Francisco Brines – Aquele verão de minha juventude

E o que restou daquele distante verão
nas costas da Grécia?
O que resta em mim do único verão de minha vida?
Se pudesse escolher, de todos em que vivi,
algum lugar, e o tempo que o ata,
sua milagrosa companhia me arrasta até lá,
onde ser feliz era a razão natural de existir.

Perdura a experiência, como um quarto fechado da infância;
não resta mais a lembrança de dias sucessivos
nesta sucessão medíocre dos anos.
Hoje sinto essa carência,
e busco na ilusão algum resgate
que me permita ainda olhar para o mundo
com o amor necessário;
E assim saber-me digno do sonho da vida.

De tudo o que foi ventura, daquele lugar de alegria,
saqueio avaramente
sempre uma única imagem:
seus cabelos agitados pelo vento,
e o olhar fixo no mar.
Tão só esse momento indiferente.
Selada nele, a vida.

Trad.: Nelson Santander

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Aquel verano de mi juventud

Y qué es lo que quedó de aquel viejo verano
en las costas de Grecia?
¿Qué resta en mí del único verano de mi vida?
Si pudiera elegir de todo lo vivido
algún lugar, y el tiempo que lo ata,
su milagrosa compañía me arrastra allí,
en donde ser feliz era la natural razón de estar con vida.

Perdura la experiencia, como un cuarto cerrado de la infancia;
no queda ya el recuerdo de días sucesivos
en esta sucesión mediocre de los años.
Hoy vivo esta carencia,
y apuro del engaño algún rescate
que me permita aún mirar el mundo
con amor necesario;
y así saberme digno del sueño de la vida.

De cuanto fue ventura, de aquel sitio de dicha,
saqueo avaramente
siempre una misma imagen:
sus cabellos movidos por el aire,
y la mirada fija dentro del mar.
Tan sólo ese momento indiferente.
Sellada en él, la vida.

Joan Margarit – Amor e tempo

Lembras quando ainda desconhecias
que a vida não teria piedade de ti?
Amor e tempo: o tempo nos habita
como a areia do rio que, lentamente,
vai moldando a forma da margem.
O amor, que refletiu em teu olhar
o esplendor da ilha do tesouro.
Sensual, solitária, cercada
pela sonora senectude do mar
e os gritos militares das gaivotas.
O sonho clandestino dos cinquenta anos.

Trad.: Nelson Santander

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Amor y tiempo

Recuerda cuando aún desconocías
que la vida no tendría piedad contigo.
Amor y tiempo: el tiempo nos habita
como arena del río que, despacio,
va cambiando la forma de la costa.
El amor, que ha copiado en tu mirada
la claridad de la isla del tesoro.
Sensual, solitaria, rodeada
por la sonora senectud del mar
y gritos militares de gaviotas.
El sueño clandestino de los cincuenta años.

Manuel Vilas – O último Elvis

Respeita sempre a decadência das mulheres
e dos homens que amaram ou pelo menos tentaram amar
a vida e esta os chamuscou ou lhes quebrou os ossos da face,
as entranhas e as veias e o fígado e o nobre coração.
Respeita todos os sagrados e humildes naufrágios
dos seres humanos.

Respeita aqueles que se suicidaram.

Respeita aqueles que se lançaram aos oceanos.

Por favor, não fales mal deles, suplico-te de joelhos.

Ama toda essa gente, essa multidão, esse rio amarelo
da História de todos quantos foram derrotados tão injustamente,
ou tão justamente,
não importa.

Gente que acelerou em uma curva.

Gente que escondia garrafas pelos cantos de suas casas.

Gente que chorava nos parques dos subúrbios das cidades.

Gente que se envenenava com pílulas, com álcool,
com insônias aterrorizantes, com vinte horas de cama todos os
dias.

Eles tentaram, mas não conseguiram.

Gente a quem sobravam três quartos de suas pequenas
geladeiras.

Gente que não tinha com quem conversar por semanas.

Gente que não comia para não comer sozinha.

Eles são igualmente adoráveis, juro-te.

Um dia haverão de brilhar.

Nomeemos tudo o que
nos tornou seres humanos.

Para que não haja medo, nem inveja, nem maldade.

Amo, celebro e exalto todos os naufrágios
de todos os seres humanos que pisaram neste mundo.

Porque o fracasso jamais existiu,
porque o fracasso não é justo e ninguém merece fracassar,
absolutamente ninguém.

Trad.: Nelson Santander

El último Elvis

Respeta siempre la destrucción de las mujeres
y de los hombres que amaron o intentaron, al menos, amar
la vida y esta les quemó o les rompió los huesos de la cara,
las entrañas y las venas y el hígado y el buen corazón,
respeta todos los sagrados y los más humildes hundimientos
de los seres humanos.

