Don Peterson – Compaixão

Ela podia ter meses de sua vida canina,
mas para ser o quê? Ela estava leve como um ninho,
o dia todo sob suas longas orelhas
ouvindo em seu próprio peito um rádio em desalinho.
Na bancada de aço, sabendo o que aconteceria,
ela tentou e tentou levantar-se, como se para
sinalizar que ainda servia, e que deveria
fugir de nossa seleção. Voltei então sua cara
para a minha e vendo ali só amor – que a pequena
loba que ela era conhecia tão bem quanto eu –
ela se deitou e deixou que a penetrasse a agulha.
E amor foi certamente o que seu olhar devolveu
enquanto ficava rígido, e uma brilhante antena
regressava ao centro, deixando de tracejar a folha.

Trad.: Nelson Santander

Mercies

She might have had months left of her dog-years,
but to be who? She’d grown light as a nest
and spent the whole day under her long ears
listening to the bad radio in her breast.
On the steel bench, knowing what was taking shape
she tried and tried to stand, as if to sign
that she was still of use, and should escape
our selection. So I turned her face to mine,
and seeing only love there – which, for all
the wolf in her, she knew as well as we did –
she lay back down and let the needle enter.
And love was surely what her eyes conceded
as her stare grew hard, and one bright aerial
quit making its report back to the centre.

Deborah Pope – Passando

Como um carro engatado,
uma galinha estúpida demais para perceber
que sua cabeça se foi,
ou aquele som que não cessa
mesmo depois do filme
ter caído da bobina,
um telefone
tocando e tocando
na casa de onde todos
se mudaram,
através de salas onde o pó
se aprofunda em camadas,
e o cadeado é desnecessário,
assim eu continuo te amando,
meu coração claudicando,
um músculo entornando
o que não é mais desejado,
e minhas palavras movendo-se,
como um trem em seus trilhos,
em direção a uma estação lacrada,
fechada por anos,
como o último falante
de um belo idioma que
ninguém mais pode ouvir.

Trad.: Nelson Santander

Aqui: Poetry, Fevereiro de 1995

Getting Through

Like a car stuck in gear,
a chicken too stupid to tell
its head is gone,
or sound ratcheting on
long after the film
has jumped the reel,
or a phone
ringing and ringing
in the house they have all
moved away from,
through rooms where dust
is deepening skin,
and the lock is unneeded,
so I go on loving you,
my heart blundering on,
a muscle spilling out
what is no longer wanted,
and my words hurtling past,
like a train of its track,
towards a boarded-up station,
closed for years,
like some last speaker
of a beautiful language
no one else can hear.

Petrarca – Soneto CXXXIII (“O Amor me Assinalou com sua Seta”)

O amor me assinalou com sua seta,
como a neve ao sol, como a cera ao fogo,
como névoa ao vento; e já estou rouco,
dama, de humilhar-me, feito um pateta.

De teus olhos o golpe mortal veio,
contra o qual tempo e espaço nada são;
Vêm de ti, e vês como diversão,
o sol, o fogo e o vento aos quais me atenho.

O pensar me flecha, me cresta o sol,
o desejo queima: com essas armas
o amor fere, me cega e me aniquila;

e sua voz e canto angelical,
e a doce alma com que me desarmas,
são o ar do qual minha vida se exila.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 18/11/2017

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Petrarca – Soneto CXXXIII

Amor m’à posto come segno a strale,
come al sol neve, come cera al foco,
et come nebbia al vento; et son già roco,
donna, mercé chiamando, et voi non cale.

Dagli occhi vostri uscío ‘l colpo mortale,
contra cui non mi val tempo né loco;
da voi sola procede, et parvi un gioco,
il sole e ‘l foco e ‘l vento ond’io son tale.

I pensier’ son saette, e ‘l viso un sole,
e ‘l desir foco: e ‘nseme con quest’arme
mi punge Amor, m’abbaglia et mi distrugge;

et l’angelico canto et le parole,
col dolce spirto ond’io non posso aitarme,
son l’aura inanzi a cui mia vita fugge.

Juan Vicente Piqueras – Como estás

Morri na última terça-feira e ninguém notou.

