Adrienne Rich – Fotografias do Hubble: Após Sappho

Deve ser a visão mais desejada de todas
a pessoa com quem você espera viver e morrer

entrando numa sala, voltando-se para olhar para você, vis-à-vis
Deveria haver ainda algo

mais desejável: a ex-estase das galáxias,
tão afastadas de nós que não há vocabulário

mas equações matemáticas e óticas
que permitem que a visão atravesse o tempo

em liberações e lacerações de luz e poeira,
expostas como uma cavidade corporal, violeta verde lívida e venosa, lindas

— além do bem e do mal como sempre manchadas em sonho
além do remorso, da desilusão, do medo da morte

ou da vida, do ódio
de ordem, do ódio de destruição

além deste amor que agita
o ar toda vez que ela entra na sala

Estas impersonae, como as chamamos,
não irão nos invadir como nas telas do cinema

elas são tão antigas, tão novas, nós não somos para elas
nós olhamos ou não para elas de dentro da nebulosidade leitosa

de nosso oblíquo olhar
mas elas não olham para trás e não podemos feri-las

Trad.: Nelson Santander

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Hubble Photographs: after Sapho

It should be the most desired sight of all
the person with whom you hope to live and die

walking into a room, turning to look at you, sight for sight
Should be yet I say there is something

more desirable: the ex-stasis of galaxies
so out from us there’s no vocabulary

but mathematics and optics
equations letting sight pierce through time

into liberations, lacerations of light and dust
exposed like a body’s cavity, violet green livid and venous, gorgeous

—beyond good and evil as ever stained into dream
beyond remorse, disillusion, fear of death

or life, rage
for order, rage for destruction

beyond this love which stirs
the air every time she walks into the room

These impersonae, however we call them
won’t invade us as on movie screens

they are so old, so new, we are not to them
we look at them or don’t from within the milky gauze

of our tilted gazing
but they don’t look back and we cannot hurt them

Edward Field – Ícaro

Apenas as penas flutuando ao redor do chapéu
Mostravam que algo mais espetacular havia ocorrido
Além do afogamento habitual. A polícia preferiu ignorar
Os aspectos confusos do caso
E as testemunhas correram para uma guerra de gangues.
Assim, o relatório arquivado e esquecido nos registros dizia simplesmente
“Afogado,” mas estava errado: Ícaro
Tinha nadado para longe, chegando finalmente à cidade
Onde alugou uma casa e passou a cuidar de um jardim.

“Aquele simpático Sr. Hicks”, os vizinhos diziam,
Sem sonhar que aquele terno cinza e respeitável
Ocultava braços que haviam controlado enormes asas e
Que aqueles olhos tristes e derrotados tinham outrora
Compelido o sol. E se ele tivesse lhes contado
Eles teriam reagido com um olhar
surpreso e incompreensível.
Não, ele não poderia perturbar seus impecáveis quintais;
No entanto, todos os seus livros insistiam que isto era um terrível equívoco:
O que fazia ele envelhecendo em um subúrbio?
Pode o gênio do herói decair
Para a estatura mediana do meramente talentoso?

E todas as noites Ícaro examina seu ferimento
E diariamente, em sua oficina, cortinas cuidadosamente cerradas,
Constrói pequenas asas e tenta voar
Até a luminária do teto:
Falha todas as vezes e se odeia por tentar.
Ele se achava um herói, que tinha agido heroicamente,
E sonhava com sua queda, a trágica queda do herói;
Mas agora viaja em trens metropolitanos,

Serve em vários comitês,
E gostaria de ter-se afogado.

Trad.: Nelson Santander

Icarus

Only the feathers floating around the hat
Showed that anything more spectacular had occurred
Than the usual drowning. The police preferred to ignore
The confusing aspects of the case,
And the witnesses ran off to a gang war.
So the report filed and forgotten in the archives read simply
“Drowned,” but it was wrong: Icarus
Had swum away, coming at last to the city
Where he rented a house and tended the garden.

“That nice Mr. Hicks” the neighbors called,
Never dreaming that the gray, respectable suit
Concealed arms that had controlled huge wings
Nor that those sad, defeated eyes had once
Compelled the sun. And had he told them
They would have answered with a shocked,
uncomprehending stare.
No, he could not disturb their neat front yards;
Yet all his books insisted that this was a horrible mistake:
What was he doing aging in a suburb?
Can the genius of the hero fall
To the middling stature of the merely talented?

