Vicente Gaos – A vida

Os ardorosos signos da vida
pulsam na atmosfera do verão.
O mar respira tal como um varão,
como uma criatura enfurecida.

Oh gozo e amor, sangue furioso,
cósmica vibração de um mundo arcano.
Mundo que sinto ao tatear teu crânio
frágil quando nele minha mão pouso.

Te amo, sim, te amo, sonho forte,
Fecho os olhos e te sinto inteira
– Oh luz formosa e cega da morte.
A agitação final da primavera -.
Fecho meus olhos porque quero ver-te.
Oh Deus! Que a vida não vire poeira!

Trad.: Nelson Santander

La vida

Los ardorosos signos de la vida
palpitan en el aire del verano.
El mar alienta como un ser humano,
como una criatura enardecida.

¡Oh gozo, gozo, amor, sangre enardecida,
cósmica vibración de un mundo arcano,
Mundo que siento en ti, al tocar mi mano
Tu delicada sien estremecida.

Te quiero, sí, te quiero, sueño fuerte,
Cierro los ojos y te siento entera
– Oh luz hermosa y ciega de la muerte.
Última fiebre de la primavera -.
Cierro los ojos porque quiero verte.
¡Oh Dios! Haz que la vida nunca muera!

Ramón de Garciasol – Ávila do Silêncio

Silêncio: cala-me até as raízes,
lava minha carne, meu suor de morte,
a caspa cotidiana. Quero ver-te,
Senhor, em paz, pelo que me dizes

sem esta feroz contenda confusa,
extinta a chama, pedra pura
de eternidade sem fim, viva verdura
sem o sal da dor e das cinzas.

Silêncio: chove mais. A terra dura
está sedenta nos torrões. Vaza
para além dos meus ossos. A sepultura

ainda é distante. Posso mal e mal
com meu cansaço de réptil. A asa,
Senhor, aguarda do teu dedo o sinal.

Trad.: Nelson Santander

Ávila del silencio

Silencio: Cálame hasta las raíces,
lava mi carne, mi sudor de muerte,
la caspa cotidiana. Quiero verte,
Señor, en paz, por lo que me dices

sin esta feroz lucha banderiza,
apagada la llama, pura piedra
de eternidad sin fin, pared de hiedra
sin la sal del dolor y la ceniza.

Silencio: Llueve más. La tierra dura
está sedienta en los terrones. Cala
mis huesos más allá. La sepultura

está lejos aún. Apenas puedo
con mi cansancio de reptil. El ala,
Señor, aguarda el signo de tu dedo.

Ian Hamilton – Legado

Estamos no inverno agora e estou aquecido,
Acamado, feliz por ter sobrevivido.
Minha mobília
Me cerca. Eu posso alcançar meus livros.
E você, noite após noite,
Até “o fim”
Ficará comigo.

Entre nós
Há lenitivos, esta dor
E estes poemas inacabados eu lego a você.
Muitas vezes deve ser assim.
Escurecemos suavemente enquanto você conta os dias.
Sua respiração na minha
Monotonamente quente.

Trad.: Nelson Santander

Bequest

It is midwinter now and I am warm,
Bedridden, glad to be outlived.
My furniture
Surrounds me. I can reach my books.
And you, night after night
Until ‘the end’
Will sit with me.

Between us
There are medicines, this pain
And these unfinished poems I bequeath you.
It must often be like this.
We darken gently as you count the days.
Your breath on mine,
Monotonously warm.

Carmen Conde – [Declaro que morreu e que seu túmulo]

Declaro que morreu e que seu túmulo
está dentro de mim; sou seu sudário.
A ninguém se enterrou porque seu trânsito
no tempo foi de loucas esperanças.

Circundam o contorno desta cova
– quente é a vinha que escala as paredes –
os pâmpanos mais tenros e suculentos
que arrancam do silêncio seu tumulto.

Trad.: Nelson Santander

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Declaro que se ha muerto y que su tumba

Declaro que se ha muerto y que su tumba
está dentro de mí; soy su mortaja.
A nadie se enteró porque su tránsito
descanso fue de locas esperanzas.

Rodean el contorno de esta fosa
— caliente está la vid que escala muros —
los pámpanos más tiernos y jugosos
que arrancan del silencio su tumulto.

