Juan Vicente Piqueras – Véspera de Permanecer

Tudo está pronto: a mala,
as camisas, os mapas, as vãs esperanças.

Estou removendo o pó das minhas pálpebras.
Já pus na lapela
a rosa dos ventos.

Tudo está em ordem: o mar, o ar, o atlas.

Só me falta o quando,
o onde, um diário de bordo,
cartas de navegação, ventos propícios,
coragem e alguém que saiba
me amar como nem eu mesmo sei.

O navio inexistente, o olhar,
os perigos, as mãos do espanto,
o fio umbilical do horizonte
que sublinha esses versos suspensivos…

tudo está preparado: a sério, em vão.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO (com alterações na tradução): poema publicado no blog originalmente em 28/04/2018

Juan Vicente Piqueras – Víspera de Quedarse

Todo está preparado: la maleta,
las camisas, los mapas, la fatua esperanza.

Me estoy quitando el polvo de los párpados.
Me he puesto en la solapa
la rosa de los vientos.

Todo está a punto: el mar, el aire, el atlas.

Sólo me falta el cuándo,
el adónde, un cuaderno de bitácora,
cartas de marear, vientos propicios,
valor y alguien que sepa
quererme como no me quiero yo.

El barco que no existe, la mirada,
los peligros, las manos del asombro,
el hilo umbilical del horizonte
que subraya estos versos suspensivos…

Todo está preparado: en serio, en vano.

Judith Viorst – A uma amiga de meia-idade considerando adultério com um homem mais jovem

É complicado ser temerária
Quando há dobras em seu derrière
E chega a hora de expor o que sua meia-calça
      está ocultando.
E embora os olhos amorosos de um marido
Façam certas concessões para suas coxas,
Jovens amantes podem ter um olhar menos benevolente para o que
      você está expondo.

É complicado se render ao pecado
Enquanto você tenta manter a barriga contraída
Esperando que o blush ainda esteja iluminando
      sua tez,
E torcendo para que ele não perceba,
Enquanto corre os dedos pelos seus cabelos pretos,
Que você ficou inequivocamente grisalha
      em toda uma outra seção.

É complicado experimentar o êxtase
Quando a sinusite se intromete em cada beijo
E quando, nas posições complicadas, suas costas
      começam a feri-la.
E quando você acrescenta tudo o que implica
Ensinar-lhe o que a excita e o que a frustra,
Talvez seja recomendável reconsiderar as virtudes da
      virtude.

Trad.: Nelson Santander

To a Middle-Aged Friend Considering Adultery with a Younger Man

It’s hard to be devil-may-care
When there are pleats in your derrière
And it’s time to expose what your panty hose
are concealing.
And although a husband’s fond eyes
Make certain allowances for your thighs,
Young lovers might look less benignly at what
you’re revealing.

It’s hard to surrender to sin
While trying to hold your stomach in
And hoping your blusher’s still brightening up
your complexion,
And hoping he isn’t aware
As he runs his fingers through your dark hair,
That you’ve grown unmistakably gray in a whole
other section.

It’s hard to experience bliss
When sinus intrudes on every kiss
And when, in the tricky positions, your back
starts to hurt you.
And when you add all it entails
To teach him what turns you on and what fails,
You might want to reconsider the virtues of
virtue.

Thom Gunn – Natureza morta

Não esquecerei tão cedo
A pele amarelo-acinzentada
À qual o rosto se havia fixado:
Pálpebras apertadas: nada dele,
Nenhum tremor interior,
Brincava na superfície.
Ele ainda respirava, e contudo
Esta era uma obscura habilidade.
Não esquecerei tão cedo
O ângulo de sua cabeça,
Mantida imobilizada para trás
Na planície estirada do colchão,
De volta daquilo que ele não podia
Nem aceitar, como uma objeção,
Nem, como um respirador de longa data,
Abandonar de forma consentida,
O tubo em sua boca selado
Em um atônito O.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: Este poema integra uma sequência de elegias compostas pelo escritor em memória de amigos que morreram durante a epidemia de aids no final da década de 1980. Este em particular foi escrito em homenagem ao seu amigo Larry Hoyt.

