce,
moldeabas mis senos y mis hombros,
o alisabas mis muslos y mi vientre.
Hoy estoy en un parque, donde sufro
los rigores del frío en el invierno,
y en verano me abraso de tal modo
que ni siquiera los gorriones vienen
a posarse en mis manos porque queman.
Pero, de todo, lo que más me duele
es bajar la cabeza y ver la placa:
«Desnudo de mujer», como otras muchas.
Ni de ponerme un nombre te acordaste.

Joan Margarit – Tchaicovsky

Não te suicides nunca. Olha a escuridão:
nunca poderás saber quem te estende a mão.
Lembras-te do inverno de luz nos cristais
e a cumplicidade daquela música?
Ouço a Patética e me vejo
desejando que a morte de Joana
nos devolvesse a ordem e a felicidade
que acreditamos perder quando ela nasceu.
Amor meu, Joana, a ternura
que desejava matar como a aquelas crianças
que nas tragédias são uma ameaça
para o futuro dos assassinos.
Como as deteremos, nossas mãos?
Escuto a Patética derrotado,
como tu, pelo tempo e pelo amor.
Tenho seus olhos – quem os inventou, olhares? -,
os olhos que não os tinham estátua nenhuma
de Fídias. Estes olhos,
que já me perdoaram, de Joana.

Trad.: Nelson Santander

Joan Margarit – Tchaicovsky

No te suicides nunca. Mira la oscuridad:
jamás podrás saber quien te tiende la mano.
¿Recuerdas el invierno de luz en los cristales
y la complicidad de aquella música?
Escucho la Patética y me veo
deseando que la muerte de Joana
nos devolviera el orden y la felicidad
que creímos perder cuando nació.
Amor mío, Joana, la ternura
que deseava matar como a esos niños
que en las tragedias son una ameaza
para el futuro de los asesinos.
¿Cómo las detuvimos, nuestras manos?
Escucho la Patética vencido,
como tú, por el tiempo y el amor.
Tengo sus ojos – ¿quién os inventó, miradas? -,
los ojos que no tuvo estatua alguna
de Fidias. Estos ojos,
que ya me han perdonado, de Joana.

Francisco Brines – Sitiado pela Divindade

Hoje voltas-te para o mar,
com o corpo nu como na juventude,
e todo o peso de ouro caindo sobre as costas
como um interminável falcão que, azul, plana ao largo
e pousa no braço, sem emitir sons, e respira.

Descubro, com sereno assombro, minha existência,
e o mundo então existe – o mar, que para a criança
é sempre liberdade, espaço de quietude,
e o mistério de nele reconhecer a eternidade
pulsando no tempo;
um céu, que é quimera e verdade,
e esta praia deserta,
que tinha tantas pegadas, e todas se apagaram,
e espera outras diferentes, vãos sinais,
e é um espelho sem brilho, sem luz, um espelho cego.

Descubro, com sereno assombro, que ainda existo,
e o mundo então existe, e há uma testemunha
que canta as costas atordoadas,
e é ele, na solidão e no silêncio distante,
que, desolado, busca, atrás de si,
de novo conhecer aquele que um dia existiu e está extinto,
pois o dorso está de novo cingido
pela divindade, pelo ouro do tempo.

De forma traiçoeira a carne ressuscita, e neste encontro inofensivo
da pele com o ar sob o sol azul
de novo lembras ao homem que, no tempo,
tudo ainda é verdade: o mar e seu som,
os aromas que emanam das montes,
o corpo na solidão.
Mas junto com o tempo lento há outro breve
e o que se aninha na cabeça dos homens,
nos dois esconderijos do amor, é rápido,
era feliz e inocente, e cansado, e era infeliz,
e habitou a amargura, e repousou depois,
e sabia da ilusão e estava apaixonado, e era paciente.
Nesta tarde ele observa esse outro tempo
que sabe que não é seu,
o que leva e repousa as ondas na orla
e faz habitar a luz nos vôos do vento,
o tempo que não vê, nem ouve nada, nem sabe,
e desde sempre roda regressando a um princípio.
O ouro pousou e fez cantar as costas,
e tudo foi unidade, lembro agora,
e o quão longe estou daquela juventude,
hoje que as costas sustentam
o calor acabado de uma tarde triunfal de primavera.
Com destino de sombra as palavras
apressam a noite e o silêncio:
olhai, mirai; ainda podeis ver o mar.

Trad.: Nelson Santander

Sitiado por la Divindad

Hoy vuelves frente al mar,
con el cuerpo desnudo como en la juventud,
y todo el peso de oro cayendo sobre el hombro
como un interminable pájaro halcón que, azul, resbala extenso
y se tensa en el brazo, sin emitir sonidos, y respira.

Descubro, con reposado asombro, mi existencia,
y el mundo existe ahí -el mar, que para el niño
es siempre libertad, espacio de frescura,
y el misterio de en él reconocer la eternidad
palpitando en el tiempo;
un cielo, que es quimera y verdad,
y esta playa desierta,
que tuvo tantas huellas, y todas las borró,
y espera otras distintas, signos vanos,
y es un espejo sordo, sin luz, es un espejo ciego-.
Descubro, con reposado asombro, que aún existo,
y el mundo existe ahí, y hay un testigo
al que le canta el hombro deslumbrado,
y es él, en soledad y en distante silencio,
quien desolado busca, tras de sí,
de nuevo conocer a quien un día fue y está extinguido,
pues el hombro de nuevo está sitiado
por la divinidad, por el oro del tiempo.

Con falsedad la carne resucita, y en ese tacto indemne
de la piel con el aire bajo del sol azul
de nuevo advierte el hombre que, en el tiempo,
todo es aún verdad: el mar y su sonido,
las aromas que bajan de los montes,
el cuerpo en soledad.
Mas junto al tiempo lento hay otro breve,
y el que anida en la frente de los hombres,
en las dos madrigueras del amor, es raudo,
fue dichosos e inocente, y hastiado, y fue infeliz,
y habitó en la amargura, y reposó después,
y supo del engaño y estuvo enamorado, y fue paciente.
En esta tarde obseva ese otro tiempo
que sabe que no es suyo,
el que lleva y descansa las olas en la orilla
y hace habitar la luz en los vuelos del aire,
el tiempo que no ve, ni oye nada, ni sabe,
y desde siempre rueda regresando a un principio.
El oro se posó e hizo cántico el hombro,
y todo fue unidad, ya lo recuerdo ahora,
y cuánta lejanía de aquella juventud,
hoy que el hombro sostiene
el calor acabado de una tarde triunfal de primavera.
Con destino de sombra las palabras
apresuran la nochhe y el silencio:
ojod, mirad; aún podéis ver el mar