Categoria: Nelson Santander – Traduções
-
Cheryl Pearson – Encantamento de proteção para um amado

Você sai com o carro em uma noite chuvosa,e minha mente corre solta. Bêbados. Pista escorregadia.Um corpo sob um lençol à beira da estrada. Eu te digo:Tenha cuidado. O que quero dizer é: Eu te amo,não vá embora. Eu quero você quente e descontente.O rejunte entre os ladrilhos do banheiro está lascando;a umidade na cozinha…
-
Wendell Berry – A Paz das Coisas Selvagens

Quando as dores do mundo crescem em mime desperto na noite ao menor somcom medo do que minha vida e a dos meus filhos possam ser,eu saio e me deito onde o pato selvagemrepousa em sua beleza sobre as águas, e a garça se alimenta.Eu penetro na paz das coisas selvagensque não sobrecarregam suas vidas…
-
Philip Schultz – Fracasso

Para pagar o funeral do meu pai,pedi dinheiro emprestado a pessoasa quem ele já devia dinheiro.Um deles o chamou de zé-ninguém.Não, eu disse, ele era um fracassado.Ninguém se lembra o nomede um zé-ninguém, é por isso queeles são chamados de zés-ninguém.Os fracassados são memoráveis.O rabino que leu um discurso convencionalsobre um homem que não pertenciaou…
-
Tamara Kamenszain – O Eco de Minha Mãe

“O Eco de Minha Mãe”, um poema de Tamara Kamenszain que aborda a experiência de cuidar da mãe em meio à perda da linguagem e da memória, refletindo sobre desamparo, inversão de papéis e o escândalo íntimo da gramática diante do esquecimento.
-
Lucille Clifton – Dois poemas

adão pensando elaroubou meu ossonão é de admirarque eu anseie cavar de voltapara dentro desesperadopara reconectar costela e argilae ser inteiro outra vez alguma carência está em mimlutando para rugir com minhaboca por um nomeesta criação é tão ferozque eu preferiria ter nascido eva pensando aqui é um território selvagemirmãos e irmãs unindogarras e asasapalpando…
-
Thomas Hardy – Autoinconsciência

A pé, ao longo daquela viaEle caminhou naquele dia,Cismando as formas que os sonhos retratavam,E ele só parecia terRaramente olhos para verAqueles momentos que o rodeavam. Cintilantes pássaros douradosFaziam um tropel animado,Bicando longas palhas, efervescentes.E, levando ramos de azevinho,Voavam cruzando o caminhoQue ele percorria, só, indiferente. Da margem até o interiorE por cima e em…
-
Sharon Olds – Minha mão

Quando olho para a minha mão, e para o dorso do meu pulso,brilhando com o petrolato que esfreguei em suas fissuras — óleo mineral,ceresina, lanolina, pantenol, glicerina,bisabolol, vejo as rugasfinas, muitas formando losangos,algumas delas longas ondulações de cicatrizes —ela me parece comovente, e afortunada. E eu gostodas veias salientes do dorso da minha mão.Faço parte…
-
José Mateos – In Memoriam

Para Pedro Sevilla Sempre, diante da dor, estamos sozinhos,não se deseja viver, e tu sabes disso.Há um instante, na penumbra de um quarto de hospital, viste a mão hirta,seu rosto afundado que o lençol ocultou.E foi como olhar-se num espelhoe perceber que somos menos que essa ausência,menos que a névoa que o ar dissipa. Eu…
-
Linda Pastan – Graça

Quando o jovem professor juntouas mãos no jantar e falou com Deussobre a minha chegada em segurançaem meio à neve, agradecendo-Lhe tambémpelo alimento que iríamos comer,foi no tom de voz que eu costumousar para falar com meus amigos quando ligoe sou atendida pela secretária eletrônica,com a qual converso sobre isso e aquilousando um tom casual,imaginando…
-
Joan Margarit – Ulisses nas águas de Ítaca

Estás chegando à ilha e agora sabeso que é o acaso. Viver, o que significa.Teu arco será pó em uma prateleira.Pó será o tear e a peça que ele tece.Os pretendentes, que no pátioacamparam,são sombras dos sonhos de Penélope.Estás chegando à ilha enquanto o mararrebenta nas rochas da costa,como faz o tempo com a Odisseia.Ninguém…