And nightly Icarus probes his wound
And daily in his workshop, curtains carefully drawn,
Constructs small wings and tries to fly
To the lighting fixture on the ceiling:
Fails every time and hates himself for trying.
He had thought himself a hero, had acted heroically,
And dreamt of his fall, the tragic fall of the hero;
But now rides commuter trains,

Serves on various committees,
And wishes he had drowned.

Joan Margarit – Separado

A casa se abre para uma calçada
onde não me espera ninguém.
Aqui sem ti. Um estranho.
Foi aqui que eu me perdi.
Caminho sem mim, contigo.
Minha sombra é apenas um erro,
vem dos lugares mais gélidos:
teu coração e tuas mãos.
Por isso eu parti.
A vida desconhecida
eu a vivi sem ti.
A teu lado.

Trad.: Nelson Santander

Separado

La casa se abre a una acera
donde no me espera nadie.
Aquí sin ti. Un extraño.
Fue aquí donde me extravié.
Paseo sin mí, contigo.
Mi sombra es sólo un error,
viene de sitios más gélidos:
tu corazón y tus manos. 
Es por lo que me marché.
La vida desconocida
yo la he vivido sin ti.
A tu lado.

Lynn Ungar – Pandemia

E se pensasses nisso
da mesma forma que os judeus consideram o Sabbath —
o mais sagrado dos tempos?
Cessa com as viagens.
Cessa com as compras e as vendas.
Desiste, por enquanto,
de tentar fazer o mundo
diferente do que é.
Canta. Reza. Toca apenas aqueles
a quem confias tua vida.
Alcança o equilíbrio.

E quando teu corpo estiver imóvel,
expande o teu coração.
Compreende que todos estamos conectados
de maneiras assustadoras e belas.
(Dificilmente poderias nega-lo agora.)
Compreende que nossas vidas
estão nas mãos uns dos outros.
(Certamente isso ficou claro.)
Não estendas tuas mãos.
Expande o teu coração.
Expande tuas palavras.
Expande todos os tentáculos
de compaixão que se movem, invisivelmente,
onde não podemos alcançar.

Promete a este mundo o teu amor –
na alegria e na tristeza,
na saúde e na doença,
até que a morte nos separe.

Trad.: Nelson Santander

Pandemic

What if you thought of it
as the Jews consider the Sabbath—
the most sacred of times?
Cease from travel.
Cease from buying and selling.
Give up, just for now,
on trying to make the world
different than it is.
Sing. Pray. Touch only those
to whom you commit your life.
Centre down.

And when your body has become still,
reach out with your heart.
Know that we are connected
in ways that are terrifying and beautiful.
(You could hardly deny it now.)
Know that our lives
are in one another’s hands.
(Surely, that has come clear.)
Do not reach out your hands.
Reach out your heart.
Reach out your words.
Reach out all the tendrils
of compassion that move, invisibly,
where we cannot touch.

Promise this world your love–
for better or for worse,
in sickness and in health,
so long as we all shall live.

Carolyn Forché – Dois poemas

Penso em você naquele mar de túmulos além da cidade,
onde muitas pedras foram deixadas, entre elas

a minha: uma pequena lasca de dolomita para pesar um pedaço de papel.
Eu teria colocado suas luvas e o guarda-chuva no caixão,

juntamente com uma manhã em Berlin com Tanya, uma hora
de pombos ascendendo ao seu redor, lilases embrulhados em jornais,

um minuto nas barricadas, outro cavalgando
nos ombros do seu pai através da plantação de alho, até os cigarros

que sobraram da ocupação eu teria colocado lá.
Em vez disso, este caderno, uma caneta cheia de tinta, e aquele curto

poema de Hölderlin que você amava, para que pudessem virar fumaça
juntos: você, o caderno, a caneta, o poema de Hölderlin.

Na sequência, você é uma emulsão sobre papel, um cadáver ouvindo debaixo
da terra um trem rompendo uma polaroide de nuvens.

Foi Joseph quem disse que, por toda a eternidade, Veneza aconteceria apenas uma vez.
Você, portanto, é um fantasma seguindo um fantasma voltando para sua única vida.

Ou como você diz agora: havia muitas cidades, mas nunca uma cidade duas vezes.

