Dennis O’Driscoll – Fora de controle

Preocupem-se, mães: vocês têm
boas razões para perder o sono,
para deixar a imaginação correr solta
enquanto se deitam na cama, sem contar carneiros
mas vendo filhos e filhas
levados para o abate como cordeiros
na carnificina das noites de sexta.

Fiquem de prontidão, mães –
nunca se sabe sua sorte –
para a batida que quebraria
o silêncio como o choque
de um impacto metálico contra os tijolos.
Continuem imaginando um giroflex da polícia,
uma lua azul rompendo a escuridão.

Deitem-se cuidadosamente, mães, onde,
dezoito anos atrás, a concepção
aconteceu na escuridão da noite,
uma trama secreta; esperem inquietas,
como se fosse um exame médico
para descobrir se vocês
ainda estão com as crianças.

Trad.: Nelson Santander

Out of Control

Worry on, mothers: you have
good reason to lose sleep,
to let imaginations run riot
as you lie in bed, not counting sheep
but seeing sons and daughters
like lambs led to slaughter
in the road kill of Friday nights.

Remain on standby, mothers –
you never know your luck –
for the knock that would break
the silence like the shock
of a metallic impact against brick.
Keep imagining a police beacon,
a blue moon shattering the darkness.

Lie warily, mothers, where,
eighteen years before, conception
took place in the black of night,
a secret plot; wait restlessly,
as if for a doctor’s test,
to find out whether
you are still with child.

Anne Sexton – Coragem

É nas pequenas coisas que a vemos.
O primeiro passo da criança,
tão espantoso quanto um terremoto.
A primeira vez que você andou de bicicleta,
tateando na calçada.
A primeira palmada, quando seu coração
partiu em uma viagem sozinho.
Quando eles o chamaram de bebezão
ou pobre ou gordo ou doido
e o transformaram num alienígena, você sorveu o ácido deles
e o escondeu.

Mais tarde,
quando você enfrentou a morte por bombas e balas,
não foi com uma bandeira,
mas apenas com um chapéu
cobrindo seu peito.
Você não afagou a fraqueza dentro de si,
embora ela estivesse lá.
Sua coragem era uma pequena brasa
que você continuava ingerindo.
Se seu amigo o salvou
e morreu no processo,
então a coragem dele não era coragem,
era amor; um amor tão simples como espuma de barbear.

Mais tarde,
quando você suportou um desespero indescritível,
fê-lo sozinho então,
recebendo uma transfusão do fogo,
arrancando as feridas do seu coração,
e torcendo-o como uma meia.
Depois, meu compatriota, você pulverizou sua dor,
deu a ela uma massagem nas costas
e cobriu-a com um cobertor;
depois de dormir um pouco,
ela despertou com as asas das rosas
e se transformou.

Mais tarde,
quando você enfrentar a velhice e sua conclusão natural,
sua coragem ainda se mostrará nas pequenas coisas,
cada primavera será uma espada que você afiará,
aqueles que você ama viverão em uma febre de amor,
e com o calendário você barganhará
e no último momento
quando a morte abrir a porta dos fundos
você calçará suas pantufas
e dará o fora.

Trad.: Nelson Santander

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Courage

It is in the small things we see it.
The child’s first step,
as awesome as an earthquake.
The first time you rode a bike,
wallowing up the sidewalk.
The first spanking when your heart
went on a journey all alone.
When they called you crybaby
or poor or fatty or crazy
and made you into an alien, you drank their acid
and concealed it.

Later,
if you faced the death of bombs and bullets
you did not do it with a banner,
you did it with only a hat to
cover your heart.
You did not fondle the weakness inside you
though it was there.
Your courage was a small coal
that you kept swallowing.
If your buddy saved you
and died himself in so doing,
then his courage was not courage,
it was love; love as simple as shaving soap.

Later,
if you have endured a great despair,
then you did it alone,
getting a transfusion from the fire,
picking the scabs off your heart,
then wringing it out like a sock.
Next, my kinsman, you powdered your sorrow,
you gave it a back rub
and then you covered it with a blanket
and after it had slept a while
it woke to the wings of the roses
and was transformed.

Later,
when you face old age and its natural conclusion
your courage will still be shown in the little ways,
each spring will be a sword you’ll sharpen,
those you love will live in a fever of love,
and you’ll bargain with the calendar
and at the last moment
when death opens the back door
you’ll put on your carpet slippers
and stride out.

José Ángel Buesa – Ela amará a outro homem

Ela amará a outro homem.
Eu estarei longe, caminhando para o olvido.
E pode ocorrer que alguém mencione meu nome,
mas ela fingirá não tê-lo ouvido.