Mario Benedetti – Currículo

A história é muito simples
você nasce
contempla aturdido
o vermelho-azul do céu
o pássaro que emigra
o desajeitado besouro
que seu sapato esmagará
destemido

você sofre
reclama por comida
e por hábito
por obrigação
chora isento de culpas
exausto
até que o sonho o desqualifique

você ama
se transfigura e ama
por uma eternidade tão efêmera
que até o orgulho se torna terno
e o coração profético
se converte em escombros

você aprende
e usa o que aprendeu
para tornar-se lentamente sábio
para compreender que, afinal, o mundo é isso
em seu melhor momento, uma nostalgia
em seu pior momento, um desamparo
e sempre sempre
uma confusão

então
você morre.

Trad.: Nelson Santander

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Currículum

El cuento es muy sencillo
usted nace
contempla atribulado
el rojo azul del cielo
el pájaro que emigra
el torpe escarabajo
que su zapato aplastará
valiente

usted sufre
reclama por comida
y por costumbre
por obligación
llora limpio de culpas
extenuado
hasta que el sueño lo descalifica

usted ama
se transfigura y ama
por una eternidad tan provisoria
que hasta el orgullo se le vuelve tierno
y el corazón profético
se convierte en escombros

usted aprende
y usa lo aprendido
para volverse lentamente sabio
para saber que al fin el mundo es esto
en su mejor momento una nostalgia
en su peor momento un desamparo
y siempre siempre
un lío

entonces
usted muere.

Nicanor Parra – Esquecimento

Juro que não me lembro nem do seu nome,
Mas morrerei chamando-a de Maria,
Não por mero capricho de poeta,
Pela sua aura de praça de província.
Que tempos aqueles!, eu, um esquisitão,
Ela, jovem pálida e sombria.
Ao voltar certa tarde do Liceu
Soube de sua morte imerecida,
Notícia que me causou tal desalento
Que derramei uma lágrima ao ouvi-la.
Uma lágrima, sim, quem acreditaria!
E olha que sou pessoa de vigor.
Se devo dar crédito ao que disseram
Aqueles que trouxeram a notícia
Devo aceitar, sem qualquer hesitação,
Que morreu com meu nome nas pupilas.
Fato que me surpreende, pois nunca
Fora para mim mais do que uma amiga.
Nunca tive com ela mais que simples
Relações de estrita cortesia,
Nada além de palavras e palavras
E uma ou outra menção a andorinhas.
Conheci-a em meu vilarejo (de meu vilarejo
Resta agora um punhado de cinzas),
Mas jamais vi nela outro destino
Que o de uma jovem triste e pensativa.
Tanto é verdade que até cheguei a chamá-la
Pelo celestial nome de Maria,
Circunstância que claramente confirma
O ponto central de minha doutrina.
Pode ser que uma vez a tenha beijado,
Quem é que não beija suas amigas?
Mas tende em mente que o fiz
Sem perceber bem o que estava fazendo.
Não negarei, é claro, que apreciava
Sua imaterial e vaga companhia,
Que era como o espírito sereno
Que anima as flores domésticas.
Não posso ocultar de modo algum
A importância de seu sorriso
Nem desvirtuar o favorável influxo
Que até nas próprias pedras exercia.
Acresça-se, ainda, que à noite
Eram seus olhos fonte fidedigna.
Mas, apesar de tudo, é crucial
Que compreendam que eu não a amava
Senão com esse vago sentimento
Que a um parente enfermo se dispensa.
Entretanto, acontece, ainda assim,
O que até hoje me maravilha,
Esse inaudito e singular caso
De morrer com meu nome nas pupilas,
Ela, rosa múltipla e imaculada,
Ela que era um legítimo farol.
Têm razão, têm toda razão, as pessoas
Que passam o tempo todo se queixando
De que o mundo traiçoeiro em que vivemos
Vale menos que uma roda estacionada:
Muito mais honrado é um túmulo,
Vale mais uma folha mofada.
Nada é verdade, aqui nada perdura,
Nem a cor do cristal através do qual enxergamos.

Hoje é um dia azul de primavera,
Creio que morrerei de poesia,
Daquela famosa jovem melancólica
Não recordo sequer o nome que tinha.
Só sei que passou por este mundo
Como uma pomba fugitiva:
Esqueci-a involuntariamente, aos poucos,
Como todas as coisas da vida.

