Categoria: Poesia em Língua Espanhola
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Luis Alberto de Cuenca – O desjejum

Gosto quando dizes disparates, quando fazes asneiras, quando mentes, quando vais às compras com tua mãe e chego atrasado ao cinema por tua culpa. Gosto mais quando é meu aniversário e me cobres de beijos e bolos, ou quando estás feliz e dá para notar, ou quando és genial com uma frase que resume tudo,…
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Joan Margarit – Banheiro

Cuido para que não caias ao banhar-te,e ao secar-te as costas sigo suavementea grande cicatriz da espinha.O futuro está sempre na janela.Tua vida é este pequeno espaçode tua cama e tua música, este céude umas poucas pessoas e uma casa.E pela primeira veznão estarei mais contigo.Não virei mesmo que me chames.Ficarei te olhandonas fotografias dos…
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Jorge Luis Borges – O cego

I Foi despojado do diverso mundo, Dos rostos, que ainda são o que eram antes, Das ruas próximas, hoje distantes, E do côncavo azul, ontem profundo. Dos livros lhe restou só o que deixa A memória, essa fórmula do olvido Que o formato retém, não o sentido, E que apenas os títulos enfeixa. O desnível…
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Carlos Bousoño – À distância

Passa a juventude, e passa a vida, passa o amor, a morte também passa, o vento, a amargura que trespassa a pátria espessa, hirta e adormecida. Adormecida, em sonho eterno, olvida. Mortos e vivos na mesma argamassa dormem igual sina e alegria escassa. Pátria, profundeza, pedra perdida. Pedra perdida, imersa, vivos, mortos. Toda Espanha dorme…
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Juan Vicente Piqueras – Confissão do fugitivo

Só sou feliz partindo. Não entre quatro paredes, à mercê das espadas, mas entre aqui e ali, uma e outra casa, ambas de preferência alheias. Já não posso, nem quero, estar quieto. Nem agora nem depois. Nem aqui nem ali. Em todo caso aí, onde tu estás, seja tu quem fores, põe o teu nome…
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Nicolás Guillén – Um poema de amor

Não sei. Ignoro-o.Desconheço todo o tempo que andeisem encontrá-la novamente.Quem sabe um século? Talvez.Talvez um pouco menos: noventa e nove anos.Ou um mês. Poderia ser. De qualquer formaum tempo enorme, enorme, enorme.Ao fim como uma rosa súbita,repentina campânula tremendo,a notícia.Saber de prontoque ia voltar a vê-lá, que a teriaperto, tangível, real, como nos sonhos.Que troar…
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Joan Margarit – Por que fomos covardes

Não poderás esquecer meu corpo esguio e ágil. Sempre farás amor com uma sombra de olhos azuis, e estarás tão só como em uma vingança. Ao longe, as luzes de Roses cintilam assim como a minha memória. Há uma fúria triste, mas ninguém no final. Perdemos o cavalo sem cavaleiro que nunca passa uma segunda…
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Idea Vilariño – Não mais

Não mais será não mais não viveremos juntos não criarei teu filho não coserei tua roupa não te terei à noite não te beijarei ao partir nunca saberás quem fui por que outros me amaram. Não chegarei a saber por que nem porque nunca nem se era verdadeiro o que disseste que era nem quem…
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Luis Alberto de Cuenca – O véu protetor

Amanheceu e nós estávamos dentro da vil realidade, o que não pode ser bom. Melhor seria que passassem logo as horas inúteis em que o dia proscreve a aventura com as normas do tédio laboral, e que voltassem a noite e as suas estrelas a envolver-nos no seu véu fantástico e a dar-nos a inútil…
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Jaime Gil de Biedma – Depois da morte de Jaime Gil de Biedma

No jardim, lendo, a sombra da casa tolda as páginas e o frio repentino do final de agosto faz-me pensar em ti. O jardim e a casa vizinha onde piam os pássaros nas trepadeiras, uma tarde de agosto, quando começa a anoitecer e tem-se ainda o livro nas mãos, eram, lembro-me, teu símbolo da morte.…