Sean O’Brien – Contando a chuva

Verifique o gás e guarde a chave da porta de trás.
Tranque tudo. Certifique-se de que o fez
E então saia e conte a chuva, e desta vez
Faça-o direito. Você não estará em casa nunca mais.

Trad.: Nelson Santander

Counting the Rain

Check the gas and hide the back door key.
Lock up. Make sure you have, and then
Go out and count the rain, and this time
Do it properly. You won’t be home again.

Jaime Manrique – O céu sobre a casa de minha mãe

É uma noite de julho
perfumada com gardênias.
Brilham a lua e as estrelas
sem revelar a essência da noite.
Ao longo do crepúsculo
— com suas gradações cada vez mais intensas de ônix,
e o resplendor dourado das estrelas e das sombras —
minha mãe arrumou a casa, o jardim, a cozinha.
Agora, enquanto ela dorme,
eu caminho em seu jardim,
imerso no vazio desta hora.
Os nomes de muitas
flores e árvores me escapam,
e antes havia mais pinheiros
onde agora florescem as laranjeiras.
Esta noite penso em todos os céus
que já observei e que uma vez amei.
Esta noite as sombras
ao redor da casa são benignas.
O céu é uma câmara escura
que projeta imagens desfocadas.
Na casa de minha mãe,
os brilhos das estrelas
me perfuram com nostalgia,
e cada fio da rede que circunda este universo
é uma ferida que não cicatriza.

Trad.: Nelson Santander

El cielo encima de la casa de mi madre

Es una noche de julio
perfumada de gardenias.
La luna y las estrellas brillan
sin revelar la esencia de la noche.
A través del anochecer
—con sus gradaciones cada vez más intensas de ónix,
y el resplandor dorado de los astros, de las sombras—
mi madre ha ido ordenando su casa, el jardín, la cocina.
Ahora, mientras ella duerme,
yo camino en su jardín,
inmerso en la soledad de esta hora.
Se me escapan los nombres
de muchos árboles y flores,
y había más pinos antes
donde los naranjos florecen ahora.
Esta noche pienso en todos los cielos
que he contemplado y que alguna vez amé.
Esta noche las sombras
alrededor de la casa son benignas.
El cielo es una cámara oscura
que proyecta imágenes borrosas.
En la casa de mi madre
los destellos de los astros
me perforan con nostalgia,
y cada hilo de la red que circunvala este universo
es una herida que no sana.

Amalia Bautista – O que fazes aqui

Pensei que te havia dito adeus,
um adeus definitivo, ao deitar-me,
quando pude finalmente fechar meus olhos
e esquecer-me de ti e de tuas artimanhas,
tua insistência, tuas más intenções,
da tua capacidade de anular-me.
Pensei que te havia dito adeus
para todo o sempre, e desperto
e te encontro de novo junto a mim,
dentro de mim, me envolvendo, ao meu lado,
invadindo-me, sufocando-me, diante
dos meus olhos, na minha vida
à minha sombra, nas minhas entranhas,
em cada pulsação do meu sangue, entrando
pelo meu nariz quando respiro, espiando
através de minhas pupilas, ateando fogo
nas palavras que minha boca diz.
E agora, o que eu faço? Como posso
banir-te de mim ou acostumar-me
a conviver contigo? Comecemos
demonstrando maneiras impecáveis:
Bom dia, tristeza.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO (com pequenas alterações na tradução): poema publicado no blog originalmente em 06/01/2018

Amalia Bautista – Qué haces aquí

Crei que te había dicho adiós,
un adiós contundente, al acostarme
cuando pude por fin cerrar los ojos
y olvidarme de tí y de tus argucias
de tu insistencia, de tu mala baba,
de tu capacidad para anularme.
Creí que te había dicho adiós
del todo y para siempre, y me despierto
y te encuentro denuevo junto a mi,
dentro de mi, abarcándome, a mi vera,
invadiendome, ahogandome, delante
de mis ojos, enfrente en mi vida
debajo de mi sombra, en mis entrañas,
en cada pulso de mi sangre, entrando
por mi nariz cuando respiro, viendo
por mis pupilas, arrojando fuego
en las palabras que mi boca dice.
Y ahora ¿que hago yo? ¿como podría
desterrarte de mi o acostumbrarme
a convivir contigo? empezaremos
por demostrar modales impecables.
Buenos dias, tristeza.