Trad.: Nelson Santander

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Es olvido

Juro que no recuerdo ni su nombre,
Mas moriré llamándola María,
No por simple capricho de poeta:
Por su aspecto de plaza de provincia.
¡Tiempos aquellos!, yo un espantapájaros,
Ella una joven pálida y sombría.
Al volver una tarde del Liceo
Supe de la su muerte inmerecida,
Nueva que me causó tal desengaño
Que derramé una lágrima al oírla.
Una lágrima, sí, ¡quién lo creyera!
Y eso que soy persona de energía.
Si he de conceder crédito a lo dicho
Por la gente que trajo la noticia
Debo creer, sin vacilar un punto,
Que murió con mi nombre en las pupilas.
Hecho que me sorprende, porque nunca
Fue para mí otra cosa que una amiga.
Nunca tuve con ella más que simples
Relaciones de estricta cortesía,
Nada más que palabras y palabras
Y una que otra mención de golondrinas.
La conocí en mi pueblo (de mi pueblo
Sólo queda un puñado de cenizas),
Pero jamás vi en ella otro destino
Que el de una joven triste y pensativa
Tanto fue así que hasta llegué a tratarla
Con el celeste nombre de María,
Circunstancia que prueba claramente
La exactitud central de mi doctrina.
Puede ser que una vez la haya besado,
¡Quién es el que no besa a sus amigas!
Pero tened presente que lo hice
Sin darme cuenta bien de lo que hacía.
No negaré, eso sí, que me gustaba
Su inmaterial y vaga compañía
Que era como el espíritu sereno
Que a las flores domésticas anima.
Yo no puedo ocultar de ningún modo
La importancia que tuvo su sonrisa
Ni desvirtuar el favorable influjo
Que hasta en las mismas piedras ejercía.
Agreguemos, aún, que de la noche
Fueron sus ojos fuente fidedigna.
Mas, a pesar de todo, es necesario
Que comprendan que yo no la quería
Sino con ese vago sentimiento
Con que a un pariente enfermo se designa.
Sin embargo sucede, sin embargo,
Lo que a esta fecha aún me maravilla,
Ese inaudito y singular ejemplo
De morir con mi nombre en las pupilas,
Ella, múltiple rosa inmaculada,
Ella que era una lámpara legítima.
Tiene razón, mucha razón, la gente
Que se pasa quejando noche y día
De que el mundo traidor en que vivimos
Vale menos que rueda detenida:
Mucho más honorable es una tumba,
Vale más una hoja enmohecida.
Nada es verdad, aquí nada perdura,
Ni el color del cristal con que se mira.

Hoy es un día azul de primavera,
Creo que moriré de poesía,
De esa famosa joven melancólica
No recuerdo ni el nombre que tenía.
Sólo sé que pasó por este mundo
Como una paloma fugitiva:
La olvidé sin quererlo, lentamente,
Como todas las cosas de la vida.

Joan Margarit – Esboço para um Epílogo

Diante de ti sentes um rumor de passos
que vem do futuro, essa torre
demolida antes de ser construída.
Só existe a dúvida moral: ama,
não penses na camada de pó
a que tanto aludes, ostensivamente,
quando dizes: “minha vida”.
E, do prestígio das negações,
desconfia: a vida representa
não só a vitória dos anos
sobre nós. Também nos ensina
quão gloriosa foi
nossa primeira inicial sobre o tempo.

Trad.: Nelson Santander

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Esbozo para un epílogo

Ante ti sientes un rumor de pasos
que viene del futuro, esa torre
derribada antes de que la construyeran.
Sólo existe la duda moral: ama,
no pienses en la lámina de polvo
que tanto nombras, ostentosamente,
cuando dices: “mi vida”.
Y, del prestigio de las negaciones,
desconfía: la vida representa
no sólo la victoria de los años
sobre nosotros. También nos enseña
lo gloriosa que fue
nuestra inicial victoria sobre el tiempo.

Felipe Benítez Reyes – O desenho na água

Bem sabes que estes anos passarão,
que tudo terminará em literatura:
a imagem das noites, as lendas
da triunfante juventude e as cidades
vividas como corpos.