Still Life

I shall not soon forget
The greyish-yellow skin
To which the face had set:
Lids tights: nothing of his,
No tremor from within,
Played on the surfaces.
He still found breath, and yet
It was an obscure knack.
I shall not soon forget
The angle of his head,
Arrested and reared back
On the crisp field of bed,
Back from what he could neither
Accept, as one opposed,
Nor, as a life-long breather,
Consentingly let go,
The tube his mouth enclosed
In an astonished O.

Frances Leviston – Todo animal faz um som, exceto nós

Agosto
e os cordeiros
foram levados de suas mães.
O dia todo elas emitem seus humanos lamentos
através da cerca da fazenda até a lagoa da orelha de um fazendeiro
e ao longo da lama pela nunca esquecida
necessidade de expressar o que foi perdido –
a fala visceral, incontornável,
a fala naufragada,
a perda.

Trad.: Nelson Santander

Every Animal has a Noise Except Us

August
and the lambs
have been taken from the mothers.
All day they cast their human cries
across the field-fence, into the pond of a farmer’s ear
and down through mud to the never-forgotten
need to tell of what was lost –
the gut-fished, unrefusable tongue,
the sunken tongue,
the loss.

Francisca Aguirre – E se, depois de tudo, fosse o resto

E se, depois de tudo, fosse o resto
um ir morrendo para ao fim morrermos
por este louco afã de convertermo-nos
em contadores de um momento lesto.

E se afigura que o correto era
este sermão que vem nos repetir
que avança o furacão de nos ferir,
e é vã e absurda esta carreira.

Então fique tranquilo, amor meu,
e goza desta gruta que ofereço,
e esgota a água que eu não consumi.

O vento nos arrasta, cego e frio,
toma esta manta enquanto eu envelheço,
amar-te de outro modo não aprendi.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 07/04/2018

Francisca Aguirre – Y si después de todo, todo fuera

Y si después de todo, todo fuera,
un ir muriendo para al fin morirnos
a qué este loco empeño en convertirnos
en contables de un tiempo que no espera.

Y si resulta que lo cierto era
este sermón que viene a repetirnos
que avanza el huracán para abatirnos
y es inútil y absurda esta carrera.

Entonces, amor mío, ten sosiego,
y aprovecha esta cueva que te ofrezco
y apura el agua que yo no he bebido.

El viento nos arrastra, frío y ciego,
toma mi manta mientras yo envejezco,
amarte de otro modo no he sabido.

Adam Zagajewski – Um breve poema

Eu ouvia cânticos gregorianos
num carro em alta velocidade
em uma rodovia na França.
As árvores passavam velozes. As vozes dos monges
entoavam preces a um deus invisível
(ao amanhecer de uma capela tremendo de frio).
Domine, exaudi orationem meum,
vozes graves rogavam calmamente
como se a salvação estivesse crescendo no jardim.
Para onde eu ia? Onde o sol se escondia?
Minha vida estava em farrapos
nos dois lados da estrada, frágil como um mapa de papel.
Com os doces monges
percorri o caminho em direção às nuvens, ao azul profundo,
pesado, denso,
rumo ao futuro, ao abismo,
sorvendo duras lágrimas de granizo.
Longe da aurora. Longe de casa.
Em lugar de paredes — chapa de metal.
Em vez de vigília — vôo.
Viagem em vez de lembrança.
Um breve poema em vez de um hino.
Uma pequena e cansada estrela corria
mais à frente
e o asfalto da rodovia brilhava,
mostrando onde estava a terra,
e onde espreitava a navalha do horizonte
e a aranha negra da tarde
e da noite, viúva de tantas esperanças.

