Eavan Boland – Cartas aos mortos

I

Estudiosos do Império Antigo encontraram cerâmicas
gravadas por toda parte com marcas e sinais.

II

Escritos em louças de lodo. Nas bordas dos vasos.
Colocados na entrada dos túmulos.
O vermelho do ferro de um mundo.
Postado no limiar de outro.
Chamaram-nas de cartas aos mortos.

III

Eles não choravam ou se lamentavam por meio destas marcas e sinais.
Eles eram intimistas, suplicantes, desesperados, locais.

IV

Aqui, no limiar de uma primavera irlandesa
que você não pode mais ver,
arbustos de espinheiros com suas
pequenas flores de marfim
em breve ganharão vida em cada vento. Em breve,
cada encosta será uma noiva distante.

V

Se eu pudesse escreve-la de uma maneira diferente,
a história secreta de um lugar,
como se fosse uma história de águas ocultas, percebidas apenas
pela estranha acústica de um riacho sob os pés
na grama baixa
seria esta –
esta história.

VI

Eu queria trazer-lhe prendas da ilha,
o espinheiro da última semana de abril,
a vista do Liffey acima de Leixlip.
Os salgueiros ali poderiam ser meninas,
seus cabelos ainda molhados depois de um mergulho.
Em vez disso, trouxe-lhe indagações.

VII

Quantas filhas ficaram sozinhas em um túmulo,
e pensaram isto das vidas de suas mães?
Que elas eram jovens em um país que odiava o corpo da mulher.
Que envelheceram em um país que odiava o corpo da mulher.

VIII

Eles pediam conselhos aos mortos.
Eles pediam poder aos mortos.
Estas são as minhas cartas aos mortos.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: Letters to the Dead foi publicado na obra Domestic Violence (2007), e integra a Seção com o mesmo nome, da qual faz parte também, dentre outros, o poema And Soul, já traduzido e publicado neste blog (E alma).

Letters to the Dead

I

In the Old Kingdom scholars found pottery
written round and around with signs and marks.

II

Written in silt ware. On the rims of bowls.
Laid at the entrance to tombs.
Red with the iron of one world.
Set at the threshold of another.
They called them letters to the dead.

III

They did not mourn or grieve these signs or marks.
They were intimate, imploring, local, desperate.

IV

Here at the threshold of an Irish spring
you can no longer see,
hawthorn bushes with their
small ivory flowers
will soon come alive in every wind. Soon,
every hillside will be a distant bride.

V

If I could write it differently,
the secret history of a place,
as if it were a story of hidden water, known only
through the strange acoustic of a stream underfoot
in shallow grass
it would be this –
this story.

VI

I wanted to bring you the gifts of the island,
the hawthorn in the last week of April,
the sight of the Liffey above Leixlip.
The willows there could be girls,
their hair still wet after a swim.
Instead, I have brought you a question.

VII

How many daughters stood alone at a grave,
and thought this of their mothers’ lives?
That they were young in a country that hated a woman’s body.
That they grew old in a country that hated a woman’s body.

VIII

They asked for the counsel of the dead.
They asked for the power of the dead.
These are my letters to the dead.

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