O mundo permaneceu o mesmo, mudando e imutável.
Não houve furacão, anúncio, tempestade
ou nuvens por entre as quais surgisse
aquele raio de luz que aparecia
nas capas dos catecismos.

Minha filha continuou a servir-me o chá no mesmo horário
e eu continuo a sorve-lo em pequenos goles
com o canudinho que ela coloca entre os meus lábios.

Meu marido me disse não me deixes
e eu já havia partido.

As visitas seguram-me em uma das mãos.
A outra não está mais aqui.

Trazem-me presentes que já não me servem,
e perguntas que não sei responder.
Como estou, por exemplo,
ou como tenho dormido, como me sinto, essas coisas.

Vejo, sem abrir os olhos, como movem os lábios.
Dizem palavras que afugentam seus medos.

Palavras como estas. Como estás?
Como dormiste hoje?

Morri na última terça-feira.
Estou melhor.

Trad.: Nelson Santander

Cómo Estás

Morí el martes pasado y nadie se dio cuenta.

El mundo siguió igual, cambiando e inmutable.
No hubo huracán ni anuncio ni tormenta
ni nubes que dejaran que entre ellas
se colara ese rayo de luz que aparecía
en las portadas de los catecismos.

Mi hija siguió sirviéndome el té a la misma hora
y yo sigo tomándolo a sorbos menuditos
con la pajita que ella coloca entre mis labios.

Mi marido me dijo no te vayas
y yo ya me había ido.

Las visitas me cogen de una mano.
La otra ya no está aquí.

Me traen regalos que ya no me sirven,
y preguntas que no sé responder.
Cómo estoy, por ejemplo,
o qué tal he dormido, qué me apetece, cosas.

Veo, sin abrir los ojos, cómo mueven los labios.
Dicen palabras que ahuyenten su miedo.

Palabras como éstas. ¿Cómo estás?
¿Cómo has dormido hoy?

Morí el martes pasado.
Estoy mejor.

Wanda Coleman – Uma conversa com meu neto de seis anos de idade

há uma tempestade cósmica sempre que ele está em minha órbita
cinco raças em guerra fora do tempo, aprisionadas

em um corpo alto e petulante, joelhos e cotovelos ossudos

os ensinamentos rigorosamente amorosos da mãe e do pai criam
raízes a despeito da engenharia de mídia e da pressão dos amigos.
as tiradas insolentes, comentários desbocados, e o humor atrevido
que em breve farão parte de suas defesas adolescentes ainda não
se materializaram. neste momento, ele sabe que não deve faltar à verdade e

assim, nesta manhã de outono, quando o chamo 
para uma conversa ancestral, ao coloca-lo no meu colo

ele hesita.

não tenha medo, eu digo. ele dá alguns pulinhos impacientes
que se transformam em contorções quando o agarro e o seguro com força

acomodado em minha suavidade, ele relaxa um pouco
mas fixa um olhar consternado em minhas mãos

isto é o que acontece, eu acho, quando os olhos vão contra o coração

          Você está todo confuso, não está?

          Sim.

          Sua mãe faz parte de mim. Qual é o meu nome?
          Do que você me chama?

          Vovó.

          Você não quer gostar de mim,
          não é mesmo?

          Sim.

          Porque eu sou morena1.

Ele fica em silêncio.

          É por que eu sou morena?

          Sim.

          Não faz mal. Eu vou
          ser morena para sempre. Tudo
          bem se eu gostar de você?

          Sim.

então eu o abraço e o solto, me perguntando
se isso será o suficiente para libertá-lo.

Trad.: Nelson Santander

  1. No poema, Wanda Coleman usa, para referir-se à sua própria cor de pele, a palavra brown, um termo frequentemente usado nos Estados Unidos para se referir às pessoas de origem afro-americana. A escolha deste termo – e não da palavra black – parece ter sido uma forma que ela encontrou de evitar a questão racial em relação ao neto, apenas uma criança, aparentemente não-preta. Tudo o que ela queria era deixa-lo menos desconfortável com a cor dela. Por isso, optei por traduzir brown como morena – e não como preta ou negra -, embora com uma certa insegurança. O tema é extremamente espinhoso, especialmente para os brancos que só podem tentar imaginar as situações dramáticas – como a descrita neste poema magnífico – enfrentadas por pessoas não-brancas.
A Talk with My Grandson, Age Six

