Categoria: Poesia em Língua Espanhola
-
Joan Margarit – Vida Social

Idealizavas esta solidãopara ouvir música ou ler,e caminhar no inverno junto ao mar.Mas a solidão é uma chuvaque suja as janelas deste trem dos anos.A solidão é a palavra crueldo acre ressentimento familiar.É a lei do acaso, um labirinto injusto.É não ter dinheiro, é ter medo.É o sexo, uma estranha pista falsaque conduz ao mais…
-
Joan Margarit – El Primer Frío

Acompanhei-te até o museu, no parque,em uma manhã de inverno. Detivemo-nosdiante daquela escultura: El primer frío.Era de mármore cinzento: um velho, nu,olha ao longe, entre as folhas mortasque o vento carrega.A arte não é diferente da vida,lembro que disseste. Mas euvia apenas um mármore frio,um tanto retórico, e pensava em garotas.Entre aquele dia e hoje,…
-
Ángel González – O amanhã é um mar profundo que precisamos atravessar a nado

Queria ser alga, alga enredada na parte suave de tuas coxas. Sopro de brisa nas tuas bochechas. Leve areia sob tua pegada. Queria ser água, água salgada quando corres nua no litoral. Sol cortando em sombra tua banal Silhueta virgem recém-molhada. Tudo quisera ser, indefinido, ao teu redor: vista, luz, ambiente gaivota, céu, navio, vela,…
-
Joan Margarit – Astapovo

De madrugada, quando só se ouvemrelógios no escuro,eu o imagino, com seus oitenta anos,fugindo em um trem russo que ia para o sul,de lugar nenhum, para onde os velhos sonham ir.Tolstói temia aquele invernoque o acompanhou durante a velhiceaté o leito de morte ferroviário,na noite em que o telégrafotransmitiu a mais breve e cruelde todas…
-
Luis Alberto de Cuenca – O desjejum

Gosto quando dizes disparates, quando fazes asneiras, quando mentes, quando vais às compras com tua mãe e chego atrasado ao cinema por tua culpa. Gosto mais quando é meu aniversário e me cobres de beijos e bolos, ou quando estás feliz e dá para notar, ou quando és genial com uma frase que resume tudo,…
-
Joan Margarit – Banheiro

Cuido para que não caias ao banhar-te,e ao secar-te as costas sigo suavementea grande cicatriz da espinha.O futuro está sempre na janela.Tua vida é este pequeno espaçode tua cama e tua música, este céude umas poucas pessoas e uma casa.E pela primeira veznão estarei mais contigo.Não virei mesmo que me chames.Ficarei te olhandonas fotografias dos…
-
Jorge Luis Borges – O cego

I Foi despojado do diverso mundo, Dos rostos, que ainda são o que eram antes, Das ruas próximas, hoje distantes, E do côncavo azul, ontem profundo. Dos livros lhe restou só o que deixa A memória, essa fórmula do olvido Que o formato retém, não o sentido, E que apenas os títulos enfeixa. O desnível…
-
Carlos Bousoño – À distância

Passa a juventude, e passa a vida, passa o amor, a morte também passa, o vento, a amargura que trespassa a pátria espessa, hirta e adormecida. Adormecida, em sonho eterno, olvida. Mortos e vivos na mesma argamassa dormem igual sina e alegria escassa. Pátria, profundeza, pedra perdida. Pedra perdida, imersa, vivos, mortos. Toda Espanha dorme…
-
Juan Vicente Piqueras – Confissão do fugitivo

Só sou feliz partindo. Não entre quatro paredes, à mercê das espadas, mas entre aqui e ali, uma e outra casa, ambas de preferência alheias. Já não posso, nem quero, estar quieto. Nem agora nem depois. Nem aqui nem ali. Em todo caso aí, onde tu estás, seja tu quem fores, põe o teu nome…
-
Nicolás Guillén – Um poema de amor

Não sei. Ignoro-o.Desconheço todo o tempo que andeisem encontrá-la novamente.Quem sabe um século? Talvez.Talvez um pouco menos: noventa e nove anos.Ou um mês. Poderia ser. De qualquer formaum tempo enorme, enorme, enorme.Ao fim como uma rosa súbita,repentina campânula tremendo,a notícia.Saber de prontoque ia voltar a vê-lá, que a teriaperto, tangível, real, como nos sonhos.Que troar…