Joan Margarit – Dignidade

Se a desesperança
tem o poder de uma certeza lógica,
e a inveja uma programação tão secreta
quanto um trem militar,
já estamos condenados.
O castelhano me sufoca, embora nunca o tenha odiado.
Ele não é culpado por sua força
e muito menos por minha fraqueza.
Ele foi, ontem, um idioma bem articulado
para pensar, negociar, sonhar,
que já ninguém mais fala: um subconsciente
de perdas e ambições
onde soam belíssimas canções.
O presente é o idioma das ruas,
maltratado e espúrio, que se agarra
feito hera às ruínas da história.
O idioma em que escrevo.
Também é um idioma bem articulado
para pensar, negociar. Para sonhar.
E as velhas canções
se salvarão.

Trad.: Nelson Santander

Dignidad

Si la desesperanza
tiene el poder de una certeza lógica,
y la envidia un horario tan secreto
como un tren militar,
estamos ya perdidos.
Me ahoga el castellano, aunque nunca lo odié.
Él no tiene la culpa de su fuerza
y menos todavía de mi debilidad.
El ayer fue una lengua bien trabada
para pensar, pactar, soñar,
que no habla nadie ya: un subconsciente
de pérdida y codicia
donde suenan bellísimas canciones.
El presente es la lengua de las calles,
maltratada y espuria, que se agarra
como hiedra a las ruinas de la historia.
La lengua en la que escribo.
También es una lengua bien trabada
para pensar, pactar. Para soñar.
Y las viejas canciones
se salvarán.

Andrew Hudgins – No poço

Meu pai amarrou em mim uma corda,
um laço ao redor da minha cintura,
e baixou-me para o fundo e dentro
das trevas. Eu sentia a paúra,

seu gosto. Primeiro foi um sabor
de noite, então terra, e podridão.
Balancei e bati com a cabeça
e foi naquele momento que, então,

conheci um outro: depois o sangue
pôs-me na boca um sabor de metal.
A partir de então, meu pai me soltou
gradativamente, mão após mão:

depois água. Então pelo molhado,
que apertei junto ao peito. Eu gritei.
Papai puxou a corda encharcada
com força. Engasguei, e pressionei

contra mim o cão perdido do meu
vizinho. Então abracei seu fim
e emergi em direção ao meu pai.
Depois, a luz. As mãos. E o ar, enfim.

Trad.: Nelson Santander

In the well

My father cinched the rope,
a noose around my waist,
and lowered me into
the darkness. I could taste

my fear. It tasted first
of dark, then earth, then rot.
I swung and struck my head
and at that moment got

another then: then blood,
which spiked my mouth with iron.
Hand over hand, my father
dropped me from then to then:

then water. Then wet fur,
which I hugged to my chest.
I shouted. Daddy hauled
the wet rope. I gagged, and pressed

my neighbor’s missing dog
against me. I held its death
and rose up to my father.
Then light. Then hands. Then breath.

Edna St. Vincent Millay – dois poemas de “A few Figs from Thistles”

“A few Figs from Thistles” (excertos)1

Primeiro Figo

Meu círio arde nas duas extremidades;
Não perdurará toda a noite;
Mas ah, meus inimigos, oh, meus confrades –
Dá uma luz tão cativante! –

Segundo Figo

Sobre sólida rocha, a salvo, repousam as casas feias:
Venha e veja meu brilhante castelo erigido sobre a areia!

Trad.: Nelson Santander

  1. N. do T.: “A few Figs from Thistles” – título do livro do qual foram extraídos os dois poemas – é uma clara referência a um versículo do evangelho de Mateus: “Pelos seus frutos os conhecereis. É possível alguém colher uvas de um espinheiro ou figos das ervas daninhas?” (Mateus, 7:16). Aliás, uma outra passagem bíblica do mesmo apóstolo é aludido no “Segundo Figo”. Esta: “Pois, todo aquele que ouve estas minhas palavras e não as pratica é como um insensato que construiu a sua casa sobre a areia.”(Mateus, 7:26). ↩︎

From “A few Figs from Thistles”

First Fig

My candle burns at both ends;
It will not last the night;
But ah, my foes, and oh, my friends –
It gives a lovely light! –

Second Fig

Safe upon the solid rock the ugly houses stand:
Come and see my shining palace built upon the sand!