Trad.: Nelson Santander da versão do poema em inglês traduzido por Clare Cavanagh

A Quick Poem

I was listening to Gregorian chants
in a speeding car
on a highway in France.
The trees rushed past. Monks’ voices
sang praises to an unseen god
(at dawn in a chapel trembling with cold).
Domine, exaudi orationem meum,
male voices pleaded calmly
as if salvation were just growing in the garden.
Where was I going? Where was the sun hiding?
My life lay tattered
on both sides of the road, brittle as a paper map.
With the sweet monks
I made my way toward the clouds, deep blue,
heavy, dense,
toward the future, the abyss,
gulping hard tears of hail.
Far from dawn. Far from home.
In place of walls — sheet metal.
Instead of a vigil — a flight.
Travel instead of remembrance.
A quick poem instead of a hymn.
A small, tired star raced
up ahead
and the highway’s asphalt shone,
showing where the earth was,
where the horizon’s razor lay in wait,
and the black spider of evening
and night, widow of so many dreams.

(translated by Clare Cavanagh)

Czesław Miłosz – Uma vida afortunada

Sua velhice coincidiu com os anos de colheita abundante.
Não houve terremotos, secas ou inundações.
Dir-se-ia que a mudança das estações ganhava em regularidade,
As estrelas se fortaleciam e o sol aumentava seu poder.
Mesmo em províncias remotas nenhuma guerra foi travada.
Gerações cresceram amistosas para com seus semelhantes.
A natureza racional do homem não era motivo de escárnio.

Foi amargo dizer adeus a um planeta tão renovado.
Ele tinha inveja e se envergonhava de todas as suas dúvidas,
Satisfeito que sua dilacerada memória desaparecesse com ele.
Dois dias depois de sua morte um furacão arrasou os litorais.
Fumaças surgiram de vulcões inativos há cem anos.
A lava se espalhou por florestas, vinhedos e cidades.
E a guerra começou com uma batalha nas ilhas.

Trad.: Nelson Santander a partir de uma versão em inglês do poema traduzida do polonês por Peter Dale Scott & Czeslaw Milosz

A Felicitous Life

His old age fell on years of abundant harvest.
There were no earthquakes, droughts, or floods.
It seemed as if the turning of the seasons gained in constancy,
Stars waxed strong and the sun increased its might.
Even in remote provinces no war was waged.
Generations grew up friendly to fellow men.
The rational nature of man was not a subject of derision.

It was bitter to say farewell to the earth so renewed.
He was envious and ashamed of his doubt,
Content that his lacerated memory would vanish with him.
Two days after his death a hurricane razed the coasts.
Smoke came from volcanoes inactive for a hundred years.
Lava spread over forests, vineyards, and towns.
And war began with a battle on the islands.

Pedro Salinas – [A tua forma de amar]

A tua forma de amar
é deixar-me que te queiras.
O sim com que te rendes
é o silêncio. Teus beijos
são oferecer-me os lábios
para que eu possa beija-los.
Nunca palavras, abraços,
me dirão que exististe,
que me quiseste: nunca.
Dizem-mo as folhas em branco,
mapas, augúrios, chamadas;
tu, não.
E fico abraçado a ti
sem perguntar-te, com receio
que não seja verdade
que tu vives e me ama.
E fico abraçado a ti
sem olhar, sem tocar-te.
Com receio de descobrir
com perguntas, com carícias,
essa solidão imensa
de apenas eu te amar.

De “La voz a ti debida” [39]

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO (com alterações na tradução): poema publicado no blog originalmente em 03/04/2018

Pedro Salinas – La voz a ti debida [39]

La forma de querer tú
es dejarme que te quiera.
El sí con que te me rindes
es el silencio. Tus besos
son ofrecerme los labios
para que los bese yo.
Jamás palabras, abrazos,
me dirán que tú existías,
que me quisiste: jamás.
Me lo dicen hojas blancas,
mapas, augurios, teléfonos;
tú, no.
Y estoy abrazado a ti
sin preguntarte, de miedo
a que no sea verdad
que tú vives y me quieres.
Y estoy abrazado a ti
sin mirar y sin tocarte.
No vaya a ser que descubra
con preguntas, con caricias,
esa soledad inmensa
de quererte sólo yo.