Respeta a quienes se suicidaron.

Respeta a quienes se arrojaron a los océanos.

No hables mal de ellos, te lo ruego, te lo pido de rodillas.

Ama a toda esa gente, esa muchedumbre, ese río amarillo
de la Historia de todos cuantos perdieron tan injustamente,
o tan justamente,
da igual.

Gente que aceleró en una curva.

Gente que escondía botellas en los rincones de su casa.

Gente que lloraba en los parques de las afueras de las ciudades.

Gente que se envenenaba con pastillas, con alcohol,
con insomnios aterradores, con veinte horas de cama todos los días.

Lo intentaron, pero no lo consiguieron.

Gente a quien le sobraba tres cuartas partes de su pequeño frigorífico.

Gente que no tenía con quién hablar semanas enteras.

Gente que no comía por no comer sola.

Son hermosos igualmente, te lo juro.

Resplandecerán un día.

Nombremos todo aquello
que nos convirtió en seres humanos.

Para que no haya miedo, ni envidia, ni maldad.

Amo, celebro, y exalto todos los hundimientos
de todos los seres humanos que pisaron este mundo.

Porque el fracaso no existió jamás,
porque no es justo el fracaso y nadie merece fracasar,
absolutamente nadie.

Walter Savage Landor – Epitáfio

Não lutei com ninguém; nada valia a lida.
Amei a natureza, e, tanto quanto, a arte;
As mãos, estas aqueci no fogo da vida
Que naufraga; estou pronto para o desate.

Trad.: Nelson Santander

Walter Savage Landor – Dying Speech of an Old Philosopher

I strove with none, for none was worth my strife:
Nature I loved, and, next to Nature, Art:
I warm’d both hands before the fire of Life;
It sinks; and I am ready to depart.

Ian Hamilton – Despertar

Sua cabeça, tão enferma, repousa junto à minha.
Tão sensível. Você não consegue lembrar
Por que está aqui, nem reconhece
Estas mãos prestativas.
Meu amor,
O mundo nos encurrala. Estamos perdendo terreno.

Trad.: Nelson Santander

Awakening

Your head, so sick, is leaning against mine,
So sensible. You can’t remember
Why you’re here, nor do you recognize
These helping hands.
My love,
The world encircles us. We’re losing ground.

José María Cumbreño – Identidade

Durante anos, a roupa que usei foi herdada de meu irmão mais velho.
Meu nome me foi dado em homenagem ao meu avô.
O primeiro carro que conduzi era de segunda mão.
A primeira mulher que me beijou já havia beijado outros.
A casa em que habito é alugada.
Tudo o que escrevo já foi escrito por alguém há muito tempo, e muito melhor.
O irmão de minha filha não é meu filho.
Seu pai age como se não o fosse, e quem não é o pai
esforça-se para aprender a sê-lo.

Trad.: Nelson Santander

José María Cumbreño – Identidad

Durante años, la ropa que me he puesto la he heredado de mi hermano mayor.
Mi nombre me lo pusieron por mi abuelo.
El primer coche que conduje era de segunda mano.
La primera mujer que me besó ya había besado a otros.
La casa en la que vivo es de alquiler.
Todo lo que escriba ya lo habrá escrito alguien mucho antes y mucho mejor.
El hermano de mi hija no es hijo mío.
Su padre hace como si no lo fuera y quien no es su padre
se esfuerza por aprender a serlo.

José Luis García Martín – Em algum lugar

Logo, depois, mais tarde, quando nunca,
meus passos se afastaram dos meus passos
e em algum lugar, não sei se dentro ou fora,
ouviu-se uma voz que repetia um nome.
Uma voz, apenas um eco, quase nada,
talvez a voz do vento entre as árvores
onde árvores sequer existiam.
Tremiam os alicerces da terra
ou seria eu quem tremia naquele instante
quando um sol negro iluminava o mundo
e era minha vida inteira que ardia,
uma pilha de papéis amassados,
em um canto remoto, entre teus braços,
amor que foi, que é, que nunca existiu,
um vapor sujo que na noite se eleva.