*

No fim

Neste arquipélago de pensamento um nevoeiro surge, sirenes de navios para navios
invisíveis, um ano
se passando, o choro de um ano sem saber onde, alguém que você
conheceu

parado no final, aquele que você era então, um pequeno frisson de reconhecimento,
e então, sem mais nem menos — simplesmente desapareceu, e ninguém por horas, um som que você pensou

ter ouvido

mas que, na escuridão, desperto, não é ouvido novamente, duas batidas violentas na
porta, era
a morte, você disse, mas agora é nada, as ilhas, lugares em que você já esteve, o mar
o incerto,

cheio de fantasmas chamando, perdidos como eles estão, ninguém que você conheceu em sua vida, a
lua sobre

tudo, como a luz no fundo da abertura de um poço no gélido ar

em que você mergulhou e retornou, luz, não mais acorrentado
ao seu próprio passado, e que não fosse pelo clima de transe, de trevas e
neblina, você poderia ver

tudo de uma só vez: todas as ilhas, cada momento que você viveu ou lugar
em que esteve,
sem confusão ou perplexidade, e você seria uma pessoa. Você seria
uma pessoa novamente.

Trad.: Nelson Santander

 

Two Poems

I think of you in that sea of graves beyond the city,
where many stones have been left, among them,

mine: a little piece of dolomite to weigh down a slip of paper.
I would have put your gloves and umbrella in the coffin,

along with one more morning in Berlin with Tanya, an hour
of pigeons rising around you, lilacs wrapped in news

stories, a minute at the barricades, another riding
on your father’s shoulders through the garlic fields, even cigarettes

left over from the occupation I would have placed there.
Instead, this notebook, a pen full of ink, and that short

poem by Hölderlin you loved, so you could go up in smoke
together: you, the notebook, the pen, the poem by Hölderlin.

In the aftermath, you are emulsion on paper, a corpse listening beneath
the ground to a train passing through a polaroid of clouds.

It was Joseph who said that for all eternity, Venice would happen only once.
You are a ghost then, following a ghost back through its only life.

Or as you say now: there were many cities, but never a city twice.

*

Toward the end

In this archipelago of thought a fog descends, horns of ships to unseen
ships, a year
passing overhead, the cry of a year not knowing where, someone standing
in the aftermath

who once you knew, the one you were then, a little frisson of recognition,
and then just like that—gone, and no one for hours, a sound you thought

you heard

but in the waking darkness is not heard again, two sharp knocks on the
door, death
it was, you said, but now nothing, the islands, places you have been, the sea
the uncertain,

full of ghosts calling out, lost as they are, no one you knew in your life, the
moon above

the whole of it, like the light at the bottom of a well opening in iced air

where you have gone under and come back, light, no longer tethered
to your own past, and were it not for the weather of trance, of haze and
murk, you could see

everything at once: all the islands, every moment you have lived or place
you have been,
without confusion or bafflement, and you would be one person. You would
be one person again.

Fleur Adcock – Para uma criança de cinco anos

Um caracol escala o peitoril da janela
do seu quarto, depois de uma noite de
chuva. Você me chama para ver,
e eu explico que seria cruel deixa-lo lá:
ele pode rastejar até o chão; devemos cuidar
para que ninguém o esmague. Você entende
e o carrega para fora, com mão diligente,
para comer uma flor amarela.

Vejo, então, que prepondera uma espécie de certeza:
sua bondade ainda é moldada por palavras que vêm
de mim, que aprisionava ratos e alvejava pássaros também,
de mim, que afoguei os seus gatinhos, que traí
seus parentes mais próximos, e que abasteci
das verdades mais duras muitos outros.
Mas é assim que as coisas são: eu sou sua mãe,
e nós tratamos os caracóis com gentileza.

Trad.: Nelson Santander

For a Five-Year-Old

A snail is climbing up the window-sill
into your room, after a night of rain.
You call me in to see, and I explain
that it would be unkind to leave it there:
it might crawl to the floor; we must take care
that no one squashes it. You understand,
and carry it outside, with careful hand,
to eat a daffodil.

I see, then, that a kind of faith prevails:
your gentleness is moulded still by words
from me, who have trapped mice and shot wild birds,
from me, who drowned your kittens, who betrayed
your closest relatives, and who purveyed
the harshest kind of truth to many another.
But that is how things are: I am your mother,
and we are kind to snails.