Ela amará a outro homem:
o tempo passa e o amor se finda,
e é natural que o que foi lume
acabe se transformando em cinzas.

Embora ninguém o queira,
envelhecem as vidas e as coisas,
e é natural também que na primavera
as roseiras deem rosas.

É natural. Assim,
ela amará a outro homem, e tudo bem.
Não sei se ela se esqueceu de mim,
nem me importa com quem.

Mas, quiçá, um dia,
ouvindo uma canção,
ela sinta aquela velha melodia
mudar o ritmo do seu coração.

Ou será algum vestido
que usou quando a conheci,
ou o cheiro do jardim úmido:
um dia ela há de pensar em mim.

Ou pode ser um sinal,
um jeito de olhar,
ou certas vielas, um mal cerzido botão,
ou uma folha seca ao acaso a voar.

E de alguma maneira
ela lembrará de mim, sem querer,
ao ouvir passos na ladeira
como os meus, ao entardecer.

Será em algum momento,
não importa quando nem onde, lá ou cá,
porque o amor, por semelhar-se ao vento,
parece que se foi mas aqui está.

E se, nesse momento, ela suspira
e ele pergunta o que há,
ela terá que inventar uma mentira
para dele a verdade ocultar.

E ele não verá que eu o causei,
isso que era tão meu e do que se me privou;
e, embora ele possa amá-la mais do que eu a amei,
ela não poderá amá-lo mais do que me amou…!

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO com pequenas alterações na tradução: poema publicado no blog originalmente em 15/03/2017

Ella Amará a Otro Hombre

Ella amará a otro hombre.
Yo voy lejos, andando hacia el olvido.
Y puede suceder que alguien me nombre,
pero ella fingirá no haber oído.

Ella amará a otro hombre:
el tiempo pasa y el amor finaliza,
y es natural que lo que fue una brasa
acabe convirtiéndose en ceniza.

Aunque nadie lo quiera,
envejecen las vidas y las cosas,
y es natural también que en primavera
los rosales den rosas.

Es natural. Por eso,
ella amará a otro hombre, y está bien.
No sé si ya olvidó mi último beso,
ni me importa con quién.

Pero quizás, un día,
oyendo una canción,
sentirá que esa vieja melodía
le cambia el ritmo de su corazón.

O será algún vestido
que yo le conocí,
o el olor del jardín cuando ha llovido,
pero algún día ha de pensar en mí.

O puede ser un gesto,
un modo de mirar,
o ciertas calles, o un botón mal puesto,
o una hoja seca que voló al azar.

Y de alguna manera
tendrá que recordarme, sin querer,
escuchando unos pasos en la acera
como los míos al atardecer.

Será en algún momento,
no importa cuándo o dónde, aquí o allá,
porque el amor, por parecerse al viento,
parece que se ha ido y no se va.

Y si en ese momento ella suspira
y él pregunta por qué,
le tendrá que inventar una mentira
para que nunca sepa por qué fue.

Y él no verá esa huella,
eso tan mío en lo que ya perdí;
y, aunque la pueda amar más que yo a ella,
ella no podrá amarlo más que a mí..!

Rosanna Warren – Comparação

Como quando seu amigo, excelente esquiador austríaco, na história
que ela sempre nos contava, teve que encarar
seu primeiro salto olímpico de esqui e, da
rampa de largada sobre o desfiladeiro que mergulhava
tão vertiginosamente que sua borda inferior
desaparecia de vista, olhou
para um horizonte de Alpes que nadava e balançava ao seu redor
como barcos de brinquedo em uma banheira, e ele não conseguiu,
apesar de toda sua determinação férrea,
treinamento e coragem,
desaferrar seus dedos da grade do portão de largada, de modo que
seus companheiros de equipe tiveram que se juntar para soltar
suas mãos, dedo por dedo,
a fim de libertá-lo, também

diante da morte minha
mãe agarrou as grades da cama, mas mesmo assim
olhava fixamente para a frente — e
quem foi, finalmente,
que desprendeu
suas mãos?

Trad.: Nelson Santander

Simile

As when her friend the crack Austrian skier, in the story
she often told us, had to face
his first Olympic ski jump and, from
the starting ramp over the chute that plunged
so vertiginously its bottom lip
disappeared from view, gazed
on a horizon of Alps that swam and dandled around him
like toy boats in a bathtub, and he could not
for all his iron determination,
training, and courage
ungrip his fingers from the railings of the starting gate, so that
his teammates had to join in prying
up, finger by finger, his hands
to free him, so

facing death, my
mother gripped the bed rails but still
stared straight ahead—and
who was it, finally,
who loosened
her hands?

Annie Dillard – Como consumimos nossos dias

Como consumimos nossos dias
é, evidentemente,
como consumimos nossas vidas.