Ted Kooser – Sobrevivendo

Há dias em que o medo da morte
é tão onipresente quanto a luz. Ele ilumina
tudo. Sem ele, talvez eu não
tivesse notado esta joaninha,
brilhante como uma gota de sangue
no peitoril branco da janela.
Sua cabeça não maior que um ponto final,
seus olhos como pontas de agulhas;
ela parou por um instante para descansar,
joelhos travados, élitros ocultando
a renda delicada de suas asas.
À medida que o medo da morte, tão atento
a tudo o que vive, dela se aproxima,
as minúsculas antenas param de se mover.

Trad.: Nelson Santander

Surviving

There are days when the fear of death
is as ubiquitous as light. It illuminates
everything. Without it, I might not
have noticed this ladybird beetle,
bright as a drop of blood
on the window’s white sill.
Her head no bigger than a period,
her eyes like needle points,
she has stopped for a moment to rest,
knees locked, wing covers hiding
the delicate lace of her wings.
As the fear of death, so attentive
to everything living, comes near her,
the tiny antennae stop moving.

Walter de la Mare – Chapim

Se quiseres ganhar uma feliz companhia
Pendures em um tronco uma fendida noz
Futilmente verde, que balança e rodopia,
Seu níveo miolo como isca; e um veloz
Chapim irás testemunhar que nela se enfia.

Fora dos vastos domínios estranhos do ar,
Fora mesmo de todo verão, indo e voltando,
Ele pousa e brinca com as penas de encantar,
Faz ressoar seu acorde selvagem e brando,
E carrega todas as provisões para lá —

Esta pequena forma da vida; esta entida-,
de, por um momentâneo e humano pedido,
Emplumará sua asa, de clarão tingida,
Baterá seu tambor estridente e divertido —
E no Nada do Tempo, imensidão infinda,
Voará para muito longe, doce-nutrido.

Trad.: Nelson Santander

Titmouse

If you would happy company win,
Dangle a palm-nut from a tree,
Idly in green to sway and spin,
Its snow-pulped kernel for bait; and see
A nimble titmouse enter in.

Out of earth’s vast unknown of air,
Out of all summer, from wave to wave,
He’ll perch, and prank his feathers fair,
Jangle a glass-clear wildering stave,
And take his commons there —

This tiny son of life; this spright,
By momentary Human sought,
Plume will his wing in the dappling light,
Clash timbrel shrill and gay —
And into Time’s enormous Nought,
Sweet-fed, will flit away.

Tomas Tranströmer – Kyrie

Às vezes, minha vida subitamente abre os olhos no escuro.
Uma sensação de multidões de pessoas avançando cegamente
pelas ruas, excitadas, em direção a algum milagre,
enquanto eu permaneço aqui sem ser visto

Como a criança que adormece aterrorizada
ouvindo as fortes batidas do seu coração.
Por um longo, longo tempo até que a manhã introduza seus raios de luz nas fechaduras
e os portões das trevas se abram.

Trad.: Nelson Santander

Kyrie

At times my life suddenly opens its eyes in the dark.
A feeling of masses of people pushing blindly
through the streets, excitedly, toward some miracle,
while I remain here and no one sees me.

It is like the child who falls asleep in terror
listening to the heavy thumps of his heart.
For a long, long time till morning puts his light in the locks
and the doors of darkness open.

Alfonso Brezmes – Os outros

São as formas que a memória assume.
A sensação de ter estado lá
apesar de todas as evidências em contrário;
um algo onde havia um buraco,
um buraco onde havia alguém;
a dor deste membro fantasma
que se parece muito com a vida;
os ecos familiares que Verlaine citava
naquele poema que ainda perdura
em uma distante sala de aula da infância;
e, para concluir o quadro, nós:
os velhos e cativantes fantasmas
dos quais os demais ainda se lembram,
quase com as mesmas vozes e gestos
de quando estávamos vivos.

Trad.: Nelson Santander

Los otros

Son las formas que adopta la memoria.
La sensación de haber estado allí
pese a toda la evidencia en contra;
un algo donde había un hueco,
un hueco donde había alguien;
el dolor de este miembro fantasma
que se parece mucho a la vida;
los ecos familiares que citaba Verlaine
en aquel poema que aún perdura
en un aula perdida de la infancia;
y, para terminar la foto, nosotros:
los viejos y entrañables espectros
que los demás aún recuerdan,
casi con la misma voz y ademán
que cuando estuvimos vivos.