Trad.: Nelson Santander

En Algún Lugar

Luego, después, más tarde, cuando nunca,
mis pasos se alejaron de mis pasos
y en algún lugar, no sé si dentro o fuera,
se oyó una voz que un nombre repetía.
Una voz, sólo un eco, apenas nada,
quizá la voz del viento entre los árboles
donde ni tan siquiera árboles había.
Temblaban los cimientos de la tierra
o era yo quien temblaba aquel entonces
en que un sol negro iluminaba el mundo
y era mi vida entera la que ardía,
un montón de papeles arrugados,
en el rincón remoto, entre tus brazos,
amor que fue, que es, que nunca ha sido,
un humo sucio que en la noche asciende.

rocío – “não é que me sinta mais velha, mãe, é que todos esses meses…”

não é que me sinta mais velha, mãe, é que todos esses meses
todos os dias tendo que ser forte, fico cansada
pela manhã, acordo abraçada ao travesseiro e às vezes não sei o que dizer pra mim mesma
para levantar de minha pequena e solitária cama
em alguns meio-dias, se tomo cerveja, sinto-me um pouco otimista
mas depois, na hora do café inadvertidamente sinto o cheiro de algumas lembranças,
aqueles rotineiros dias de felicidade em que depois de comer
ele colocava a cafeteira no fogão e eu o observava do sofá
aquelas coisas cotidianas, um pouco insignificantes ou pequenas, como diz o teu querido cantor e compositor
a mim me bastava para sentir-me uma mulher feliz
agora contudo não posso dizer o mesmo, e me custa realmente compreender
o que mudou, porque eu obviamente não fui
tu sabes que quando amo, o faço instintivamente e sem medo, pra valer
e assim eu o amei desde o primeiro momento, com aquela entrega absoluta e sem limites
que penso agora se parecem de alguma forma com a tua bondade, essa bonita qualidade que como o amor
nunca é suficiente para quem recebe, e contra isso não se pode fazer nada
de maneira que ao cair da tarde não sei a que me aferrar e saio a caminhar pela
cidade
esse velho costume de arrastar-me pelas ruas e acabar sempre em nenhum lugar
ou quiçá pior, de novo e de novo exatamente no mesmo
sem saber como ou por onde devo continuar
vês, não tenho nenhuma certeza, mãe, como poderia tê-las?
se só sei fazer-me perguntas que não consigo nunca responder
se não consigo entender o que aconteceu e a incompreensão
penetra meu pensamento com uma insuportável e árdua insistência
especialmente quando tudo está submerso naquela quietude que invoca a escuridão da noite
e chega, às vezes discreto, outras feroz, o desespero
embora eu prefira não escrever sobre essa emoção tão pouco digna, compreenda-me
o que é importante que saibas é que apesar de tudo eu estou bem
estou despedaçada mas tranquila, esgotada e sem forças ainda que, meio relutante, viva
às vezes sinto o duro peso da distância, mas sei que já não é possível regressar
por sua vez o trabalho não me entusiasma, embora, vês, me deixa tempo para escrever
comecei a falar muito com o gato porque passo muito tempo sozinha com ele
mas não é nada grave e o médico me disse que eu não preciso continuar tomando ferro
não me queixo, mãe, dentro em pouco chegará o outono com seu frio morno e dourado
e ao caminhar sob o sol pelo passeio do rio sorrirei embora sem querer me lembre
que esse homem será todos os dias, até o fim de todos os caminhos, o amor da minha vida

Trad.: Nelson Santander

rocío – “no es que me sienta mayor, madre, es que todos estos meses así…”

no es que me sienta mayor, madre, es que todos estos meses así
cada día teniendo que hacerme fuerte, me cansan
por las mañanas, amanezco abrazada a la almohada y a veces no sé qué decirme
para levantarme de mi pequeña y solitaria cama
algunos mediodías, si tomo cerveza, me siento un poco optimista
pero luego, a la hora del café ya huelo sin querer algunos recuerdos
esos días felizmente rutinarios en los que después de comer
él ponía en el fuego la cafetera y yo lo miraba desde el sofá
esas cosas cotidianas, algo insignificantes o pequeñas, como dice tu querido cantautor
a mí me bastaban para sentirme una mujer dichosa
ahora en cambio no puedo decir lo mismo, y me cuesta realmente comprender
qué es lo que ha cambiado, porque yo no he sido desde luego
tú sabes que cuando amo, lo hago instintivamente y sin miedo, para siempre
y así lo he querido a él desde el primer momento, con esa entrega absoluta y sin límites
que pienso ahora se parecen en algo a tu bondad, esa bonita cualidad que como el amor
nunca es suficiente para quien recibe, y contra eso no se puede hacer nada
de manera que al caer la tarde no sé a qué aferrarme y salgo a caminar por la ciudad
esa vieja costumbre de arrastrarme por las calles y acabar siempre en ningún lugar
o quizá peor, una y otra vez exactamente en el mismo
sin saber cómo ni hacia dónde debería seguir
ya ves, no tengo ninguna certeza, madre ¿cómo podría tenerla?
si solo sé hacerme preguntas que no consigo nunca responder
si no logro entender qué ha sucedido y la incomprensión
me taladra el pensamiento con una insoportable y ardua insistencia
especialmente cuando todo se sumerge en esa quietud que invoca la oscuridad de la noche
y llega, a veces discreta y otras feroz, la desesperación
aunque preferiría no escribir sobre esa emoción tan poco digna, compréndeme
lo que es importante que sepas, es que a pesar de todo me encuentro bien
estoy rota pero tranquila, agotada y sin fuerzas aunque, un poco a mi pesar, viva
a veces siento el fatigoso peso de la distancia, pero sé que ya no es posible regresar
por su parte el trabajo no me entusiasma aunque ya ves, me deja tiempo para escribir
he comenzado a hablar demasiado con el gato porque paso mucho tiempo sola con él
pero no es nada grave y el médico me ha dicho que ya no tengo que seguir tomando hierro
no me quejo, madre, dentro de poco llegará el otoño con su frío tibio y dorado
y al andar bajo el sol por el paseo del río sonreiré aunque sin querer recuerde
que ese hombre será cada día hasta el final de todos los caminos, el amor de mi vida

