Categoria: Nelson Santander – Traduções
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Merrit Malloy – Epitáfio

Quando eu morrerDoa o que restar de mimÀs criançasE aos idosos que esperam para morrer. E se precisares chorar,Chora por teu irmãoQue caminha pela rua ao teu lado.E quando precisares de mim,Põe teus braçosEm volta de alguémE dá-lhe o que tens a me oferecer. Quero deixar-te algo,Algo melhorQue palavrasOu sons. Busca por mimNas pessoas que…
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José Emílio Pacheco – Crianças e adultos

Aos dez anos, acreditavaque o mundo era dos adultos.Podiam fazer amor, fumar, beber à vontade,ir aonde quisessem.Sobretudo, nos esmagar com seu poder indomável. Agora sei, por vasta experiência, o lugar-comum:em verdade, não há adultos,apenas crianças envelhecidas. Desejam o que não têm:o brinquedo do outro.Sentem medo de tudo.Obedecem sempre a alguém.Não governam a própria existência.Choram por…
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Juan Vicente Piqueras – Papoulas

No antigo campo de batalha onde morreram milhares de meninos cresce novamente o trigo, salpicado aqui e ali de ardentes papoulas. E dois amantes, que terão mais ou menos a idade dos soldados que aqui então morreram, hoje fazem amor no semeado. Deitam o trigo. Calcam as papoulas. Trad.: Nelson Santander Amapolas Sobre el antiguo…
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Louise Glück – Outubro

1. É inverno outra vez, faz frio outra vez, Frank não escorregou no gelo, ele não se curou, não se plantaram as sementes da primavera a noite não terminou, o gelo derretido não inundou as calhas estreitas meu corpo não foi resgatado, não era seguro não se formou a cicatriz, invisível sobre a lesão terror…
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Raquel Lanseros – A propósito de Eros

De todas as terrenas servidões que aprisionam meu afã neste cárcere confesso-me devedora da carne e de todos os seus íntimos vaivéns que me fazem mais feliz e menos livre. Às vezes, porém, a escravidão se mostra soberana e me sinto senhora do destino. Porque sei amar, porque provei da fruta e nunca maldisse o…
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Jorge Valdés Díaz-Vélez – O material do relâmpago

Calculaste em detalhes cada passo, sutil, há muitos séculos. Finalmente teu marido viajou e as crianças foram dormir com os avós. Estás agora sozinha e eufórica voltaste-te a se maquiar e vestiste-te de preto rigoroso e perfumaste tua mínima porção de lingerie. Estás tremendo, dizes a ti mesma, mas nada te fará voltar atrás. Olhas…
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Blas de Otero – Ímpeto

Mas nem tudo há de ser ruína e vazioE nem tudo escombro ou descongelação.Por cima deste ombro levo o céu,e por cima deste outro, um vasto rio de entusiasmo. E meu corpo no meio,árvore luzente gritando do chão.E, entre raízes mortais, sofreguidão,meu coração desperto, raio sombrio. Somente o anseio me vence. Mas avançosem duvidar, sobre…
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Mary Oliver – O quarto signo do zodíaco

1. Porque eu deveria ter ficado surpresa? Caçadores percorrem a floresta sem um som. O caçador, armado com seu rifle, a raposa com seus pés de seda, a serpente em seu império de músculos — todos se movem em silêncio, famintos, cuidadosos, atentos. Exatamente como o câncer entrou na floresta do meu corpo, sem um…
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Robert Hayden – Aqueles domingos de inverno

Também aos domingosmeu pai se levantava cedoe se vestia no frio azul escuro,depois, com as mãos rachadas doloridasdo trabalho ao relento durante a semana, fazia o fogo abafado arder. Nunca ninguém lhe agradeceu. Eu acordava e ouvia ofrio se estilhaçando, se partindo.Quando a casa já estava aquecida, ele me chamava,e lentamente eu me levantava e…
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Marisa de la Peña – O tempo que nos resta

“Somos o tempo que nos resta” J. M. Caballero Bonald. É isso o que somos: o tempo que nos resta, o último batimento interrompido, a palavra não dita, o deserto cruzado, e o caminho sem nome que deixamos para trás. Somos o abandono, a intempérie, as luzes apagadas, e as portas, fechadas para sempre, ao…