Mark Wunderlich – Peônias

No pátio, as peônias rebentam em brancos corações,
rebordos arredondados que desabrocham apenas para elas.
Sua simplicidade, a lâmina disso, fende a manhã.

Neste Brooklyn de pátios aureolados por arames farpados
e roupas sujas balançando como bandeiras de rendição,
vapor de resina flutuando até essas janelas,

sombras viajando dos pulmões de um fumante,
eu observo o helicóptero da polícia ameaçar a vizinhança,
seu motor provocando o casamento de inúmeras fechaduras

e chaves. Mesmo agora, diante dessa doença,
há um movimento para frente, necessidades americanas
forçando minha mão, todo dia uma pérola opaca

pendurada num frágil fio. A última vez que a vi,
mantive minha mão sobre você enquanto você dormia, imaginando o calor
aumentando em verde e vermelho, como em uma imagem térmica,

seu corpo desistindo de seu único tesouro. Há
tanta selvageria nesta negligência – tensão muscular,
falha de fluido, a carne recuando

do osso até ficarmos com a marca
e a fratura indeléveis, nossas células estilhaçando
no cérebro de um sobrevivente como imagens granuladas,

a única maneira de perdurarmos. Eu lhe trouxe peônias
rosa, como uma concha, como um céu, uma boca,
uma criança, um infinito, uma crise, um ponto final.

Trad.: Nelson Santander

Peonies

In the yard, peonies burst their white hearts,
scalloped edges unfolding only for themselves.
Their simplicity, the blade of it, cuts the morning.

In this Brooklyn of yards haloed in razor wire
and laundry flapping like flags of surrender,
resin smoke drifting up to these windows,

traveled shadows from a smoker’s lungs,
I watch the police helicopter menace the neighborhood,
its engine hooking together manifold locks

and keys. Even now, in the face of this sickening,
there is forward movement, American needs
forcing my hand, each day a dull pearl

strung on a weakening line. The last time I saw you,
I held my hand over you while you slept, imagining heat
rising in green and red, as in a photograph of heat,

your body giving up its one treasure. There
is such savagery in this neglect – muscle strain,
fluid failure, the flesh receding

from bone until we are left with the indelible
print and fracture, our cells snapping
in a survivor’s brain like grainy pictures,

the only way we’ll last. I brought you peonies
pink, like a shell, like a heaven, a mouth,
an infant, an infinity, a crisis, an end.

Lisel Mueller – Românticos

Românticos

Johannes Brahms e Clara Schumann

Os biógrafos modernos se preocupam
em “o quão longe” foi sua terna amizade.
Eles se perguntam o que exatamente significa
quando ele escreve que pensa nela constantemente,
seu anjo da guarda, amada amiga.
Os biógrafos modernos fazem a
rude e irrelevante indagação
de nossa era como se o evento
de dois corpos entrelaçados
estabelecesse a medida do amor,
esquecendo o quão suavemente Eros caminhava
no século dezenove, e como uma mão
estendida por muito tempo ou um olhar ancorado
nos olhos de alguém podia desalojar um coração,
e as nuances de expressões não conhecidas
por nossa linguagem igualitária
podiam fazer o redolente ar
tremer e brilhar com o calor
da possibilidade. Toda vez que eu ouço
os Interlúdios, tristes
e pródigos em sua ternura,
imagino os dois
sentados em um jardim
entre rosas tardias
e escuras cascatas de folhas,
deixando a paisagem falar por eles,
não nos deixando nada para ouvir.

Trad.: Nelson Santander

Romantics

Johannes Brahms and Clara Schumann

The modern biographers worry
“how far it went,” their tender friendship.
They wonder just what it means
when he writes he thinks of her constantly,
his guardian angel, beloved friend.
The modern biographers ask
the rude, irrelevant question
of our age, as if the event
of two bodies meshing together
establishes the degree of love,
forgetting how softly Eros walked
in the nineteenth-century, how a hand
held overlong or a gaze anchored
in someone’s eyes could unseat a heart,
and nuances of address not known
in our egalitarian language
could make the redolent air
tremble and shimmer with the heat
of possibility. Each time I hear
the Intermezzi, sad
and lavish in their tenderness,
I imagine the two of them
sitting in a garden
among late-blooming roses
and dark cascades of leaves,
letting the landscape speak for them,
leaving us nothing to overhear.