there’s a cosmic storm whenever he’s in my orbit
five races at war outside time, trapped

in one spindly high-toned body, knobby elbows and knees

the rigorously loving teachings of mom and dad take
root despite media engineering and peer pressures.
the snippy cuttings, mouthy snipings, and cheeky wit
that will soon attend his adolescent defenses have yet
to materialize. right now he knows not to prevaricate

and so, that fall morning when i call him
to me for an ancestral chat, to take him into my lap

he hesitates.

don’t be afraid, i say. he takes a few eager skips
that turn into squirms when i grab him and hold him tight

situated in my softness, he relaxes some
but stares at my hands in consternation

this is what happens, i think, when the eyes go against the heart

You’re all mixed up, aren’t you?

Yes.

Your mother belongs to me. What’s my name?
What do you call me?

Grandma.

You don’t want to like me,
do you?

Yes.

Because I’m brown.

He’s silent.

Is it because I’m brown?

Yes.

Well, that’s okay. I’m going
to be brown forever. Is it
okay if I like you?

Yes.

then I hug him and let go, wondering
if that’s enough to set him free.

Kenneth Rexroth – Música de Alaúde

A Terra vai durar por muito tempo
Antes de finalmente congelar;
Os homens nela estarão; receberão nomes,
Justificarão seus atos.
Já nós estaremos aqui somente
Como componentes químicos —
Na verdade, uma pequena franquia.
Agora ainda temos uma vida,
Corpúsculos, ambições, carícias,
Como todos já tiveram um dia —
Todas as pessoas brilhantes, as neige d’antan1,
“Blithe Helen, white Iope, and the rest,”2
Todos os inquietos e memoráveis mortos.

Aqui, neste final de ano, nas festividades
Do nascimento, ofertemos uns aos outros
As dádivas outrora trazidas para o oeste através de desertos —
O precioso metal de nossos cabelos misturados,
O incenso de braços e pernas arrebatados,
A mirra de beijos invencíveis, desesperados —
Celebremos a Natividade
Diária e recorrente do amor,
A inesgotável epifania de nossos fluentes eus,
Enquanto a terra gira sob nós
Em neves e verões desconhecidos,
Nos inexplorados espaços entre as estrelas.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.:

1. alusão aos famosos versos do poema Ballade des dames du temps jadis, de François Villon (Paris, 01/04/1431 – França, 1463), um dos clássicos do Ubi sunt?: “(…) Mais où sont les neiges d’antan? / Prince, n’enquerez de sepmaine / Où elles sont, ne de cest an, / Qu’à ce reffrain ne vous remaine: / Mais où sont les neiges d’antan?” – Na Wikipedia, os versos estão assim traduzidos: “(…) Mas onde estão as neves de antanho! / Príncipe, não pergunteis na semana / Onde elas estão, nem neste ano, / Para que não leveis de volta este refrão: / Mas onde estão as neves de antanho!”

2. A referência aqui é a um dos versos do fantástico poema Vobiscum Est Iope (também conhecida por When thou must home), de Thomas Campion. Campion (Londres, 12/02/1567 – Londres, 01/03/1620) foi um compositor, poeta e médico inglês conhecido como um dos mais prolíficos compositores de músicas para alaúde, tendo escrito mais de cem canções para esse instrumento. No poema, Helen é, obviamente, Helena de Troia, associada poeticamente à morte e à destruição; já a “Iope Branca”, segundo esse estudo, seria Calíope, a musa da poesia épica. Segue abaixo a íntegra do poema e sua respectiva tradução (por Adriel Teixeira, Bruno Geraidine e Cristiano Gomes, na obra A imaginação educada, da Vide Editorial):

Vobiscum Est Iope

When thou must home to shades of underground,
And there arrived, a new admirèd guest,
The beauteous spirits do engirt thee round,
White Iope, blithe Helen, and the rest,
To hear the stories of thy finished love
From that smooth tongue whose music hell can move;

Then wilt thou speak of banqueting delights,
Of masques and revels which sweet youth did make,
Of tourneys and great challenges of knights,
And all these triumphs for thy beauty’s sake:
When thou hast told these honours done to thee,
Then tell, O tell, how thou didst murder me!