Mary Oliver – Nos bosques de Blackwater

Veja, as árvores
estão transformando
seus próprios corpos
em pilares

de luz,
exalando a rica
fragrância de canela
e completude,

as longas velas
de taboas
explodem e flutuam sobre
as orlas azuis

das lagoas,
e cada lagoa,
não importa seu
nome, nome

não tem agora.
A cada ano
tudo o que já
aprendi

em minha vida
me leva de volta a isto: os incêndios
e o rio negro da perda
cuja outra margem

é a salvação,
e cujo significado
nenhum de nós jamais saberá.
Para viver neste mundo

você deve ser capaz
de fazer três coisas:
amar o que é mortal;
cingi-lo

no peito, sabendo
que sua própria vida depende disso;
e, quando chegar a hora de deixa-lo ir,
deixa-lo ir.

Trad.: Nelson Santander

In Blackwater Woods

Look, the trees
are turning
their own bodies
into pillars

of light,
are giving off the rich
fragrance of cinnamon
and fulfillment,

the long tapers
of cattails
are bursting and floating away over
the blue shoulders

of the ponds,
and every pond,
no matter what its
name is, is

nameless now.
Every year
everything
I have ever learned

in my lifetime
leads back to this: the fires
and the black river of loss
whose other side

is salvation,
whose meaning
none of us will ever know.
To live in this world

you must be able
to do three things:
to love what is mortal;
to hold it

against your bones knowing
your own life depends on it;
and, when the time comes to let it
go,
to let it go.

Jane Kenyon – Poderia ter sido diferente

Levantei da cama
sobre duas pernas saudáveis.
Poderia ter sido
diferente. Nutri-me
de cereal, leite
açucarado, e um imaculado
pêssego maduro. Poderia
ter sido diferente.
Levei o cachorro morro acima,
até o bosque de bétulas.
Passei a manhã inteira
fazendo o trabalho que amo.

Ao meio dia, deitei
com meu companheiro. Poderia
ter sido diferente.
Jantamos juntos
à mesa com castiçais
de prata. Poderia
ter sido diferente.
Dormi numa cama
num quarto com quadros
nas paredes, e
planejei outro dia
igual a este.
Mas um dia, eu sei,
será diferente.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: A poetisa e tradutora Jane Kenyon faleceu de leucemia, em abril de 1995, aos 47 anos de idade, pouco depois de escrever este poema. Mais do que ninguém, ela sabia que, em breve, tudo seria diferente.

Otherwise

I got out of bed
on two strong legs.
It might have been
otherwise. I ate
cereal, sweet
milk, ripe, flawless
peach. It might
have been otherwise.
I took the dog uphill
to the birch wood.
All morning I did
the work I love.

At noon I lay down
with my mate. It might
have been otherwise.
We ate dinner together
at a table with silver
candlesticks. It might
have been otherwise.
I slept in a bed
in a room with paintings
on the walls, and
planned another day
just like this day.
But one day, I know,
it will be otherwise.

Billy Collins – A respiração

Como naqueles filmes de terror
em que alguém descobre que as ligações
vêm de dentro da casa,

assim também percebi
que essa ternura entrelaçada
acontecia só dentro de mim.

Toda aquela doçura, o amor, o desejo —
era apenas eu ligando para mim mesmo
e seguindo o toque até o outro cômodo

para não encontrar ninguém na linha,
bem, às vezes uma leve respiração,
mas, na maioria das vezes, nada.

E pensar que esse tempo todo —
o que inclui os passeios de barco,
abraços no aeroporto e tantos brindes —

era apenas eu e os dois telefones,
o da cozinha, preso à parede,
e o ramal no quarto escuro de hóspedes, lá em cima.

Trad.: Nelson Santander

The Breather

Just as in the horror movies
when someone discovers that the phone calls
are coming from inside the house

so too, I realized
that our tender overlapping
has been taking place only inside me.

All that sweetness, the love and desire —
it’s just been me dialing myself
then following the ringing to another room

to find no one on the line,
well, sometimes a little breathing
but more often than not, nothing.

To think that all this time —
which would include the boat rides,
the airport embraces, and all the drinks —

it’s been only me and the two telephones,
the one on the wall in the kitchen
and the extension in the darkened guest room upstairs.