O que fazemos com esta hora,
e com aquela,
é aquilo que fazemos.

Um calendário
protege do caos
e do arbítrio.

É uma rede
para capturar dias.
É um andaime

sobre o qual um trabalhador
pode ficar em pé
e laborar com ambas as mãos

em espaços de tempo.
Um calendário é uma maquete
da razão e da ordem –

desejado, dissimulado,
e por isso concebido;
é a paz e o abrigo

encravados nas ruínas do tempo;
é um bote salva-vidas
no qual você se encontra,

décadas depois,
ainda vivendo.
Cada dia é o mesmo,

por isso você se lembra
da sequência posteriormente
como um padrão borrado e potente.

How we spend our days

How we spend our days
is, of course,
how we spend our lives.

What we do with this hour,
and that one,
is what we are doing.

A schedule
defends from chaos
and whim.

It is a net
for catching days.
It is a scaffolding

on which a worker
can stand
and labor with both hands

at sections of time.
A schedule is a mock-up
of reason and order –

willed, faked,
and so brought into being;
it is a peace and a haven

set into the wreck of time;
it is a lifeboat
on which you find yourself,

decades later,
still living.
Each day is the same,

so you remember
the series afterward
as a blurred and powerful pattern.

Jim Harrison – Água

Antes de nascer eu era água.
Pensei nisso sentado em uma cadeira
azul cercado por malvas rosas, vermelhas,
e brancas no jardim em frente
ao meu estúdio verde. Há conclusões aqui
a tirar, mas eu não posso mais fazer isso. 
O homem nasce, cresce, canta, 
dança, ama, envelhece,
agoniza. Isto é um rio circular
e nós somos seus peixes que se tornam água.

Trad.: Nelson Santander

Water

Before I was born I was water.
I thought of this sitting on a blue
chair surrounded by pink, red, white 
hollyhocks in the yard in front
of my green studio. There are conclusions
to be drawn but I can’t do it anymore. 
Born man, child man, singing man, 
dancing man, loving man, old man,
dying man. This is a round river 
and we are her fish who become water.

Eavan Boland – Cartas aos mortos

I

Estudiosos do Império Antigo encontraram cerâmicas
gravadas por toda parte com marcas e sinais.

II

Escritos em louças de lodo. Nas bordas dos vasos.
Colocados na entrada dos túmulos.
O vermelho do ferro de um mundo.
Postado no limiar de outro.
Chamaram-nas de cartas aos mortos.

III

Eles não choravam ou se lamentavam por meio destas marcas e sinais.
Eles eram intimistas, suplicantes, desesperados, locais.

IV

Aqui, no limiar de uma primavera irlandesa
que você não pode mais ver,
arbustos de espinheiros com suas
pequenas flores de marfim
em breve ganharão vida em cada vento. Em breve,
cada encosta será uma noiva distante.

V

Se eu pudesse escreve-la de uma maneira diferente,
a história secreta de um lugar,
como se fosse uma história de águas ocultas, percebidas apenas
pela estranha acústica de um riacho sob os pés
na grama baixa
seria esta –
esta história.

VI

Eu queria trazer-lhe prendas da ilha,
o espinheiro da última semana de abril,
a vista do Liffey acima de Leixlip.
Os salgueiros ali poderiam ser meninas,
seus cabelos ainda molhados depois de um mergulho.
Em vez disso, trouxe-lhe indagações.

VII

Quantas filhas ficaram sozinhas em um túmulo,
e pensaram isto das vidas de suas mães?
Que elas eram jovens em um país que odiava o corpo da mulher.
Que envelheceram em um país que odiava o corpo da mulher.

VIII

Eles pediam conselhos aos mortos.
Eles pediam poder aos mortos.
Estas são as minhas cartas aos mortos.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: Letters to the Dead foi publicado na obra Domestic Violence (2007), e integra a Seção com o mesmo nome, da qual faz parte também, dentre outros, o poema And Soul, já traduzido e publicado neste blog (E alma).

Letters to the Dead

I

In the Old Kingdom scholars found pottery
written round and around with signs and marks.

II

Written in silt ware. On the rims of bowls.
Laid at the entrance to tombs.
Red with the iron of one world.
Set at the threshold of another.
They called them letters to the dead.

III

They did not mourn or grieve these signs or marks.
They were intimate, imploring, local, desperate.

IV

Here at the threshold of an Irish spring
you can no longer see,
hawthorn bushes with their
small ivory flowers
will soon come alive in every wind. Soon,
every hillside will be a distant bride.

V

If I could write it differently,
the secret history of a place,
as if it were a story of hidden water, known only
through the strange acoustic of a stream underfoot
in shallow grass
it would be this –
this story.