A tradução:

Quando no Hades fizeres morada,
Nova hóspede que causa impressão,
Por formosos espíritos cercada,
Divas aos montes prestando atenção
Na história do teu acabado amor,
Na voz que até ao Inferno causa ardor,

Falarás de banquetes suntuosos,
Grandes festas e bailes mascarados,
Duelos de cavaleiros valorosos,
Triunfos em teu nome conquistados.
Contadas as honras que granjeaste,
Conta, oh! conta como me mataste.

Lute music

The Earth will be going on a long time
Before it finally freezes;
Men will be on it; they will take names,
Give their deeds reasons.
We will be here only
As chemical constituents —
A small franchise indeed.
Right now we have lives,
Corpuscles, ambitions, caresses,
Like everybody had once —
All the bright neige d’antan people,
“Blithe Helen, white Iope, and the rest,”
All the uneasy, remembered dead.

Here at the year’s end, at the feast
Of birth, let us bring to each other
The gifts brought once west through deserts —
The precious metal of our mingled hair,
The frankincense of enraptured arms and legs,
The myrrh of desperate, invincible kisses —
Let us celebrate the daily
Recurrent nativity of love,
The endless epiphany of our fluent selves,
While the earth rolls away under us
Into unknown snows and summers,
Into untraveled spaces of the stars.

Louis Macneice – O observador de estrelas

Quarenta e dois anos atrás (para mim, se não para mais ninguém,
O número é de algum interesse), fazia uma noite brilhante e estrelada
E o expresso para o ocidente, sem cabines, ia vazio,
De modo que, saltando de um lado para outro, eu podia capturar a insólita visão
Daquelas fendas quase intoleravelmente
Brilhantes, cravadas no céu, que me fascinavam, em parte por causa
De seus nomes latinos, e em parte porque lera nos livros didáticos
O quão distantes elas estavam — parece que sua luz
As deixara (algumas ao menos) muito tempo antes de mim.

E a esta lembrança agora eu acrescento que a
Luz que deixou algumas delas naquela noite,
Quarenta e dois anos atrás, nunca chegará
A tempo para que eu a veja — e quando enfim
Aqui chegar, talvez não encontre
Mais ninguém vivo
Correndo de um lado para o outro em um trem noturno
Admirando-a e multiplicando zeros em vão.

Trad.: Nelson Santander

Star-Gazer

Forty-two years ago (to me if to no one else
The number is of some interest) it was a brilliant starry night
And the westward train was empty and had no corridors
So darting from side to side I could catch the unwonted sight
Of those almost intolerably bright
Holes, punched in the sky, which excited me partly because
Of their Latin names and partly because I had read in the textbooks
How very far off they were, it seemed their light
Had left them (some at least) long years before I was.

And this remembering now I mark that what
Light was leaving some of them at least then,
Forty-two years ago, will never arrive
In time for me to catch it, which light when
It does get here may find that there is not
Anyone left alive
To run from side to side in a late night train
Admiring it and adding noughts in vain.

Stanley Kunitz – As camadas

Eu já passei por muitas vidas,
algumas delas a minha própria,
e não sou quem eu era,
embora alguns princípios
permaneçam, e eu lute para deles não me afastar.
Quando olho para trás,
como sou compelido a fazer
antes de reunir forças
para prosseguir em minha jornada,
vejo os marcos diminuindo
em direção ao horizonte
e as fogueiras baixas se extinguindo
nos acampamentos desertos,
sobre os quais anjos necrófagos
sobrevoam com suas asas pesadas.
Oh, eu fiz de mim uma tribo
de meus verdadeiros afetos,
e minha tribo está dispersa!
Como pode o coração se reconciliar
com seu festival de perdas?
Em meio a uma ventania crescente,
a poeira persistente dos meus amigos,
aqueles que tombaram pelo caminho,
alfineta amargamente meu rosto.
No entanto, eu me volto, eu me volto,
ligeiramente exultante,
com minha vontade intacta de ir
aonde quer que eu precise,
e cada pedra no meio do caminho
é preciosa para mim.
Em minha noite mais escura,
quando a lua estava encoberta
e eu perambulava pelos escombros,
uma voz nas névoas
me orientou:
“Viva nas camadas,
não no entulho.”
Embora eu não domine a arte
de decifra-la,
sem dúvida o próximo capítulo
do meu livro de transformações
já está escrito,
ainda não terminei de mudar.