Joan Margarit – Professor Bonaventura Bassegoda

Recordo-o alto e gordo,
atrevido, sentimental. Você, então,
era uma autoridade em Alicerces Profundos.
Sempre iniciava suas aulas assim:
“Senhores, bom dia.
Hoje faz tantos anos, tantos meses
e tantos dias que minha filha morreu”.
E costumava secar algumas lágrimas.
Tínhamos vinte anos, mais ou menos,
e o homem corpulento que você era,
chorando no meio da classe,
nunca nos fez sorrir.
Há quanto tempo você não conta o tempo?
Tenho pensado em nós e em você,
hoje que sou uma amarga sombra sua
porque faz agora dois meses,
três dias e seis horas
que minha filha tem seus
profundos alicerces na morte.

Trad.: Nelson Santander

Profesor Bonaventura Bassegoda

Le recuerdo alto y grueso,
procaz, sentimental. Usted, entonces,
era una autoridad en Cimientos Profundos.
Inició siempre nuestra clase así:
«Señores, buenos días.
Hoy hace tantos años, tantos meses
y tantos días que murió mi hija».
Y solía secarse alguna lágrima.
Teníamos veinte años, más o menos,
y el hombre corpulento que usted era
llorando en plena clase,
nunca nos hizo sonreír.
¿Cuánto hace ya que usted no cuenta el tiempo?
He pensado en nosotros y en usted,
hoy que soy una amarga sombra suya
porque mi hija, ahora hace dos meses,
tres días y seis horas
que tiene sus profundos cimientos en la muerte.

Juan Vicente Piqueras – Os deuses Internos

Os deuses sabem mais e melhor do que nós
do que precisamos. Pedimos-lhes um filho,
e nos enviam um lobo, e não os compreendemos.

A vida diariamente os esquece.
A morte à noite os inventa.

E as doenças, como diz o sábio,
são deuses que agonizam dentro de nosso corpo,
seu último templo em ruínas,
seu refúgio sem fé. Imploram compaixão.

Os deuses não compreendem a estranha insensatez
com que decidimos acabar conosco
acabando com eles, o orgulho
com que os desprezamos.

Os deuses pedem pouco: que não os esqueçamos.

Mas é pedir demais a uma espécie escrava
que fez do esquecimento sua missão e sua vida
e sua razão de ser.
Os deuses se calam,
resignados, e morrem em silêncio
dentro de cada um de seus antigos súditos.

Trad.: Nelson Santander

Los Dioses Dentro

Los dioses saben más y mejor que nosotros
lo que nos hace falta. Les pedimos un hijo
y nos mandan un lobo, y no los comprendemos.

La vida cada día los olvida.
La muerte por la noche los inventa.

Y las enfermedades, como bien dijo el sabio,
son dioses que agonizan dentro de nuestro cuerpo,
su último templo en ruinas,
su refugio sin fe. Piden piedad.

Los dioses no comprenden la extraña insensatez
con que hemos decidido acabar con nosotros
acabando con ellos, el orgullo
con que los despreciamos.

Los dioses piden poco: que no los olvidemos.

Pero es mucho pedirle a una raza de esclavos
que han hecho del olvido su misión y su vida
y su razón de ser.
Los dioses callan,
resignados, y mueren en silencio
dentro de cada uno de sus antiguos súbditos.