Alice Walker – Mesmo assim

O amor, se é amor, nunca acaba.
Ele fica incrustado em nós,
como veios de ouro na Terra,
esperando a luz ,
esperando para ser encontrado.

Trad.: Nelson Santander

Even So

Love, if it is love, never goes away.
It is embedded in us,
like seams of gold in the Earth,
waiting for light,
waiting to be struck.

Stephen Dunn – Andrógino

Meu perdido amor, quando Zeus nos dividiu em dois —
nossa inteligência e completude
uma ameaça aos deuses — foi o início
desta dor, desta perpétua peregrinação…

Já a vi nas ruas fervilhantes e concupiscentes,
casei-me com você, ao entardecer, a segui
pelos bares; sempre que a encontrava,
a reconhecia como alguém que já vira antes.
Eu não conseguia escolher não responder ao desejo.
Apenas você compreende.

Velho agora, admito que estou
satisfeito há horas observando os cervos
jogarem com suas vidas ágeis e nervosas.
Ponderei sobre as flores e sem tristeza
observei-as deixarem cair suas folhas amarelas.

Em sonhos, você ainda sussurra para mim
e em sonhos eu sussurro de volta.
Mas fazemos menos planos.

Vou lhe contar, Andrógino, o que sei hoje
sobre o sublime. É aquele momento
quando um composto muda
de um estado para outro. É química.
Todos os amantes sabem que é a química,
não a física, que faz o mundo girar.

E talvez quando nos encontrarmos novamente
depois de uma de nossas longas jornadas em direção ao outro,
você me encontre desejando
fazer pouco mais do que pentear para trás
uma mecha de cabelo que caiu
em seu rosto, muito perto de um olho.

Estaremos sentados lado a lado,
ao meio-dia, em um parque.
Não conseguiremos ver o sol
devido ao excesso de luz.
Levarei minha mão para o seu rosto
e você inclinará sua bochecha em minha direção,
e eu moverei aquela mecha de cabelo, agora grisalha,
para onde eu sempre gostei.

Trad.: Nelson Santander

Androgyne

My lost love, back when Zeus split us in two —
our intelligence and completeness
a threat to the gods — this ache
began, this perpetual wandering…

I’ve seen you in the teeming, concupiscent
streets, I married you, at dusk I followed you
into bars; every time I found you
I recognized you as someone seen before.
I could not choose not to respond to desire.
Only you understand.

Old now, I admit to you
I’ve been content for hours watching deer
play out their nimble, nervous lives.
I’ve considered flowers and without sadness
watched them drop their yellow leaves.

In dreams you still whisper to me
and in dreams I whisper back.
But we make fewer plans.

I will tell you, Androgyne, what I learned today
about the sublime. It’s that moment
when a compound changes
from one state to another. It’s chemistry.
All lovers know it’s chemistry,
not physics, that makes the world go round.

And maybe when we meet again
after one of our long journeys toward the other,
you will find me wishing
to do little more than brush back
a lock of hair that’s fallen
across your face, too close to an eye.

We’ll be sitting side by side,
noontime, in a park.
We’ll not be able to see the sun
due to the excess of light.
I’ll raise my hand to your face
and you’ll tilt your cheek my way,
and I’ll move that lock of hair, now gray,
to where I’ve always liked it to be.

Dorianne Laux – Os amantes

Ela está quase lá. Desta vez, eles
estão sentados, unidos abaixo dos ventres,
os pés em concha como macias mãos orando
na base da coluna vertebral um do outro.
E quando algo se eleva dentro dela
em direção a uma luz, ela está certa, uma vez mais,
de que não pode suportar, ela abre os olhos
e vê o rosto dele voltado para o lado,
um braço para trás, as mãos espalmadas
sobre o colchão, de modo a se segurar
para poder alavancar seus quadris, tocar
com a ponta brilhante o ponto mais profundo.
E ela descobre que não pode suportar —
não seu belo pescoço, esticado e enfeitado,
nem seus cabelos caídos de um lado como relva de praia,
ou a asa curva de sua orelha, levemente lavada
pela luz do dia, rosa profundo do corpo interno —
o que ela não suporta é não poder ver sua face,
não que ela pense precisamente isso — ela está se movendo
e ofegando — é mais o pensamento sobre o corpo dela,
abrindo-se, como está, em sua própria pura verdade.
Então, quando sua mão se ergue de sua própria violação
e o esbofeteia, duas vezes no peito,
naquela almofada de carne musculosa logo acima do mamilo,
duas vezes, rápido, como um lactente
tentando chamar a atenção da mãe,
ela se assusta com o som,
contudo, quando ele vira o rosto em direção ao dela —
que é o que o seu corpo quer, seus olhos
se abrem, como se ela tivesse mordido —
ela o alcança e o morde, no ombro,
não com força, mas com o poder que têm as crianças
sobre aqueles que os sustentam, ligados como são
ao corpo, e portanto, presos ao prazer,
à requintada dor deste mundo.
E quando ela levanta o rosto, ele vê
para onde ela foi e que não consegue falar,
está viajando em direção a algo essencial,
ao cerne de suas necessidades, então ele simplesmente
observa, detidamente, com uma calma animal
enquanto ela arqueia e grita, observa o rosto que,
se ela pudesse ver, jamais deixaria que ele o visse.