Que estes anos
passarão tu já sabes, pois são teus
como se possuísses a neve e a neblina,
como é do mar a bruma, ou do ar
a cor da tarde fugidia:
pertences de ninguém e do nada
surgidos, que para o nada vão:
nem o próprio mar, nem o ar, nem essa bruma,
nem um crepúsculo igual teus olhos verão.

A memória é um desenho na água,
e em suas ondas se expressa o cadáver do tempo.

Tu farás este desenho.

E de repente
terás a sombra morta
do tempo junto a ti.

Trad.: Nelson Santander

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El dibujo en el agua

Bien sabes que estos años pasarán,
que todo acabará en literatura:
la imagen de las noches, la leyenda
de la triunfante juventud y las ciudades
vividas como cuerpos.

Que estos años
pasarán ya lo sabes, pues son tuyos
como una posesión de nieve y niebla,
como es del mar la bruma o es del aire
el color de la tarde fugitivo:
pertenencias de nadie y de la nada
surgidas, que hacia la nada van:
ni el mismo mar, ni el aire, ni esa bruma,
ni un crepúsculo igual verán tus ojos.

Un dibujo en el agua es la memoria,
y en sus ondas se expresa el cadáver del tiempo.

Tú harás ese dibujo.

Y de repente
tendrás la sombra muerta
del tiempo junto a ti.

Juan Luis Panero – Palavras e presságios

Voltar a alguns versos de Kaváfis, de Eliot,
como quem regressa a uma casa que foi nossa anos atrás.
Repetir as sílabas, iluminar os símbolos
como cerradas salas, janelas empoeiradas
que ocultam um jardim perdido, árvores da morte.
Melancolia do regresso e medo do vazio,
rangidos de madeira, agitar de sombras,
e, de repente, em um quarto, perdida
como um velho copo ou um espelho manchado,
encontrar a chave para a tua vida.
Palavras que te avisaram: “Um monótono dia
segue-se a outro igualmente monótono”,
ou te advertiram: “Nascer, copular, morrer.
Isso é tudo, isso é tudo, isso é tudo, isso é tudo”.
Palavras com que a velhice e a noite me presenteiam,
presságios que não entendi, anunciadas derrotas.

Trad.: Nelson Santander

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Palabras y Presagios

Volver a unos versos de Cavafis, de Eliot,
como quien regresa a una casa que hace años fue nuestra.
Repetir las sílabas, iluminar los símbolos
como cerradas habitaciones, ventanas polvorientas
que ocultan un jardín perdido, árboles de la muerte.
Melancolía del regreso y miedo del vacío,
crujidos de madera, aletazos de sombras
y, de pronto, en un cuarto, perdida
como una vieja copa o un espejo empañado,
encontrar la clave de tu vida.
Palabras que te avisaron: “Un monótono día
sigue a otro igualmente monótono”,
o te advertieron: “Nacer, copular, morir.
Eso es todo, eso es todo, eso es todo, eso es todo”.
Palabras que la velez y la noche me regalan,
presagios que no entendí, anunciadas derrotas.

Ian Hamilton – A Tempestade

Longe, uma tempestade irrompe. Ela avança em ondas até o nosso quarto.
Olhas para a luz, de modo que ela ilumina um lado
Do teu rosto, tua boca contraída, teu assustado.
Voltas-te para mim e quando chamo, tu vens
E ajoelhas-te ao meu lado, desejando que eu tome
Tua cabeça entre minhas mãos, como se fosse
Uma delicada tigela que a tempestade pudesse quebrar.
Queres que eu me coloque entre ti e o brutal trovão.
Pousando em tuas carnes, minhas grandes mãos se agitam,
Pulsam em ti e então, perguntando-se como, apertam.
A tempestade me atravessa enquanto tua boca se abre.

Trad.: Nelson Santander

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The Storm

Miles off, a storm breaks. It ripples to our room.
You look up into the light so it catches one side
Of your face, your tight mouth, your startled eye.
You turn to me and when I call you come
Over and kneel beside me, wanting me to take
Your head between my hands as if it were
A delicate bowl that the storm might break.
You want me to get between you and the brute thunder.
Settling on your flesh my great hands stir,
Pulse on you and then, wondering how to do it, grip.
The storm rolls through me as your mouth opens.