Patricia Hampl – É assim que a memória funciona

Você está desembarcando de um trem.
Uma noite úmida e vazia, o cheiro de cinzas.
Uma rajada de vapor vinda da locomotiva rodopia
ao redor da bainha do seu sobretudo, ao redor
da mão que segura a valise de couro marrom,
a mão que, há pouco, penteou para trás
o cabelo e em seguida ajeitou o fedora
defronte a um espelho com as bordas
bisotadas na cabine de cerejeira.

A garota parada na plataforma
em um vestido dos anos quarenta
tem os cabelos ondulados, ela usa
meias de náilon — não, meias de seda ainda.
Seus ombros são comoventemente militares,
moldados por aquelas ombreiras
e uma encantadora fé nos Aliados.
Ela está esperando por você.
Ela pode estar de chapéu, se você quiser.

Você a vê primeiro.
Isso é parte da beleza:
você flagra o semblante puro e ansioso,
o lírico vestido, a surpresa.
Você pode dispor do vapor,
da estação lotada, do casaco de pelo de camelo,
do couro verdadeiro e dos fechos de bronze na valise;
você pode fazer as luzes brilharem com
um estranho significado, e os pretos vagões
que passam por você são antigos, mas comuns.

A garota é sua,
o vestido florido, a caminhada
até o bonde, um sanduíche de ovo frito
e uma piada sobre Mussolini.
Você pode dispor disso tudo:
você está nesse mundo, da única maneira
de lá estar agora, contratado
por seu silencioso martelo, para pregar quadros
nas paredes desta mansão
feita do mais fino ar.

Trad.: Nelson Santander

This is how memory works

You are stepping off a train.
A wet blank night, the smell of cinders.
A gust of steam from the engine swirls
around the hem of your topcoat, around
the hand holding the brown leather valise,
the hand that, a moment ago, slicked back
the hair and then put on the fedora
in front of the mirror with the beveled
edges in the cherrywood compartment.

The girl standing on the platform
in the Forties dress
has curled her hair, she has
nylon stockings—no, silk stockings still.
Her shoulders are touchingly military,
squared by those shoulder pads
and a sweet faith in the Allies.
She is waiting for you.
She can be wearing a hat, if you like.

You see her first.
That’s part of the beauty:
you get the pure, eager face,
the lyrical dress, the surprise.
You can have the steam,
the crowded depot, the camel’s-hair coat,
real leather and brass clasps on the suitcase;
you can make the lights glow with
strange significance, and the black cars
that pass you are historical yet ordinary.

The girl is yours,
the flowery dress, the walk
to the streetcar, a fried egg sandwich
and a joke about Mussolini.
You can have it all:
you’re in that world, the only way
you’ll ever be there now, hired
for your silent hammer, to nail pictures
to the walls of this mansion
made of thinnest air.

Howard Nemerov – Figuras de pensamento

Colocar a espiral logarítmica na
Concha e no papel, e vê-las se encaixar,
Observar a mesma ideia funcionar
Na subida do piloto de caça, ajustando a mira
Em seu alvo, preparando a matança,
E no voo de certos insetos estrábicos
Que não conseguem ver que voam para a morte
Mas têm que lançar nela seu olhar de esguelha
E dirigir-se, mas girando, para a chama da vela —

Quão secreto isso é, e quão privilegiados
Nos sentimos ao encontrar a mesma necessidade
Cifrada em formas diversas e, além disso,
Sem parentesco — esta é a beleza
Na natureza como na arte, não óbvia,
Não inacessível, mas entre ambas.

Pode diminuir um pouco nosso estéril deleite
Imaginar se tudo o que somos e fazemos
Está sujeito a alguma pequena lei como esta;
Oculta na natureza, mas não tão profundamente.

Trad.: Nelson Santander

FIGURES OF THOUGHT

To lay the logarithmic spiral on
Sea-shell and leaf alike, and see it fit,
To watch the same idea work itself out
In the fighter pilot’s steepening, tightening turn
Onto his target, setting up the kill,
And in the flight of certain wall-eyed bugs
Who cannot see to fly straight into death
But have to cast their sidelong glance at it
And come but cranking to the candle’s flame —

How secret that is, and how privileged
One feels to find the same necessity
Ciphered in forms diverse and otherwise
Without kinship — that is the beautiful
In Nature as in art, not obvious,
Not inaccessible, but just between.

It may diminish some our dry delight
To wonder if everything we are and do
Lies subject to some little law like that;
Hidden in nature, but not deeply so.