Linda Pastan – Por que seus poemas são tão sombrios?

Por que seus poemas são tão sombrios?

Não é a lua também sombria,
na maior parte do tempo?

E a página em branco
não parece inacabada

sem a mancha escura
das letras?

Quando Deus demandou a luz,
Ele não baniu a escuridão.

Em vez disso, Ele criou
o ébano e os corvos

e aquela pequena pinta
no lado esquerdo do seu rosto.

Ou você quis perguntar
“Por que você está triste com tanta frequência?”

Pergunte à lua.
Pergunte o que ela testemunhou.

Trad.: Nelson Santander

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Why Are Your Poems so Dark?

Isn’t the moon dark too,
most of the time?

And doesn’t the white page
seem unfinished

without the dark stain
of alphabets?

When God demanded light,
he didn’t banish darkness.

Instead he invented
ebony and crows

and that small mole
on your left cheekbone.

Or did you mean to ask
“Why are you sad so often?”

Ask the moon.
Ask what it has witnessed.

Jorge Valdés Díaz-Vélez – Xochiquetzal

Xochiquetzal1

(Homenagem a Chuang-Tzu2)

Ontem sonhei contigo. Vestias uma
gabardine de pele, e por baixo nada.
Era outono e estavas ensopada
pela chuva; caminhavas em alguma

gare de Madrid indo para lugar
nenhum. Estancavas ocasionalmente
teus passos para sentires transluzente
tua pele resplandecer ao luar

de um espelho invisível em que havia
um homem que sonhava com uma mulher
e uma mulher seminua e bonita,

molhada de orvalho. Mas eu, todavia,
ainda pareço olhar-te suster
o fixo olhar daquela borboleta.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.:

1. Segundo este site, Xochiquetzal “é a representação do arquétipo da mulher jovem em pleno vigor sexual. É a divinização da amante, uma deusa essencialmente feminina e seu âmbito é o amor, a volúpia, a sensualidade, o desejo sexual e o prazer em geral.” Mas Xochiquetzal é também uma espécie de borboleta, a Mariposa Cometa Xochiquetzal (Pterourus multicaudata), nativa da América do Norte, muito bonita por seu tamanho e coloração amarela tigrada. No poema, o substantivo próprio pode ser compreendido em ambas as acepções.

2. O poema homenageia o grande mestre taoísta Chuang-Tzu que teria formulado o famoso argumento do sonho, que pode ser assim resumido: depois de caminhar muito durante o dia, Chuang-Tzu adormeceu debaixo de uma amoreira e, em um sono profundo, sonhou ser uma borboleta que passeava pelos lugares que ele acabara de percorrer. Quando acordou, todavia, propôs para si o seguinte dilema filosófico: “Quem sou eu? Sou Chuang-Tzu que sonhou ser uma borboleta ou sou uma borboleta sonhando que se transformou em Chuang-Tzu?” O texto é interpretado, em termos filosóficos, como uma parábola para o seguinte questionamento: o que é realidade e o que é ilusão?

Xochiquetzal

(Homenaje a Chuang-Tzu)

Anoche te soñé. Llevabas una
gabardina de piel, y abajo nada.
Era otoño y estabas empapada
de lluvia; caminabas en alguna

estación de Madrid hacia ninguna
parte. Detenías tus pasos cada
tanto para sentir azafranada
tu piel resplandecer ante la luna

de un espejo invisible donde había
un hombre que soñaba una mujer
y una mujer semidesnuda, hermosa,

mojada en el orvallo. Todavía
me parece mirarte sostener
la mirada de aquella mariposa.