Trad.: Nelson Santander

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The Layers

I have walked through many lives,
some of them my own,
and I am not who I was,
though some principle of being
abides, from which I struggle not to stray.
When I look behind,
as I am compelled to look
before I can gather strength
to proceed on my journey,
I see the milestones dwindling
toward the horizon
and the slow fires trailing
from the abandoned camp-sites,
over which scavenger angels
wheel on heavy wings.
Oh, I have made myself a tribe
out of my true affections,
and my tribe is scattered!
How shall the heart be reconciled
to its feast of losses?
In a rising wind
the manic dust of my friends,
those who fell along the way,
bitterly stings my face.
Yet I turn, I turn,
exulting somewhat,
with my will intact to go
wherever I need to go,
and every stone on the road
precious to me.
In my darkest night,
when the moon was covered
and I roamed through wreckage,
a nimbus-clouded voice
directed me:
“Live in the layers,
not on the litter.”
Though I lack the art
to decipher it,
no doubt the next chapter
in my book of transformations
is already written,
I am not done with my changes.

Matt Rasmussen – Suicídio reverso

O cara para quem papai vendeu o carro
volta para buscar o dinheiro dele,

sai do veículo. Com trapos imundos
nós o esfregamos até que deixe de brilhar

e limpamos o seu sangue das
costuras do assento.

Cada floco de neve se move antes
de alçar ao céu enquanto eu

percebo que você não estará morto.
O não sofrimento termina

quando a desordem de sua cabeça
se reúne em torno de

uma bala em sua boca.
Você a cospe na arma do papai

antes de chegarmos na entrada da garagem,
enquanto a noite se ilumina

e nós despejamos saco após saco
de folhas no gramado,

esperando que elas pulem
para os galhos nus.

Trad.: Nelson Santander

Reverse Suicide

The guy Dad sold your car to
comes back to get his money,

leaves the car. With filthy rags
we rub it down until it doesn’t shine

and wipe your blood into
the seams of the seat.

Each snowflake stirs before
lifting into the sky as I

learn you won’t be dead.
The unsuffering ends

when the mess of your head
pulls together around

a bullet in your mouth.
You spit it into Dad’s gun

before arriving in the driveway
while the evening brightens

and we pour bag after bag
of leaves on the lawn,

waiting for them to leap
onto the bare branches.

Pedro Salinas – de “Presságios”

41

Estas frases de amor que se repetem tanto
não são nunca as mesmas.
Todas tem idêntico som,
mas uma vida anima cada uma,
virgem e só, se é que a percebes.
E não te canses nunca
de repetir as palavras iguais:
sentirás a emoção que sente a alma
ao ver nascer a estrela primeira
e ao ver que ela se multiplica, conforme a noite avança,
em outras estrelinhas
de brilho diverso e de alma única.
E assim, ao repetires esta
simples frase de amor, vão-se fixando
infinitas estrelas em teu peito:
um mesmo sol empresta luz a todas,
o sol distante que virá amanhã
quando cessarem as estrelas e as palavras.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 16/10/2017

Pedro Salinas – “Presagios”

41

Estas frases de amor que se repiten tanto
no son nunca las mismas.
idéntico sonido tienen todas,
pero una vida anima a cada una,
virgen y sola, si es que la percibes.
Y no te canses nunca
de repetir las palabras iguales:
sentirás la emoción que siente el alma
al ver nacer a la estrella primera
y al mirar que se copia, según la noche avanza,
en otras estrellitas
de distinto brillar y de alma única.
Y así al repetir esta
simple frase de amor se van prendiendo
infinitas estrellas en el pecho:
un mismo sol les presta luz a todas,
el sol lejano que vendrá mañana
cuando cesen estrellas y palabras.