Trad.: Nelson Santander

The Lovers

She is about to come. This time,
they are sitting up, joined below the belly,
feet cupped like sleek hands praying
at the base of each other’s spines.
And when something lifts within her
toward a light she’s sure, once again,
she can’t bear, she opens her eyes
and sees his face is turned away,
one arm behind him, hands splayed
palm down on the mattress, to brace himself
so he can lever his hips, touch
with the bright tip the innermost spot.
And she finds she can’t bear it—
not his beautiful neck, stretched and corded,
not his hair fallen to one side like beach grass,
not the curved wing of his ear, washed thin
with daylight, deep pink of the inner body—
what she can’t bear is that she can’t see his face,
not that she thinks this exactly—she is rocking
and breathing—it’s more her body’s though,
opening, as it is, into its own sheer truth.
So that when her hand lifts of its own violation
and slaps him, twice on the chest,
on that pad of muscled flesh just above the nipple,
slaps him twice, fast, like a nursing child
trying to get a mother’s attention,
she’s startled by the sound,
though when he turns his face to hers—
which is what her body wants, his eyes
pulled open, as if she had bitten—
she does reach out and bite him, on the shoulder,
not hard, but with the power infants have
over those who have borne them, tied as they are
to the body, and so, tied to the pleasure,
the exquisite pain of this world.
And when she lifts her face he sees
where she’s gone, knows she can’t speak,
is traveling toward something essential,
toward the core of her need, so he simply
watches, steadily, with an animal calm
as she arches and screams, watches the face that,
if she could see it, she would never let him see.

Anne Sexton – Frágil Fio

Minha fé
é um grande peso
suspenso por um frágil fio,
como a aranha
suspende seu bebê em uma fina teia,
como a videira,
galhos finos e madeira,
sustenta as uvas
como globos oculares,
como muitos anjos
dançam na cabeça de um alfinete.

Deus não precisa
de muito fio para manter-Se lá,
apenas uma veia fina,
com o sangue pulsando,
e um pouco de amor.
Como já se disse:
O amor e a tosse
não podem ser disfarçados.
Nem mesmo uma pequena tosse.
Nem mesmo um pequeno amor.
Então, se você tiver apenas um fino fio,
Deus não se importa.
Ele entrará em suas mãos
tão facilmente quanto dez centavos costumavam
pagar uma Coca.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 25/12/2017

Anne Sexton – Small Wire

My faith
is a great weight
hung on a small wire,
as doth the spider
hang her baby on a thin web,
as doth the vine,
twiggy and wooden,
hold up grapes
like eyeballs,
as many angels
dance on the head of a pin.

God does not need
too much wire to keep Him there,
just a thin vein,
with blood pushing back and forth in it,
and some love.
As it has been said:
Love and a cough
cannot be concealed.
Even a small cough.
Even a small love.
So if you have only a thin wire,
God does not mind.
He will enter your hands
as easily as ten cents used to
bring forth a Coke.

Philip Larkin – A casa está tão triste

A casa está tão triste. Ficou como foi deixada,
Moldada para o conforto dos últimos saintes
Querendo reconquista-los. Ao invés, despojada
De alguém para agradar, ela definha assim, carente
De um coração para esquecer que foi roubada

E voltar novamente às origens – um retrato
Alegre de como as coisas deveriam ser –
Há muito perdidas. Veja como era de fato:
Observe as fotografias e o talher.
A partitura no assento do piano. Esse prato.

Trad.: Nelson Santander

Home is so Sad

Home is so sad. It stays as it was left,
Shaped to the comfort of the last to go
As if to win them back. Instead, bereft
Of anyone to please, it withers so,
Having no heart to put aside the theft

And turn again to what it started as,
A joyous shot at how things ought to be,
Long fallen wide. You can see how it was:
Look at the pictures and the cutlery.
The music in the piano stool. That vase.