VI

I wanted to bring you the gifts of the island,
the hawthorn in the last week of April,
the sight of the Liffey above Leixlip.
The willows there could be girls,
their hair still wet after a swim.
Instead, I have brought you a question.

VII

How many daughters stood alone at a grave,
and thought this of their mothers’ lives?
That they were young in a country that hated a woman’s body.
That they grew old in a country that hated a woman’s body.

VIII

They asked for the counsel of the dead.
They asked for the power of the dead.
These are my letters to the dead.

Tarde na Andaluzia, de Sahar Romani, lido por Sandra Daher

Sandra Daher, uma generosa seguidora do blog, publica em seu perfil no Facebook a leitura que faz de poemas que a inspiram.

Em sua postagem mais recente, ela surge lendo o belíssimo “Tarde na Andaluzia”, de Sahar Romani, traduzido por mim e publicado há algum tempo no blog.

Confiram o resultado clicando no link que segue e aproveitem para vê-la declamando outros grandes poemas.

“Tarde na Andaluzia”, de Sahar Romani, lido por Sandra Daher

Tarde na Andaluzia

E por que a geometria não seria igual à divindade

1000 + 1 + 1 + 1 O que é a fé

senão a confiança no uno & infinito Uma vez


em Granada observei um muro de polígonos

ou eram estrelas ou abelhas ou por um segundo um fulgor

de gladíolos em um campo até que pude ver


uma galáxia planetas girando raios de uma roda

relógios ou botões videiras florescendo um tornado

de um século futuro jardim de elipses


a córnea do meu amante acesa em cada manhã

Deus tão distante & bem na minha frente


Trad.: Nelson Santander

Afternoon in Andalusia


But why wouldn’t geometry equal divinity

1000 + 1 + 1 + 1 What is faith

but trust in one & infinity Once


in Granada I studied a wall of polygons

or was it stars or bees or for a second a flash

of gladiolas in a field until I could see


a galaxy planets spinning spokes on a wheel

clocks or buttons vines blooming a tornado

from a future century garden of ellipses


my lover’s cornea alight each morning

God so far away & right in front of me

Stephen Dunn – Ignorância

O sonho antigo de voar se tornou realidade
e eu olho para cima, sem espanto.
Por que não cai?
Uma pergunta de criança que eu não sei responder.
Eu visto minha ignorância naquilo que eu sei.
Uma vez houve pterodátilos, eu digo.
Uma vez o céu era presságios e pássaros.

Ele é imenso e diminuto e tão alto
que não emite nem um som.
Se fosse para lançar bombas, se por sorte
uns poucos de nós fôssemos salvos
e tivéssemos que começar de novo, eu não teria nada
para o sofrimento além de palavras.

Digo à minha filha
que estive lá em cima, no céu,
mas nós dois não ficamos impressionados.
Ela viu Star Wars. E eu já não
peço mais um lugar à janela.
Diante de um voo, eu penso na morte.
Não direi isso a ela

como não lhe direi que a casa
é a sua caverna e eu o homem peludo que retorna
toda noite, frequentemente atônito e confuso.

Trad.: Nelson Santander

Ignorance

The ancient dream of flying has come true
and I look up, unamazed.
Why doesn’t it fall?
A child’s question I can’t explain.
I dress my ignorance in what I know.
Once there were pterodactyls, I say.
Once the sky was guesswork and birds.

It’s immense and small, so high
it isn’t making a sound.
If it were to drop bombs, if by luck
a few of us were saved
and had to start again, I’d have nothing
for the pain but words.

I tell my daughter
I’ve been up there, in the sky,
but both of us are unimpressed.
She’s seen Star Wars. And I no longer
ask for a window seat.
Faced with flying, I think of death.
I will not tell her this

as I will not tell her the house
is her cave and I the hairy man who returns
each night, often speechless and confused.

Linda Pastan – Por trás do

        "Busco pelo que está por trás das palavras que são ditas..."
– William Stafford

Por trás do “Eu te amo”
reside um “adeus”.
Por trás do
“adeus”
mora um “foi maravilhoso
ali no gramado, encharcados
de tanto verde,
juntos”.
Palavras que esperam
são escuras como sombras
nos quartos dos fundos
dos espelhos:
quando você levanta
sua mão direita
em saudação,
elas levantam a esquerda
em despedida.

Trad.: Nelson Santander

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In back of

          "I'm looking for things back of remarks that are said..."
– William Stafford

In back of “I love you”
stands “goodbye.”
In back of
“goodbye”
stands “it was lovely
there in the grass, drenched
in so much green
together.”
Words that wait
are dark as shadows
in the back rooms
of mirrors:
when you raise
your right hand
in greeting,
they raise their left
in farewell.