Jennifer Chang – O mito de ontem

Quando Ícaro caiu do céu,

eu levava meus filhos para o rio.
Mamãe, o que é aquilo?
                                       Um pássaro, eu disse,

porque não podia dizer tragédia.
Jovens demais para entender
o terror

de confiar nos pais,
meus filhos notaram asas
como pés chutando o solo
das nuvens.
                          Isso foi ontem. Aproximávamos-nos

do Anacostia, correndo por
um filete de estrada —
                          criatura,
                          filho caído, a engenhosidade
é o erro
ou você é?

                    Penso no meu pai
e no experimento que foi
sua vida. Ele tinha fé na fortuna
que florescia com a idade,
seu divino desatino, e cantava

o incessante brilho do sol. Mesmo hoje
estou cheia de amor por ele,
e com uma terrível vergonha.
                                                   É muito fácil

não ver Ícaro atingir a água,
mergulhar fundo, abatido pelo
ritmo implacável do rio, morto,
na melhor das hipóteses,
                     enquanto todo pai

de alguma forma continua voando,
mesmo o meu. É muito fácil
esconder-me na elegia, fingindo que sei

o que lamentar, como se a arte não fosse
um acidente, como se meus filhos
não estivessem berrando
por sanduíches no banco de trás,

cada qual um raio de caos
que o amor renomeia como intenso
e natural. O pássaro
                               esquecido; o pai

e seu relutante acólito,
ambos desgastados pela glória,
estão de uma vez por todas separados —
                                                             a quem estou protegendo?

Quando eu caí do céu,
finalmente estava livre.

Trad.: Nelson Santander

Yesterday’s Myth.

When Icarus fell out of the sky,

I was driving my sons to the river.
Mama, what’s that?
                                Bird, I said,

because I couldn’t say tragedy.
Too young to understand
the terror

of trusting a parent,
my sons noted wings
like feet kicking at the earth
from the clouds.
                              This was yesterday. We were nearing

the Anacostia, racing along
a ribbon of highway—
                                 creature,
                                 falling child, is ingenuity
the mistake,
or are you?

                      I think of my father
and the experiment
of his life. He had a faith in fate
that bloomed with age,
his godlike folly, and sang

the ceaseless blaze of the sun. Even now
I swell with love for him,
and with terrible shame.
                                         It is too easy

to not see Icarus hit the water,
fathoms deep, culled into
the river’s unrelenting rhythms, dead
at best,
                      while every father

somehow keeps flying,
even mine. It is too easy
to hide in elegy, pretending I know

what to mourn, as if art were
no accident, as if my sons
weren’t screaming
for snacks in the backseat,

each a radius of chaos
that love renames exquisite
and nature. The bird
                                forgotten; the father

and his reluctant acolyte,
both worn out by glory,
are once and for all apart—
                                          who am I protecting?

When I fell from the sky,
I was finally free.

Eavan Boland – Atlântida – Um soneto perdido

Como diabos aconteceu, eu costumava me perguntar,
de uma cidade inteira – arcos, pilares, colunatas,
isso sem falar nos veículos e animais – ter-se,
um belo dia, afundado?

Ou melhor, eu disse a mim mesma, o mundo era pequeno então.
É sem dúvida que uma grande cidade possa ter-se perdido?
Sinto falta de nossa velha cidade –

pimenta branca, pudim branco, você e eu nos reunindo
sob os vitrais em arco e o céu baixo para voltar para casa. Talvez
o que realmente aconteceu foi

o seguinte: os velhos fabricantes de fábulas procuraram arduamente por uma palavra
que transmitisse que o que se foi se foi para sempre, e
nunca a encontraram. E assim, nas melhores tradições de

onde viemos, eles deram um nome à sua dor e a afogaram.

Atlantis – A Lost Sonnet

How on earth did it happen, I used to wonder
that a whole city – arches, pillars, colonnades,
not to mention vehicles and animals – had all
one fine day gone under?

I mean, I said to myself, the world was small then.
Surely a great city must have been missed?
I miss our old city –

white pepper, white pudding, you and I meeting
under fanlights and low skies to go home in it. Maybe
what really happened is

this: the old fable-makers searched hard for a word
to convey that what is gone is gone forever and
never found it. And so, in the best traditions of

where we come from, they gave their sorrow a name and drowned it.